{"id":372,"date":"2018-07-05T01:06:00","date_gmt":"2018-07-05T01:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=372"},"modified":"2018-07-05T01:07:25","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:25","slug":"carlos-magno-e-o-anjo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/carlos-magno-e-o-anjo","title":{"rendered":"Carlos Magno e o Anjo"},"content":{"rendered":"<p>Por volta do ano 868, Carlos Magno tinha resolvido fazer construir um pal\u00e1cio que dominasse o Reno, e em 874 esse pal\u00e1cio estava constru\u00eddo. Era um magn\u00edfico edif\u00edcio, metade fortaleza, metade castelo, sustido por cinq\u00fcenta colunas de m\u00e1rmore e cinq\u00fcenta colunas de granito. Estas colunas de m\u00e1rmore lhe tinham sido enviadas de Roma e de Ravena, pelo papa Estev\u00e3o III, e as colunas de granito tinham sido tiradas de Adenwald. De modo que, vendo sua nova morada imperial t\u00e3o lindamente acabada, ele resolveu convocar a\u00ed uma assembl\u00e9ia. Em conseq\u00fc\u00eancia, os pr\u00edncipes e os senhores das cercanias foram convocados para essa grande solenidade.<\/p>\n<p>Na noite que precedeu a data em que a assembl\u00e9ia devia se realizar, quando o imperador acabava de adormecer, um anjo lhe apareceu e disse estas palavras: \u201cCarlos, levanta-te e rouba\u201d. Carlos Magno se levantou depressa e sentiu um perfume celestial no quarto. Mas, como as palavras que o anjo dissera lhe soavam mediocremente em rela\u00e7\u00e3o com os preceitos de Deus e da Igreja, afigurou-se-lhe haver sonhado, e readormeceu.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mal o imperador tinha fechados os olhos, a mesma vis\u00e3o lhe apareceu de novo, e, com um rosto severo, como o de um mensageiro que tem direito de censurar, se n\u00e3o lhe obedecem \u00e0s ordens, o anjo repetiu pela segunda vez, com voz grave, as palavras que tinha dito e que o imperador acreditava ter ouvido mal. Ele abriu depressa os olhos e viu o quarto pleno de uma luz celestial, que foi, pouco a pouco, enfraquecendo, e acabou por se extinguir completamente.<\/p>\n<p>Entretanto, a ordem tinha sido t\u00e3o estranha, que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer, e, repousando a cabe\u00e7a no travesseiro, dormiu uma terceira vez. Dessa feita ainda, o mesmo anjo apareceu, mas com um semblante amea\u00e7ador, e reiterou a mesma ordem, com uma voz t\u00e3o imperiosa, que o imperador, que, entretanto, n\u00e3o era absolutamente f\u00e1cil de se amedrontar, estremeceu de terror e se levantou sobressaltado. Dessa vez, n\u00e3o somente o mesmo celestial aroma se espalhava, e a mesma luz resplandecente brilhava, mas ainda o anjo estava de p\u00e9, junto ao seu leito, e n\u00e3o foi sen\u00e3o quando teve certeza de que o imperador n\u00e3o podia duvidar da realidade de sua presen\u00e7a, que ele estendeu suas asas de ouro e desapareceu. Dessa vez, Carlos Magno n\u00e3o teve nenhuma d\u00favida de que a ordem lhe vinha do c\u00e9u, porque o mensageiro era belo demais para ser um enviado do inferno.<\/p>\n<p>Carlos Magno n\u00e3o hesitou mais, ent\u00e3o; levantou-se depressa, vestiu-se \u00e0s apalpadelas, deplorando esse mandado do c\u00e9u, que lhe ordenava come\u00e7ar t\u00e3o tarde um servi\u00e7o t\u00e3o infame. Mas o imperador era como Abra\u00e3o, decidido a tudo sacrificar a Deus, mesmo sua honra. Em conseq\u00fc\u00eancia, revestiu-se da coura\u00e7a, cingiu a espada e tomou o capacete na m\u00e3o, como se fosse comandar uma dessas expedi\u00e7\u00f5es guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia, quanto tinha repugn\u00e2ncia por aquela; enfim, ele saiu de seu quarto e, parando numa galeria que dominava toda a regi\u00e3o, fez uma pausa para decidir de que lado iria ser esse roubo que o embara\u00e7ava tanto realizar.