{"id":387,"date":"2018-07-05T01:15:53","date_gmt":"2018-07-05T01:15:53","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=387"},"modified":"2019-02-12T22:26:42","modified_gmt":"2019-02-12T22:26:42","slug":"a-cabra-do-senhor-seguin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-cabra-do-senhor-seguin","title":{"rendered":"A Cabra do Senhor S\u00e9guin"},"content":{"rendered":"<p>Ao Sr. Pierre Gringoire, poeta l\u00edrico em Paris.<\/p>\n<p>Tu ser\u00e1s sempre o mesmo, meu pobre Gringoire! Como! Oferecem-te um lugar de cronista em um bom jornal de Paris, e tu tens a petul\u00e2ncia de recusar\u2026 Mas, olha-te, infortunado rapaz! Olha essa blusa esburacada, esses cal\u00e7\u00f5es esfarrapados, essa face magra que apregoa a fome. Eis a\u00ed, portanto, aonde te conduziu a paix\u00e3o das belas rimas! Eis o que te valeram dez anos de leais servi\u00e7os nas p\u00e1ginas do senhor Apolo\u2026 Enfim, n\u00e3o tens vergonha?<\/p>\n<p>Faze-te ent\u00e3o cronista, imbecil! Faze-te cronista! Ganhar\u00e1s facilmente belos escudos, ter\u00e1s teu talher no Br\u00e9bant e poder\u00e1s exibir-te, nos dias de estr\u00e9ia, com uma pluma nova no barrete.<\/p>\n<p>N\u00e3o? N\u00e3o queres? Pretendes permanecer livre \u00e0 tua maneira, at\u00e9 o fim\u2026 Pois bem, escuta um pouco a hist\u00f3ria da cabra do Sr. S\u00e9guin. Ver\u00e1s o que se ganha em querer viver livre.<\/p>\n<p>O Sr. S\u00e9guin nunca tivera sorte com suas cabras; elas arrebentavam a corda, fugiam para a montanha, e l\u00e1 no alto o lobo as comia. Nem os carinhos do dono, nem o medo do lobo, nada as retinha. Eram, parece, cabras independentes, querendo a qualquer pre\u00e7o a amplid\u00e3o e a liberdade. O estim\u00e1vel Sr. S\u00e9guin, que nada compreendia do car\u00e1ter dos seus animais, estava consternado e dizia:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o fim. As cabras se aborrecem em minha casa. N\u00e3o conservarei nenhuma delas.<\/p>\n<p>Entretanto ele n\u00e3o se desencorajava, e depois de perder seis cabras do mesmo modo, comprou uma s\u00e9tima; somente, desta vez, teve o cuidado de a prender enquanto muito nova, para que ela se habituasse melhor a permanecer em sua casa.<\/p>\n<p>Ah! Gringoire, como era bonita a cabrinha do Sr. S\u00e9guin! Como era linda, com seus olhos doces, sua barbicha de sub-oficial, seus cascos negros e luzentes, seus cornos zebrados e seus longos pelos brancos, que a cobriam como uma sobrepeliz! Era quase t\u00e3o encantadora quanto o cabritinho de Esmeralda \u2014 lembras-te, Gringoire? E, ademais, d\u00f3cil, carinhosa, deixando-se ordenhar sem se agitar, sem meter os p\u00e9s no balde. Um amor de cabrinha\u2026<\/p>\n<p>O Sr. S\u00e9guin tinha atr\u00e1s de casa um curral cercado de plantas espinhentas. Foi l\u00e1 que ele p\u00f4s a nova pensionista. Ligou-a com uma canga de madeira ao mais belo s\u00edtio do prado, tendo o cuidado de lhe deixar bastante corda. De vez em quando ia ver se ela se encontrava bem. A cabra se achava muito feliz, e pastava a erva de t\u00e3o boa vontade, que o Sr. S\u00e9guin estava encantado.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim \u2014 pensava o pobre homem \u2014 eis a\u00ed uma que n\u00e3o se aborrecer\u00e1 em minha casa!<\/p>\n<p>O Sr. S\u00e9guin se enganava; a cabra aborreceu-se. Um dia ela disse para si mesma, contemplando a montanha:<\/p>\n<p>\u2014 Como se deve estar bem l\u00e1 em cima! Que prazer saltar entre a vegeta\u00e7\u00e3o, sem esta maldita corda que esfola o pesco\u00e7o da gente!