{"id":382,"date":"2018-07-05T01:13:28","date_gmt":"2018-07-05T01:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=382"},"modified":"2018-07-05T01:16:27","modified_gmt":"2018-07-05T01:16:27","slug":"o-segredo-de-mestre-cornille","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-segredo-de-mestre-cornille","title":{"rendered":"O Segredo de Mestre Cornille"},"content":{"rendered":"<p>Nossa regi\u00e3o, meu caro leitor, n\u00e3o foi sempre um s\u00edtio morto e sem can\u00e7\u00f5es, como \u00e9 hoje. Antigamente havia aqui um ativo com\u00e9rcio de farinha. De dez l\u00e9guas ao redor, os granjeiros nos traziam seu trigo para moer. Por toda parte, \u00e0 volta da aldeia, as colinas estavam cobertas de moinhos de vento. \u00c0 direita e \u00e0 esquerda, s\u00f3 se viam asas de moinhos que volteavam ao sopro do mistral; acima dos pinheiros, filas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e a semana inteira era o prazer de ouvir o estalido dos chicotes, o ru\u00eddo seco do tecido dilacerado e o \u201cDia hue!\u201d dos ajudantes dos moleiros. Aos domingos, \u00edamos em bandos aos moinhos. L\u00e1 no alto, os moleiros pagavam o muscat. As moleiras eram belas como rainhas, com seus fichus de rendas e suas cruzes de ouro. Eu levava meu p\u00edfaro, e at\u00e9 altas horas da noite dan\u00e7avam-se far\u00e2ndolas. Aqueles moinhos, como o senhor v\u00ea, eram a alegria e a riqueza da nossa terra.<\/p>\n<p>Infelizmente, franceses de Paris tiveram a id\u00e9ia de estabelecer uma moagem a vapor, na estrada de Tarascon. Tudo belo, tudo novo! O povo tomou o h\u00e1bito de enviar o trigo aos novos moageiros, e os pobres moinhos de vento ficaram sem trabalho. Durante algum tempo tentaram lutar, mas o moinho a vapor foi o mais forte. Um ap\u00f3s outro \u2014 pobrezinhos! \u2014 foram todos obrigados a fechar. N\u00e3o se viu mais virem os burrinhos. Nada de vinho!&#8230; Nada de far\u00e2ndolas!&#8230; O mistral soprava forte, as asas permaneciam im\u00f3veis&#8230; Depois, um belo dia, a municipalidade mandou demolir todas essas ru\u00ednas, e semearam-se em seu lugar vinha e oliveiras.<\/p>\n<p>Entretanto, em meio \u00e0 derrocada, um moinho se havia mantido e continuava a girar corajosamente, sobre a colina, nas barbas dos moageiros. Era o moinho de Mestre Cornille, este mesmo onde estamos fazendo ser\u00e3o, neste momento.<br \/>\nMestre Cornille era um velho moleiro. Havia sessenta anos vivia metido na farinha. A instala\u00e7\u00e3o das moagens a vapor tinha-o deixado como louco. Durante oito dias viram-no correr pela aldeia, a reunir em tumulto toda a gente \u00e0 sua volta, e a gritar, com todas as suas for\u00e7as, que queriam envenenar a Proven\u00e7a com a farinha dessas f\u00e1bricas.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o v\u00e3o l\u00e1 embaixo \u2014 dizia ele. \u2014 Aqueles bandidos, para fazer o p\u00e3o, servem-se de vapor, que \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do diabo, enquanto que eu trabalho com o mistral e o transmontano, que s\u00e3o o h\u00e1lito do bom Deus!&#8230;<\/p>\n<p>E ele encontrava, como estas, uma quantidade de belas palavras em louvor dos moinhos de vento, mas ningu\u00e9m as escutava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com uma raiva maligna, o velho fechou-se no moinho e viveu completamente s\u00f3, como um animal selvagem. Nem mesmo quis conservar junto de si a neta, Vivette, uma menina de quinze anos, que, mortos os pais, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m sen\u00e3o o av\u00f4 no mundo. A pobre pequena foi obrigada a ganhar a vida e a se empregar ora aqui, ora ali, nas fazendas, para a colheita, os bichos-da-seda ou os olivais. Entretanto o av\u00f4 parecia am\u00e1-la muito. Chegava a fazer freq\u00fcentemente quatro l\u00e9guas a p\u00e9, na soalheira, para ir v\u00ea-la na casa em que trabalhava. Uma vez junto dela, passava horas inteiras a contempl\u00e1-la, chorando&#8230;<\/p>\n<p>Pensava-se, na regi\u00e3o, que o velho moleiro, deixando sair Vivette, agira por avareza. N\u00e3o o honrava ter