<\/p>\n<p>De resto, a noite estava sombria, como conv\u00e9m a tal expedi\u00e7\u00e3o; mas, por inspiradora que fosse a escurid\u00e3o, o imperador era de tal modo novi\u00e7o na nova arte que lhe era preciso exercer, que, por mais que vagueasse no sentido do comprimento e no da largura, depois de quase uma hora, ainda n\u00e3o lhe tinha chegado a menor id\u00e9ia, quando, de s\u00fabito, percebeu que acabavam de lhe furtar o capacete que ele tinha pousado na balaustrada da galeria. 0 imperador procurou bem de todos os lados, olhou dentro e fora; mas toda a busca foi in\u00fatil: o capacete tinha desaparecido.<\/p>\n<p>Tanto o furto era audacioso, como o ladr\u00e3o era h\u00e1bil; e tanto mais o ladr\u00e3o era h\u00e1bil, mais, em semelhante circunst\u00e2ncia, ele podia dar um bom conselho ao imperador. Assim, pareceu-lhe que esse ladr\u00e3o era um novo favor do c\u00e9u que, vendo seu embara\u00e7o, tinha tido piedade dele. Em conseq\u00fc\u00eancia, levantou a voz:<\/p>\n<p>\u2013 Que aquele que me furtou o capacete \u2013 gritou ele \u2013 se apresente diante de mim, e, sob minha palavra de rei, em lugar de ser castigado, ele receber\u00e1 uma recompensa de cem ducados.<\/p>\n<p>Logo, uma explos\u00e3o de riso agudo retiniu na pr\u00f3pria galeria, e de sob a tape\u00e7aria que recobria uma mesa, Carlos Magno viu sair seu an\u00e3o, que se aproximou e lhe estendeu o capacete, a fim de que ele jogasse ali dentro a soma prometida.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! \u00e9s tu, infame ladr\u00e3o \u2013 disse Carlos Magno; \u2013 eu deveria ter visto que ningu\u00e9m, sen\u00e3o tu, seria capaz de semelhante golpe; e deveria ordenar que te dessem cem vergastadas, em lugar de te prometer imprudentemente que daria cem ducados.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, mestre \u2013 disse o an\u00e3o -, teria sido mais econ\u00f4mico, \u00e9 verdade; mas um homem honesto n\u00e3o tem sen\u00e3o uma palavra. Eis o capacete; onde est\u00e3o os cem ducados?<\/p>\n<p>\u2013 Tu os ter\u00e1s de pronto, quando me tiveres dado um bom conselho.<\/p>\n<p>\u2013 Os cem ducados \u2013 disse o an\u00e3o \u2013 foram prometidos pelo capacete e n\u00e3o pelo conselho; d\u00e1-me os cem ducados pelo capacete e ter\u00e1s o conselho de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Carlos Magno estendeu a m\u00e3o para segurar o engra\u00e7ado que lhe falava com tanta ousadia; mas o an\u00e3o viu o movimento, e, r\u00e1pido como o pensamento, saltou por sobre a balaustrada, com a destreza e a agilidade de um macaco, p\u00f4s-se a subir ao longo de uma das colunas, e n\u00e3o parou sen\u00e3o quando ficou a cavalo numa das folhas do capitel. L\u00e1, ele se pos a cantar uma can\u00e7\u00e3o de que compunha, a um s\u00f3 tempo, a m\u00fasica e as palavras. Esta can\u00e7\u00e3o dizia:<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 tenho um capacete, um belo capacete, um capacete encimado por uma coroa real: um capacete que me custa cem ducados\u201d.<br \/>\nEu vou tratar de obter pelo mesmo pre\u00e7o uma coura\u00e7a e uma espada, e ent\u00e3o me farei armar cavaleiro, por algum imperador que jamais tenha faltado \u00e0 sua palavra\u201d.<br \/>\n\u201cDepois, quando eu tiver sido armado cavaleiro, terei uma grande espada e uma boa l\u00e2mina, ir-me-ei por montes e vales, fazendo justi\u00e7a, porque nos pa\u00edses da Germ\u00e2nia e da Fran\u00e7a justi\u00e7a \u00e9 de grande necessidade que seja feita\u201d.<br \/>\n\u201cMas, ol\u00e1! onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um imperador que n\u00e3o tenha jamais faltado \u00e0 sua palavra?\u201d<\/p>\n<p>0 ru\u00eddo de uma bolsa que tombava nas lajes interrompeu o improviso do cantor; o an\u00e3o compreendeu que a li\u00e7\u00e3o de moral tinha produzido seu efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho nela e outro no imperador.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos, vem aqui, tolo \u2013 disse Carlos Magno -, e n\u00e3o temas. Preciso de ti.