{"id":389,"date":"2018-07-05T01:15:33","date_gmt":"2018-07-05T01:15:33","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=389"},"modified":"2018-07-05T01:16:27","modified_gmt":"2018-07-05T01:16:27","slug":"as-fadas-da-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/as-fadas-da-franca","title":{"rendered":"As Fadas da Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>\u2014 Acusado, levante-se! \u2014 disse o presidente.<\/p>\n<p>Ocorreu um movimento hediondo no banco dos r\u00e9us incendi\u00e1rios, e algo informe e tiritante veio apoiar-se contra a barra. Era um feixe de trapos, de buracos, de pe\u00e7as, de cordas, de velhas flores, de velhos penachos; por cima de tudo, um pobre rosto fanado, brunido, enrugado, maltratado, em que a mal\u00edcia de dois pequenos olhos negros cintilava no meio das rugas, como um lagarto na fenda de um velho muro.<\/p>\n<p>\u2014 Como se chama? \u2014 perguntaram-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Melusina.<\/p>\n<p>\u2014 Como disse?\u2026<\/p>\n<p>Ela repetiu gravemente:<\/p>\n<p>\u2014 Melusina.<\/p>\n<p>Sob o forte bigode de coronel dos drag\u00f5es, o presidente teve um sorriso, mas continuou impass\u00edvel:<\/p>\n<p>\u2014 Idade?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei mais.<\/p>\n<p>\u2014 Profiss\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sou fada!\u2026<\/p>\n<p>De espanto, o audit\u00f3rio, o conselho, o pr\u00f3prio comiss\u00e1rio do governo, toda a gente, enfim, soltou uma grande gargalhada. Mas isso n\u00e3o a perturbou absolutamente, e com voz fr\u00e1gil, clara e cheia de tr\u00eamulos, que subia alto na sala e planava como uma voz de sonho, a velha retornou:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! as fadas da Fran\u00e7a! Onde est\u00e3o elas? Todas mortas, meus bons senhores. Eu sou a \u00faltima. N\u00e3o resta mais nenhuma sen\u00e3o eu\u2026 Na verdade, \u00e9 grande preju\u00edzo, pois a Fran\u00e7a era bem mais bela quando ainda tinha fadas. \u00c9ramos a poesia do pa\u00eds, sua f\u00e9, sua candura, sua juventude. Todos os lugares que freq\u00fcent\u00e1vamos \u2014 os fundos dos parques cheios de matar\u00e9u, as pedras das fontes, as pequenas torres dos velhos castelos, as brumas dos lagos, as grandes plan\u00edcies pantanosas \u2014 recebiam de nossa presen\u00e7a algo de m\u00e1gico e de imenso. \u00c0 claridade fant\u00e1stica das lendas, viam-nos passar um pouco por toda parte, arrastando as saias num raio de luar, ou correndo pelos prados, na extremidade das plantas. Os camponeses nos amavam, nos veneravam.<\/p>\n<p>Nas imagina\u00e7\u00f5es ing\u00eanuas, nossas frontes coroadas de p\u00e9rolas, nossas varinhas de cond\u00e3o, nossos bast\u00f5es encantados, misturavam um pouco de temor \u00e0 adora\u00e7\u00e3o. Nossas fontes, igualmente, permaneciam sempre claras. As charruas se detinham nos caminhos que guard\u00e1vamos; e como inspir\u00e1vamos o respeito pelo que era antigo \u2014 n\u00f3s, as mais velhas do mundo \u2014 de um a outro extremo da Fran\u00e7a deixavam-se as florestas crescerem, as pedras se deslocarem por si mesmas.