consentido que a neta assim deambulasse de uma fazenda para outra, exposta \u00e0s brutalidades dos va\u00eeles e a todas as mis\u00e9rias que cercam as jovens, nessas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Achava-se tamb\u00e9m muito malfeito que um homem da reputa\u00e7\u00e3o de Mestre Cornille, que at\u00e9 ali era respeitado, fosse agora pelas ruas como um verdadeiro bo\u00eamio, p\u00e9s nus, o bon\u00e9 furado, a faixa da cintura em tiras&#8230; O fato \u00e9 que, no domingo, quando o v\u00edamos entrar para a missa, t\u00ednhamos vergonha por ele, n\u00f3s outros os velhos; e Cornille o sentia t\u00e3o bem, que n\u00e3o mais ousava vir sentar-se no banco dos administradores da par\u00f3quia. Ficava sempre no fundo da igreja, junto \u00e0 pia de \u00e1gua-benta, com os pobres.<\/p>\n<p>Na vida de Mestre Cornille havia alguma coisa obscura. Havia muito tempo ningu\u00e9m, na aldeia, lhe levava mais trigo, e no entanto as asas do seu moinho iam sempre fazendo seu of\u00edcio, como antes. \u00c0 tarde, encontrava-se pelos caminhos o velho moleiro, tangendo \u00e0 sua frente o burro carregado de grandes sacos de farinha.<br \/>\n\u2014 Boas tardes, Mestre Cornille! \u2014 gritavam-lhe os camponeses. \u2014 Ent\u00e3o, sempre vai indo a moagem?<br \/>\n\u2014 Sempre, meus filhos \u2014 respondia o velho com ar altivo. \u2014 Deus seja louvado, n\u00e3o \u00e9 trabalho o que nos falta.<br \/>\nEnt\u00e3o, se lhe perguntassem de onde podia vir tanto trabalho, ele colocava um dedo sobre os l\u00e1bios e respondia gravemente:<br \/>\n\u2014 Sil\u00eancio! Eu trabalho para a exporta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Jamais se p\u00f4de tirar mais nada dele, al\u00e9m disso. Quanto a meter o nariz no seu moinho, nem se devia sonhar. A pr\u00f3pria Vivette n\u00e3o entrava ali. Quando se passava diante dele, via-se a porta sempre fechada, as grandes asas sempre em movimento, o velho burro retou\u00e7ando a erva, sobre a plataforma, e um gat\u00e3o magro que tomava sol no peitoril da janela e olhava para a gente com um ar maldoso.<\/p>\n<p>Tudo isso sugeria mist\u00e9rio e fazia tagarelar o mundo. Cada um explicava \u00e0 sua maneira o segredo de Mestre Cornille, mas o rumor geral era que ele tinha em seu moinho mais sacos de dinheiro que de farinha.<\/p>\n<p>Com o decorrer do tempo, entretanto, tudo se descobriu. Eis como:<br \/>\nFazendo dan\u00e7ar a mocidade com o meu p\u00edfaro, percebi um belo dia que o mais velho dos meus rapazes e a pequena Vivette se haviam enamorado um do outro. No fundo, eu n\u00e3o ficara nem um pouco zangado, porque, apesar de tudo, o nome de Cornille era honrado entre n\u00f3s; e dar-me-ia prazer ver saltitar em minha casa essa linda avezinha de Vivette. Somente, como nossos namorados tinham freq\u00fcentemente ocasi\u00e3o de estar juntos, eu quis, de medo de acidentes, regular o neg\u00f3cio imediatamente; e subi at\u00e9 o moinho, para trocar sobre o assunto duas palavras com o av\u00f4.<\/p>\n<p>Ah! o velho feiticeiro! Era preciso ver de que maneira me recebeu! Imposs\u00edvel faz\u00ea-lo abrir a porta. Expliquei-lhe minhas raz\u00f5es, mal-e-mal, atrav\u00e9s do buraco da fechadura; e durante o tempo em que lhe falei, ficava esse ladr\u00e3o de gato magro a soprar como um diabo, acima da minha cabe\u00e7a. O velho n\u00e3o me deu tempo de terminar, e me gritou muito malcriadamente que retornasse \u00e0 minha flauta; caso tivesse pressa de casar o rapaz, fosse procurar mo\u00e7as na f\u00e1brica&#8230;<\/p>\n<p>O senhor imagine como o sangue me subia, ao ouvir essas m\u00e1s palavras. Contudo eu tive at\u00e9 bastante prud\u00eancia para me conter, e, deixando o velho louco em sua m\u00f3, voltei para anunciar aos jovens o meu humilhante insucesso. Os pobres cordeirinhos n\u00e3o podiam acreditar. Pediram-me que lhes permitisse subirem os dois juntos ao moinho, para falar ao av\u00f4. N\u00e3o tive coragem de recusar, e eis os namorados a caminho.