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! agora \u2013 disse o an\u00e3o -, se tens necessidade de mim, \u00e9 outra coisa, e n\u00e3o tenho mais medo.<\/p>\n<p>\u2013 Eu desejaria roubar \u2013 disse Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 P\u00e9ssima profiss\u00e3o \u2013 disse o an\u00e3o -, sobretudo quando se d\u00e1 o caso com pessoas que prometem e que n\u00e3o sustentam; tamb\u00e9m, atende-me, uma vez que tiveste a infelicidade de ter nascido homem honrado, permanece honrado.<\/p>\n<p>\u2013 Eu te digo que quero roubar \u2013 disse Carlos Magno com um tom que provava que ele come\u00e7ava a se cansar das reflex\u00f5es filos\u00f3ficas do seu interlocutor.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! ent\u00e3o \u2013 disse o an\u00e3o \u2013, se \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o decidida, n\u00e3o h\u00e1 nada a dizer. Que queres roubar?<\/p>\n<p>\u2013 Ah! \u00c9 justamente o que n\u00e3o sei \u2013 disse Carlos Magno. \u2013 Por\u00e9m quero roubar algu\u00e9m, isto imediatamente, esta noite.<\/p>\n<p>\u2013 Diabo! disse o an\u00e3o. Pois est\u00e1 bem! Roubemos.<\/p>\n<p>\u2013 Mas roubar quem? \u2013 perguntou Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 Presta aten\u00e7\u00e3o \u2013 disse o an\u00e3o, estendendo a m\u00e3o. \u2013 V\u00eas esta pobre cabana?<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 disse o imperador.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem! Trata-se de um bom golpe a dar. N\u00e3o pobre como te pare\u00e7a, ela cont\u00e9m hoje cem florins; h\u00e1 perto de dez anos o campon\u00eas que a habita trabalha todos os dias desde \u00e0s cinco horas da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0s oito da noite, de maneira que, \u00e0 for\u00e7a de remover a terra, p\u00f4s de lado esta soma. A porta fecha mal, o homem tem sono pesado, tu v\u00eas que \u00e9 f\u00e1cil de roubar.<\/p>\n<p>\u2013 Miser\u00e1vel! \u2013 gritou Carlos Magno. \u2013 Tu queres que eu v\u00e1 tomar a um desgra\u00e7ado o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro todo molhado com seu suor!<\/p>\n<p>\u2013 Eu! \u2013 disse o an\u00e3o \u2013 eu n\u00e3o quero nada; tu me pedes um conselho, eu to dou, eis tudo.<\/p>\n<p>\u2013 Um outro, um outro! \u2013 gritou Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00eas aquela casa de campo? \u2013 disse o an\u00e3o, estendendo o dedo em outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Vejo-a \u2013 respondeu o imperador.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um comerciante rico. N\u00e3o s\u00e3o florins que tu encontrar\u00e1s em casa dele, s\u00e3o ducados, e n\u00e3o os contar\u00e1s por centenas, mas por milheiros.<\/p>\n<p>\u2013 E sem d\u00favida \u2013 disse Carlos Magno \u2013 foi praticando a usura e vendendo com pesos falsos que ele adquiriu semelhante fortuna.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u2013 disse o an\u00e3o -, n\u00e3o, foi fazendo para ele, como para os outros, c\u00e1lculos rigorosamente exatos, que sua probidade tornou-se proverbial, e, por acaso, para aquele a honestidade trouxe o que traz para outros a velhacaria.<\/p>\n<p>\u2013 Como! Patife! \u2013 disse o imperador. \u2013 E \u00e9 justamente um homem que faz fortuna de maneira t\u00e3o honesta que queres que eu arru\u00edne?<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o quero nada \u2013 disse o an\u00e3o. \u2013 \u00c9s tu, ao contr\u00e1rio, que queres roubar. Eu te digo quais s\u00e3o aqueles que t\u00eam o dinheiro, eis tudo.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sem d\u00favida, eu quero roubar \u2013 disse o imperador -, mas n\u00e3o o pobre trabalhador, n\u00e3o o comerciante industrioso; preferia roubar algum abade, engordado pelo repouso, enriquecido com o d\u00edzimo, que n\u00e3o tenha jamais feito nada sen\u00e3o dormir, comer e beber. Eis quem eu queria roubar, se tu queres saber.