{"id":374,"date":"2018-07-05T01:06:26","date_gmt":"2018-07-05T01:06:26","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=374"},"modified":"2018-07-05T01:07:25","modified_gmt":"2018-07-05T01:07:25","slug":"beaudoin-a-la-hache","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/beaudoin-a-la-hache","title":{"rendered":"Beaudoin \u00e0 la Hache"},"content":{"rendered":"<p>Beaudoin o Calvo, conde das Flandres, fez cercar Bruges de muralhas e construiu nelas quatro port\u00f5es. Beaudoin o Jovem a\u00ed estabeleceu as feiras e concedeu grandes privil\u00e9gios aos mercadores. Beaudoin da Bela Barba completou as muralhas e instituiu para administrar a cidade treze fiscais de pre\u00e7os e v\u00e1rios outros conselheiros, que escolheu na burguesia e nos grandes e pequenos of\u00edcios.<\/p>\n<p>Depois veio Beaudoin \u00e0 la Hache, ou Baldu\u00edno do Machado, assim denominado porque tinha o h\u00e1bito de servir-se, em vez da espada, de um machado pesando quinze quilos. Era um severo justiceiro esse conde. A reforma de quase todos os abusos e a puni\u00e7\u00e3o de todos os crimes datam de seus dias. Relatarei dois exemplos da maneira como fazia justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Tr\u00eas mercadores de j\u00f3ias e perfumes, que pelas roupas podiam ser reconhecidos como orientais, dirigiam-se, no ano de 1112, a uma feira que devia ter lugar em Thourout, e pousaram no Hotel da Cruz de Ouro. Sucedeu que no mesmo hotel estava hospedado, com alguns de seus amigos, o Sr. Henry de Calloo, um dos mais ricos e nobres senhores do Pa\u00eds de Gales, o qual precisamente acabara de perder no jogo somas enormes. Por mais rico que fosse, n\u00e3o sabia como pag\u00e1-las. Vendo os mercadores e suas espl\u00eandidas mercadorias, o dem\u00f4nio o tentou, e veio-lhe a id\u00e9ia fatal de apoderar-se de suas j\u00f3ias e dinheiro.<\/p>\n<p>Antes de partir, os mercadores enviaram na frente servidores com o encargo de lhes prepararem os alojamentos. Pensando que n\u00e3o tinham nada a temer, deixaram Bruges duas horas ap\u00f3s seus mensageiros.<br \/>\nHenry de Calloo e seus amigos deixaram que eles tomassem a dianteira. Ent\u00e3o, alcan\u00e7ando-os no momento em que atravessavam um bosque, ca\u00edram sobre eles e os assassinaram. Tendo conduzido os cad\u00e1veres \u00e0 parte mais densa do bosque, apoderaram-se de todo o ouro e j\u00f3ias que os infelizes mercadores tinham consigo.<\/p>\n<p>Entretanto, os servidores, depois de terem tudo preparado para a chegada de seus senhores, vieram aguard\u00e1-los na porta da cidade. Como o tempo corria e os mercadores n\u00e3o chegavam, come\u00e7aram a preocupar-se, e viram ent\u00e3o chegar Henry de Calloo com seus companheiros. Sa\u00edram imediatamente ao seu encontro, para lhes perguntar se, posto que dispunham de t\u00e3o boas montarias, n\u00e3o tinham encontrado e ultrapassado seus senhores. Mas os flamengos responderam, com um ar perfeitamente natural, que n\u00e3o compreendiam essa pergunta, visto que os mercadores, tendo partido de Bruges bem na frente deles, j\u00e1 deveriam ter chegado a Thourout \u00e0quela hora.