{"id":367,"date":"2018-07-05T01:02:58","date_gmt":"2018-07-05T01:02:58","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=367"},"modified":"2018-07-05T01:07:05","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:05","slug":"o-xeque-bou-akas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-xeque-bou-akas","title":{"rendered":"O Xeque Bou-Akas"},"content":{"rendered":"<p>No Ferdj-Ouah existe um xeque chamado Bou-Akas-Ben-Acour. Trata-se de um dos nomes mais antigos do pa\u00eds, que aparece na hist\u00f3ria das dinastias b\u00e9rberes e \u00e1rabes de Ibn Khaldoun.<\/p>\n<p>Bou-Akas (o homem de ma\u00e7a), tamb\u00e9m conhecido como Bou-d\u2019Jenoui (o homem do punhal), \u00e9 um tipo admir\u00e1vel de bedu\u00edno do Leste. Seus ancestrais conquistaram Ferdj-Ouah, e Bou-Akas, ap\u00f3s ter consolidado a conquista, reina agora sobre o \u201cbelo pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>O xeque El-Islam-Mohamed-Ben-Fagoune, que fora guindado ao poder pelo marechal Val\u00e9e, convenceu Bou-Akas a reconhecer o poderio franc\u00eas. Em sinal de vassalagem, enviou este um cavalo de Gada ao governador, mas recusou-se a ir pessoalmente. Temia ser feito prisioneiro dos franceses.<\/p>\n<p>O xeque tem quarenta e nove anos de idade e veste-se \u00e0 maneira cabila: um manto de l\u00e3 com cintur\u00e3o de couro e um capuz debruado de corda fina. Traz \u00e0 bandoleira um par de pistolas e um \u201cflissa\u201d cabila ao lado esquerdo; do pesco\u00e7o pende-lhe um pequeno punhal negro. \u00c0 sua frente caminha um negro, levando-lhe o fuzil, e ao seu lado cabriola um grande galgo.<\/p>\n<p>Quando alguma tribo vizinha \u00e0s doze tribos por ele comandadas lhe causa qualquer dano, Bou-Akas desdenha de marchar contra os ofensores e contenta-se com enviar seu negro \u00e0 vila. Este exibe ali o fuzil do xeque, e o dano fica reparado.<\/p>\n<p>Bou-Akas tem a seu servi\u00e7o duzentos ou trezentos Tolbas, que l\u00eaem o Cor\u00e3o ao povo. Todo peregrino que, em viagem a Meca, atravesse o pa\u00eds, recebe subs\u00eddios de tr\u00eas francos e permiss\u00e3o para demorar-se no Ferdj-Ouah, como h\u00f3spede do xeque, pelo tempo que deseje. Todavia, quando chega ao conhecimento de Bou-Akas qualquer den\u00fancia de ser o peregrino algum impostor, ele envia seus guardas \u00e0 procura do culpado. Uma vez localizado este, os guardas o deitam de bru\u00e7os e aplicam-lhe cinq\u00fcenta bastonadas \u00e0 planta dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>H\u00e1 ocasi\u00f5es em que o xeque tem trezentos convidados ao jantar. Ao inv\u00e9s de compartilhar das iguarias, fica a caminhar em meio aos convidados, apoiado a um bord\u00e3o, supervisando o servi\u00e7o dos criados. Mais tarde, caso tenha sobrado alguma coisa, come tamb\u00e9m, mas sempre por \u00faltimo.<\/p>\n<p>Seu dom\u00ednio se estende de Mali a Raboue, da ponta sul da Babour at\u00e9 duas milhas aqu\u00e9m de Gigelli. Quando o governador de Constantinopla \u2014 o \u00fanico homem de quem reconhece o poder \u2014 encaminha-lhe algum viajante, sendo este pessoa de prol ou portador de boas recomenda\u00e7\u00f5es, Bou-Akas entrega-lhe seu fuzil, seu c\u00e3o ou seu punhal. Se recebe o fuzil, o viajante o pendura a tiracolo; se recebe o c\u00e3o, prende-o por uma correia; se recebe o punhal, ata-o ao pesco\u00e7o. De posse de qualquer desses talism\u00e3s, todos investidos de determinado grau de honra, pode atravessar inc\u00f3lume as doze tribos. Onde quer que se encontre, recebe hospedagem, j\u00e1 que \u00e9 um protegido de Bou-Akas.