{"id":378,"date":"2018-07-05T01:08:45","date_gmt":"2018-07-05T01:08:45","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=378"},"modified":"2018-07-05T01:16:27","modified_gmt":"2018-07-05T01:16:27","slug":"woodstown","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/woodstown","title":{"rendered":"Wood\u2019stown"},"content":{"rendered":"<p>O lugar era magn\u00edfico para construir uma cidade. Seria preciso, apenas, limpar as margens do rio, abatendo uma parte da floresta, da imensa floresta virgem enraizada ali desde o nascimento do mundo. Ent\u00e3o, abrigada em volta por colinas arborizadas, a cidade desceria at\u00e9 o cais de um porto magn\u00edfico, instalado na foz do Rio Vermelho, a somente quatro milhas do mar.<\/p>\n<p>Assim que o governo de Washington deu a concess\u00e3o, carpinteiros e lenhadores puseram-se ao trabalho; mas voc\u00ea nunca viu uma floresta parecida. Enganchada ao solo por todos os seus cip\u00f3s, por todas as suas ra\u00edzes, quando n\u00f3s abat\u00edamos de um lado, ela crescia do outro, rejuvenescendo de seus ferimentos; e cada golpe de machado fazia sair brotos verdes. As ruas, os lugares da cidade rec\u00e9m tra\u00e7ados eram invadidos pela vegeta\u00e7\u00e3o. As paredes cresciam mais devagar do que as \u00e1rvores e, assim que constru\u00eddas, desabavam sob o esfor\u00e7o das ra\u00edzes sempre vivas.<\/p>\n<p>Para vencer esta resist\u00eancia na qual diminu\u00edam o ferro dos machados e dos grandes machados, fomos obrigados a recorrer ao fogo. Dia e noite uma fuma\u00e7a sufocante encheu a densidade das clareiras, enquanto as grandes \u00e1rvores flambavam como c\u00edrios. A floresta ainda tentou lutar, retardando o inc\u00eandio com enxurradas de seiva e com a frescura sem pressa de suas folhagens. Finalmente chegou o inverno. A neve caiu como uma segunda morte sobre os grandes terrenos cheios de troncos enegrecidos, de ra\u00edzes consumidas. De agora em diante, poder\u00edamos construir.<\/p>\n<p>Logo uma cidade imensa, toda em madeira como Chicago, estendia-se pelas margens do Rio Vermelho, com suas grandes ruas alinhadas, numeradas, dispostas em c\u00edrculo em torno das pra\u00e7as, sua Bolsa, seus mercados, suas igrejas, suas escolas e toda uma aparelhagem mar\u00edtima de galp\u00f5es, de alf\u00e2ndegas, de docas, de entrepostos, de canteiros de constru\u00e7\u00e3o para os navios. A cidade de madeira, Wood\u2019stown \u2013 como a cham\u00e1vamos \u2013 foi rapidamente povoada pelos ocupantes de cidades novas. Uma atividade febril propagou-se por todos os seus bairros; por\u00e9m, sobre as colinas circundantes, dominando as ruas cheias de pessoas e o porto abarrotado de navios, uma massa sombria e amea\u00e7adora se estendia em semic\u00edrculo. Era a floresta que olhava.<\/p>\n<p>Ela olhava esta cidade insolente, que havia tomado seu lugar \u00e0 margem do rio, e tr\u00eas mil \u00e1rvores gigantescas. Toda Wood\u2019stown estava feita com sua vida. Os altos mastros que se balan\u00e7avam ao longe no porto, estes telhados inumer\u00e1veis abaixados uns em dire\u00e7\u00e3o aos outros, at\u00e9 a \u00faltima cabana do mais afastado sub\u00farbio, ela havia fornecido tudo, mesmo os instrumentos de trabalho, mesmo os m\u00f3veis, medindo seus servi\u00e7os somente pelo comprimento dos galhos. Por isso que rancor terr\u00edvel ela guardava contra esta cidade de ladr\u00f5es!<\/p>\n<p>Enquanto o inverno durou, n\u00e3o nos apercebemos de coisa alguma. As pessoas de Wood\u2019stown ouviam \u00e0s vezes um estralo surdo nos seus telhados, nos seus m\u00f3veis. De tempos em tempos, uma parede rachava, ou o balc\u00e3o de loja partia-se em dois ruidosamente. Mas a madeira nova est\u00e1 sujeita a esses acidentes e ningu\u00e9m dava import\u00e2ncia a isso. Entretanto, \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o da primavera \u2013 uma primavera s\u00fabita, violenta, t\u00e3o rica de seiva que n\u00f3s sent\u00edamos sob a terra um murm\u00fario de fontes \u2013 o solo come\u00e7ou a se agitar, soerguido por for\u00e7as invis\u00edveis e ativas. Em cada casa, os m\u00f3veis, as paredes inchavam, e n\u00f3s v\u00edamos sobre os assoalhos longos incha\u00e7os como com a passagem de uma toupeira. Nem portas, nem janelas, nada mais funcionava. \u2013 \u201c\u00c9 a umidade, diziam os habitantes. Com o calor, isto passar\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>De repente, no dia seguinte a um grande temporal vindo do mar, que trouxera o ver\u00e3o nos seus rel\u00e2mpagos brilhantes e na sua chuva morna, a cidade ao despertar soltou um grito de estupefa\u00e7\u00e3o. Os telhados vermelhos dos monumentos p\u00fablicos, os campan\u00e1rios das igrejas, o soalho das casas e at\u00e9 a madeira das camas, tudo estava salpicado com uma cor verde, fina como o mofo, leve como uma renda. De perto, era uma quantidade de brotos microsc\u00f3picos, onde j\u00e1 se via o enrolamento de folhas. Essa esquisitice da chuva divertiu sem inquietar; mas, antes da noite, buqu\u00eas de verdura desabrochavam por tudo, sobre m\u00f3veis, sobre as paredes. Os ramos cresciam a olhos vistos; levemente retidos na