<\/p>\n<p>Justamente quando chegaram ao alto, Mestre Cornille acabava de sair. A porta estava fechada com duas voltas; mas o velho, ao sair, deixara a escada fora. Imediatamente os mo\u00e7os tiveram a id\u00e9ia de entrar pela janela, para verem o que havia nesse famoso moinho.<\/p>\n<p>Coisa singular! O quarto da m\u00f3 estava vazio. Nem um saco, nem um gr\u00e3o de trigo; nem a menor farinha nos muros, nas teias de aranha&#8230; N\u00e3o se sentia nem mesmo esse bom cheiro quente do gr\u00e3o de trigo triturado, que embalsama os moinhos. A bra\u00e7adeira estava coberta de p\u00f3, e o gat\u00e3o dormia em cima dela.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a de baixo tinha o mesmo ar de mis\u00e9ria e de abandono: um mau leito, alguns trapos sujos, um peda\u00e7o de p\u00e3o sobre um degrau da escada; e, finalmente, num canto, tr\u00eas ou quatro sacos furados, de onde escapavam cali\u00e7a e areia.<\/p>\n<p>Era o segredo de Mestre Cornille! Era esse entulho que ele passeava \u00e0 tarde pelas estradas, para salvar a honra do moinho e fazer crer que ali se produzia farinha&#8230; Pobre moinho! Pobre Cornille! Havia muito tempo os moageiros tinham-no feito perder os \u00faltimos neg\u00f3cios. As asas viravam sempre, mas a m\u00f3 girava no vazio.<\/p>\n<p>Os mocinhos voltaram, lavados em l\u00e1grimas, para me contar o que tinham visto. Senti o cora\u00e7\u00e3o machucado ao ouvi-los. Sem perder um minuto, corri \u00e0 casa dos vizinhos, contei-lhes a coisa em duas palavras, e concordamos todos em que era preciso levar imediatamente ao moinho de Cornille tudo que houvesse de gr\u00e3o em nossas casas. T\u00e3o logo foi dito, logo se fez. Toda a aldeia se p\u00f4s a caminho, e chegamos ao alto com uma prociss\u00e3o de burros carregados de trigo \u2014 trigo verdadeiro!<\/p>\n<p>O moinho estava completamente aberto. Diante da porta, Mestre Cornille, sentado num saco de gesso, chorava, com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os. Acabava de perceber, entrando, que durante sua aus\u00eancia algu\u00e9m penetrara em sua casa e surpreendera seu triste segredo.<br \/>\n\u2014 Pobre de mim! \u2014 dizia ele. \u2014 Agora n\u00e3o me resta sen\u00e3o morrer&#8230; O moinho est\u00e1 desonrado.<\/p>\n<p>E solu\u00e7ava de cortar o cora\u00e7\u00e3o, chamando seu moinho por todas as esp\u00e9cies de nomes, falando-lhe como a uma pessoa viva.<\/p>\n<p>Nesse momento os burros chegaram \u00e0 plataforma, e n\u00f3s nos pusemos todos a gritar bem alto, como nos belos tempos dos moleiros:<br \/>\n\u2014 Eh! \u00d3 do moinho!&#8230; Ei! Mestre Cornille!<\/p>\n<p>De s\u00fabito os sacos se acumulam diante da porta, e o belo gr\u00e3o ruivo rola abundantemente pela terra, de todos os lados.<\/p>\n<p>Mestre Cornille arregalava os olhos. Apanhara um pouco de trigo no c\u00f4ncavo da velha m\u00e3o, e dizia, rindo e chorando ao mesmo tempo:<br \/>\n\u2014 \u00c9 trigo!&#8230; Senhor Deus! Trigo verdadeiro!&#8230; Deixem-me contempl\u00e1-lo&#8230;<br \/>\nDepois, voltando-se para n\u00f3s:<br \/>\n\u2014 Ah! Eu sabia que voc\u00eas voltariam&#8230;<br \/>\nQuer\u00edamos lev\u00e1-lo em triunfo at\u00e9 a aldeia.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, meus filhos! \u00c9 preciso, antes de tudo, que eu v\u00e1 dar de comer ao moinho&#8230; Pensem! H\u00e1 muito tempo que nada lhe pomos entre os dentes!<\/p>\n<p>E todos n\u00f3s t\u00ednhamos l\u00e1grimas nos olhos, de ver o pobre velho agitar-se para a direita e para a esquerda, destripando os sacos, vigiando a m\u00f3, enquanto o gr\u00e3o arrebentava e a fina poeira do trigo subia para o teto.<br \/>\nJusti\u00e7a nos seja feita: a partir desse dia, nunca deixamos faltar trabalho ao velho moleiro. Depois, certa manh\u00e3, Mestre Cornille morreu, e as asas do nosso derradeiro moinho cessaram de virar, para sempre desta vez. Morto Cornille, ningu\u00e9m continuou sua obra&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa regi\u00e3o, meu caro leitor, n\u00e3o foi sempre um s\u00edtio morto e sem can\u00e7\u00f5es, como \u00e9 hoje. Antigamente havia aqui um ativo com\u00e9rcio de farinha. 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