{"id":379,"date":"2018-07-05T01:10:28","date_gmt":"2018-07-05T01:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=379"},"modified":"2019-02-12T22:27:24","modified_gmt":"2019-02-12T22:27:24","slug":"a-ultima-aula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-ultima-aula","title":{"rendered":"A \u00daltima Aula"},"content":{"rendered":"<p>Nessa manh\u00e3 eu me atrasara muito para ir \u00e0 escola, e receava uma reprimenda do sr. Hamel, porquanto nos mandara estudar os partic\u00edpios e eu n\u00e3o sabia literalmente nada. Estive quase para faltar \u00e0 aula e dar um passeio atrav\u00e9s dos campos.<\/p>\n<p>Como o dia estava luminoso e c\u00e1lido!<\/p>\n<p>Os melros gorjeavam \u00e0 beira do bosque, e no prado Rippert, por tr\u00e1s da serraria, ouviam-se as manobras militares dos prussianos. Tudo isso me seduzia muito mais que estudar os partic\u00edpios; mas resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, e parti correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escola.<\/p>\n<p>Ao passar em frente da prefeitura, notei que havia gente parada perto do pequeno quadro onde costumavam afixar os comunicados. Havia dois anos que dali nos vinham todas as m\u00e1s not\u00edcias: as batalhas perdidas, as requisi\u00e7\u00f5es, as ordens do comando; e, sem me deter, pensei: \u201cQue mais teremos ainda?\u201d<\/p>\n<p>Nesse momento, como atravessasse a pra\u00e7a correndo, o ferreiro Wachter, que l\u00e1 estava com o aprendiz, para ler o comunicado, gritou-me:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o te afobes tanto, pequeno; vais ter tempo de sobra para chegar \u00e0 escola!<\/p>\n<p>Pensei que estava a ca\u00e7oar de mim, e entrei esbaforido no pequeno p\u00e1tio do sr. Hamel.<\/p>\n<p>Geralmente, ao come\u00e7ar a aula, a algazarra era t\u00e3o grande que chegava at\u00e9 a rua: carteiras que se abriam e fechavam, li\u00e7\u00f5es que todos repetiam em voz alta e ao mesmo tempo, tapando os ouvidos para aprender melhor, e a pesada r\u00e9gua do professor batendo no tampo das carteiras:<br \/>\n\u2013 Pouco barulho!<\/p>\n<p>Eu contava com toda essa confus\u00e3o para chegar ao meu lugar sem ser visto; mas precisamente nesse dia tudo estava silencioso como numa manh\u00e3 de domingo. Pela janela aberta, eu via os colegas, j\u00e1 sentados em seus lugares, e o sr. Hamel, caminhando para c\u00e1 e para l\u00e1, com a enorme r\u00e9gua de ferro debaixo do bra\u00e7o. N\u00e3o tive outro rem\u00e9dio sen\u00e3o abrir a porta e afrontar aquele pesado sil\u00eancio. Imaginem qual n\u00e3o seria o meu medo e a minha vergonha!<\/p>\n<p>Mas qual! 0 sr. Hamel olhou-me sem irrita\u00e7\u00e3o, e, em tom brando, me disse:<br \/>\n\u2013 Senta-te depressa, meu pequeno Franz; \u00edamos come\u00e7ar sem ti.<\/p>\n<p>Caminhei para o meu lugar e sentei-me. S\u00f3 ent\u00e3o, j\u00e1 um pouco refeito do susto, \u00e9 que notei que o mestre envergava sua bonita casaca verde, sua fina camisa pregueada e o gorro de seda preta bordada, que s\u00f3 costumava usar nos dias de exame ou de distribui\u00e7\u00e3o de pr\u00eamios. Al\u00e9m disso, toda a sala tinha um n\u00e3o sei qu\u00ea de extraordin\u00e1rio e de solene. Mas o que mais me admirou foi ver, ao fundo da sala, nos bancos habitualmente vazios, gente da aldeia, sentada e silenciosa como n\u00f3s, o velho Hauser com o seu tric\u00f3rnio, o antigo prefeito, o antigo carteiro, e outras pessoas mais. Todos pareciam tristes; e Hauser trouxera um velho abeced\u00e1rio comido nas margens, que segurava bem aberto em cima dos joelhos, com os grossos \u00f3culos pousados de esguelha sobre as p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Enquanto eu olhava espantado para