{"id":384,"date":"2018-07-05T01:14:50","date_gmt":"2018-07-05T01:14:50","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=384"},"modified":"2018-07-05T01:16:27","modified_gmt":"2018-07-05T01:16:27","slug":"a-mula-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-mula-do-papa","title":{"rendered":"A Mula do Papa"},"content":{"rendered":"<p>Entre todos os ditados, prov\u00e9rbios ou ad\u00e1gios com que os nossos camponeses da Proven\u00e7a entremeiam suas frases, n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum outro mais pitoresco, nem mais original do que este. Numa extens\u00e3o de quinze l\u00e9guas ao redor do meu moinho, quando algu\u00e9m se refere a um homem rancoroso, vingativo, costumam observar-lhe: \u201cCuidado com esse homem! \u00c9 como a mula do papa, que guarda sete anos o seu coice\u201d.<\/p>\n<p>Durante muito tempo procurei a origem de tal prov\u00e9rbio, a fim de saber o que significava aquela mula papal e o coice guardado durante sete anos. Ningu\u00e9m aqui soube esclarecer-me, nem mesmo Francet Mamai, tocador de p\u00edfaro, que conhece a fundo o legend\u00e1rio proven\u00e7al. Francet sup\u00f5e, como eu, que deve existir, envolvendo o ditado, alguma antiga cr\u00f4nica da regi\u00e3o de Avinh\u00e3o; mas n\u00e3o ouvira falar dela a n\u00e3o ser atrav\u00e9s do prov\u00e9rbio.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor s\u00f3 encontrar\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o na biblioteca das Cigarras \u2014 observou o velho tocador de p\u00edfaro, rindo-se.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia pareceu-me boa, e como a biblioteca das Cigarras fica perto de casa, l\u00e1 me encerrei durante oito dias.<\/p>\n<p>\u00c9 uma maravilhosa biblioteca, admiravelmente instalada, aberta aos poetas dia e noite, e atendida por pequenos bibliotec\u00e1rios munidos de c\u00edmbalos, que tocam m\u00fasica o tempo todo. L\u00e1 passei alguns dias deliciosos. Ap\u00f3s uma semana de incessantes buscas, acabei descobrindo o que desejava, isto \u00e9, a hist\u00f3ria da mula e do famoso coice guardado durante sete anos. \u00c9 um bonito conto, embora um tanto ing\u00eanuo, e vou experimentar narr\u00e1-lo tal como o li ontem de manh\u00e3 num manuscrito cor do tempo, que rescendia a alfazema seca e tinha grandes fios da Virgem1 como sinetes.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o viu Avinh\u00e3o no tempo dos papas, nada viu. N\u00e3o havia cidade que se lhe comparasse em anima\u00e7\u00e3o, no esplendor das festas. De manh\u00e3 \u00e0 noite eram prociss\u00f5es, peregrina\u00e7\u00f5es, ruas juncadas de flores, forradas com longas tape\u00e7arias, recep\u00e7\u00f5es de cardeais que chegavam pelo R\u00f3dano, fl\u00e2mulas ao vento, galeras embandeiradas, soldados do papa que cantavam nas pra\u00e7as em latim, matracas dos irm\u00e3os mendicantes; depois, nas casas que se comprimiam, zumbindo em redor do grande pal\u00e1cio papal como abelhas em torno da colm\u00e9ia, ressoavam, de cima a baixo, o tique-taque dos teares de renda, o vaiv\u00e9m das lan\u00e7adeiras tecendo o ouro das casulas, os pequenos martelos dos cinzeladores de galhetas, as pranchas de cordas afinadas nas oficinas dos fabricantes de instrumentos musicais, os c\u00e2nticos das fiandeiras; e, acima de tudo, o badalar dos sinos e o rumor dos tamborins que vinha l\u00e1 do outro lado da ponte. Pois entre n\u00f3s, quando o povo est\u00e1 satisfeito, precisa dan\u00e7ar; e como nesse tempo as ruas da cidade eram demasiadamente estreitas para servir de palco \u00e0 far\u00e2ndola, tocadores de p\u00edfaros e de tamborins postavam-se na ponte de Avinh\u00e3o, e \u00e0 fresca aragem do R\u00f3dano o povo dan\u00e7ava.