<\/p>\n<p>Ao deixar o Ferdj-Ouah, pode o viajante entregar o punhal, o fuzil ou o c\u00e3o a qualquer \u00e1rabe que encontre. Este, se estiver ca\u00e7ando, abandonar\u00e1 a ca\u00e7a; se estiver lavrando, largar\u00e1 a charrua; se estiver entre seus familiares, deix\u00e1-los-\u00e1, para ir entregar ao xeque seus pertences.<\/p>\n<p>O pequeno punhal de cabo negro \u00e9 t\u00e3o conhecido, que emprestou seu nome a Bou-Akas, tamb\u00e9m conhecido por Bou-d\u2019Jenoui, o homem do punhal. Com ele Bou-Akas apressa o curso da justi\u00e7a, quando degola algum culpado.<\/p>\n<p>Ao assumir o governo, Bou-Akas encontrou o pa\u00eds infestado de ladr\u00f5es, mas logo descobriu um meio de liquid\u00e1-los. Vestiu-se de mercador e deixou cair uma moeda de ouro na rua, tendo o cuidado de n\u00e3o perd\u00ea-la de vista. Uma moeda de ouro n\u00e3o permanece muito tempo assim abandonada. Quando algu\u00e9m a apanhava e a colocava no bolso, Bou-Akas fazia um sinal ao seu \u201cchaousse\u201d, tamb\u00e9m disfar\u00e7ado de mercador, e este, sabedor das inten\u00e7\u00f5es do amo, encarregava-se de agarrar o culpado e de decapit\u00e1-lo na mesma hora.<\/p>\n<p>Hoje os bedu\u00ednos costumam dizer que uma crian\u00e7a de doze anos pode atravessar o Ferdj-Ouah com uma coroa de ouro \u00e0 cabe\u00e7a, sem que ningu\u00e9m estenda a m\u00e3o para roub\u00e1-la.<\/p>\n<p>O pequeno punhal do xeque goza de muita reputa\u00e7\u00e3o entre os pastores das montanhas cabilas. Estes, ao se queixarem de alguma cabra muito vadia, costumam gritar-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 La guela ou Djinoni Bou-Akasli oulli fi gabta \u2014 que quer dizer: Que a morte te leve, e que seja a navalha de Bou-Akas aquela a ser embainhada.<\/p>\n<p>Bou-Akas tem grande respeito pelas mulheres. Assim, estabeleceu no Ferdj-Ouah um costume: quando as mulheres est\u00e3o enchendo na fonte os seus cantis de pele de bode, os homens devem desviar-se, para n\u00e3o encontr\u00e1-las.<\/p>\n<p>Certo dia Bou-Akas \u2014 que depois do que relatamos poderia bem ser chamado \u201co pai da justi\u00e7a\u201d \u2014 ouviu falar de um c\u00e1di de uma de suas doze tribos que pronunciava senten\u00e7as dignas do rei Salom\u00e3o. Como um novo Harum-al-Raschid, quis ajuizar pessoalmente da verdade do que lhe contavam. Trajou-se, pois, como simples cavaleiro, sem levar nenhum dos atributos ou armas que o distinguiam, e sem qualquer comitiva p\u00f4s-se a caminho, montando um cavalo de ra\u00e7a que, n\u00e3o obstante, nada trazia que pudesse denunci\u00e1-lo como o de t\u00e3o grande chefe.<\/p>\n<p>Aconteceu que no dia em que chegou \u00e0 povoa\u00e7\u00e3o onde o c\u00e1di fazia justi\u00e7a era dia de feira, e em conseq\u00fc\u00eancia dia de julgamento. Aconteceu ainda (em tudo protege Maom\u00e9 seu servo!) que, \u00e0 entrada da cidade, encontrou Bou-Akas um aleijado, e este, agarrando-se ao seu albornoz como o pedinte ao manto de S\u00e3o Martinho, rogou-lhe uma esmola.<\/p>\n<p>Bom mu\u00e7ulmano que era, Bou-Akas deu-lha, mas o aleijado continuou agarrado ao seu manto.<\/p>\n<p>\u2014 Que queres mais? \u2014 perguntou o xeque. \u2014 J\u00e1 te dei a esmola que pediste.<\/p>\n<p>\u2014 Sim \u2014 retrucou o aleijado \u2014 mas a lei n\u00e3o diz apenas \u201cdar\u00e1s esmola a teu irm\u00e3o\u201d. Diz tamb\u00e9m: \u201cFar\u00e1s por ele tudo quanto lhe pedir\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem. Que mais posso fazer por ti?