{"id":361,"date":"2018-07-05T01:02:11","date_gmt":"2018-07-05T01:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=361"},"modified":"2018-07-05T01:02:11","modified_gmt":"2018-07-05T01:02:11","slug":"o-enforcado-de-la-piroche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-enforcado-de-la-piroche","title":{"rendered":"O Enforcado de la Piroche"},"content":{"rendered":"<p>O leitor conhece La Piroche? Certamente n\u00e3o. Nem eu. Portanto, n\u00e3o se preocupe em que eu abuse de minha ci\u00eancia, fazendo uma descri\u00e7\u00e3o. Sobretudo porque \u2014 digamos, c\u00e1 entre n\u00f3s \u2014 as descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito aborrecidas. A menos que se trate das selvas virgens da Am\u00e9rica, como em James Fenimore Cooper, ou do Mississippi, como em Chateaubriand. Isto \u00e9, pa\u00edses que n\u00e3o est\u00e3o ao alcance da m\u00e3o, e para os quais a imagina\u00e7\u00e3o precisa da ajuda dos viajantes poetas, que os visitaram a fim de poder descrev\u00ea-los melhor em todos os detalhes.<\/p>\n<p>Em geral, as descri\u00e7\u00f5es n\u00e3o servem para grande coisa, e est\u00e3o a\u00ed para que o leitor as salte. A literatura tem sobre a pintura, a escultura e a m\u00fasica a tr\u00edplice vantagem de poder fazer por si s\u00f3 um quadro com um ep\u00edteto, uma est\u00e1tua com uma frase, uma melodia com uma p\u00e1gina. Mas n\u00e3o est\u00e1 certo que abuse desse privil\u00e9gio, e deve-se deixar a cada arte o seu campo espec\u00edfico.<\/p>\n<p>De minha parte, confesso que \u2014 salvo melhor opini\u00e3o \u2014 quando me acho no caso de ter de descrever um pa\u00eds que todo mundo pode ter visto, ou que todo mundo pode ver, seja porque est\u00e1 pr\u00f3ximo, seja porque n\u00e3o difere em muita coisa do nosso, prefiro deixar ao leitor o prazer de record\u00e1-lo, se j\u00e1 o viu, ou de imagin\u00e1-lo, se ainda n\u00e3o o conhece. O leitor gosta que lhe deixemos sua parte criadora, na obra que est\u00e1 lendo. Isso o lisonjeia, e o faz acreditar que poderia fazer todo o resto. Lisonjear o leitor tem suas vantagens. Al\u00e9m disso, todo mundo sabe o que \u00e9 o mar, uma plan\u00edcie, um bosque, um p\u00f4r-de-sol, um efeito da lua, uma tempestade. Para que tornar o texto pesado com essas coisas? Mais vale tra\u00e7ar a paisagem com uma s\u00f3 pincelada, como Rubens ou Delacroix \u2014 digo-o sem querer estabelecer qualquer tipo de compara\u00e7\u00e3o \u2014 e guardar o valor do nosso pincel para os personagens aos quais queremos dar vida.<br \/>\nPor mais que empanturremos p\u00e1ginas inteiras com descri\u00e7\u00f5es, jamais daremos ao leitor uma impress\u00e3o igual \u00e0 que experimenta o mais ing\u00eanuo burgu\u00eas passeando um belo dia de abril pelo bosque de Vincennes; ou ainda a mais ignorante donzela que, \u00e0s onze horas da noite, atravessa as avenidas sombrias do bosque de Romainville ou do parque de Enghien, de m\u00e3os dadas com seu noivo.<\/p>\n<p>Todos temos no esp\u00edrito e no cora\u00e7\u00e3o uma galeria de paisagens com nossas recorda\u00e7\u00f5es, que podem servir de fundo a todas as hist\u00f3rias do mundo. Basta dizer uma simples palavra \u2014 dia ou noite, inverno ou primavera, tempestade ou bom tempo, plan\u00edcie ou montanha \u2014 para que logo imaginemos a paisagem completa.