<\/p>\n<p>Ah! que bons tempos! que ditosa cidade! Alabardas que n\u00e3o feriam, pris\u00f5es do Estado onde o vinho era colocado para refrescar. Nem carestia, nem guerra! A\u00ed est\u00e1 como os papas do condado sabiam governar o povo; e a\u00ed est\u00e1 por que o povo tanto lamentou a aus\u00eancia deles!<\/p>\n<p>Havia sobretudo um, o bom velho chamado Bonif\u00e1cio\u2026 Oh! quantas l\u00e1grimas foram derramadas em Avinh\u00e3o, quando ele morreu! Era um pr\u00edncipe t\u00e3o am\u00e1vel, t\u00e3o agrad\u00e1vel! De cima de sua mula ele sorria para todos. E quando algu\u00e9m passava a seu lado \u2014 fosse um pobre e insignificante apanhador de garan\u00e7a ou o importante juiz da cidade \u2014 dava-lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o com tanta cortesia! Um verdadeiro papa de Yvetot2, mas de um Yvetot provinciano, com algo malicioso no riso, um galhinho de manjerona no barrete e nenhuma Jeanneton3. A \u00fanica prefer\u00eancia que se lhe conhecia era por sua vinha \u2014 uma pequena vinha que plantara com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, a tr\u00eas l\u00e9guas de Avinh\u00e3o, entre as murtas de Ch\u00e2teauneuf.<\/p>\n<p>Todos os domingos, ao sair das v\u00e9speras, o digno homem ia prestar-lhe homenagem; e l\u00e1, sentado ao sol, ao lado da mula, rodeado pelos cardeais estendidos junto aos troncos, ele mandava desarrolhar uma garrafa de vinho recente, do belo vinho cor de rubi, que foi chamado mais tarde Ch\u00e2teauneuf-du-Pape, e saboreava-o aos pequenos goles, fitando a vinha com ternura. Ao declinar do dia, esvaziada a garrafa, ele regressava alegremente para a cidade, seguido pelo cap\u00edtulo. Quando passava pela ponte de Avinh\u00e3o, no meio dos tambores e das far\u00e2ndolas, a mula, animada pela m\u00fasica, tomava uma andadura mi\u00fada e saltitante, enquanto ele marcava o compasso da dan\u00e7a com o barrete, o que muito escandalizava os cardeais, mas fazia o povo exclamar: \u201cAh! que bom pr\u00edncipe! Ah! que \u00f3timo Papa!\u201d<\/p>\n<p>Depois da vinha de Ch\u00e2teauneuf, o que o papa mais amava no mundo era a sua mula. Bonif\u00e1cio era louco pelo animal. Todas as noites, antes de deitar-se, ia verificar se o est\u00e1bulo estava bem fechado, se faltava alguma coisa na manjedoura, e nunca se levantava da mesa sem que mandasse preparar sob as suas vistas uma grande tigela de vinho, \u00e0 francesa, com bastante a\u00e7\u00facar e drogas odor\u00edferas; e malgrado as observa\u00e7\u00f5es dos cardeais, ele mesmo a levava para a mula.