{"id":380,"date":"2018-07-05T01:15:15","date_gmt":"2018-07-05T01:15:15","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=380"},"modified":"2018-07-05T01:16:27","modified_gmt":"2018-07-05T01:16:27","slug":"o-mau-zuado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-mau-zuado","title":{"rendered":"O Mau Zuado"},"content":{"rendered":"<p>O forte ferreiro Lory, de Santa Maria das Minas, n\u00e3o estava contente naquela noite.<\/p>\n<p>Habitualmente, t\u00e3o logo apagada a forja, posto o sol, ele se sentava num banco diante da porta, para saborear essa boa lassid\u00e3o que d\u00e1 o peso do trabalho e do dia quente, e, antes de dispensar os aprendizes, bebia com eles grandes goles de cerveja fresca, olhando a sa\u00edda das f\u00e1bricas. Mas naquela tarde o bom homem permaneceu na forja, at\u00e9 o momento de se p\u00f4r \u00e0 mesa; e ainda o fez a contragosto. A velha Lory, observando-o, pensava:<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe estar\u00e1 acontecendo?\u2026 Provavelmente recebeu do regimento alguma not\u00edcia m\u00e1, que n\u00e3o quer me dizer\u2026 Nosso filho mais velho talvez esteja doente\u2026<\/p>\n<p>Contudo, ela nada ousava perguntar, e se ocupava apenas em fazer calar tr\u00eas crian\u00e7as louras, da cor de espigas queimadas, que riam em torno da toalha, mastigando uma boa salada de rabanetes negros com creme.<\/p>\n<p>Por fim o ferreiro pousou seu guardanapo, col\u00e9rico:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que mendigos! Ah! que canalhas!\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Que tens tu, Lory?<\/p>\n<p>Ele explodiu:<\/p>\n<p>\u2014 Que tenho? \u00c9 que cinco ou seis palha\u00e7os andam a rodar desde manh\u00e3 pela cidade, vestidos de soldados franceses, de bra\u00e7o dado com os b\u00e1varos\u2026 E ainda por cima com aqueles que\u2026 como se diz isso?\u2026 optaram pela nacionalidade prussiana\u2026 E dizer que todos os dias vemos voltar esses falsos alsacianos!\u2026<br \/>\nA m\u00e3e tentou defend\u00ea-los:<\/p>\n<p>\u2014 Que queres, meu pobre homem? N\u00e3o \u00e9 totalmente culpa desses mo\u00e7os\u2026 \u00c9 t\u00e3o longe essa Arg\u00e9lia da \u00c1frica, para onde os mandam!\u2026 Eles sofrem do \u201cmal do pa\u00eds distante\u201d; e a tenta\u00e7\u00e3o de voltar, de n\u00e3o serem mais soldados, \u00e9 bem forte entre eles\u2026<\/p>\n<p>Lory deu um grande murro na mesa:<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te, m\u00e3e!\u2026 Voc\u00eas, mulheres, n\u00e3o entendem nada. \u00c0 for\u00e7a de viver sempre com as crian\u00e7as e exclusivamente para elas, reduzem tudo \u00e0 medida da crian\u00e7ada\u2026 Pois bem, digo-te que aqueles homens s\u00e3o ordin\u00e1rios, renegados, os \u00faltimos dos covardes. Se por infelicidade nosso Cristiano fosse capaz de semelhante inf\u00e2mia, t\u00e3o verdade como me chamo Georges Lory e servi sete anos nos ca\u00e7adores da Fran\u00e7a, eu o atravessaria com o meu sabre.<\/p>\n<p>E terr\u00edvel, meio erguido, o ferreiro mostrava o longo sabre de ca\u00e7ador pendurado \u00e0 parede, por baixo do retrato do filho, um retrato de zuavo, tirado longe, na \u00c1frica; mas, ao ver essa honesta fei\u00e7\u00e3o de alsaciano, toda negra e curtida de sol, nessas alvuras, nesse diluir-se das cores vivas \u00e0 luz intensa, isto o acalmou subitamente, e ele se p\u00f4s a rir:<\/p>\n<p>\u2014 Sou tolo de perder a cabe\u00e7a\u2026 Como se nosso Cristiano pudesse pensar em se tornar prussiano, ele que sofreu tanto durante a guerra!