{"id":373,"date":"2018-07-05T01:06:10","date_gmt":"2018-07-05T01:06:10","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=373"},"modified":"2018-07-05T01:07:25","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:25","slug":"cacada-russa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/cacada-russa","title":{"rendered":"Ca\u00e7ada Russa"},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00edncipe Troubetzkoi aproximou-se e deu-me a m\u00e3o. Ele n\u00e3o vinha s\u00f3 para isso, mas tamb\u00e9m para me convidar a uma ca\u00e7a ao lobo no bosque de Gatchina, onde se diz que os lobos s\u00e3o t\u00e3o abundantes como as lebres na floresta de Saint-Germain.<\/p>\n<p>A ca\u00e7a aos lobos, juntamente com a ca\u00e7a ao urso, \u00e9 uma das divers\u00f5es favoritas dos russos. Apenas que, como os descendentes de Rourik gostam do perigo enquanto perigo, inventaram uma ca\u00e7ada que oferece dois perigos ao mesmo tempo: primeiro, o de ser devorado pelos lobos, como Baldu\u00edno I, imperador de Constantinopla; segundo, o de espatifar-se junto com o carro, como Hip\u00f3lito, filho de Teseu.<\/p>\n<p>Essa engenhosa inven\u00e7\u00e3o se realiza no inverno, \u00e9 claro, \u00e9poca em que a falta de alimento torna os lobos ferozes. Entram numa troika tr\u00eas ou quatro ca\u00e7adores, cada um com um fuzil de dois tiros. A troika \u00e9 um carro qualquer (drojky, kibitk, cale\u00e7a ou tarantass) com tr\u00eas cavalos atrelados. O nome lhe vem da atrelagem, e n\u00e3o da forma.<\/p>\n<p>O cavalo do meio n\u00e3o deve em nenhum momento deixar o trote, enquanto o da direita e o da esquerda n\u00e3o devem em nenhum momento deixar o galope. O do meio trota com a cabe\u00e7a baixa, e \u00e9 chamado comedor de neve. Seus dois parceiros, que n\u00e3o t\u00eam mais que uma r\u00e9dea, s\u00e3o atrelados pelo meio do corpo ao varal do carro e galopam com a cabe\u00e7a virada, um para a direita e o outro para a esquerda. S\u00e3o chamados furiosos. Assim conduzida, a atrelagem toma o aspecto de um leque.<\/p>\n<p>Um cocheiro que tenha seguran\u00e7a \u2014 se \u00e9 que h\u00e1 no mundo um cocheiro seguro \u2014 conduz a troika. Detr\u00e1s do carro, com uma corda ou uma corrente de uns dez metros, amarra-se um leit\u00e3o. Inicialmente o leit\u00e3o \u00e9 cuidadosamente transportado dentro do carro, at\u00e9 a entrada do local onde se conta come\u00e7ar a ca\u00e7ada. Ali \u00e9 descido, e o cocheiro solta os cavalos, que avan\u00e7am, sendo o do meio trotando e os das alas a galope.<br \/>\nO leit\u00e3o, pouco habituado a essa marcha, lan\u00e7a queixas que degeneram logo em lamenta\u00e7\u00f5es. A essas lamenta\u00e7\u00f5es, um primeiro lobo mostra seu focinho e come\u00e7a a ir ao encal\u00e7o do porco, depois dois lobos, depois tr\u00eas, dez, cinq\u00fcenta lobos. Todos disputam o leit\u00e3o e brigam entre si para se aproximar, um dando-lhe uma patada, outro uma dentada. Das lamenta\u00e7\u00f5es o pobre animal passa aos gritos desesperados. Esses gritos v\u00e3o despertar os lobos nas profundezas mais rec\u00f4nditas da floresta.<\/p>\n<p>Tudo o que h\u00e1 de lobo em tr\u00eas l\u00e9guas ao redor acorre, e a troika v\u00ea-se perseguida por uma matilha de lobos. Nessa hora \u00e9 importante ter-se um bom cocheiro. Os cavalos, que t\u00eam pelos lobos um horror instintivo, tornam-se aloucados. O que trota quereria galopar, os que galopam quereriam desembestar.