\u2026 \u00c9 bom para o burro ou para o boi, pastar num cercado!\u2026 As cabras necessitam de largueza.<\/p>\n<p>A partir desse momento a erva do cercado lhe pareceu ins\u00edpida. Sobreveio-lhe o t\u00e9dio. Emagreceu. O leite diminuiu. Dava d\u00f3 v\u00ea-la arrastar a corda o dia inteiro, a cabe\u00e7a voltada para o lado da montanha, a venta aberta, fazendo \u201cm\u00e9\u201d\u2026 tristemente.<\/p>\n<p>O Sr. S\u00e9guin notou logo que a cabra tinha qualquer coisa, mas n\u00e3o sabia o que era. Uma manh\u00e3, quando acabava de a ordenhar, a cabra voltou-se e lhe disse no seu pato\u00e1:<\/p>\n<p>\u2014 Escute, Sr. S\u00e9guin, eu enlangue\u00e7o em sua casa, deixe-me ir \u00e0 montanha.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Meu Deus!\u2026 Ela tamb\u00e9m! \u2014 gritou o sr. S\u00e9guin estupefato.<\/p>\n<p>E com o susto deixou tombar o balde. Depois, sentando-se na relva ao lado de sua cabra:<\/p>\n<p>\u2014 Como, Branquinha, queres deixar-me!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Sr. S\u00e9guin.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 pasto que te falta aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o, Sr. S\u00e9guin.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez estejas amarrada a dist\u00e2ncia curta demais. Queres que te alongue a corda?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vale a pena, Sr. S\u00e9guin.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9 que te falta? Que queres?<\/p>\n<p>\u2014 Quero ir para a montanha, Sr. S\u00e9guin.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, desgra\u00e7ada, tu n\u00e3o sabes que h\u00e1 o lobo na montanha? Que far\u00e1s quando ele vier?<\/p>\n<p>\u2014 Dar-lhe-ei chifradas, Sr. S\u00e9guin.<\/p>\n<p>\u2014 O lobo pouco se importa com teus chifres. Ele comeu cabritas muito mais chifrudas do que tu\u2026 Sabes da pobre velha Renaude, que estava aqui no ano passado, uma senhora cabra forte e malvada como um bode? Ela lutou com o lobo a noite inteira\u2026 depois, pela manh\u00e3, o lobo a comeu.<\/p>\n<p>\u2014 Ai dela! Pobre Renaude!\u2026 Isso n\u00e3o importa, Sr. S\u00e9guin, deixe-me ir \u00e0 montanha.<\/p>\n<p>\u2014 Divina Provid\u00eancia!\u2026 \u2014 disse o Sr. S\u00e9guin. \u2014 Que acontece \u00e0s minhas cabras? Outra mais que o lobo vai comer\u2026 Pois bem, n\u00e3o\u2026 Eu te salvarei, a teu pesar, velhaca! E, porque receio que rompas a corda, vou fechar-te no est\u00e1bulo, e ali ficar\u00e1s sempre.<\/p>\n<p>Em seguida o Sr. S\u00e9guin levou a cabra para um est\u00e1bulo todo escuro, cuja porta fechou com duas voltas da chave. Infelizmente, esquecera-se da janela; e, mal virou as costas, a pequena se foi\u2026<br \/>\nTu ris, Gringoire? Santo Deus! Acredito; tu \u00e9s do partido das cabras, e est\u00e1s contra o bom Sr. S\u00e9guin\u2026 Vamos ver se rir\u00e1s todo o tempo.<\/p>\n<p>Quando a cabra branca chegou \u00e0 montanha, foi um encantamento geral. Jamais os velhos pinheiros tinham visto nada assim t\u00e3o lindo. Receberam-na como a uma pequena rainha. Os castanheiros se curvavam at\u00e9 o ch\u00e3o, para acarici\u00e1-la com a ponta de seus ramos. As giestas douradas se abriam \u00e0 sua passagem e a cheiravam quanto podiam. A montanha inteira fez-lhe festa.