<\/p>\n<p>Essa resposta redobrou os temores dos criados, que a partir da\u00ed se separaram. Tr\u00eas ficaram na porta da cidade e tr\u00eas voltaram pelo caminho de Bruges. Chegados ao bosque, viram a terra manchada de sangue. Seguiram o rastro, e ap\u00f3s alguns passos dentro do bosque encontraram os tr\u00eas cad\u00e1veres. Ent\u00e3o, sem perder um instante, sem mesmo faz\u00ea-los transportar, foram correndo a Wynendaele, onde estava o conde, para denunciar o crime e pedir-lhe vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Beaudoin ouviu-os com a aten\u00e7\u00e3o e a gravidade que exigia semelhante den\u00fancia. Quando terminaram o relato e o conde lhes tinha feito detalhar todas as circunst\u00e2ncias, perguntou-lhes se n\u00e3o tinham alguma suspeita sobre quais seriam os autores do assassinato. Os pobres servidores entreolharam-se, tremendo e sem ousar responder. Mas interrogados novamente pelo conde de maneira mais premente, responderam que as \u00fanicas pessoas sobre as quais podiam recair suas suspeitas, se lhes era dado ousar suspeitar de poderosos senhores, eram Henry de Calloo e seus dois companheiros.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o era tanto mais grave quanto atingia personagens dos mais elevados. Beaudoin ent\u00e3o ordenou que os denunciantes fossem mantidos sob vigil\u00e2ncia num castelo, enquanto ia sozinho a Thourout. Com efeito, mandou selar seu cavalo, e sem dizer a ningu\u00e9m para onde ia nem permitir que ningu\u00e9m o acompanhasse, partiu a galope. De resto, como era habitual v\u00ea-lo fazer essas expedi\u00e7\u00f5es solit\u00e1rias, e contanto que levasse seu machado, ningu\u00e9m se preocupava. Seus criados viram-no afastar-se ao longe, dizendo entre si:<\/p>\n<p>\u2014 Bem, amanh\u00e3 ouviremos contar alguma coisa de novo.<\/p>\n<p>Atravessando a grande pra\u00e7a de Thourout, Beaudoin notou um grande ajuntamento de povo, que come\u00e7ava a se dissolver. \u00c9 que naquele mesmo lugar acabavam de ser executados dois fals\u00e1rios de moedas, de sorte que os caldeir\u00f5es cheios de azeite fervente, onde haviam sido jogados, estavam ainda l\u00e1. Beaudoin, ao passar, ordenou que se reacendesse o fogo sob os caldeir\u00f5es, a fim de que o azeite se mantivesse num grau de ebuli\u00e7\u00e3o conveniente, e continuou seu caminho.<\/p>\n<p>Chegando ao albergue onde estavam hospedados Henry de Calloo e seus dois companheiros, fez-se reconhecer pelo hospedeiro, e como eles haviam sa\u00eddo, subiu com este ao quarto. Seus cofres estavam no ch\u00e3o e fechados a chave. O conde mandou romper as fechaduras, e a\u00ed encontraram as j\u00f3ias dos mercadores.<\/p>\n<p>Logo Beaudoin fez prender Henry de Calloo e seus dois c\u00famplices. Tendo-os feito conduzir \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, onde os aguardava, interrogou-os com tal severidade que, gra\u00e7as \u00e0s provas que o conde tinha j\u00e1 em m\u00e3os, n\u00e3o ousaram sequer por um instante negar seu crime.<br \/>\nAssim que a confiss\u00e3o foi feita, e sem dar-lhes tempo de tomar nenhuma provid\u00eancia, o conde f\u00ea-los agarrar, vestidos e armados como estavam, e os fez jogar nos caldeir\u00f5es, \u00e0 vista do povo, que teve assim dois espet\u00e1culos no mesmo dia.<\/p>\n<p>Um outro dia, Beaudoin acabava de ter a assembl\u00e9ia de seus Estados em Ypres. Como era uma grande cerim\u00f4nia, e para dar-lhe ainda mais brilho, havia naquele dia armado seis cavaleiros, todos pertencentes \u00e0s mais nobres fam\u00edlias das Flandres. Segundo o juramento habitual, estes haviam prometido dar prote\u00e7\u00e3o aos fracos, \u00e0s vi\u00favas e aos \u00f3rf\u00e3os, mediante o que Beaudoin lhes dera a accolade com suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<br \/>\nConclu\u00edda a