m\u00e3o, n\u00f3s os sent\u00edamos crescer e debaterem-se como asas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, todos os apartamentos tinham o ar de estufas. Cip\u00f3s acompanhavam os corrim\u00e3os da escada. Nas ruas estreitas, galhos uniam-se de um telhado a outro, recobrindo a cidade barulhenta com a sombra das avenidas florestais. Isto se tornava inquietante. Enquanto os s\u00e1bios reunidos deliberavam sobre o caso da vegeta\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, a multid\u00e3o comprimia-se do lado de fora para ver os diferentes aspectos do milagre. Os gritos de surpresa, o rumor assombrado de todo este povo inativo dava solenidade a este estranho acontecimento. Subitamente, algu\u00e9m gritou: \u201cOlhem para floresta\u201d e n\u00f3s percebemos com terror que em de dois dias o semic\u00edrculo verdejante aproximara-se muito. A floresta tinha o ar de descer em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Toda uma vanguarda de espinheiros, de cip\u00f3s se alongava at\u00e9 as primeiras casas dos sub\u00farbios.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Wood\u2019stown come\u00e7ou a compreender e a ter medo. Evidentemente a floresta vinha reconquistar seu lugar \u00e0 margem do rio; e suas \u00e1rvores, derrubadas, dispersadas, transformadas, libertavam-se para ir a frente delas. Como resistir \u00e0 invas\u00e3o? Com o fogo, n\u00f3s nos arrisc\u00e1vamos a incendiar a cidade inteira. E que podiam os machados contra esta seiva que renascia sem cessar, essas ra\u00edzes monstruosas atacando embaixo o solo, essas milhares de sementes voadoras que germinavam ao se abrir e faziam crescer uma \u00e1rvore por tudo onde elas ca\u00edam?<\/p>\n<p>No entanto, todo mundo se p\u00f4s ao trabalho corajosamente com foices, com ancinhos, com machados; e derrubaram uma grande quantidade de ramos. Mas em v\u00e3o. De hora em hora a confus\u00e3o de florestas virgens, onde o entrela\u00e7amento de cip\u00f3s unia entre si brotos gigantescos, invadia as ruas de Wood\u2019stown. A partir de agora os insetos e os r\u00e9pteis faziam irrup\u00e7\u00e3o. Havia ninhos em todos os cantos, e grandes bater de asas, e massas de pequenos bicos tagarelas. Em uma noite os celeiros da cidade foram esvaziados por todas as ninhadas rec\u00e9m-nascidas. Em seguida, como por ironia no meio deste desastre, borboletas de todos os tamanhos, de todas as cores, voavam sobre os cachos floridos, e as previdentes abelhas, que procuravam abrigos seguros, instalavam, nos ocos destas \u00e1rvores rapidamente desenvolvidas, seus favos de mel como uma prova de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vagamente, pela onda barulhenta de ramos, escut\u00e1vamos os golpes surdos dos machados e dos grandes machados; mas, no quarto dia, qualquer trabalho foi reconhecido imposs\u00edvel. A grama estava alta demais, densa demais. Os cip\u00f3s de trepadeira se enroscavam nos bra\u00e7os de lenhadores, reprimindo seus movimentos. Ali\u00e1s, as casas tinham se tornado inabit\u00e1veis; os m\u00f3veis, carregados de folhas, haviam perdido suas formas. Os tetos desabavam, transpassados pela lan\u00e7a dos i\u00facas, o longo espinho dos mognos; e no lugar de telhados esparramava-se a imensa c\u00fapula dos carvalhos. Acabou. Tinham de fugir.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da rede de plantas e de galhos de \u00e1rvores, que se estreitava cada vez mais, as pessoas de Wood\u2019stown apavorados se precipitaram em dire\u00e7\u00e3o ao rio, carregando o m\u00e1ximo que podiam de riquezas, de objetos preciosos. Mas que dificuldade para alcan\u00e7ar a margem! N\u00e3o havia mais cais. Nada al\u00e9m de gigantescos juncos. Os canteiros mar\u00edtimos, onde se guardava a madeira de constru\u00e7\u00e3o, foram substitu\u00eddos por florestas de pinheiros; e no porto, cheio de flores, os novos navios pareciam ilhotas de verdura. Felizmente havia algumas fragatas blindadas sobre as quais a multid\u00e3o se refugiou e de onde ela p\u00f4de ver a velha floresta unir-se vitoriosamente \u00e0 floresta nova.<\/p>\n<p>Pouco a pouco as \u00e1rvores confundiram suas copas e, sob o c\u00e9u azul e ensolarado, a enorme massa de copas se estendeu das margens do rio ao horizonte distante. Nenhum tra\u00e7o da cidade, nem tos tetos, nem das paredes. De tempos em tempos um barulho surdo de desabamento, \u00faltimo eco da ru\u00edna, ou o golpe de machado de algum lenhador enraivecido, ressoava sob a profundidade da folhagem. Depois, nada mais que o sil\u00eancio vibrante, barulhento, sussurrante, nuvens de borboletas brancas voavam em c\u00edrculos sobre a margem deserta, e, ao longe, em dire\u00e7\u00e3o ao alto mar, um navio que fugia, com tr\u00eas grandes \u00e1rvores verdes podadas no meio de suas velas, levando os \u00faltimos emigrantes do que fora Wood\u2019stown\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lugar era magn\u00edfico para construir uma cidade. Seria preciso, apenas, limpar as margens do rio, abatendo uma parte da floresta, da imensa floresta virgem enraizada ali desde o nascimento do mundo. 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