<\/p>\n<p>\u2013 Peste! para um principiante \u2013 disse o an\u00e3o -, n\u00e3o est\u00e1 mal raciocinado; mas, roubando tal homem, seria o mesmo que roubar os pobres, porque ele saberia bem se fazer pagar, no dia seguinte, pelo povo, o dobro do que tu lhe tivesses tomado.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem; ent\u00e3o \u2013 disse o imperador -, eu queria roubar qualquer um desses maus cavaleiros, que n\u00e3o vivem sen\u00e3o de pilhagens e ladroeiras; que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem os que deveriam defender.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! ent\u00e3o \u00e9 outra coisa, porque n\u00e3o te explicaste em seguida? \u2013 disse o an\u00e3o. \u2013 Eu tenho o que te serve. V\u00eas aquele castelo?<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 disse Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem! \u00c9 do sr. Harderic, o maior malfeitor que existiu sobre a terra, desde o rei Atila e o falso profeta Maom\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013 Tanto melhor \u2013 disse o imperador.<\/p>\n<p>\u2013 Mas l\u00e1, a coisa n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Ele tem o sono leve e a m\u00e3o pesada. Haver\u00e1 golpes para receber.<\/p>\n<p>\u2013 Tanto melhor, tanto melhor! \u2013 disse o imperador.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem! Vai colocar outra coura\u00e7a, uma coura\u00e7a sombria como a noite na qual \u00e9 preciso que deslizemos. Toma um punhal curto, em lugar dessa longa espada. A espada \u00e9 uma arma do dia, para atingir de longe. \u00c0 noite n\u00e3o se golpeia sen\u00e3o o que se toca. T\u00eam-se os olhos na m\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 preciso que os olhos estejam muito longe da l\u00e2mina. Vai e volta, espero aqui, contando os ducados para ver se minha conta est\u00e1 certa.<\/p>\n<p>0 imperador n\u00e3o esperou que lhe dissesse duas vezes; tornou a entrar em casa, e voltou logo, coberto com uma cota de malhas de a\u00e7o brunido, que lhe tomava o corpo como um gib\u00e3o e se lhe encaixava na cabe\u00e7a como um capuz. Ele tinha mais, na cintura uma faca larga, curta e cortante, como o gl\u00e1dio romano. 0 an\u00e3o o examinou dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, e fez um sinal de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o \u2013 disse Carlos Magno -, a caminho.<\/p>\n<p>\u2013 A caminho \u2013 disse o an\u00e3o.<\/p>\n<p>E sa\u00edram os dois do pal\u00e1cio; e na estrada, a mais direta, isto \u00e9, atravessando as terras, avan\u00e7aram para o castelo de Harderic.<\/p>\n<p>Caminhando, Carlos Magno encontrou um marco, que servia para delimitar um campo; arrancou-o da terra e colocou ao ombro.<\/p>\n<p>\u2013 Que diabo fazes tu? \u2013 disse o an\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Acreditas que encontraremos a porta aberta? \u2013 perguntou o imperador.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u2013 respondeu o an\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Pois ent\u00e3o! Eu levo com que arromb\u00e1-la.<\/p>\n<p>0 an\u00e3o desatou a rir.<\/p>\n<p>\u2013 Isto \u2013 disse ele -, e \u00e0 primeira pancada que bateres, a guarni\u00e7\u00e3o inteira estar\u00e1 de p\u00e9, e ent\u00e3o que encontrar\u00e1s tu para apanhar? Algum frango assustado, que ter\u00e1 escapado para os fossos. Eu te acreditava mais forte, mestre!<\/p>\n<p>\u2013 0 que \u00e9 preciso ent\u00e3o fazer? \u2013 perguntou Carlos Magno, meio confuso com a sua inexperi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 Isto me concerne \u2013 disse o an\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos Magno deixou-o tomar seu marco e continuou o caminho sem dizer uma \u00fanica palavra.