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso observar que o animal merecia tais cuidados. Era uma bonita mula negra, mosqueada de vermelho, passo firme, p\u00ealo brilhante, ancas largas e cheias, que sabia erguer altivamente a cabecinha fina, toda ajaezada de borlas, de la\u00e7os, de guizos de prata e de fitas. Al\u00e9m disso, mais mansa do que um anjo, com olhos ing\u00eanuos e duas longas orelhas sempre em movimento, que lhe davam um ar bonacheir\u00e3o. Avinh\u00e3o inteira a respeitava, e quando ela passava pelas ruas n\u00e3o havia cortesias que n\u00e3o recebesse; pois todos sabiam que era a maneira mais segura de obterem favores na corte, e que, com o seu ar inocente, a mula do papa conduzira mais de uma pessoa aos bra\u00e7os da fortuna; a\u00ed est\u00e3o Tistet V\u00e9d\u00e8ne e sua prodigiosa aventura, para prov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, Tistet V\u00e9d\u00e8ne era um rapazinho atrevido, a quem o pr\u00f3prio pai, o ourives Guy de V\u00e9d\u00e8ne, fora obrigado a expulsar de casa, porque se recusava a trabalhar e desencaminhava os aprendizes. Durante seis meses viram-no perambular por todos os cantos de Avinh\u00e3o, mas principalmente pelos lados do pal\u00e1cio papal; pois havia muito tempo que o patife deitara as vistas sobre a mula do papa, e veremos com que inten\u00e7\u00f5es malignas. Certo dia, quando Sua Santidade passeava sozinho no seu animal, sob os muros do p\u00e1tio, Tistet V\u00e9d\u00e8ne aborda-o e observa, juntando as m\u00e3os num gesto de admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, meu Deus! Grande papa, que bela mula v\u00f3s possu\u00eds! Permiti que a olhe um pouco\u2026 Ah! meu papa, que linda mula! nem o imperador da Alemanha tem outra igual!<\/p>\n<p>E Tistet acariciava o animal e falava-lhe suavemente, como se fosse uma mo\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Minha j\u00f3ia, meu tesouro, minha p\u00e9rola preciosa.<\/p>\n<p>E o bom papa, comovido, dizia consigo mesmo: \u201cQue bom rapazinho! Como \u00e9 am\u00e1vel com a minha mula!\u201d<\/p>\n<p>E sabem o que aconteceu no dia seguinte? Tistet V\u00e9d\u00e8ne trocou o velho palet\u00f3 amarelo por uma alva de rendas, uma opa de seda violeta, sapatos de fivelas, e entrou no coro papal, onde antes dele s\u00f3 os filhos dos nobres e os sobrinhos dos cardeais tinham sido recebidos. Vejam s\u00f3 quanto pode a intriga!<\/p>\n<p>Mas Tistet n\u00e3o se deu por satisfeito. Depois de entrar no servi\u00e7o do papa, o malandro continuou a fazer o seu jogo, que t\u00e3o bons resultados produzira. Insolente com todos, s\u00f3 reservava suas aten\u00e7\u00f5es e cortesias para a mula. Era sempre visto nos p\u00e1tios do pal\u00e1cio, tendo nas m\u00e3os um punhado de aveia ou um molho de feno, cujas pencas cor-de-rosa delicadamente ele sacudia, enquanto fitava o balc\u00e3o do Santo Padre, como se dissesse: \u201cEnt\u00e3o? Para quem \u00e9 isso?\u201d<\/p>\n<p>Tanto fez, que finalmente o bom papa, que se sentia envelhecer, lhe deu a incumb\u00eancia de cuidar do est\u00e1bulo e de levar a tigela de vinho \u00e0 francesa para a mula. Mas dessa vez os cardeais n\u00e3o acharam gra\u00e7a.<br \/>\nTamb\u00e9m a mula n\u00e3o achou gra\u00e7a\u2026 Agora, \u00e0 hora do vinho, ela assistia \u00e0 chegada de cinco ou seis pequenos sacrist\u00e3es do coro papal, que se metiam no meio da palha com suas opas e suas rendas. Pouco depois, um cheiro gostoso de caramelo e de especiarias enchia o est\u00e1bulo, e Tistet V\u00e9d\u00e8ne surgia trazendo com precau\u00e7\u00e3o a tigela de vinho \u00e0 francesa. Ent\u00e3o come\u00e7ava o mart\u00edrio do pobre animal.