\u2026<\/p>\n<p>Reposto no bom humor por essa id\u00e9ia, o bom homem acabou de jantar alegremente e se foi, logo depois, esvaziar um par de chopes no \u201cCidade Strasbourg\u201d.<\/p>\n<p>Agora a velha Lory est\u00e1 sozinha. Depois de ter deitado os tr\u00eas lourinhos que chilreiam no quarto do lado, como um ninho que adormece, ela retoma seu trabalho diante da porta, do lado dos jardins. De vez em quando, suspira e pensa: \u201cSim, concordo. S\u00e3o covardes, renegados\u2026 mas n\u00e3o importa! Suas m\u00e3es s\u00e3o bem felizes de os reaverem\u201d.<\/p>\n<p>Ela se lembra do tempo em que seu filho, antes de partir para se engajar no ex\u00e9rcito, estava ali, nessa mesma hora do dia, come\u00e7ando a cuidar do jardinzinho. Ela olha para o po\u00e7o onde ele vinha encher os regadores, de blusa, os cabelos longos, os belos cabelos que lhe tinham cortado ao entrar para os zuavos\u2026<br \/>\nDe s\u00fabito, ela estremece. A portinhola do fundo, aquela que d\u00e1 para os campos, est\u00e1 aberta. Os c\u00e3es n\u00e3o latiram; entretanto, aquele que acaba de entrar renteia os muros, como um ladr\u00e3o, insinua-se entre as colm\u00e9ias\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Bom-dia, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>Seu Cristiano est\u00e1 de p\u00e9 diante dela, com o uniforme em desordem, envergonhado, confuso, a l\u00edngua presa. O infeliz voltara ao pa\u00eds com os outros; h\u00e1 uma hora, perambula em torno da casa, esperando a sa\u00edda do pai, para entrar. Ela queria censur\u00e1-lo, mas n\u00e3o tem coragem. H\u00e1 tanto tempo n\u00e3o o v\u00ea, que nem o abra\u00e7a! Em seguida ele lhe d\u00e1 t\u00e3o boas raz\u00f5es: que se aborrecia distante da regi\u00e3o, da forja, de viver sempre longe deles; e com isso a disciplina tornada mais dura, ao lado de companheiros que o chamavam \u201cprussiano\u201d, por causa do seu acento da Als\u00e1cia. Em tudo que ele diz, ela cr\u00ea. N\u00e3o precisa sen\u00e3o olhar, para crer.<br \/>\nSempre conversando, eles entraram na sala baixa. Os pequenos, despertados, acorrem, p\u00e9s nus, em camisa, para abra\u00e7ar o irm\u00e3o grande. Querem faz\u00ea-lo comer, mas ele n\u00e3o tem fome. Somente sede, sempre sede, e bebe grandes goles d\u2019\u00e1gua, em cima de todas as rodadas de cerveja e vinho branco de que se serviu desde manh\u00e3 no botequim.<\/p>\n<p>Mas algu\u00e9m caminha no p\u00e1tio. \u00c9 o ferreiro que volta.<\/p>\n<p>\u2014 Cristiano, teu pai est\u00e1 chegando. Depressa, esconde-te, para que eu tenha tempo de lhe falar, de explicar-lhe\u2026<\/p>\n<p>Ela o empurra para tr\u00e1s do grande fog\u00e3o de faian\u00e7a, depois se p\u00f5e a coser, com as m\u00e3os tr\u00eamulas. Por infelicidade, a t\u00fanica vermelha do zuavo ficou em cima da mesa, e \u00e9 a primeira coisa que Lory v\u00ea ao entrar. A palidez da m\u00e3e, seu embara\u00e7o\u2026 Ele compreende tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Cristiano est\u00e1 aqui!\u2026 \u2014 diz, com voz terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Arranca o sabre com um gesto louco, e se precipita para o fog\u00e3o onde o zuavo est\u00e1 enfurnado, l\u00edvido, dissipada a bebedeira, apoiando-se \u00e0 parede, de medo de cair. A m\u00e3e se lan\u00e7a entre eles:<\/p>\n<p>\u2014 Lory, Lory, n\u00e3o o mates\u2026 Fui eu que lhe escrevi, que voltasse, que tu tinhas necessidade dele na forja\u2026<\/p>\n<p>Ela se aferra ao seu bra\u00e7o, se arrasta, solu\u00e7a. No escuro do quarto, as crian\u00e7as gritam ao ouvir essas vozes encolerizadas e lacrimosas, t\u00e3o alteradas que n\u00e3o as reconhecem mais\u2026 O ferreiro se det\u00e9m, e olhando para a mulher:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! foste tu que o fizeste voltar\u2026 Ent\u00e3o, est\u00e1 bem; que ele se v\u00e1 deitar. Verei amanh\u00e3 o que tenho de fazer.