{"id":362,"date":"2018-07-05T01:05:20","date_gmt":"2018-07-05T01:05:20","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=362"},"modified":"2018-07-05T01:07:25","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:25","slug":"guilherme-mona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/guilherme-mona","title":{"rendered":"Guilherme Mona"},"content":{"rendered":"<p>Vivia na aldeia de Fouly, faz alguns anos, um pobre campon\u00eas chamado Guilherme Mona. Todas as noites um urso ia roubar-lhe as p\u00earas, porque para esses animais tudo serve. Ele se dirigia, contudo, de prefer\u00eancia a uma pereira carregada de p\u00earas d\u00e1gua. Quem suspeitaria que um animal desses possu\u00edsse gostos iguais aos dos homens e que fosse escolher num pomar justamente as p\u00earas d\u00e1gua? Ora, por desgra\u00e7a o campon\u00eas de Fouly tamb\u00e9m preferia essas p\u00earas a todos os demais frutos. A princ\u00edpio ele julgou que as crian\u00e7as fossem respons\u00e1veis pelos danos ao pomar; por isso apanhou o fuzil, carregou-o com sal grosso de cozinha e p\u00f4s-se \u00e0 espreita. Cerca de onze horas, reboou pela montanha um rugido. \u201cOra essa, disse ele, h\u00e1 um urso nas proximidades.\u201d Dez minutos depois se ouviu um segundo rugido, mas t\u00e3o forte, t\u00e3o pr\u00f3ximo, que o campon\u00eas pensou n\u00e3o dispor de tempo para alcan\u00e7ar sua casa e estendeu-se a fio comprido no ch\u00e3o, alimentando uma \u00fanica esperan\u00e7a: a de que o urso viesse atr\u00e1s das peras e n\u00e3o dele.<\/p>\n<p>De fato, o animal apareceu quase imediatamente a um canto do pomar e dirigiu-se em linha reta para a pereira em quest\u00e3o, passou a dez passos de Guilherme, subiu rapidamente na \u00e1rvore, cujos galhos estalavam ao peso de seu corpo, e p\u00f4s-se a causar a\u00ed tais estragos que se tornava evidente serem bastantes duas visitas iguais \u00e0quela para a terceira se tornar in\u00fatil. Quando se fartou, o urso desceu vagarosamente, como se lhe pesasse faz\u00ea-lo, tornou a passar junto ao nosso ca\u00e7ador, a quem o fuzil carregado de sal n\u00e3o poderia ser muito \u00fatil, naquela situa\u00e7\u00e3o, e retirou-se tranquilamente para a montanha. Tudo isso durara cerca de uma hora, durante a qual o tempo parecera maior para o homem que para o urso.<\/p>\n<p align=\"justify\">O homem era valente, entretanto\u2026, e dissera baixinho, ao ver o urso afastar-se: \u201cEst\u00e1 bem, vai-te, mas isto n\u00e3o ficar\u00e1 assim, tornaremos a nos ver.\u201d No dia seguinte, um vizinho que fora visit\u00e1-lo encontrou-o serrando em peda\u00e7os os dentes de um forcado.<br \/>\n\u2013 Que est\u00e1s a fazer? \u2013 perguntou-lhe:<br \/>\n\u2013 Divirto-me, \u2013 respondeu Guilherme.<\/p>\n<p align=\"justify\">O vizinho apanhou os peda\u00e7os de ferro, votou-se em todos os sentidos, como homem que sabe o que pensar, e depois de refletir um instante disse: \u201cOlha, Guilherme, se queres ser franco confessa que estes pedacinhos de ferro est\u00e3o destinados a furar uma pele mais grossa que a de um camelo.<br \/>\n-Talvez \u2013 respondeu Guilherme.<br \/>\n\u2013 Sabes que sou boa pessoa \u2013 prosseguiu Francisco (era o nome do vizinho), \u2013 pois bem! se quiseres, enfrentaremos ambos o urso: mais valem dois homens que um s\u00f3.<br \/>\n\u2013 Depende, \u2013 disse Guilherme. E continuou a serrar um terceiro peda\u00e7o de ferro.<br \/>\n\u2013 Olha, \u2013 continuou Francisco, ficar\u00e1s com a pele sozinho; apenas dividiremos a pr\u00eamio e a carne.<br \/>\n\u2013 Prefiro tudo \u2013 disse Guilherme.<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o me podes impedir de procurar o rastro do urso na montanha e, caso o encontre, de me emboscar em seu caminho.<br \/>\n\u2013 \u00c9s livre de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">E Guilherme, que acabara de serrar seus tr\u00eas peda\u00e7os de ferro, come\u00e7ou, assobiando, a preparar uma carga de p\u00f3lvora duas vezes maior do que a geralmente usada em carabinas.<br \/>\n\u2013 Parece-me que vais usar teu fuzil, \u2013 disse Francisco.