<\/p>\n<p>Tinham a crueldade de levar \u00e0 sua manjedoura o vinho perfumado, que ela tanto apreciava, e de faz\u00ea-la cheir\u00e1-lo; depois, quando as suas narinas se impregnavam do aroma \u2014 adeus! O belo l\u00edquido cor de chamas rosadas descia inteirinho pela garganta daqueles patifes. Se apenas se limitassem a roubar-lhe o vinho\u2026 Por\u00e9m, depois de terem bebido, os pequenos sacrist\u00e3es se transformavam em verdadeiros dem\u00f4nios: um lhe puxava as orelhas; o outro, a cauda; Quiquet montava-lhe nas costas; B\u00e9luguet punha-lhe o barrete na cabe\u00e7a. E nenhum desses malandros imaginava que com um golpe de flanco, ou um coice, o pac\u00edfico animal poderia envi\u00e1-los \u00e0 Estrela Polar, e at\u00e9 mais longe. Nada disso! Nunca se esquecia de que era a mula do papa, a mula das b\u00ean\u00e7\u00e3os e das indulg\u00eancias.<\/p>\n<p>Por mais que a atormentassem, ela n\u00e3o se zangava. Se guardava rancor, era apenas contra Tistet V\u00e9d\u00e8ne. Quando percebia que este se encontrava \u00e0 sua retaguarda, sentia c\u00f3cegas no casco, e na verdade sobravam-lhe motivos para tanto. Aquele tratante Tistet pregava-lhe bem boas pe\u00e7as. Tinha inven\u00e7\u00f5es cru\u00e9is depois de beber\u2026 Pois n\u00e3o se resolveu um dia a obrig\u00e1-la a subir ao pequeno campan\u00e1rio do coro, l\u00e1 em cima, bem em cima, no alto do pal\u00e1cio?<\/p>\n<p>O fato que lhes relato n\u00e3o \u00e9 anedota, dois mil proven\u00e7ais presenciaram-no. Imaginem o terror da desgra\u00e7ada mula quando, ap\u00f3s ter dado voltas durante uma hora inteira numa escada de caracol, quase \u00e0s cegas, e tendo subido n\u00e3o sei quantos degraus, subitamente se encontrou numa plataforma ofuscante de luz. A mil p\u00e9s abaixo, avistou um Avinh\u00e3o fant\u00e1stico, onde as barracas do mercado n\u00e3o eram maiores do que avel\u00e3s; os soldados do papa, postados diante da caserna, pareciam formigas vermelhas; e l\u00e1 longe, sobre um fio de prata, equilibrava-se uma ponte microsc\u00f3pica, cheia de gente que dan\u00e7ava, dan\u00e7ava\u2026 Ah! Pobre animal! que p\u00e2nico!<\/p>\n<p>Todos os vidros do pal\u00e1cio tremeram com o berro que soltou.<\/p>\n<p>\u2014 Que aconteceu? que lhe fizeram? \u2014 exclamou o bom papa, precipitando-se para o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Tistet V\u00e9d\u00e8ne, que j\u00e1 regressara ao p\u00e1tio, fingiu que chorava e arrancava os cabelos:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Grande papa, o que aconteceu! Aconteceu que a vossa mula\u2026 Meu Deus! que ser\u00e1 de n\u00f3s?\u2026<\/p>\n<p>Aconteceu que a vossa mula subiu ao campan\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Sozinha?!<\/p>\n<p>\u2014 Sozinha, sim, grande papa\u2026 Vede! Olhai para cima. N\u00e3o vedes aparecendo l\u00e1 a ponta de suas orelhas?<\/p>\n<p>Dir-se-iam duas andorinhas!<\/p>\n<p>\u2014 Miseric\u00f3rdia! \u2014 exclamou o pobre papa, erguendo os olhos. \u2014 Mas ela enlouqueceu! vai matar-se\u2026 N\u00e3o quer descer da\u00ed, minha pobre!\u2026<\/p>\n<p>Ai dela! N\u00e3o pedia outra coisa sen\u00e3o descer. Mas como faz\u00ea-lo? N\u00e3o podia pensar na escada. Fora-lhe poss\u00edvel subir por uma coisa daquelas, mas se fosse descer, arriscava-se a quebrar cem vezes as pernas. A pobre mula afligia-se, e enquanto vagueava pela plataforma com seus grandes olhos cheios de vertigem, pensava em Tistet V\u00e9d\u00e8ne: \u201cAh bandido! Se eu escapar desta, que coice voc\u00ea levar\u00e1 amanh\u00e3 cedo!