cerim\u00f4nia, Beaudoin retornou a seu castelo, acompanhado dos novos cavaleiros que armara. Quando atravessavam a floresta dos seus dom\u00ednios, notou os preparativos de uma festa. Detiveram-se um instante, e viram efetivamente chegar um cortejo de camponeses acompanhando um novo casal. Beaudoin avan\u00e7ou at\u00e9 a esposa, e tirando um anel de seu dedo, entregou-o a ela e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Posto que o acaso conduziu-me pelo vosso caminho, que este acaso seja para v\u00f3s uma provid\u00eancia. Se tiverdes alguma vez necessidade de mim, enviai-me este anel e pedi minha assist\u00eancia, ela n\u00e3o vos faltar\u00e1.<br \/>\nA exemplo dele, cada um dos cavaleiros que o seguia deu um presente \u00e0 jovem, e a cavalgada senhorial retomou o caminho do castelo.<\/p>\n<p>A oportunidade de usar o anel n\u00e3o se fez esperar. No meio de seu primeiro sono, o conde foi acordado por um de seus escudeiros. Mostrando-lhe o anel, este lhe disse que um campon\u00eas ofegante e coberto de p\u00f3 acabava de traz\u00ea-lo da parte da rec\u00e9m-casada da floresta. Beaudoin mandou logo que fosse introduzido o campon\u00eas, que era irm\u00e3o do marido. Relatou que, quando a rec\u00e9m-casada era conduzida \u00e0 nova resid\u00eancia do casal, fora raptada pelos seis novos cavaleiros. O esposo e seus amigos quiseram opor resist\u00eancia, mas como estavam sem armas, foram repelidos. Dois ou tr\u00eas camponeses haviam recebido ferimentos bastante graves, tanto que a pobre jovem n\u00e3o teve sen\u00e3o tempo de jogar o anel, gritando ao seu marido: \u201cLeve este anel ao Conde Beaudoin!\u201d Mas o marido, que quis vingar-se por si mesmo, dera o anel ao seu irm\u00e3o, incumbindo-o da miss\u00e3o. Em seguida, chamando toda a aldeia em seu aux\u00edlio, preparou-se para perseguir os raptores.<\/p>\n<p>Beaudoin, n\u00e3o querendo acreditar em tamanha aud\u00e1cia, subiu aos aposentos dos cavaleiros e os encontrou vazios. Interrogou a sentinela, que confirmou que os cavaleiros haviam sa\u00eddo cerca de uma hora e meia antes.<\/p>\n<p>O conde voltou ao pequeno campon\u00eas, perguntou-lhe para que lado se tinham dirigido os raptores, e este lhe respondeu que tinham tomado o caminho da Maison Rouge, uma taverna muito mal afamada, situada nos arredores do castelo. Beaudoin n\u00e3o duvidou mais que os culpados estivessem l\u00e1. Mandou que dez de seus homens se armassem o mais rapidamente poss\u00edvel e o alcan\u00e7assem, levando pregos e cordas. Quanto a ele, saltou no primeiro cavalo, com o machado \u00e0 m\u00e3o, e dirigiu-se para a taverna suspeita.<br \/>\nLogo que avistou a Maison Rouge, Beaudoin convenceu-se de que n\u00e3o se enganara. O primeiro andar, fortemente iluminado, reboava com gargalhadas, impreca\u00e7\u00f5es e blasf\u00eamias, enquanto o andar t\u00e9rreo estava escuro, mudo e solit\u00e1rio. Beaudoin apeou, amarrou seu cavalo a uma das argolas da parede e bateu \u00e0 porta. Mas depois da terceira vez, vendo que ningu\u00e9m vinha atend\u00ea-lo, arrombou a porta com um ponta-p\u00e9 e entrou.<\/p>\n<p>O andar inferior estava solit\u00e1rio e escuro. Guiado pelas vozes que ouvia, Beaudoin subiu a escada e logo achou-se diante da porta do recinto do qual provinha todo o barulho. A chave estava na fechadura, pois os cavaleiros acreditavam estar suficientemente protegidos pelas precau\u00e7\u00f5es que tomaram no andar t\u00e9rreo. Beaudoin abriu a porta sem dificuldade, lan\u00e7ou um olhar r\u00e1pido pelo quarto e viu a jovem fortemente amarrada, enquanto seus raptores jogavam dados para ver a quem ela pertenceria.