tudo aquilo, o sr. Hamel subiu \u00e0 c\u00e1tedra, e com a mesma voz doce e grave com que me recebera, nos disse:<br \/>\n\u2013 Meus filhos, \u00e9 esta a \u00faltima vez que lhes dou aula. Chegou uma ordem de Berlim para se ensinar s\u00f3 alem\u00e3o nas escolas da Als\u00e1cia e da Lorena\u2026 0 novo professor chega amanh\u00e3. Hoje \u00e9 a nossa \u00faltima li\u00e7\u00e3o de franc\u00eas. Pe\u00e7o-lhes manter toda a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas poucas palavras deixaram-me aturdido. Ah! Os miser\u00e1veis! Sabia agora o que eles tinham afixado na prefeitura!<\/p>\n<p>A minha \u00faltima li\u00e7\u00e3o de franc\u00eas!\u2026<\/p>\n<p>E eu, que mal sabia escrever! Era claro que n\u00e3o mais aprenderia\u2026 Ia ficar onde estava!\u2026 Como lamentava agora o tempo perdido, as aulas gazeteadas para correr atr\u00e1s dos ninhos ou escorregar pelo Saar! Os livros, que sempre achara t\u00e3o ma\u00e7udos, t\u00e3o dif\u00edceis de carregar, a minha gram\u00e1tica, a minha hist\u00f3ria sagrada, pareciam-me agora velhos amigos que teria muita pena de deixar. Tal como o sr. Hamel. A id\u00e9ia de que ele ia partir, de que n\u00e3o voltaria a v\u00ea-lo, fazia-me esquecer todos os castigos, todas as reguadas.<\/p>\n<p>Pobre homem!<\/p>\n<p>Fora em honra dessa \u00faltima aula que ele vestira a melhor roupa, e eu compreendia agora por que essa velha gente tinha vindo sentar-se ao fundo da sala. Isso parecia dizer que lamentavam n\u00e3o ter vindo com mais freq\u00fc\u00eancia \u00e0 escola. Dir-se-ia uma maneira de agradecer ao velho mestre os quarenta anos de bons servi\u00e7os e o cumprimento dos deveres para com a p\u00e1tria que se ia\u2026<\/p>\n<p>Estava nesse ponto de minhas reflex\u00f5es, quando ouvi chamar por mim. Era a minha vez de dar a li\u00e7\u00e3o. 0 que n\u00e3o teria eu dado para saber dizer tudo a respeito dessa famosa regra dos partic\u00edpios, bem alto, bem claro, sem um erro! Mas atrapalhei-me logo \u00e0s primeiras palavras, e fiquei de p\u00e9, a balan\u00e7ar o corpo de um lado para o outro, angustiado, de cabe\u00e7a baixa. Ouvia o sr. Hamel dizer-me:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o vou ralhar contigo, meu pequeno Franz: j\u00e1 est\u00e1s bem castigado\u2026 \u00c9 isso mesmo! Dizemos todos os dias: \u201cOra! Tenho muito tempo. Estudarei amanh\u00e3\u201d. E depois j\u00e1 v\u00eas o que acontece\u2026 Ah! essa tem sido a grande desgra\u00e7a da nossa Als\u00e1cia, adiar sempre a instru\u00e7\u00e3o para o dia de amanh\u00e3. Agora, essa gente est\u00e1 no direito de nos vir dizer: \u201cMas como! Voc\u00eas queriam ser franceses, e nem ao menos sabem ler e escrever a sua l\u00edngua!\u201d No meio de tudo isso, meu pobre Franz, n\u00e3o \u00e9s tu ainda o mais culpado. Todos n\u00f3s temos alguma coisa a censurar-nos.<br \/>\n\u201cSeus pais n\u00e3o se preocuparam como deviam com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos. Preferiam mand\u00e1-los trabalhar na terra ou na f\u00e1brica, para poderem ter uns soldos a mais. E eu mesmo, ser\u00e1 que nada tenho a censurar-me: N\u00e3o os mandei muitas vezes regar o jardim, em vez de estudar? E quando queria ir pescar trutas, importei-me alguma vez de lhes dar feriado?\u2026\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, variando de um assunto a outro, o sr. Hamel p\u00f4s-se a falar-nos da l\u00edngua francesa, dizendo que era a mais bela do mundo, a mais clara e expressiva; que era preciso conserv\u00e1-la entre n\u00f3s e n\u00e3o esquec\u00ea-la nunca, porque, quando um povo se torna escravo, enquanto conservar a sua l\u00edngua, \u00e9 como se tivesse a chave da pris\u00e3o\u2026 Pegou depois numa gram\u00e1tica e leu-nos a li\u00e7\u00e3o. Admirava-me de ver entendia bem. Tudo o que ele dizia me parecia f\u00e1cil, f\u00e1cil\u2026 Tamb\u00e9m creio que nunca escutara com tanto interesse e que ele, por sua vez, jamais explicara com tanta paci\u00eancia. Dir-se-ia que, antes de deixar-nos, o pobre homem nos queria dar todo o seu saber, faze-lo entrar em nossa cabe\u00e7a de uma vez para sempre.