<\/p>\n<p>S\u00f3 direi, portanto, que quando come\u00e7a esta hist\u00f3ria o sol atinge o meio-dia, estamos em maio, o caminho por onde vamos passar tem \u00e0 direita umas planta\u00e7\u00f5es e \u00e0 esquerda o mar. Isso basta para entender o que quero dizer: que os planta\u00e7\u00f5es s\u00e3o verdes, o mar murmura, o c\u00e9u est\u00e1 azul, o sol est\u00e1 bem quente e a estrada coberta de poeira. S\u00f3 preciso acrescentar que a estrada corre ao longo da costa normanda, de La Poterie a La Piroche; que La Piroche \u00e9 uma aldeia que n\u00e3o conhe\u00e7o, mas deve ser como todas as outras; que a a\u00e7\u00e3o se desenrola em pleno s\u00e9culo XV, justamente em 1448; que um dos dois homens \u00e9 o pai do outro, ambos camponeses, e v\u00e3o trotando em seus cavalos a uma velocidade at\u00e9 razo\u00e1vel, tendo em vista que carregam camponeses.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que chegaremos a tempo? \u2014 perguntava o filho.<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Vai ser \u00e0s duas horas, e pela posi\u00e7\u00e3o do sol deve ser ainda meio-dia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero perder, pois tenho muita curiosidade em ver como \u00e9. V\u00e3o enforc\u00e1-lo com a armadura que roubou?<\/p>\n<p>\u2014 Exatamente.<\/p>\n<p>\u2014 Onde j\u00e1 se viu, o sujeito ter a id\u00e9ia de roubar uma armadura!<\/p>\n<p>\u2014 O dif\u00edcil n\u00e3o \u00e9 ter a id\u00e9ia\u2026<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ter a armadura, eu bem sei \u2014 atalhou o filho, aderindo \u00e0 brincadeira do pai. \u2014 E a armadura era boa?<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que era magn\u00edfica, toda marchetada de ouro.<\/p>\n<p>\u2014 E o pegaram quando a levava?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. \u00c9 f\u00e1cil compreender que uma armadura n\u00e3o concorda em ser roubada sem montar um escarc\u00e9u de todo tamanho. Ela n\u00e3o queria abandonar o dono.<\/p>\n<p>\u2014 Era de a\u00e7o, e deveria ser muito pesada.<\/p>\n<p>\u2014 O ru\u00eddo que ela produzia despertou o pessoal do castelo.<\/p>\n<p>\u2014 E logo puseram a m\u00e3o no ladr\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o exatamente assim. Primeiro ficaram com medo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 roubado sempre sente medo dos ladr\u00f5es. Se n\u00e3o fosse assim, os ladr\u00f5es n\u00e3o levariam nenhuma vantagem.<\/p>\n<p>\u2014 E tamb\u00e9m as v\u00edtimas n\u00e3o sofreriam nenhuma emo\u00e7\u00e3o. Mas o caso \u00e9 que o pessoal do castelo n\u00e3o se julgava diante de ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Diante de quem, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 De um fantasma. O infeliz era muito forte, e carregava a armadura de p\u00e9, na frente do pr\u00f3prio corpo, mantendo a cintura dela na altura da pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Quem via, na obscuridade, tinha a impress\u00e3o de um gigante. Acrescente a isso o ru\u00eddo surdo que o ladr\u00e3o ia fazendo por detr\u00e1s da ferragem, e entender\u00e1 o espanto dos criados. Por azar dele os criados foram acordar o senhor de La Piroche, que n\u00e3o tem medo de vivos nem de defuntos. Ele sozinho o prendeu, amarrou-lhe as m\u00e3os e p\u00e9s e o entregou \u00e0 sua pr\u00f3pria justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 E a sua pr\u00f3pria justi\u00e7a\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Condenou-o a ser enforcado, revestido da armadura em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por que puseram esta cl\u00e1usula na condena\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Porque o senhor de La Piroche, al\u00e9m de ser um valoroso capit\u00e3o, \u00e9 um homem de bom senso, engenhoso, e quis transformar a execu\u00e7\u00e3o num exemplo para os demais e em proveito para si pr\u00f3prio. Segundo dizem, aquilo que esteve em contato com um enforcado se transforma em talism\u00e3 para seu dono, e ele quis o delinq\u00fcente dentro da armadura para poder recolh\u00ea-la depois, e assim contar com uma prote\u00e7\u00e3o a mais durante as pr\u00f3ximas guerras.