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 porta, como tinha pensado Carlos Magno, encontraram-na fechada. Ent\u00e3o ele olhou para seu an\u00e3o, como para lhe perguntar o que era preciso fazer; o an\u00e3o lhe fez sinal para se manter o mais perto da porta que lhe fosse poss\u00edvel; e, lan\u00e7ando-se sobre uma figueira que crescia nos fossos, e da figueira agarrando-se \u00e0 muralha, ele subiu, enfiou sucessivamente as m\u00e3os e os p\u00e9s nos intervalos das pedras, at\u00e9 as seteiras, e desapareceu. Um instante depois, Carlos Magno ouviu uma chave ranger na fechadura: a porta se moveu pesadamente, mas sem ru\u00eddo, depois permaneceu entreaberta justamente o necess\u00e1rio para deixar passar um homem. Carlos Magno passou; o an\u00e3o fechou a porta com as mesmas precau\u00e7\u00f5es que tinha tomado para abri-la, e os dois ladr\u00f5es se acharam dentro do p\u00e1tio do castelo.<\/p>\n<p>\u2013 Eis aqui vosso caminho \u2013 disse o an\u00e3o, mostrando a Carlos Magno a escada que conduzia aos aposentos do castelo , e eis o meu \u2013 continuou, mostrando a cavalari\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o vens comigo? \u2013 perguntou Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 Porque eu tamb\u00e9m tenho meu golpe para dar \u2013 disse o an\u00e3o.<\/p>\n<p>E, pondo-se a correr de quatro patas como um c\u00e3o, a fim de n\u00e3o ser reconhecido por nenhuma criatura humana, no caso de ser visto, ele atravessou o p\u00e1tio e entrou na baia.<\/p>\n<p>Essa confian\u00e7a do an\u00e3o excitou o amor-pr\u00f3prio de Carlos Magno; ele subiu a escada o mais suavemente que pode, entrou nos aposentos e, gra\u00e7as a um raio de luar que apareceu no c\u00e9u justamente nesse momento, ele chegou at\u00e9 o quarto situado antes daquele em que Harderic dormia com sua mulher. Chegando l\u00e1, estendeu a m\u00e3o para ver se n\u00e3o encontraria nada que pegar, e sua m\u00e3o caiu sobre um cofre rodeado de ferro, que lhe pareceu dever conter dinheiro ou j\u00f3ias. Nesse momento o cavalo do castel\u00e3o relinchou t\u00e3o violentamente, que Carlos Magno estremeceu.<\/p>\n<p>\u2013 Ei \u2013 disse Harderic, despertando, sobressaltado. \u2013 Que se passa em minha cavalari\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2013 Nada \u2013 respondeu sua mulher -, \u00e9 o teu cavalo que relincha.<\/p>\n<p>\u2013 Meu cavalo n\u00e3o tem o costume de relinchar assim \u2013 disse Harderic -, \u00e9 preciso que algu\u00e9m que ele n\u00e3o conhe\u00e7a tente desat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 E quem pensas que quer soltar teu cavalo?<\/p>\n<p>\u2013 Quem? Por Deus! Um ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>E, a essas palavras, Carlos Magno escutou Harderic descer do leito e tomar a espada. Ent\u00e3o ele se afastou e, gra\u00e7as ao raio de luar, viu-o passar. Carlos Magno permaneceu num canto, amaldi\u00e7oando o an\u00e3o, e mantendo, em todo caso, a m\u00e3o sobre a guarda da espada. Ao fim de um instante, o castel\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>\u2013 E ent\u00e3o? \u2013 disse-lhe a mulher. \u2013 Que havia na cavalari\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o havia nada \u2013 respondeu Harderic -, mas h\u00e1 tr\u00eas ou quatro noites que n\u00e3o consigo dormir.<\/p>\n<p>\u2013 E tu n\u00e3o podes dormir porque meditas, sem d\u00favida, alguma coisa.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade disse o castel\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 E que meditas tu?<\/p>\n<p>\u2013 Posso te dizer agora \u2013 respondeu Harderic \u2013 porque o tempo em que nosso projeto deve se realizar est\u00e1 quase chegando; amanh\u00e3 eu e onze outros condes, bar\u00f5es e senhores, devemos matar o rei Carlos, que nos impede de ser os donos de nossos dom\u00ednios; estamos cansados de suportar isso, e n\u00e3o o queremos mais sofrer.