<\/p>\n<p>\u2014 Poder\u00e1s evitar que eu, pobre r\u00e9ptil, seja pisoteado pelos homens e pelos animais, coisa que n\u00e3o deixar\u00e1 de acontecer se eu for rastejando at\u00e9 a vila.<\/p>\n<p>\u2014 E como poderei impedir isso?<\/p>\n<p>\u2014 Levando-me \u00e0 garupa de teu cavalo at\u00e9 a pra\u00e7a do mercado, onde tenho meu ponto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois seja \u2014 concordou Bou-Akas. E erguendo o aleijado, ajudou-o a montar.<\/p>\n<p>Apesar de algumas dificuldades, a opera\u00e7\u00e3o foi coroada de \u00eaxito. Os dois cavaleiros atravessaram a povoa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sem excitar a curiosidade geral, e chegaram finalmente \u00e0 pra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 aqui que querias vir? \u2014 perguntou Bou-Akas ao mendigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o desce.<\/p>\n<p>\u2014 Desce tu.<\/p>\n<p>\u2014 Se \u00e9 para te ajudar a desmontar, descerei.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, \u00e9 para deixar-me o cavalo.<\/p>\n<p>\u2014 Como, deixar-te meu cavalo?<\/p>\n<p>\u2014 Porque o cavalo me pertence.<\/p>\n<p>\u2014 Pois sim! \u00c9 o que veremos.<\/p>\n<p>\u2014 Escuta e reflete \u2014 disse o aleijado.<\/p>\n<p>\u2014 Escutarei e refletirei depois.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos na povoa\u00e7\u00e3o do c\u00e1di justiceiro.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Vais apresentar queixa contra mim ao c\u00e1di?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel que o fa\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Acreditas ent\u00e3o que ele, ao ver-nos \u2014 tu com as pernas s\u00e3s que Deus te deu, eu com estas pobres pernas aleijadas \u2014 n\u00e3o decidir\u00e1 que o cavalo pertence \u00e0quele que mais necessita dele?<\/p>\n<p>\u2014 Se proferir tal senten\u00e7a, n\u00e3o poder\u00e1 ser chamado de justiceiro, pois ter-se-\u00e1 enganado no seu julgamento.<\/p>\n<p>\u2014 Chamam-no de c\u00e1di justiceiro, mas n\u00e3o o chamam de c\u00e1di infal\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Por minha f\u00e9 \u2014 disse o xeque consigo mesmo. \u2014 Eis uma excelente oportunidade de p\u00f4r o juiz \u00e0 prova.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0 presen\u00e7a do c\u00e1di.<\/p>\n<p>E Bou-Akas, levando o cavalo pela brida, a cuja garupa estava agarrado o mendigo como um macaco, abriu caminho por entre a turba at\u00e9 onde o c\u00e1di, \u00e0 moda do Oriente, fazia justi\u00e7a publicamente.<br \/>\nDuas causas estavam em lit\u00edgio, e iriam ser julgadas antes. Bou-Akas tomou lugar entre a assist\u00eancia. A primeira das causas era entre um \u201ctaleb\u201d e um campon\u00eas \u2014 entre um s\u00e1bio e um trabalhador. Tratava-se da mulher do s\u00e1bio, que o campon\u00eas roubara e jurava ser sua. A mulher, por sua vez, n\u00e3o reconhecia nem a um nem a outro como seu marido, ou melhor, reconhecia ambos, o que tornava a situa\u00e7\u00e3o extremamente embara\u00e7osa.<\/p>\n<p>O juiz ouviu as duas partes, refletiu por um instante e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Deixai-me a mulher e voltai amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s saudarem o juiz, ambos os litigantes se retiraram.