<\/p>\n<p>\u2014 Bem engenhoso, de fato. Mas \u00e9 bom nos apressarmos, porque n\u00e3o quero perder o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vale a pena cansar os cavalos, pois vamos prosseguir viagem uma l\u00e9gua depois de La Piroche, e depois ainda voltar a La Poterie.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas como s\u00f3 voltaremos \u00e0 noite, nossos cavalos poder\u00e3o descansar umas cinco ou seis horas.<br \/>\nPai e filho prosseguiram caminho conversando, e meia hora depois chegaram a La Piroche. Havia grande afluxo de gente na ampla pra\u00e7a diante do castelo, onde se havia erguido o pat\u00edbulo: uma preciosa forca de madeira muito boa, na verdade pouco alta, mas o suficiente para que a morte desenvolvesse o seu trabalho entre o solo e a extremidade da corda.<\/p>\n<p>O condenado podia contar com um lindo panorama para morrer, pois ficaria com o rosto voltado para o oceano. Seria um consolo, embora me pare\u00e7a bem insuficiente. O mar estava azul, e de vez em quando deslizava pelo azul do c\u00e9u uma nuvem branca, como um anjo que dirigisse a Deus uma prece.<br \/>\nOs dois companheiros se aproximaram do pat\u00edbulo o quanto puderam, para n\u00e3o perder nenhum detalhe do que ia acontecer. Tinham a vantagem de estar montados, e podiam ver melhor sem se cansar. N\u00e3o esperaram muito. Pouco antes das duas horas abriu-se a porta do castelo e apareceu o condenado, precedido da guarda e seguido do carrasco. Vinha com a armadura, montado de costas em um burro sem arreios. As m\u00e3os estavam amarradas \u00e0s costas. A julgar pela postura, tendo em vista que o rosto estava encoberto pelo elmo, devia estar pouco \u00e0 vontade, e fazendo as mais tristes reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Levaram-no at\u00e9 o pat\u00edbulo, e come\u00e7ou a desenrolar-se ante o r\u00e9u uma cena pouco agrad\u00e1vel. O verdugo acabava de encostar a sua escada na forca, e o capel\u00e3o lia o processo do alto de um estrado. O condenado n\u00e3o se movia, e espalhou-se o boato de que ele resolvera morrer antes de ser al\u00e7ado \u00e0 forca, para desgosto dos espectadores. Mandaram que ele apeasse do animal e se aproximasse do verdugo, mas ele continuou im\u00f3vel. Indecis\u00e3o que compreendemos facilmente. Ent\u00e3o o verdugo o agarrou pelos cotovelos, desceu-o do burro e o p\u00f4s de p\u00e9 no ch\u00e3o. Ao dizer que o p\u00f4s de p\u00e9, n\u00e3o mentimos, mas mentir\u00edamos se diss\u00e9ssemos que permaneceu assim, pois em dois minutos havia percorrido dois ter\u00e7os do alfabeto, o que na linguagem corrente quer dizer que em vez de permanecer reto como um I, havia chegado ao Z.<\/p>\n<p>Durante esse tempo o capel\u00e3o terminara a leitura da senten\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 O condenado tem algo a pedir? \u2014 perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Sim \u2014 respondeu o desgra\u00e7ado, com voz rouca e triste.<\/p>\n<p>\u2014 O que deseja?<\/p>\n<p>\u2014 Quero meu indulto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se a palavra farsante j\u00e1 havia sido inventada, mas a ocasi\u00e3o para isso era sem d\u00favida muito boa.<\/p>\n<p>O senhor de La Piroche deu de ombros e ordenou ao verdugo que pusesse m\u00e3os \u00e0 obra. Este come\u00e7ou a subir decididamente a escada do pat\u00edbulo, com toda a for\u00e7a de que dispunha para separar uma alma do corpo. Tratou tamb\u00e9m de fazer subir na frente o condenado, o que n\u00e3o era tarefa f\u00e1cil, pois os condenados inventam toda sorte de dificuldades para morrer. Para faz\u00ea-lo subir, o executor da justi\u00e7a teve de recorrer ao meio de que j\u00e1 se valera para faz\u00ea-lo descer do animal: agarrou-o pela cintura e o foi empurrando para cima.