<\/p>\n<p>Terminada a li\u00e7\u00e3o, passou-se \u00e0 escrita. Para esse dia, o sr. Hamel preparara-nos exemplos completamente novos, sobre os quais estava escrito em grande letra caprichada: \u201cFran\u00e7a, Als\u00e1cia, Fran\u00e7a, Als\u00e1cia\u201d. Eram como pequenas bandeiras que flutuassem em torno da classe, suspensas da arma\u00e7\u00e3o de ferro das carteiras. Dava gosto ver como cada um se aplicava, e que sil\u00eancio! S\u00f3 se ouvia o ringir das penas no papel. A certa altura entraram besouros na sala; mas ningu\u00e9m reparou neles, nem mesmo os menores, aplicados como estavam a tra\u00e7ar seus gatafunhos, com tal vontade e convic\u00e7\u00e3o, como se isso tamb\u00e9m fosse franc\u00eas\u2026 No forro da escola, pombos arrulhavam baixinho, e eu me dizia, ouvindo-os:<br \/>\n\u2013 Ir\u00e3o obrig\u00e1-los, tamb\u00e9m a eles, a cantar em alem\u00e3o?<\/p>\n<p>De vez em quando, ao erguer os olhos do papel, via o sr. Hamel im\u00f3vel na cadeira e fixando os objetos em torno, como se quisesse guardar para sempre na retina toda a sua pequena escola\u2026 Imaginem! H\u00e1 quarenta anos que aquele homem estava ali, naquele mesmo lugar, com o p\u00e1tio \u00e0 sua frente e aquela sala que n\u00e3o mudara. Apenas os bancos e as carteiras se tinham polido com o tempo, lustrados pelo uso; as nogueiras do recreio haviam crescido, e a trepadeira, que ele mesmo plantara, engrinaldava agora as janelas at\u00e9 o teto. Que desgosto n\u00e3o devia ser para o pobre homem ter que deixar todas aquelas coisas, e ouvir a irm\u00e3 que ia e vinha, no aposento de cima, atarefada a preparar as malas! Porque deviam partir no dia seguinte, deixar aquela terra para sempre.<\/p>\n<p>Assim mesmo, teve coragem de dar a aula at\u00e9 o fim. Depois da escrita, veio a li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria; em seguida os mais novos cantaram o b\u00e1 b\u00e9 bi b\u00f3 bu. L\u00e1 no fundo da sala, o velho Hauser pusera os \u00f3culos e, segurando o abeced\u00e1rio com as duas m\u00e3os, soletrava com eles. Via-se que tamb\u00e9m ele estava atento. A voz tremia-lhe de emo\u00e7\u00e3o, e era t\u00e3o engra\u00e7ado ouvi-lo, que t\u00ednhamos todos vontade de rir e chorar. Ah! Lembrar-me-ei para sempre dessa \u00faltima aula\u2026<\/p>\n<p>De repente, o rel\u00f3gio da torre bateu meio-dia, depois o \u00e2ngelus. No mesmo instante, as trombetas dos prussianos que voltavam das manobras ressoaram sob as janelas\u2026 0 sr. Hamel ergueu-se da cadeira, muito p\u00e1lido: nunca ele me parecera t\u00e3o alto.<br \/>\n\u2013 Meus amigos \u2013 disse ele -, meus amigos, eu\u2026 eu\u2026<\/p>\n<p>Mas algo lhe embargava a voz. N\u00e3o podia terminar a frase.<\/p>\n<p>Virou-se ent\u00e3o para o quadro, pegou um bocado de giz e, firmando-o com toda a for\u00e7a, escreveu na maior letra que pode: \u201cVIVA A FRAN\u00c7A!\u201d<\/p>\n<p>Depois ali ficou, com a cabe\u00e7a apoiada na parede, e, sem falar, acenava-nos com a m\u00e3o: \u201cAcabou&#8230; Podem sair\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa manh\u00e3 eu me atrasara muito para ir \u00e0 escola, e receava uma reprimenda do sr. Hamel, porquanto nos mandara estudar os partic\u00edpios e eu n\u00e3o sabia literalmente nada. 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