{"id":366,"date":"2018-07-05T01:02:43","date_gmt":"2018-07-05T01:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=366"},"modified":"2018-07-05T01:07:03","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:03","slug":"o-angelus-nos-mares-da-sicilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-angelus-nos-mares-da-sicilia","title":{"rendered":"O Angelus nos Mares da Sic\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>O dia se tinha escoado em meio a exaustivos cuidados para evitar o naufr\u00e1gio, e a noite come\u00e7ava a descer. Aproxim\u00e1vamo-nos de Messina, e eu me lembrava da profecia do piloto, que nos havia anunciado que duas horas ap\u00f3s a Ave-Maria ter\u00edamos chegado ao nosso destino. Isso me recordou que desde nossa partida eu n\u00e3o havia visto nenhum dos nossos marinheiros cumprir ostensivamente os deveres da Religi\u00e3o, que no entanto os filhos do mar consideram sagrados.<\/p>\n<p>Havia mais: uma pequena cruz de oliveira incrustada de n\u00e1car, semelhante \u00e0quelas que os monges do Santo Sepulcro fazem e os peregrinos trazem de Jerusal\u00e9m, havia desaparecido de nossa cabine, e eu a havia reencontrado na proa da embarca\u00e7\u00e3o, acima de uma imagem da Madonna di Pie\u2019 di Grotta, sob a invoca\u00e7\u00e3o da qual nossa pequena embarca\u00e7\u00e3o estava colocada. Depois de me ter informado se havia um motivo particular para mudar a cruz de lugar, e ter sabido que n\u00e3o, eu a retomei de onde estava e a levei \u00e0 cabine, na qual ficou desde ent\u00e3o. Estava claro que a Madonna, agradecida sem d\u00favida, nos protegera na hora do perigo.<\/p>\n<p>Nesse momento eu me virara, e percebi o capit\u00e3o pr\u00f3ximo a n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o \u2014 disse-lhe \u2014 parece-me que em todos os navios napolitanos, genoveses ou sicilianos, quando vem a hora da Ave-Maria, se faz uma prece em comum. N\u00e3o \u00e9 esse o seu h\u00e1bito a bordo do Speronare?<\/p>\n<p>\u2014 De fato, Excel\u00eancia, de fato! \u2014 respondeu vivamente o capit\u00e3o \u2014 E devo esclarecer que estamos embara\u00e7ados por n\u00e3o o podermos fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que o impede?<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe-me, Excel\u00eancia, mas como n\u00f3s conduzimos com freq\u00fc\u00eancia ingleses que s\u00e3o protestantes, gregos que s\u00e3o cism\u00e1ticos e franceses que n\u00e3o s\u00e3o nada, temos sempre receio de ferir a cren\u00e7a ou de excitar a incredulidade de nossos passageiros pela vista de pr\u00e1ticas religiosas que n\u00e3o ser\u00e3o as deles. Mas quando os passageiros nos autorizam a agir crist\u00e3mente, somos muito agradecidos a eles por isso. De sorte que, se o permite\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o, capit\u00e3o! Eu lhes pe\u00e7o, e se quiserem podem come\u00e7ar em seguida; parece-me que j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo das dezoito horas\u2026<\/p>\n<p>O capit\u00e3o tirou seu rel\u00f3gio, e vendo que n\u00e3o havia tempo a perder, anunciou em voz alta:<\/p>\n<p>\u2014 A Ave-Maria!<\/p>\n<p>A estas palavras, cada um saiu das escotilhas e lan\u00e7ou-se no conv\u00e9s. Mais de um, sem d\u00favida, j\u00e1 havia come\u00e7ado mentalmente a Sauda\u00e7\u00e3o Ang\u00e9lica, mas a interrompeu para vir tomar parte na prece geral.<br \/>\nDe um extremo ao outro da It\u00e1lia, essa ora\u00e7\u00e3o, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crep\u00fasculo, em toda parte cheio de poesia, no mar se acresce de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escurid\u00e3o que avan\u00e7a, e durante a qual o perigo sempre presente vai ainda crescer, tudo isso predisp\u00f5e o cora\u00e7\u00e3o a uma melancolia religiosa, a uma confian\u00e7a santa que soergue a alma nas asas da f\u00e9. Essa tarde sobretudo, o perigo do qual acab\u00e1ramos de escapar, e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou rugidos long\u00ednquos, tudo inspirava \u00e0 tripula\u00e7\u00e3o e a n\u00f3s um recolhimento profundo.<\/p>\n<p>No momento em que nos junt\u00e1vamos no conv\u00e9s, a noite come\u00e7ava a tornar-se mais espessa no oriente. As montanhas da Cal\u00e1bria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do c\u00e9u, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. A ocidente, um pouco \u00e0 direita do arquip\u00e9lago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas come\u00e7ava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro fundido.<\/p>\n<p>Nesse momento o piloto levantou-se atr\u00e1s da cabine e tomou em seus bra\u00e7os o filho do capit\u00e3o, que p\u00f4s de joelhos sobre o estrado. Abandonando o leme, como se a embarca\u00e7\u00e3o estivesse suficientemente guiada pela ora\u00e7\u00e3o, sustentou o menino para que o balan\u00e7o n\u00e3o lhe fizesse perder o equil\u00edbrio. Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura de Giovanni Fiesole ou de Benozzo Gozzoli. Com uma voz t\u00e3o fraca que apenas chegava at\u00e9 n\u00f3s, e que entretanto subia at\u00e9 Deus, come\u00e7ou a recitar a prece virginal, que os marinheiros escutavam de joelhos, e n\u00f3s inclinados.<\/p>\n<p>Eis uma dessas lembran\u00e7as para as quais o pincel \u00e9 in\u00e1bil e a pena insuficiente; eis uma dessas cenas que nenhuma narra\u00e7\u00e3o pode descrever, nenhum quadro pode reproduzir, porque a sua grandiosidade est\u00e1 inteira no sentimento \u00edntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amador das coisas do mar, ser\u00e1 apenas uma crian\u00e7a que ora, homens que respondem e um navio que flutua. Mas para qualquer um que tiver assistido a uma cena assim, ser\u00e1 um dos mais magn\u00edficos espet\u00e1culos que ele tenha visto, uma das mais magn\u00edficas lembran\u00e7as que ele tenha guardado. Ser\u00e1 a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia se tinha escoado em meio a exaustivos cuidados para evitar o naufr\u00e1gio, e a noite come\u00e7ava a descer. 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