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! \u2014 gritou a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia recurso, e ele teve de subir. Ent\u00e3o o verdugo passou destramente o n\u00f3 corredi\u00e7o da forca em torno do pesco\u00e7o, deu um empurr\u00e3o nas costas do condenado e o lan\u00e7ou no espa\u00e7o. Um imenso clamor acolheu esse desenlace previsto, e um estremecimento correu a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Por grande que seja o crime que tenha cometido, um homem que morre na forca est\u00e1 sempre, ao menos durante um instante, acima dos que o v\u00eaem morrer. O enforcado balan\u00e7ou durante dois ou tr\u00eas minutos na ponta da corda. Como tinha direito a isso, debateu-se, contorceu-se, e depois ficou im\u00f3vel \u2014 o caminho inverso do Z ao I. Os espectadores ficaram olhando ainda durante algum tempo, logo se dividiram em grupos e tomaram caminho de casa.<\/p>\n<p>Os dois camponeses tamb\u00e9m retomaram o caminho.<\/p>\n<p>\u2014 Ser enforcado por n\u00e3o ter podido roubar uma armadura \u00e9 um pouco caro, n\u00e3o acha? \u2014 perguntou o pai.<\/p>\n<p>\u2014 Gostaria de saber o que ele teria feito com a armadura, se tivesse conseguido lev\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 De fato ele foi mais castigado por um crime que n\u00e3o cometeu.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas teve a inten\u00e7\u00e3o de comet\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 E basta a inten\u00e7\u00e3o para\u2026<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 perfeitamente justo.<\/p>\n<p>Chegando ao alto de uma montanha, olharam para tr\u00e1s, a fim de contemplar pela \u00faltima vez a silhueta do desconhecido. Vinte minutos depois chegaram ao povoado seguinte, de onde deviam voltar \u00e0 noite. Quando amanheceu o dia seguinte, dois soldados sa\u00edram do castelo para remover o cad\u00e1ver do enforcado e recolher a armadura. Mas encontraram uma situa\u00e7\u00e3o que nem de longe poderiam imaginar: tudo estava no lugar, mas o enforcado e a armadura haviam desaparecido. Julgaram que estavam sonhando, esfregaram os olhos, mas o fato era real. O enforcado e a armadura haviam sumido. E o mais extraordin\u00e1rio \u00e9 que a corda n\u00e3o estava cortada nem rompida, permanecia como antes do enforcamento.<\/p>\n<p>Os soldados foram anunciar ao senhor de La Piroche o que viram, mas este n\u00e3o quis acreditar, e decidiu confirmar com seus pr\u00f3prios olhos. Sendo t\u00e3o poderoso, pensava que um m\u00edsero enforcado n\u00e3o ousaria desobedecer-lhe, e o encontraria onde o mandara ficar. Mas n\u00e3o viu nada al\u00e9m do que os outros haviam visto. Que teria acontecido? N\u00e3o havia d\u00favida de que na v\u00e9spera o sentenciado ficara bem morto ante os olhos de todos. Teria um outro ladr\u00e3o aproveitado as trevas noturnas para roubar a armadura? Mas se fosse assim, teria deixado o cad\u00e1ver, que de nada lhe adiantaria. Ser\u00e1 que os amigos e parentes do morto quiseram dar-lhe uma sepultura crist\u00e3? A hip\u00f3tese n\u00e3o era absurda, mas o delinq\u00fcente n\u00e3o tinha amigos nem familiares. Mesmo se os tivesse, eles teriam se limitado a carregar o cad\u00e1ver, deixando a armadura. O que pensar do ocorrido?<\/p>\n<p>Desolado pela perda da armadura, o senhor de La Piroche mandou publicar a promessa de uma recompensa de dez moedas de ouro, para quem entregasse o culpado, desde que com a roupa usada na execu\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m se apresentou. Foram revistadas todas as casas, mas nada se encontrou. Fizeram ent\u00e3o vir de Rennes um s\u00e1bio, e lhe puseram a pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 que um enforcado morto p\u00f4de fazer para livrar-se da corda que o mantinha no ar?