<br \/>\n\u2013 Claro! Tr\u00eas peda\u00e7os de ferro s\u00e3o mais seguros que uma bala de chumbo.<br \/>\n\u2013 Isso estraga a pele.<br \/>\n\u2013 Por\u00e9m mata mais depressa.<br \/>\n\u2013 E quando pretendes fazer a ca\u00e7ada?<br \/>\n\u2013 Saber\u00e1s amanh\u00e3.<br \/>\n\u2013 Pela \u00faltima vez, n\u00e3o queres?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Previno-te que vou procurar o rastro.<br \/>\n\u2013 Divirta-se.<br \/>\n\u2013 N\u00f3s ambos, n\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Cada qual por si.<br \/>\n\u2013 Adeus, Guilherme!<br \/>\n\u2013 Boa sorte, vizinho!<\/p>\n<p align=\"justify\">E o vizinho, ao se afastar, viu Guilherme colocar no fuzil a dupla carga de p\u00f3lvora, carreg\u00e1-lo com os tr\u00eas peda\u00e7os de ferro e encostar a, arma a um canto do aposento. A noite, voltando a passar em frente \u00e0 casa, avistou, no banco junto \u00e0 porta, Guilherme sentado, a fumar tranquilamente seu cachimbo. Procurou-o novamente. \u201cOlha, disse-lhe, n\u00e3o guardo rancor. Achei o rastro do nosso animal; de modo que n\u00e3o mais preciso de ti. Contudo, proponho-te mais uma vez trabalharmos juntos.<br \/>\n\u2013 Cada qual por si \u2013 disse Guilherme.<\/p>\n<p align=\"justify\">As dez e meia, sua mulher viu-o apanhar o fuzil, dobrar de baixo do bra\u00e7o um saco de cor cinzenta e sair. N\u00e3o ousou perguntar-lhe aonde ia. Francisco, por seu lado, realmente encontrara o rastro do urso; seguira-o at\u00e9 o instante em que penetrara no pomar de Guilherme. E, n\u00e3o tendo o direito de ficar de tocaia nas terras de seu vizinho, postou-se no pinheiral que fica a meio caminho entre a montanha e o pomar de Guilherme.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como a noite estivesse muito clara, viu este \u00faltimo sair de casa pela porta dos fundos. Guilherme caminhou at\u00e9 um rochedo acinzentado que rolara da montanha at\u00e9 o meio de sua propriedade e que ficava a vinte passos, quando muito, da pereira, deteve-se a\u00ed, olhou para o saco, meteu-se dentro dele, deixando aparecer apenas a cabe\u00e7a e os bra\u00e7os, e apoiando-se \u00e0 rocha, depressa confundiu-se a tal ponto com a pedra, gra\u00e7as \u00e0 cor do saco e \u00e0 imobilidade em que se conservava, que o vizinho, embora ciente de que ele ali estava, n\u00e3o conseguia distingui-lo. Um quarto de hora decorreu assim \u00e0 espera do urso. Por fim, um rugido prolongado anunciou-o. Cinco minutos ap\u00f3s Francisco avistou-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, fosse por mal\u00edcia, fosse por ter farejado o segundo ca\u00e7ador, ele n\u00e3o seguia o caminho habitual; fizera, pelo contr\u00e1rio, uma volta, e em vez de passar \u00e0 esquerda de Guilherme, como acontecera na v\u00e9spera, passava agora \u00e0 sua direita, fora do alcance da arma de Francisco, mas a dez passos, no m\u00e1ximo, do fuzil de Guilherme.<\/p>\n<p align=\"justify\">Guilherme n\u00e3o se moveu. Poder-se-ia julgar que nem mesmo estivesse vendo a fera que ele fora tocaiar e que parecia desafi\u00e1-lo passando t\u00e3o pr\u00f3ximo. 0 urso, ao qual o vento n\u00e3o ajudava, pareceu, por seu lado, ignorar a presen\u00e7a de um inimigo, e continuou rapidamente seu caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rvore. Mas no instante em que, erguendo-se nas patas traseiras, abra\u00e7ou o tronco com as patas dianteiras, descobrindo o peito, que seus grossos ombros n\u00e3o mais protegiam, brilhou de s\u00fabito um sulco r\u00e1pido de luz junto ao rochedo e todo o vale reboou com a descarga do fuzil provido de dupla carga, de p\u00f3lvora, e com os bramidos do animal, mortalmente ferido. N\u00e3o houve uma pessoa sequer na aldeia, talvez, que n\u00e3o ouvisse a detona\u00e7\u00e3o do fuzil de Guilherme e o bramido do urso. Este fugiu, tornando a passar, sem velo, a dez passos de Guilherme, que tornara a meter os bra\u00e7os e a cabe\u00e7a no saco confundindo-se outra vez com o rochedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O vizinho olhava semelhante cena apoiado nos joelhos e na m\u00e3o esquerda, apertando a carabina com a direita, p\u00e1lido e contendo a respira\u00e7\u00e3o; n\u00e3o obstante tratar-se de um ca\u00e7ador arrojado, confessou-me que, nesse instante, preferia estar em sua cama a estar ali na tocaia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Muito pior foi quando ele viu o urso ferido, depois de dar uma longa volta, tentar seguir o caminho da v\u00e9spera, que o levava diretamente onde ele se encontrava. Fez o sinal da cruz, porque nossos ca\u00e7adores s\u00e3o religiosos, encomendou a alma a Deus e verificou se a carabina estava pronta para disparar. 