<\/p>\n<p>Imagina, Gringoire, como nossa cabra era feliz! Nada de corda, nada de canga\u2026 nada que a impedisse de pular, de pastar \u00e0 sua maneira\u2026 E quanta erva havia l\u00e1! At\u00e9 lhe ultrapassava os chifres, meu caro!\u2026 E que erva! Saborosa, fina, recortada, feita de mil plantas\u2026 Era muito diferente do capim do cercado. E as flores, ent\u00e3o!\u2026 Grandes camp\u00e2nulas azuis, digitalis de p\u00farpura, com longos c\u00e1lices, toda uma floresta de flores selvagens, transbordando sucos capitosos.<\/p>\n<p>A cabra branca, meio farta, espojava-se l\u00e1 dentro com as pernas para o ar e rolava ao longo das encostas, de cambulhada com as folhas ca\u00eddas e as castanhas. Em seguida saltava repentinamente e endireitava-se sobre as patas. Upa! Ei-la que partia, cabe\u00e7a para a frente, atrav\u00e9s de cerrados e capoeiras, ora sobre um pico, ora no fundo de uma ravina, no alto, embaixo, por toda parte. Dir-se-ia haver dez cabras do Sr. S\u00e9guin na montanha.<\/p>\n<p>\u00c9 que a Branquinha n\u00e3o tinha medo de nada.<\/p>\n<p>Ela franqueava de um salto grandes torrentes, que lhe atiravam \u00e0 passagem poeira \u00famida de espuma. Ent\u00e3o, toda gotejante, ia estender-se em alguma rocha plana e se fazia secar ao sol. Uma vez, avan\u00e7ando \u00e0 beira de um planalto, com uma flor de citisa entre os dentes, vislumbrou l\u00e1 embaixo, bem l\u00e1 embaixo, na plan\u00edcie, a casa do Sr. S\u00e9guin com o cercado atr\u00e1s. Isso a fez rir at\u00e9 as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 pequeno! \u2014 disse ela. \u2014 Como pude permanecer l\u00e1 dentro?<\/p>\n<p>Pobrezinha! Ao ver-se empoleirada t\u00e3o alto, acreditava-se pelo menos t\u00e3o grande quanto o mundo.<br \/>\nEm resumo, foi uma linda jornada para a cabra do Sr. S\u00e9guin. Pelo meio do dia, correndo \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, ela caiu no meio de um bando de gamos que despeda\u00e7avam, para comer, uma vinha selvagem. Nossa pequena corredora, de roupa branca, causou sensa\u00e7\u00e3o. Deram-lhe o melhor lugar na vinha, e todos esses senhores foram muito galantes\u2026 Parece mesmo \u2014 isto deve ficar entre n\u00f3s, Gringoire \u2014 que um jovem gamo de pelagem negra teve a sorte de agradar a Branquinha. Os dois namorados se perderam entre o bosque, durante uma ou duas horas; e se quiseres saber o que disseram, vai perguntar \u00e0s fontes tagarelas que correm invis\u00edveis sob o musgo.<\/p>\n<p>De repente o vento esfriou. A montanha se tornou violeta. Era a noite\u2026<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! \u2014 disse a cabrinha, e se deteve muito espantada.<\/p>\n<p>Embaixo, os campos estavam inundados de bruma. O cercado do Sr. S\u00e9guin desaparecia na penumbra, e da casinhola s\u00f3 se via o teto com um pouco de fuma\u00e7a. Ela ouviu as campainhas de um rebanho que se recolhia, e sentiu a alma muito triste. Um coruj\u00e3o que voltava ao ninho a esfrolou com as asas, ao passar. Ela estremeceu\u2026 depois foi um brado na montanha:<\/p>\n<p>\u2014 Uuuuu! Uuuuu!<\/p>\n<p>Ela pensou no lobo; o dia inteiro a louca n\u00e3o tinha pensado nisso\u2026 No mesmo instante, uma trompa soou bem longe, no vale. Era esse bom Sr. S\u00e9guin, que tentava um \u00faltimo esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Uuuu! Uuuu! Uuuu! \u2014 fazia o lobo.<\/p>\n<p>\u2014 Volta! Volta! \u2014 gritava a trompa.