<\/p>\n<p>Depois de oito dias de medita\u00e7\u00e3o o s\u00e1bio respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o conseguiu soltar-se.<\/p>\n<p>Apresentaram-lhe ent\u00e3o a seguinte pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Um ladr\u00e3o que n\u00e3o conseguiu roubar enquanto vivo, e que foi condenado \u00e0 morte por roubo, pode roubar depois de morto?<\/p>\n<p>O s\u00e1bio respondeu que sim. Indagado como poderia ter conseguido essa fa\u00e7anha, respondeu que n\u00e3o sabia. E era o maior s\u00e1bio da \u00e9poca, naquelas paragens.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio foi embora, e as pessoas preferiram ficar com a convic\u00e7\u00e3o de que o enforcado era um feiticeiro. Passou-se um m\u00eas de inqu\u00e9ritos, buscas e consultas, enquanto a forca permanecia no mesmo lugar, humilhada, triste e desprezada por sua atitude inomin\u00e1vel de abuso de confian\u00e7a. O senhor de La Piroche j\u00e1 se dispunha a resignar-se com a perda da armadura, quando num certo dia, ao despertar, ouviu um alarido na pra\u00e7a da execu\u00e7\u00e3o. Logo depois o capel\u00e3o entrou espavorido nos seus aposentos.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, sabeis o que aconteceu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas gostaria de saber.<\/p>\n<p>\u2014 O enforcado reapareceu, e est\u00e1 l\u00e1 na forca.<\/p>\n<p>\u2014 Com a armadura?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, com a vossa armadura.<\/p>\n<p>\u2014 E est\u00e1 morto?<\/p>\n<p>\u2014 Completamente. Mas\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Mas o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Quando foi enforcado ele usava esporas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois agora usa. Al\u00e9m disso, agora o elmo n\u00e3o est\u00e1 na cabe\u00e7a, como no dia da execu\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 enforcado com a cabe\u00e7a descoberta, e o elmo est\u00e1 cuidadosamente colocado no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver logo tudo isso, senhor capel\u00e3o.<\/p>\n<p>O senhor de La Piroche correu \u00e0 pra\u00e7a, j\u00e1 cheia de curiosos. De fato l\u00e1 estava o enforcado com o pesco\u00e7o no la\u00e7o da corda, e logo abaixo o corpo revestido da armadura. Era prodigioso.<\/p>\n<p>\u2014 Arrependeu-se e voltou a enforcar-se \u2014 dizia um.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre esteve a\u00ed \u2014 dizia outro. \u2014 N\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o o v\u00edamos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que usa esporas? \u2014 perguntou um terceiro.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida por que vem de longe, e quis chegar r\u00e1pido.<\/p>\n<p>\u2014 Se fosse comigo, n\u00e3o importa se longe ou perto, eu n\u00e3o teria voltado de jeito nenhum.<\/p>\n<p>Entre coment\u00e1rios s\u00e9rios e outros nem tanto, todos olhavam a cara contorcida do morto. Quanto ao senhor de La Piroche, s\u00f3 pensava em assegurar a posse da sua preciosa armadura. O cad\u00e1ver foi descido, retirada a armadura, e depois o recolocaram para ser comido pelos corvos. O que sem d\u00favida nos lembra versos como os que coloc\u00e1vamos na primeira p\u00e1gina dos nossos livros escolares:<\/p>\n<p>Morreu Pierr\u00f4 enforcado<\/p>\n<p>Por ter um livro roubado.<\/p>\n<p>N\u00e3o corra t\u00e3o grande risco,<\/p>\n<p>Devolva este ao Francisco.