\u201d<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do coice dava-lhe um pouco de firmeza \u00e0s pernas, sem o que ela n\u00e3o se ag\u00fcentaria. Enfim, depois de um sem-n\u00famero de perip\u00e9cias, conseguiram retir\u00e1-la l\u00e1 de cima. Foi preciso desc\u00ea-la com um guindaste, cordas, uma padiola. E imaginem que humilha\u00e7\u00e3o para a mula de um papa ficar suspensa de tamanha altura, agitando as patas no v\u00e1cuo, como um besouro na ponta de um fio\u2026 E Avinh\u00e3o inteira que a contemplava!<\/p>\n<p>O infeliz animal n\u00e3o dormiu nessa noite. Estava sob a impress\u00e3o de continuar a dar voltas na maldita plataforma, enquanto a cidade se ria l\u00e1 embaixo. E tamb\u00e9m pensava no infame Tistet V\u00e9d\u00e8ne e no belo coice com que ela o brindaria na manh\u00e3 seguinte. Ah! meus amigos, que coice! At\u00e9 em Pamp\u00e9rigouste avistariam a fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Ora, enquanto a mula preparava a Tistet V\u00e9d\u00e8ne uma bela recep\u00e7\u00e3o no est\u00e1bulo, sabem o que fazia ele? Descia o R\u00f3dano numa galera papal, cantando, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 corte de N\u00e1poles, em companhia dos jovens nobres que a cidade enviava todos os anos para junto da rainha Jeanne, a fim de exercitarem-se na diplomacia e nas boas maneiras. Tistet n\u00e3o era nobre, mas o papa fazia quest\u00e3o de recompens\u00e1-lo pelos cuidados que prodigalizava \u00e0 mula, e principalmente pela atividade que ele desenvolvera durante o salvamento da mesma.<\/p>\n<p>Bem que a mula ficou desapontada no dia seguinte. \u201cAh! bandido! Desconfiou de alguma coisa! \u2014 ponderou ela, sacudindo violentamente os seus guizos. \u2014 N\u00e3o importa, malvado! Ao regressar, voc\u00ea encontrar\u00e1 o seu coice. Vou guard\u00e1-lo\u201d. E assim o fez.<\/p>\n<p>Depois da partida de Tistet, a mula da papa voltou \u00e0 sua rotina tranq\u00fcila e retomou os antigos h\u00e1bitos. Nem Quiquet nem B\u00e9luguet apareciam na estrebaria. Os belos dias do vinho \u00e0 francesa retornaram, e com eles o bom humor, as longas sestas e o passinho de gavota ao passar pela ponte de Avinh\u00e3o. Contudo, ap\u00f3s a aventura do campan\u00e1rio, a cidade esfriara um pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mula. Cochichavam quando ela passava, os velhos balan\u00e7avam a cabe\u00e7a e as crian\u00e7as riam, apontando o campan\u00e1rio. O pr\u00f3prio papa n\u00e3o depositava em sua amiga a mesma confian\u00e7a. Quando se permitia um cochilo \u00e0s suas costas, ao regressar da vinha, fazia-o com certa preven\u00e7\u00e3o: \u201cSe eu fosse acordar l\u00e1 em cima, na plataforma!\u201d A mula observava tudo isso e sofria, sem nada dizer. Apenas, quando pronunciavam na sua frente o nome de Tistet V\u00e9d\u00e8ne, suas compridas orelhas estremeciam, e com um risinho mau ela agu\u00e7ava no cal\u00e7amento o ferro dos seus cascos.<\/p>\n<p>Assim transcorreram sete anos. Ao cabo desse tempo, finalmente Tistet V\u00e9d\u00e8ne regressou da corte de N\u00e1poles. Ainda n\u00e3o conclu\u00edra o seu est\u00e1gio, mas soubera que o primeiro mostardeiro do papa acabava de falecer subitamente, em Avinh\u00e3o. E como o posto lhe parecera bom, embarcara \u00e0s pressas a fim de incorporar-se \u00e0 fila dos candidatos.