{"id":320,"date":"2018-07-05T04:11:43","date_gmt":"2018-07-05T04:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=320"},"modified":"2018-07-05T20:30:06","modified_gmt":"2018-07-05T20:30:06","slug":"espanquemos-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/espanquemos-os-pobres","title":{"rendered":"Espanquemos os Pobres"},"content":{"rendered":"<p>Durante quinze dias eu me enclausurara no meu quarto e cercara-me dos livros em moda naquele tempo (h\u00e1 dezesseis ou dezessete anos); refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, discretos e ricos em vinte e quatro horas. Tinha, pois, digerido &#8211; engolido, quero dizer &#8211; todas as elucubra\u00e7\u00f5es de todos esses empreendedores da felicidade p\u00fablica &#8211; daqueles que aconselham todos os pobres a fazerem-se escravos, e daqueles que os persuadem de que todos eles s\u00e3o reis destronados. N\u00e3o \u00e9, pois, de surpreender me achasse num estado de esp\u00edrito vizinho da vertigem ou da estupidez.<\/p>\n<p>Parecera-me somente que eu sentia, confinado no fundo de meu intelecto, o germe obscuro de uma id\u00e9ia superior a todas as f\u00f3rmulas da curandeira de que eu havia recentemente percorrido o dicion\u00e1rio. Isso, por\u00e9m, era a id\u00e9ia de uma id\u00e9ia, alguma coisa infinitamente vaga.<\/p>\n<p>E sai com muita sede. O gosto apaixonado das m\u00e1s leituras engendra uma necessidade proporcional de ar livre e de refrigerantes.<\/p>\n<p>Ia entrando numa taberna, quando um mendigo me entendeu o chap\u00e9u, com um desses olhares inesquec\u00edveis que derrocariam os tronos, se o esp\u00edrito movesse a mat\u00e9ria e se o olho de um magnetizador fizesse amadurecer as uvas.<br \/>\nAo mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar-me ao ouvido, uma voz que reconheci perfeitamente: era a de um Anjo bom, ou de um bom Dem\u00f4nio, que me acompanha por toda parte. Pois se o S\u00f3crates tinha o seu bom Dem\u00f4nio, por que n\u00e3o se haveria de eu ter o meu Anjo bom, e por que n\u00e3o haveria de ter a honra, como S\u00f3crates, de obter o meu diploma de loucura, assinado pelo sutil L\u00e9lut e pelo atilado Baillarger?<\/p>\n<p>Entre o Dem\u00f4nio de S\u00f3crates e o meu h\u00e1 esta diferen\u00e7a; o de S\u00f3crates n\u00e3o se lhe manifestava sen\u00e3o para defender, advertir, impedir; e o meu se digna de aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre S\u00f3crates n\u00e3o tinha mais que um Dem\u00f4nio proibidor; o meu \u00e9 um grande afirmador, o meu \u00e9 um Dem\u00f4nio em a\u00e7\u00e3o, ou Dem\u00f4nio de combate.<br \/>\nOra, a sua voz me cochichava isto:<br \/>\n&#8211; S\u00f3 \u00e9 igual a outro aquele que disso d\u00e1 prova, e s\u00f3 \u00e9 digno da liberdade aquele que sabe conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p>Imediatamente me atirei sobre o meu mendigo. Com um s\u00f3 morro lhe tapei um dos olhos, que se tornou, num segundo, do tamanho de uma bola. Quebrei uma das unhas rebentando-lhe dois dentes, e, como n\u00e3o sentisse bastante forte &#8211; pois sou fr\u00e1gil de natureza e n\u00e3o me exercitei bem no boxe &#8211; para moer de pancadas aquele velho, segurei-o com uma das m\u00e3os pelo colete e com a outra agarrei-o pela garganta, e pus-me a sacudir-me vigorosamente a cabe\u00e7a de encontro a uma parede. Devo confessar que naquele sub\u00farbio deserto eu me encontrava, por um espa\u00e7o de tempo bastante longo, fora do alcance de qualquer agente de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Depois, com um pontap\u00e9 nas costas, bastante vigoroso para fraturar-lhe a omoplata, prostei por terra o alquebrado sexagen\u00e1rio, e, apoderando-me de um grosso galho de \u00e1rvore que se arrastava pelo ch\u00e3o, fustiguei-o com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.<\/p>\n<p>S\u00fabito &#8211; \u00f3 milagre! \u00f3 alegria do fil\u00f3sofo que comprova a excel\u00eancia da sua teoria! &#8211; vi aquela carca\u00e7a voltar-se, endireitar-se com um vigor que eu jamais teria presumido em m\u00e1quina t\u00e3o singularmente desconjuntada, e, com um olhar de \u00f3dio que se me afigurou de bom aug\u00fario, o malandro decr\u00e9pito investiu contra mim, contundiu-me sob os dois olhos, quebrou-me quatro dentes, e com o mesmo galho de \u00e1rvore me bateu de rijo. Com a minha en\u00e9rgica medica\u00e7\u00e3o eu lhe restitu\u00edra o orgulho e a vida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fiz-lhe compreender, por meio de muitos sinais, que dava por encerrada a contenda, e, erguendo-me com a satisfa\u00e7\u00e3o de um sofista do P\u00f3rtico, disse-lhe:<br \/>\n&#8211; O senhor \u00e9 igual a mim! D\u00ea-me a honra de partilhar da minha bolsa; e, se realmente \u00e9 filantropo, lembre-se que \u00e9 necess\u00e1rio aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem esmola, a teoria que eu tive a dor de experimentar nas suas costas.<\/p>\n<p>Ele jurou-me que havia compreendido a minha teoria, e que ouviria os meus conselhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante quinze dias eu me enclausurara no meu quarto e cercara-me dos livros em moda naquele tempo (h\u00e1 dezesseis ou dezessete anos); refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, discretos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"class_list":["post-320","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-charles-baudelaire"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":325,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320\/revisions\/325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}