<\/p>\n<p>Chegou a vez da segunda causa. Esta envolvia um a\u00e7ougueiro e um vendedor de azeite. O primeiro tinha as vestes todas manchadas de sangue, e o segundo tinha-as enodoadas de \u00f3leo. Declarou o a\u00e7ougueiro:<\/p>\n<p>\u2014 Fui comprar uma jarra de azeite a este homem. Para pag\u00e1-lo, tirei da bolsa um punhado de moedas. As moedas o tentaram, e ele agarrou-me o pulso. Chamei-o de ladr\u00e3o, mas ele n\u00e3o quis soltar-me. Viemos juntos ao tribunal, eu com as moedas fechadas na m\u00e3o, ele agarrado ao meu pulso. Juro por Maom\u00e9 que este homem mente quando diz que o dinheiro lhe pertence: estas moedas s\u00e3o minhas, muito minhas.<br \/>\nDisse o mercador de azeite:<\/p>\n<p>\u2014 Este homem veio comprar azeite na minha loja. Depois de encher a jarra, perguntou-me: \u201cTens troco para uma pe\u00e7a de ouro\u201d? Enfiei a m\u00e3o no bolso e tirei-a cheia de moedas, que coloquei sobre a soleira da porta. Ele ent\u00e3o se apoderou do dinheiro e j\u00e1 ia fugir, quando comecei a gritar \u201cpega ladr\u00e3o!\u201d e agarrei-o pelo pulso. Apesar dos meus gritos, n\u00e3o quis devolver-me o dinheiro. Por isso trouxe-o at\u00e9 aqui, para que o julgues. Juro por Maom\u00e9 que este homem mente quando me acusa de roubo: estas moedas s\u00e3o minhas, muito minhas.<\/p>\n<p>O juiz meditou por uns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Deixai o dinheiro \u2014 disse o juiz \u2014 e voltai amanh\u00e3.<\/p>\n<p>O a\u00e7ougueiro depositou as moedas numa dobra do manto do c\u00e1di. Feito isto, ambos os queixosos, depois de terem saudado o juiz, se retiraram.<\/p>\n<p>Chegou a vez de Bou-Akas e o aleijado.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor c\u00e1di \u2014 declarou o xeque \u2014 vim de uma vila distante, com o prop\u00f3sito de comprar mercadorias neste mercado. \u00c0 porta da povoa\u00e7\u00e3o, encontrei este aleijado que me pediu esmola e rogou-me em seguida que o levasse \u00e0 garupa do meu cavalo at\u00e9 o mercado. Alegou que, se se arriscasse \u00e0s ruas, pobre r\u00e9ptil que \u00e9, corria o risco de ser pisoteado por passantes ou animais. Dei-lhe a esmola que pedira e ajudei-o a montar. Quando chegamos \u00e0 pra\u00e7a, recusou-se a descer, mentindo que o cavalo lhe pertencia. Ameacei-o com a justi\u00e7a, mas ele respondeu-me: \u201cBah! O c\u00e1di \u00e9 homem sensato demais para n\u00e3o compreender que o cavalo pertence \u00e0quele que n\u00e3o pode andar a p\u00e9\u201d. Eis o caso em toda a sua verdade, senhor juiz. Juro por Maom\u00e9!<\/p>\n<p>Depois disso, o mendigo declarou:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor c\u00e1di, eu vinha ao mercado desta cidade para tratar de neg\u00f3cios, montado em meu cavalo, quando vi este homem sentado \u00e0 beira da estrada. Parecia semi-agonizante. Aproximei-me dele e perguntei-lhe se lhe ocorrera algum acidente. \u201cNada me aconteceu \u2014 respondeu. \u2014 Estou apenas exausto, e se o senhor \u00e9 caritativo, poderia bem levar-me at\u00e9 a vila, onde tenho neg\u00f3cios a tratar. Quando chegarmos \u00e0 pra\u00e7a do mercado, desmontarei e rogarei a Maom\u00e9 que d\u00ea, a quem me prestou socorro, tudo quanto possa desejar\u201d. Assenti ao seu pedido, e grande foi o meu espanto quando, chegados \u00e0 pra\u00e7a, ele ordenou-me que desmontasse, dizendo que o cavalo lhe pertencia. Diante disso, resolvi traz\u00ea-lo ao tribunal, para que julgues o caso. Eis toda a verdade. Juro por Maom\u00e9!<\/p>\n<p>O c\u00e1di fez ambos repetirem seus depoimentos. Depois de refletir por alguns instantes, ordenou:<\/p>\n<p>\u2014 Deixem-me o cavalo e voltem amanh\u00e3.