<\/p>\n<p>Branquinha teve vontade de voltar, mas lembrando-se da canga, da corda, da cerca do curral, pensou que j\u00e1 agora n\u00e3o mais se podia afazer \u00e0quela vida, e que era melhor ficar.<\/p>\n<p>A trompa n\u00e3o soou mais\u2026<\/p>\n<p>A cabra ouviu atr\u00e1s de si um rumor de folhas. Voltou-se, e viu na sombra duas orelhas curtas, muito direitas, com dois olhos que reluziam\u2026 Era o lobo.<\/p>\n<p>Enorme, im\u00f3vel, sentado sobre os quartos traseiros, estava ali, olhando para a cabrinha branca e saboreando-a por antecipa\u00e7\u00e3o. Como sabia que a comeria, o lobo n\u00e3o se apressava; somente, quando ela se voltou, ele se p\u00f4s a rir maldosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ah! A cabrinha do Sr. S\u00e9guin! \u2014 e passou a grossa l\u00edngua vermelha sobre as bei\u00e7olas de cogumelo.<\/p>\n<p>Branquinha sentiu-se perdida\u2026 Por instantes, lembrando-se da hist\u00f3ria da velha Renaude, que se tinha batido a noite toda para ser devorada pela manh\u00e3, disse para si mesma que talvez fosse melhor deixar-se comer imediatamente. Depois, tendo mudado de id\u00e9ia, caiu em guarda, a cabe\u00e7a baixa e o chifre para a frente, como corajosa cabra do Sr. S\u00e9guin que era. N\u00e3o que tivesse esperan\u00e7a de matar o lobo \u2014 as cabras n\u00e3o matam o lobo \u2014 mas unicamente para ver se poderia resistir tanto tempo quanto a Renaude\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o monstro avan\u00e7ou, e os pequenos chifres come\u00e7aram a dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ah! a valente cabrinha, como lutava com todas as for\u00e7as! Mais de dez vezes (eu n\u00e3o minto, Gringoire) ela for\u00e7ou o lobo a recuar para retomar alento. Durante essas tr\u00e9guas de um minuto, a gulosa colhia \u00e0s pressas um brotinho da erva querida, depois retornava ao combate, com a boca cheia. Isso durou toda a noite. De quando em quando a cabra do Sr. S\u00e9guin olhava as estrelas dan\u00e7arem no c\u00e9u claro, e dizia consigo mesma:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! tomara que eu resista at\u00e9 a madrugada\u2026<\/p>\n<p>Uma ap\u00f3s outra, as estrelas se extinguiram. Branquinha redobrou as chifradas, o lobo as dentadas\u2026 Um p\u00e1lido clar\u00e3o apareceu no horizonte\u2026 O canto enrouquecido do galo subiu de uma fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim! \u2014 disse o pobre animal, que n\u00e3o esperava sen\u00e3o pelo dia para morrer.<\/p>\n<p>E ela estendeu-se por terra em sua bela pelagem branca, toda malhada de sangue\u2026 A\u00ed o lobo se atirou sobre a cabrinha e a devorou.<\/p>\n<p>Adeus, Gringoire!<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que ouviste n\u00e3o \u00e9 um conto de minha inven\u00e7\u00e3o. Se algum dia vieres \u00e0 Proven\u00e7a, nossos caseiros te falar\u00e3o freq\u00fcentemente da cabro de moussu S\u00e9guin, que se batt\u00e8gue touto la neui em\u00e9 loup, e piei, lou loup la mang\u00e9 \u2014 A cabra do Sr. S\u00e9guin, que se bateu toda a noite com o lobo, e depois, pela manh\u00e3, o lobo a devorou.<\/p>\n<p>Ouves-me bem, Gringoire?<\/p>\n<p>E piei, lou loup la mang\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao Sr. Pierre Gringoire, poeta l\u00edrico em Paris. Tu ser\u00e1s sempre o mesmo, meu pobre Gringoire! Como! 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