<br \/>\nDurante todo esse tempo os ca\u00e7adores atiram ao l\u00e9u. Nem h\u00e1 necessidade de apontar. O porco grita, os cavalos relincham, os lobos uivam, os fuzis troam. \u00c9 um concerto que daria inveja a Mefist\u00f3feles no \u201csabbat\u201d. Coche, ca\u00e7adores, porco, matilha de lobos, s\u00e3o um turbilh\u00e3o levado pelo vento. A neve voa em torno, como uma nuvem de tormenta deslizando no ar, lan\u00e7ando rel\u00e2mpagos e raios.<\/p>\n<p>Enquanto o cocheiro \u00e9 senhor de seus cavalos, por mais precipitados que sejam, tudo vai bem. Mas se ele perde o controle, se a atrelagem se det\u00e9m, se a troika vira, ent\u00e3o tudo acaba. No dia seguinte, no outro, ou oito dias depois, encontram-se os restos do carro, os canos dos fuzis, as carca\u00e7as dos cavalos e os ossos maiores dos ca\u00e7adores e do cocheiro.<\/p>\n<p>No \u00faltimo inverno, o pr\u00edncipe Repnin fez uma dessas ca\u00e7adas, e pouco lhe faltou para que n\u00e3o fosse a \u00faltima. Estava com dois de seus amigos, numa propriedade que limita com a estepe. Resolveram ca\u00e7ar lobos, ou melhor, fazer-se ca\u00e7ar pelos lobos. Preparou-se um amplo tren\u00f3, onde duas ou tr\u00eas pessoas podiam mover-se \u00e0 vontade. Atrelaram-se tr\u00eas robustos cavalos, que foram confiados a um cocheiro nascido na regi\u00e3o e muito experiente. Cada ca\u00e7ador tinha um par de fuzis duplos e cento e cinq\u00fcenta cartuchos.<\/p>\n<p>Os lugares foram distribu\u00eddos assim: o pr\u00edncipe Repnin voltado para tr\u00e1s, e cada um de seus amigos voltado para um dos lados. Chegaram \u00e0 estepe, ou seja, a um imenso deserto coberto de neve. Era uma ca\u00e7ada noturna. A lua, no seu pleno, reluzia com o mais vivo brilho, e seus raios, refletidos pela neve, difundiam uma claridade que podia rivalizar com a do dia.<\/p>\n<p>O porco foi baixado e o tren\u00f3 partiu. Sentindo-se puxado contra sua vontade, o porco gritou. Alguns lobos apareceram, mas de in\u00edcio pouco numerosos, medrosos, conservando-se a uma grande dist\u00e2ncia. Pouco a pouco seu n\u00famero aumentou, e \u00e0 medida que aumentavam, aproximavam-se dos ca\u00e7adores, que para iniciar n\u00e3o comunicaram \u00e0 sua troika mais que uma marcha comum, apesar da impaci\u00eancia medrosa dos cavalos. Eram vinte lobos, mais ou menos, quando se encontraram bastante pr\u00f3ximos para come\u00e7ar o massacre.<\/p>\n<p>Um tiro de fuzil partiu, um lobo caiu. Um grande tumulto se fez, e pareceu aos ca\u00e7adores que o bando ficara reduzido pela metade. Com efeito, contrariamente ao prov\u00e9rbio que diz que os lobos n\u00e3o se comem entre si, sete ou oito esfomeados ficaram atr\u00e1s, para devorar o morto. Mas logo os vazios foram preenchidos. De todos os lados ouviam-se uivos respondendo a uivos; de todos os lados viam-se aparecer focinhos pontudos e faiscar olhos semelhantes a carv\u00f5es acesos.<\/p>\n<p>Os lobos estavam ao alcance, e os ca\u00e7adores faziam fogo continuamente. Mas por mais que os tiros acertassem, o bando ia sempre aumentando, em vez de diminuir. Em breve n\u00e3o foi mais um bando, foi uma matilha cujas fileiras cerradas seguiam os ca\u00e7adores. Sua corrida era t\u00e3o r\u00e1pida que pareciam voar sobre a neve, t\u00e3o ligeira que n\u00e3o fazia o menor ru\u00eddo. A onda de lobos se aproximava sem cessar, como uma mar\u00e9 muda, e n\u00e3o recuava perante o fogo dos tr\u00eas ca\u00e7adores, por mais nutrido que fosse. Formavam atr\u00e1s da troika um enorme crescente, cujas duas pontas come\u00e7avam a ultrapassar a linha dos cavalos.