<\/p>\n<p>Quando o intrigante V\u00e9d\u00e8ne entrou no sal\u00e3o do pal\u00e1cio, o santo padre mal o reconheceu, tanto ele crescera e encorpara. \u00c9 preciso dizer que o bom papa envelhecera bastante, e j\u00e1 n\u00e3o enxergava t\u00e3o bem. Tistet n\u00e3o se intimidou:<\/p>\n<p>\u2014 Como! Santo papa, n\u00e3o me reconheceis? Eu, Tistet V\u00e9d\u00e8ne\u2026<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e9d\u00e8ne?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, bem sabeis\u2026 O rapaz que levava o vinho franc\u00eas \u00e0 vossa mula.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sim\u2026 sim\u2026 lembro-me. Um bom rapazinho, esse Tistet V\u00e9d\u00e8ne. E agora, que desejais de n\u00f3s?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! pouca coisa, santo papa. Vim pedir-vos\u2026 A prop\u00f3sito, a vossa mula ainda est\u00e1 viva? E vai bem? Ah! tanto melhor! Eu vinha pedir-vos o lugar do primeiro mostardeiro, que acaba de morrer.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiro mostardeiro, tu! Mas \u00e9s muito jovem. Que idade tens?<\/p>\n<p>\u2014 Vinte anos e dois meses, ilustre pont\u00edfice, justamente cinco anos mais que a vossa mula\u2026 Ah! senhor, que bom animal! Se soub\u00e9sseis como eu gostava da vossa mula, como senti saudades dela na It\u00e1lia! Ser-me-\u00e1 permitido v\u00ea-la?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, meu filho, tu a ver\u00e1s \u2014 respondeu o bom papa, comovido. \u2014 E j\u00e1 que estimas tanto esse bravo animal, n\u00e3o quero mais que vivas longe dele. De hoje em diante ficas a meu servi\u00e7o na qualidade de primeiro mostardeiro. Meus cardeais protestar\u00e3o, mas tanto pior, estou habituado. Vem procurar-nos amanh\u00e3, \u00e0 sa\u00edda das v\u00e9speras. N\u00f3s te entregaremos as ins\u00edgnias da tua nova dignidade, na presen\u00e7a de nosso cap\u00edtulo. Depois eu te levarei para ver a mula, e nos acompanhar\u00e1s \u00e0 vinha. Ah! ah! \u00f3timo!<br \/>\nN\u00e3o preciso dizer-lhes se Tistet V\u00e9d\u00e8ne estava contente ao sair do sal\u00e3o, nem com que impaci\u00eancia aguardou a cerim\u00f4nia do dia seguinte. Contudo, havia no pal\u00e1cio algu\u00e9m mais feliz e mais impaciente do que ele: era a mula. Desde o regresso de V\u00e9d\u00e8ne at\u00e9 as v\u00e9speras do dia seguinte, o terr\u00edvel animal n\u00e3o cessou de empanturrar-se de aveia e de bater na parede com os cascos traseiros. Tamb\u00e9m se preparava para a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>E no dia seguinte, ap\u00f3s terem sido rezadas as v\u00e9speras, Tistet V\u00e9d\u00e8ne fez sua entrada no p\u00e1tio do pal\u00e1cio papal. Todo o alto clero se encontrava presente: os cardeais em trajes vermelhos, o advogado do diabo vestido de veludo negro, os abades do convento com suas pequenas mitras, os provedores de Saint-Agricol, o coro com opas violetas, e tamb\u00e9m confrarias de penitentes, os eremitas do monte Ventoux com suas fisionomias fechadas, o pequeno cl\u00e9rigo atr\u00e1s carregando a campainha, os irm\u00e3os flageladores, nus at\u00e9 a cintura, os sacrist\u00e3es vestidos com togas de ju\u00edzes \u2014 todas, todos, at\u00e9 os doadores de \u00e1gua benta, e aquele que acende, e aquele que apaga, n\u00e3o faltava um s\u00f3. Ah! Era uma bela ordena\u00e7\u00e3o! Sinos, foguetes, sol, m\u00fasica, e