<\/p>\n<p>Que teria acontecido, para possibilitar ao ladr\u00e3o escapar depois de enforcado, e depois voltar a enforcar-se? V\u00e1rias hip\u00f3teses foram levantadas, mas uma delas me parece a mais digna de cr\u00e9dito. Vou relat\u00e1-la como me foi contada.<\/p>\n<p>Quando os dois camponeses, pai e filho, regressavam \u00e0 noite para casa, resolveram passar perto do castelo, para dar uma \u00faltima olhada ao enforcado. Ao aproximar-se, ouviram gemidos e uma esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o, que pareciam vir do cad\u00e1ver. Um tanto apavorados, resolveram pegar a escada do verdugo, e o filho subiu por ela at\u00e9 a altura da cabe\u00e7a do enforcado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 voc\u00ea que est\u00e1 se queixando?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Portanto voc\u00ea ainda est\u00e1 vivo?<\/p>\n<p>\u2014 Acho que sim.<\/p>\n<p>\u2014 E est\u00e1 arrependido do que fez?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vou retir\u00e1-lo da\u00ed. Como o Evangelho manda socorrer os que sofrem, e voc\u00ea est\u00e1 sofrendo, vou socorr\u00ea-lo para que empregue a vida em fazer o bem. Deus prefere uma alma arrependida a um corpo castigado.<\/p>\n<p>O pai e o filho desataram a corda, e s\u00f3 ent\u00e3o entenderam por que estava ainda vivo. Em vez de apertar o pesco\u00e7o do ladr\u00e3o, a corda apertava o pino de encaixe do elmo. Por isso ele ficara suspenso, mas n\u00e3o enforcado. A cabe\u00e7a havia encontrado uma esp\u00e9cie de ponto de apoio dentro do elmo, permitindo-lhe respirar e viver at\u00e9 o momento em que os dois camponeses regressaram.<\/p>\n<p>Recolheram o enforcado com a armadura e voltaram para La Poterie, onde o ladr\u00e3o ficou aos cuidados das mulheres da casa, m\u00e3e e filha.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 coisa freq\u00fcente um ladr\u00e3o mudar de condi\u00e7\u00e3o. Na casa s\u00f3 havia duas coisas roub\u00e1veis: o cavalo e a mo\u00e7a, donzela de dezesseis anos. O ex-enforcado resolveu levar ambos, pois precisava de um cavalo e se enamorara da mo\u00e7a. Uma noite ele arreou o cavalo, vestiu a armadura, cal\u00e7ou esporas para fazer o cavalo andar mais depressa, e foi buscar a mo\u00e7a, com inten\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-la na garupa. A jovem despertou e come\u00e7ou a gritar. Pai e filho acudiram logo e o ladr\u00e3o tentou escapar, mas era tarde. Os dois o pegaram e decidiram fazer justi\u00e7a por sua pr\u00f3pria conta, completando o mau trabalho do verdugo. Amarraram o ladr\u00e3o montado no cavalo e o levaram \u00e0 pra\u00e7a de La Piroche. Penduraram-no na mesma forca, mas desta vez pelo pesco\u00e7o do condenado, e n\u00e3o pelo da armadura, que n\u00e3o tinha nenhuma culpa no cart\u00f3rio para ser enforcada, e o elmo foi cuidadosamente depositado no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m conhece uma explica\u00e7\u00e3o melhor para o mist\u00e9rio, estou pronto a aceit\u00e1-la, mas esta me pareceu suficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leitor conhece La Piroche? Certamente n\u00e3o. Nem eu. Portanto, n\u00e3o se preocupe em que eu abuse de minha ci\u00eancia, fazendo uma descri\u00e7\u00e3o. Sobretudo porque \u2014 digamos, c\u00e1 entre n\u00f3s \u2014 as descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[14],"class_list":["post-361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-alexandre-dumas-filho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=361"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":365,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions\/365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}