<\/p>\n<p>O n\u00famero de lobos aumentou com tal rapidez, que se diria que sa\u00edam de debaixo da terra. Havia qualquer coisa de fant\u00e1stico em sua apari\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se podia, com efeito, entender a presen\u00e7a de dois a tr\u00eas mil lobos no meio de um deserto onde, em toda uma jornada de viagem, descobrir-se-iam apenas dois ou tr\u00eas.<br \/>\nFizeram o porco cessar de gritar, puxando-o para dentro do tren\u00f3, uma vez que seus gritos redobravam a aud\u00e1cia dos perseguidores. O tiroteio n\u00e3o cessava, e j\u00e1 tinham usado mais da metade da muni\u00e7\u00e3o. Restavam uns duzentos tiros, e estavam rodeados ainda por dois ou tr\u00eas mil lobos. Os dois cornos do crescente avan\u00e7avam mais e mais, e amea\u00e7avam fechar-se, formando um c\u00edrculo do qual o tren\u00f3, os cavalos e os ca\u00e7adores tornar-se-iam o centro.<\/p>\n<p>Se um dos cavalos ca\u00edsse, tudo acabaria. Os cavalos, espantados, bufavam e davam saltos terr\u00edveis.<\/p>\n<p>\u2014 O que pensas disto, Ivan? \u2014 perguntou o pr\u00edncipe ao seu cocheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Penso que n\u00e3o est\u00e1 bem, meu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>\u2014 Temes alguma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 Os dem\u00f4nios provaram sangue, e quanto mais v\u00f3s atirardes, mais seu n\u00famero aumentar\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 teu parecer?<\/p>\n<p>\u2014 Se v\u00f3s permitirdes, meu pr\u00edncipe, vou soltar r\u00e9deas aos meus cavalos.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s seguro deles?<\/p>\n<p>\u2014 Eu respondo por eles.<\/p>\n<p>\u2014 E de n\u00f3s, tu respondes?<\/p>\n<p>O cocheiro n\u00e3o disse palavra. Era evidente que n\u00e3o queria se comprometer. Ele soltou r\u00e9dea aos cavalos, em dire\u00e7\u00e3o ao castelo. Lan\u00e7ados com todo f\u00f4lego, aguilhoados pelo terror, os cavalos dobraram a velocidade. A dist\u00e2ncia era literalmente devorada por seus \u00edmpetos desesperados. O cocheiro os excitava ainda por um assobio agudo, ao mesmo tempo que faziam uma curva que devia cortar uma das pontas da meia-lua. Os lobos afastaram-se, para abrir passagem aos cavalos. Os ca\u00e7adores iam disparar, mas o cocheiro gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Por vossa vida, n\u00e3o atireis mais!<\/p>\n<p>Obedeceu-se ao cocheiro.<\/p>\n<p>Aturdidos com aquela manobra inopinada, os lobos permaneceram um instante indecisos. Durante esse instante a troika percorreu um quil\u00f4metro, e quando os lobos voltaram a persegui-la, j\u00e1 era demasiado tarde. N\u00e3o a puderam alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Um quarto de hora depois, estava-se \u00e0 vista do castelo. O pr\u00edncipe calculou que durante esse tempo os cavalos percorreram mais de duas l\u00e9guas. No dia seguinte, visitou a cavalo o campo de batalha e encontrou as ossadas de mais de duzentos lobos.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, n\u00e3o faltam emo\u00e7\u00f5es nesse tipo de ca\u00e7ada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00edncipe Troubetzkoi aproximou-se e deu-me a m\u00e3o. Ele n\u00e3o vinha s\u00f3 para isso, mas tamb\u00e9m para me convidar a uma ca\u00e7a ao lobo no bosque de Gatchina, onde se diz que os lobos s\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[15],"class_list":["post-373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-alexandre-dumas-pai"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=373"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":376,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/373\/revisions\/376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}