<br \/>\nA apari\u00e7\u00e3o de Beaudoin foi como um raio para os culpados. Lan\u00e7aram um grito de terror, ao qual a jovem respondeu por um grito de alegria. Pelos olhares que Beaudoin dardejava, viram logo que estariam perdidos se n\u00e3o fugissem o mais depressa poss\u00edvel. Precipitaram-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escada, mas o conde postou-se diante da porta, com seu machado \u00e0 m\u00e3o, amea\u00e7ando fender a cabe\u00e7a do primeiro que fizesse qualquer movimento. Todos permaneceram im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Nesse momento, Beaudoin viu fora a luz das tochas e ouviu o galope dos cavalos que conduziam seus homens de armas.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui! \u2014 gritou-lhes ele.<\/p>\n<p>Entraram pela porta arrombada, subiram a escada e apareceram detr\u00e1s do conde.<\/p>\n<p>\u2014 Tendes os pregos e as cordas?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, meu senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Fixai seis pregos nesta trave e preparai seis cordas.<\/p>\n<p>Os cavaleiros empalideceram, vendo bem que tudo estava terminado para eles. Alguns come\u00e7aram a pedir perd\u00e3o, outros a se confessar em voz alta. Mas Beaudoin, sem dar-lhes ouvidos, apressava a montagem, de modo que depois de alguns minutos os pregos estavam afixados e os n\u00f3s corredi\u00e7os prontos.<br \/>\nEnt\u00e3o fez colocar um banco debaixo das cordas, e ordenou aos seis cavaleiros que subissem no banco. Uns obedeceram com resigna\u00e7\u00e3o, outros quiseram oferecer resist\u00eancia, mas uns e outros acabaram subindo. Ao cabo de um instante, os seis cavaleiros tinham a corda ao pesco\u00e7o. Beaudoin lan\u00e7ou um \u00faltimo olhar sobre eles, para ver se estava tudo bem em ordem. Depois, satisfeito com a inspe\u00e7\u00e3o, afastou o banco com um ponta-p\u00e9, e os seis cavaleiros acharam-se bem e devidamente enforcados.<\/p>\n<p>Nisto ouviu-se um grande alarido. Era o marido, que chegava com todos os jovens da aldeia, armados de picaretas e forcados. Beaudoin f\u00ea-los entrar todos no quarto, mostrando-lhes de um lado a jovem, que devolvia a seu esposo, virgem como havia sido raptada, e de outro os culpados j\u00e1 punidos. A justi\u00e7a do conde andara mais depressa que a vingan\u00e7a do marido.<\/p>\n<p>Beaudoin morreu deixando a Carlos da Dinamarca o seu Condado de Flandres, em recompensa pelos grandes servi\u00e7os que este prestara aos crist\u00e3os na Palestina. Carlos da Dinamarca, depois chamado Carlos o Bom, era filho de S\u00e3o Canuto, Rei da Dinamarca, e de Ad\u00e9lia da Fr\u00edsia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beaudoin o Calvo, conde das Flandres, fez cercar Bruges de muralhas e construiu nelas quatro port\u00f5es. Beaudoin o Jovem a\u00ed estabeleceu as feiras e concedeu grandes privil\u00e9gios aos mercadores. Beaudoin da Bela Barba completou as&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[15],"class_list":["post-374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-alexandre-dumas-pai"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=374"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":377,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/374\/revisions\/377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}