<br \/>\nO cavalo foi entregue ao c\u00e1di, e ambos os litigantes, ap\u00f3s terem reverenciado o juiz, se retiraram.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte, n\u00e3o apenas os interessados, como grande n\u00famero de curiosos, compareceram ao tribunal. A import\u00e2ncia e a dificuldade das causas em lit\u00edgio explicam tamanha aflu\u00eancia de espectadores. O c\u00e1di, seguindo a mesma ordem da v\u00e9spera, chamou em primeiro lugar o \u201ctaleb\u201d e o campon\u00eas, e disse ao \u201ctaleb\u201d:<\/p>\n<p>\u2014 Eis tua mulher. Podes lev\u00e1-la, ela te pertence.<\/p>\n<p>Depois, voltando-se para os guardas:<\/p>\n<p>\u2014 Aplicai cinq\u00fcenta bastonadas \u00e0 planta dos p\u00e9s desse homem \u2014 acrescentou, indicando o campon\u00eas.<\/p>\n<p>O \u201ctaleb\u201d levou consigo a mulher, enquanto os guardas cumpriam as ordens do c\u00e1di.<\/p>\n<p>Logo em seguida foi julgada a segunda causa. O mercador do azeite e o a\u00e7ougueiro aproximaram-se, e o c\u00e1di disse ao a\u00e7ougueiro:<\/p>\n<p>\u2014 Eis teu dinheiro. Tu o tiraste realmente da tua bolsa; jamais pertenceu a esse homem \u2014 finalizou, apontando para o mercador de azeite.<\/p>\n<p>O a\u00e7ougueiro levou suas moedas, e os guardas aplicaram cinq\u00fcenta bastonadas \u00e0 planta dos p\u00e9s do mercador.<\/p>\n<p>Foi convocada a terceira causa. Bou-Akas e o aleijado se aproximaram.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sois v\u00f3s \u2014 disse o c\u00e1di.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor juiz \u2014 responderam ambos, a uma s\u00f3 voz.<\/p>\n<p>\u2014 Reconhecerias teu cavalo em meio a vinte outros? \u2014 perguntou o c\u00e1di a Bou-Akas.<\/p>\n<p>\u2014 Certamente \u2014 respondeu este.<\/p>\n<p>\u2014 E tu?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida alguma \u2014 retorquiu o aleijado.<\/p>\n<p>\u2014 Vem ent\u00e3o comigo \u2014 ordenou o c\u00e1di, dirigindo-se ao xeque.<\/p>\n<p>Sa\u00edram juntos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cavalari\u00e7a. Bou-Akas reconheceu seu cavalo entre vinte outros.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem \u2014 disse o c\u00e1di. \u2014 Vai esperar-me no tribunal e manda-me teu advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Bou-Akas voltou ao tribunal, e tendo cumprido o mandado do juiz, sentou-se \u00e0 espera.<\/p>\n<p>O mendigo chegou \u00e0 cavalari\u00e7a t\u00e3o depressa quanto lhe permitiam as pernas aleijadas. Mas seus olhos eram s\u00e3os, e ele apontou sem hesita\u00e7\u00e3o para o cavalo certo.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem \u2014 disse o c\u00e1di, mais uma vez. \u2014 Vem encontrar-me no tribunal.<\/p>\n<p>O c\u00e1di tomou lugar \u00e0 esteira, e todos, impacientes, ficaram \u00e0 espera do aleijado. Este chegou, ofegante, ao cabo de cinco minutos.<\/p>\n<p>\u2014 O cavalo \u00e9 teu \u2014 disse o juiz, dirigindo-se a Bou-Akas. \u2014 Podes ir busc\u00e1-lo na cavalari\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois, voltando-se para os guardas:<\/p>\n<p>\u2014 Apliquem cinq\u00fcenta bastonadas no traseiro desse homem \u2014 ordenou, indicando o aleijado.<br \/>\nHomem justo que era, levara em considera\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do r\u00e9u e mudara o local de aplica\u00e7\u00e3o do castigo.<\/p>\n<p>Bou-Akas foi buscar seu cavalo, enquanto os guardas aplicavam as cinq\u00fcenta bastonadas no aleijado.<\/p>\n<p>Depois voltou \u00e0 presen\u00e7a do c\u00e1di.