<\/p>\n<p>No dia seguinte, despertando de um pesado sono cheio de pesadelos e de terrores sem causa, Cristiano encontrou-se em seu quarto de crian\u00e7a. Atrav\u00e9s das pequenas vidra\u00e7as enquadradas de chumbo, entran\u00e7adas de florida trepadeira, o sol j\u00e1 estava quente e alto. Embaixo os malhos soavam na bigorna. A m\u00e3e est\u00e1 \u00e0 sua cabeceira. Ela n\u00e3o o deixara durante a noite, tanto a amedrontava a c\u00f3lera de seu marido. O velho, igualmente, n\u00e3o se deitara. At\u00e9 pela manh\u00e3 caminhara pela casa, chorando, suspirando, abrindo e fechando arm\u00e1rios. No momento, eis que entra no quarto do filho, gravemente, vestido como que para uma viagem, com altas perneiras, o largo chap\u00e9u e o bast\u00e3o de montanha, s\u00f3lido e ferrado na ponta.<\/p>\n<p>Avan\u00e7a direito para a cama:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, de p\u00e9!.. Levanta-te!<\/p>\n<p>O rapaz, um tanto confuso, quer apanhar suas roupas de zuavo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, isto n\u00e3o\u2026 \u2014 diz o pai severamente.<\/p>\n<p>E a m\u00e3e, toda temerosa:<\/p>\n<p>\u2014 Mas, meu amigo, ele n\u00e3o tem outras.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-lhe as minhas\u2026 N\u00e3o tenho mais necessidade delas.<\/p>\n<p>Enquanto o filho se veste, Lory dobra cuidadosamente o uniforme, o colete, as grandes cal\u00e7as vermelhas. Feito o pacote, passa em torno do pesco\u00e7o o estojo de estanho onde est\u00e1 o roteiro\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Agora, des\u00e7amos!<\/p>\n<p>E os tr\u00eas descem \u00e0 forja, sem falar. O fole ronca; toda a gente est\u00e1 no trabalho. Revendo o amplo galp\u00e3o aberto, no qual pensava tanto quando estava longe, o zuavo se lembra da inf\u00e2ncia e de quanto ali brincou, entre o calor da estrada e as fa\u00edscas da forja, muito brilhantes na poeira negra. Toma-o um acesso de ternura, um grande desejo de obter o perd\u00e3o do pai; mas, levantando os olhos, encontra sempre um olhar inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Enfim, o ferreiro se decide a falar:<\/p>\n<p>\u2014 Rapaz, eis a bigorna, as ferramentas\u2026 Tudo isto \u00e9 teu\u2026 E tudo isso tamb\u00e9m! \u2014 e mostra-lhe o jardinzinho que se abre l\u00e1 embaixo no fundo, cheio de sol e de abelhas, no quadro enfuma\u00e7ado da porta. \u2014 As colm\u00e9ias, a vinha, a casa, tudo te pertence. Uma vez que sacrificaste tua honra a estas coisas, \u00e9 bom que pelo menos as conserves. \u00c9s o dono aqui\u2026 Quanto a mim, vou-me embora\u2026 Deves cinco anos \u00e0 Fran\u00e7a; vou pag\u00e1-los por ti.<\/p>\n<p>\u2014 Lory, Lory, aonde vais? \u2014 grita a pobre velha.<\/p>\n<p>\u2014 Pai!\u2026 \u2014 suplica o filho.<\/p>\n<p>Mas o ferreiro j\u00e1 partiu, em largas passadas, sem se voltar.<\/p>\n<p>Em Sidi-bel-Abb\u00e9s, na sede do 3\u00ba de zuavos, encontra-se desde alguns dias um engajado volunt\u00e1rio de cinquenta e cinco anos de idade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O forte ferreiro Lory, de Santa Maria das Minas, n\u00e3o estava contente naquela noite. 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