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Ah! Ah! \u2013 fez baixinho Carlos Magno.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! meu Deus, meu Deus! \u2013 disse a castel\u00e3, desolada. \u2013 E se vosso conluio malogra, v\u00f3s estais perdidos.<\/p>\n<p>\u2013 Imposs\u00edvel \u2013 disse o castel\u00e3o -, estamos ligados entre n\u00f3s por juramentos os mais terr\u00edveis; amanh\u00e3, convocados para a assembl\u00e9ia, como todos os outros, n\u00f3s entramos no pal\u00e1cio, sem despertar nenhuma suspeita; estaremos bem armados, e ele n\u00e3o estar\u00e1, cercaremos seu trono, bater-lhe-emos e ele cair\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 E quais s\u00e3o os conjurados?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o que n\u00e3o posso dizer, mesmo a ti; mas seu compromisso assinado com seu sangue est\u00e1 aqui no quarto ao lado, fechado no cofre que se acha sobre a mesa.<\/p>\n<p>Carlos Magno alongou a m\u00e3o, o cofre estava bem ali onde havia indicado Harderic.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 bem \u2013 disse a castel\u00e3. \u2013 Deus ajude que tudo isto corra bem.<\/p>\n<p>\u2013 Am\u00e9m! disse o castel\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele voltou a dormir: durante algum tempo ainda, ouviram-se os suspiros da castel\u00e3, mas bem depressa sua respira\u00e7\u00e3o doce e igual se misturou aos roncos do esposo; os dois tinham retomado o sono interrompido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Carlos Magno apanhou o cofre, p\u00f4-lo embaixo do bra\u00e7o, atravessou os aposentos, desceu a escada e chegou ao p\u00e1tio. Viu l\u00e1 seu an\u00e3o que se debatia sobre o cavalo de guerra do castel\u00e3o, o qual relinchava e escavava o solo, como se julgasse indigno dele obedecer a um t\u00e3o miser\u00e1vel escudeiro. Mas ent\u00e3o o bom imperador se atirou sobre ele, e mal o cavalo sentiu o peso de um homem, e compreendeu com que cavaleiro exercitado tinha que se haver, tornou-se doce como um cordeiro. Ent\u00e3o Carlos Magno pegou o an\u00e3o pela gola de sua roupa, p\u00f4-lo na garupa e partiu num grande galope.<\/p>\n<p>Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e a\u00ed encontrou o compromisso dos doze conjurados, assinado com sangue. Ent\u00e3o fez despertar sua gente e ordenou que num dos p\u00e1tios do pal\u00e1cio se constru\u00edssem onze forcas de propor\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias e uma d\u00e9cima segunda mais alta que as outras, e no alto de cada um dos doze pat\u00edbulos fez gravar numa tabuleta o nome de um dos doze conjurados, e sobre a forca mais alta o nome de seu chefe Harderic.<\/p>\n<p>Depois, como tinha duas entradas no pal\u00e1cio, ordenou que se recebessem todos os outros bar\u00f5es convocados por uma porta e em um outro p\u00e1tio, e que n\u00e3o recebessem sen\u00e3o os conspiradores pela porta e no p\u00e1tio das forcas.<\/p>\n<p>E aconteceu assim como Carlos Magno tinha ordenado, t\u00e3o bem, que, quando viu todos os bar\u00f5es reunidos, relatou-lhes a conspira\u00e7\u00e3o tramada contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com o sangue dos doze conjurados, e lhes perguntou que pena tinham merecido: e todos os bar\u00f5es, a uma s\u00f3 voz, disseram que tinham merecido a morte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo p\u00e1tio, e os bar\u00f5es viram os doze conspiradores pendurados nas doze forcas.<\/p>\n<p>E, em mem\u00f3ria da apari\u00e7\u00e3o celestial, \u00e0 qual ele devia a vida, denominou o pal\u00e1cio onde isto aconteceu \u201cIngelheim\u201d ou a Casa do Anjo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por volta do ano 868, Carlos Magno tinha resolvido fazer construir um pal\u00e1cio que dominasse o Reno, e em 874 esse pal\u00e1cio estava constru\u00eddo. 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