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e1s satisfeito? \u2014 perguntou-lhe este.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo contr\u00e1rio \u2014 replicou o xeque. \u2014 Mas queria ver-te para saber por que inspira\u00e7\u00e3o divina praticas justi\u00e7a. Pois n\u00e3o duvido que os dois outros julgamentos tenham sido t\u00e3o justos quanto o meu. N\u00e3o sou nenhum mercador, sou Bou-Akas, xeque do Ferdj-Ouah. Ouvi falar de ti e quis conhecer-te pessoalmente. O c\u00e1di inclinou-se para beijar a m\u00e3o de Bou-Akas, mas este o deteve.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, estou impaciente por saber como descobriste que a mulher era do s\u00e1bio, o dinheiro do a\u00e7ougueiro e o cavalo meu.<\/p>\n<p>\u2014 Foi muito simples, senhor \u2014 replicou o c\u00e1di. \u2014 Viste que retive comigo, durante uma noite, a mulher, o dinheiro e o cavalo. \u00c0 meia-noite, ordenei que a mulher fosse despertada e trazida \u00e0 minha presen\u00e7a. Mandei-a ent\u00e3o limpar o meu tinteiro. Dando provas de que estava habituada a fazer tal servi\u00e7o, ela o apanhou, tirou-lhe o algod\u00e3o, lavou-o corretamente, colocou-o de novo no estojo e encheu-o de tinta. Disse comigo mesmo: \u201cSe fosse mulher de campon\u00eas, n\u00e3o saberia como limpar um tinteiro\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Seja \u2014 admitiu Bou-Akas. \u2014 Isso quanto \u00e0 mulher. E quanto ao dinheiro?<\/p>\n<p>\u2014 Com o dinheiro foi diferente. Notaste como o mercador estava sujo de \u00f3leo, e sobretudo como tinha as m\u00e3os engorduradas?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, notei.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem. Coloquei o dinheiro numa jarra cheia d\u2019\u00e1gua, e hoje de manh\u00e3 examinei-a. Nenhuma gota de \u00f3leo subira \u00e0 superf\u00edcie da \u00e1gua. Convenci-me, pois, de que as moedas pertenciam ao a\u00e7ougueiro. Se fossem do mercador, estariam engorduradas, e nesse caso haveria gota de \u00f3leo \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem! \u2014 concordou Bou-Akas, inclinando a cabe\u00e7a. \u2014 Isso quanto ao dinheiro. E quanto ao meu cavalo?<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Foi mais dif\u00edcil. At\u00e9 esta manh\u00e3 estava ainda embara\u00e7ado para decidir.<\/p>\n<p>\u2014 Quer dizer que o aleijado n\u00e3o reconheceu a montaria?<\/p>\n<p>\u2014 Ele a reconheceu, e de modo t\u00e3o positivo quanto o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Quando levei cada um de v\u00f3s \u00e0 estrebaria, n\u00e3o pretendia saber se reconhecer\u00edeis o cavalo, e sim se o cavalo os reconheceria. Quando te aproximaste do cavalo, ele relinchou. Quando foi a vez do aleijado, o cavalo escoiceou. Refleti ent\u00e3o: o cavalo pertence \u00e0quele que tem boas pernas, e n\u00e3o ao aleijado.<\/p>\n<p>Bou-Akas meditou por longo tempo. Por fim, disse:<\/p>\n<p>\u2014 O Senhor est\u00e1 contigo. Deverias ocupar o meu lugar, e eu o teu. Contudo, embora eu esteja certo de que \u00e9s digno de ser xeque, n\u00e3o estou muito certo de ser eu capaz de desempenhar satisfatoriamente o cargo de c\u00e1di.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Ferdj-Ouah existe um xeque chamado Bou-Akas-Ben-Acour. Trata-se de um dos nomes mais antigos do pa\u00eds, que aparece na hist\u00f3ria das dinastias b\u00e9rberes e \u00e1rabes de Ibn Khaldoun. 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