0 urso estava somente a cinq\u00fcenta passos, rugindo de dor, parando para torcer-se e morder o flanco no lugar do ferimento, e depois continuando a avan\u00e7ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cada vez mais se aproximava. Estava apenas a trinta passos. Mais dois segundos e iria chocar-se contra o cano da carabina do vizinho quando parou de repente, aspirou ruidosamente o vento que soprava do lado da aldeia, soltou um bramido terr\u00edvel e voltou para o pomar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Cuidado, Guilherme! Cuidado! \u2013 exclamou Francisco precipitando-se atr\u00e1s do urso e tudo esquecendo para apenas pensar no amigo, porque bem via que se Guilherme ainda n\u00e3o houvesse carregado de novo o fuzil, estaria perdido. N\u00e3o dera dez passos quando ouviu um grito. Um grito humano, um grito ao mesmo tempo de dor e de agonia; um grito no qual a pessoa que o soltava reunira todas as for\u00e7as de seu peito, todos os seus rogos a Deus, todos os seus pedidos de socorro aos homens: \u201cAmim!\u2026\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Depois, mais nada, nem sequer um lamento sucedeu ao grito de Guilherme.<\/p>\n<p align=\"justify\">Francisco n\u00e3o corria, voava; o declive do terreno acelerava-lhe a corrida. A medida que se aproximava, distinguindo cada vez mais nitidamente o monstruoso animal que se movia na sombra, pisando o corpo de Guilherme e despeda\u00e7ando-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Francisco estava a quatro passos deles, e o urso estava t\u00e3o embravecido que n\u00e3o dera mostra de v\u00ea-lo. Ele n\u00e3o se atrevia a atirar, com receio de matar Guilherme, se este ainda n\u00e3o houvesse morrido, porque tremia tanto que n\u00e3o podia responder por sua pontaria. Apanhou uma pedra e jogou-a no urso. 0 animal voltou-se enfurecido contra o novo inimigo; estavam t\u00e3o pr\u00f3ximos um do outro que o urso levantou-se nas patas traseiras para sufoc\u00e1-lo; Francisco sentiu-o empurrar com o peito o cano da carabina. Premiu, maquinalmente, o dedo no gatilho e o tiro partiu. 0 urso caiu para tr\u00e1s, a bala atravessara-lhe o peito e partira-lhe a coluna vertebral.<\/p>\n<p align=\"justify\">Francisco deixou-o arrastar-se, bramindo, sobre as patas dianteiras, e correu para Guilherme. Este n\u00e3o era mais um homem, nem mesmo era um cad\u00e1ver: dele restavam apenas ossos e carne esmagada, a cabe\u00e7a estava quase completamente devorada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como visse ent\u00e3o, pelo movimento das luzes atr\u00e1s das janelas, que muitos habitantes da aldeia haviam despertado, gritou repetidas vezes, indicando o lugar onde se encontrava. Alguns camponeses acudiram com armas, porque tinham ouvido os gritos e os tiros. Depressa toda a aldeia se encontrou reunida no pomar de Guilherme. Sua mulher veio com os outros. Foi uma cena horr\u00edvel. Todos os presentes choravam como crian\u00e7as. Fizeram para ela, no vale do R\u00f3dano, uma coleta que rendeu 700 francos. Francisco deu-lhe o pr\u00eamio que recebeu, bem como lhe entregou o produto da venda da pele e da carne do urso. Finalmente, todos se esfor\u00e7aram em ajud\u00e1-la e socorr\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivia na aldeia de Fouly, faz alguns anos, um pobre campon\u00eas chamado Guilherme Mona. Todas as noites um urso ia roubar-lhe as p\u00earas, porque para esses animais tudo serve. 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