sempre aqueles danados tamborins que marcavam a dan\u00e7a, l\u00e1 na ponte de Avinh\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando V\u00e9d\u00e8ne apareceu no meio da assembl\u00e9ia, seu garbo e sua bela presen\u00e7a fizeram perpassar um murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o. Era um magn\u00edfico proven\u00e7al, dos louros, com longos cabelos de pontas frisadas e uma pequena barba caprichosa, que parecia feita com as lascas de metal precioso ca\u00eddas do buril de seu pai, o ourives. Corriam rumores de que os dedos da rainha Joana tinham brincado algumas vezes com aquela barba loura; e efetivamente o senhor de V\u00e9d\u00e8ne ostentava o ar glorioso e o olhar distra\u00eddo dos homens que foram amados por rainhas. Nesse dia, a fim de honrar a sua terra, ele substitu\u00edra os trajes napolitanos por uma jaqueta com debruns cor-de-rosa, \u00e0 proven\u00e7al, e no seu chap\u00e9u tremulava uma grande pena de \u00edbis de Camargue.<\/p>\n<p>Depois de ter entrado, o primeiro mostardeiro cumprimentou com galhardia e dirigiu-se para o alto patamar onde o papa o aguardava para entregar-lhe as ins\u00edgnias da sua nova dignidade: a colher de buxo amarelo e o h\u00e1bito cor de a\u00e7afr\u00e3o. A mula permanecera ao p\u00e9 da escada, toda ajaezada e pronta para seguir para a vinha. Ao passar perto dela, Tistet V\u00e9d\u00e8ne sorriu-lhe amavelmente e deteve-se para dar-lhe dois ou tr\u00eas tapinhas amig\u00e1veis nas costas, enquanto observava com o canto do olho se o papa o estava vendo. O momento era prop\u00edcio. A mula tomou impulso: \u201cToma, bandido! Faz sete anos que o guardo para voc\u00ea!\u201d<br \/>\nE deu-lhe um coice t\u00e3o violento, t\u00e3o terr\u00edvel, que at\u00e9 em Pamp\u00e9rigouste foi vista a fuma\u00e7a, um turbilh\u00e3o de fuma\u00e7a loura onde voltejava uma pena de \u00edbis, tudo quanto restava do infortunado Tistet V\u00e9d\u00e8ne.<\/p>\n<p>Habitualmente os coices das mulas n\u00e3o costumam ser t\u00e3o fulminantes. Mas era uma mula papal, e al\u00e9m disso, pensem bem: ela o guardava havia sete anos!<\/p>\n<p>Notas:<br \/>\n1. Fils da la Vierge &#8211; fios escapados do fuso de Maria, segundo a imagina\u00e7\u00e3o popular. S\u00e3o produzidos por diversas aranhas n\u00f4mades e que n\u00e3o fazem ninhos.<br \/>\n2. Yvetot &#8211; vila da Fran\u00e7a que foi antigamente capital de um pequeno reino. Em virtude de uma can\u00e7\u00e3o popular, o rei de Yvetot ficou na literatura como o tipo do rei bonacheir\u00e3o.<br \/>\n3. Jeanneton &#8211; termo de g\u00edria. Significa criada de albergue, de costumes f\u00e1ceis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre todos os ditados, prov\u00e9rbios ou ad\u00e1gios com que os nossos camponeses da Proven\u00e7a entremeiam suas frases, n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum outro mais pitoresco, nem mais original do que este. Numa extens\u00e3o de quinze l\u00e9guas ao&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[16],"class_list":["post-384","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-alphonse-daudet"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=384"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":386,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions\/386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}