<\/p>\n<p>Mas o s\u00e9culo progrediu. As estradas de ferro vieram. Cavaram-se t\u00faneis, entulharam-se os lagos, cortaram-se tantas \u00e1rvores, que bem depressa n\u00e3o sab\u00edamos mais onde nos metermos. Pouco a pouco, os camponeses deixaram de acreditar em n\u00f3s. \u00c0 noite, quando bat\u00edamos nos postigos, Robin dizia: \u201c\u00c9 o vento\u201d, e tornava a dormir. As mulheres vinham lavar roupa nos lagos. Desde ent\u00e3o tudo se acabou para n\u00f3s. Como n\u00e3o viv\u00edamos sen\u00e3o da cren\u00e7a popular, perdendo-a, t\u00ednhamos perdido tudo. A virtude das nossas varas de cond\u00e3o esvaiu-se, e, de poderosas rainhas que \u00e9ramos, transformamo-nos em velhas mulheres, enrugadas, malvadas como fadas esquecidas; com o p\u00e3o para ganhar e m\u00e3os que n\u00e3o sabiam fazer nada, al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, \u00e9ramos encontradas nas florestas, arrastando cargas de lenha seca ou amontoando espigas \u00e0 beira das estradas. Mas os florestais eram duros para n\u00f3s, os camponeses nos atiravam pedras. Ent\u00e3o, como os pobres que n\u00e3o encontram mais no que ganhar a vida na regi\u00e3o, fomos procurar trabalho nas grandes cidades.<\/p>\n<p>Algumas entraram nas fia\u00e7\u00f5es. Outras venderam ma\u00e7\u00e3s de inverno, \u00e0 entrada das pontes, ou objetos religiosos nas portas das igrejas. Empurr\u00e1vamos diante de n\u00f3s carrocinhas de laranjas, estend\u00edamos aos passantes ramalhetes de um n\u00edquel, que ningu\u00e9m queria, e os pequenos zombavam de nossos queixos tr\u00eamulos, e os sargentos da cidade nos faziam correr, e os \u00f4nibus nos atropelavam. Depois a doen\u00e7a, as priva\u00e7\u00f5es, um len\u00e7ol de hospital sobre a cabe\u00e7a\u2026 E eis a\u00ed como a Fran\u00e7a deixou todas as suas fadas morrerem. Ela tem sido bem punida por isso!<\/p>\n<p>Sim, sim! Riam, meus caros. N\u00e3o obstante, acabamos de ver no que se torna um pa\u00eds que n\u00e3o tem mais fadas. Vimos todos esses camponeses gananciosos e sorridentes abrirem suas caixas de p\u00e3o aos prussianos e lhes indicarem as estradas. A\u00ed est\u00e1! Robin n\u00e3o acreditava mais nos sortil\u00e9gios; mas tamb\u00e9m n\u00e3o acreditava mais na p\u00e1tria\u2026 Ah! se houv\u00e9ssemos estado ali, n\u00f3s outras, de todos esses alem\u00e3es que entraram em Fran\u00e7a n\u00e3o sairia um vivo. Nossos duendes, nossos feios diabinhos os teriam conduzido pelos caminhos que se afundam na terra. Em todas as fontes puras que levavam nossos nomes, ter\u00edamos misturado beberagens encantadas que os teriam enlouquecido; e, em nossas reuni\u00f5es, ao luar, com uma palavra m\u00e1gica, ter\u00edamos confundido de tal forma as estradas, os rios, e entran\u00e7ado t\u00e3o bem espinhos, sar\u00e7as, carrascais \u2014 essas partes baixas do bosque, onde eles iam sempre enroscar-se \u2014 que os olhinhos de gato do Sr. de Moltke n\u00e3o poderiam jamais reconhec\u00ea-los.<\/p>\n<p>Conosco os camponeses teriam marchado. Grandes flores dos nossos lagos nos teriam dado b\u00e1lsamo para os ferimentos, os fios da Virgem nos teriam servido de pensos; e, nos campos de batalha, o soldado, ao morrer, teria visto a fada do seu cant\u00e3o inclinar-se sobre seus olhos semifechados, para lhe mostrar um canto de bosque, um trecho de estrada, alguma coisa que lhe lembrasse a terra natal. \u00c9 com isto que se faz a guerra nacional, a guerra santa. Mas, ai de n\u00f3s! Nos pa\u00edses que j\u00e1 n\u00e3o cr\u00eaem, nos pa\u00edses que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam fadas, essa guerra n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Aqui a fr\u00e1gil voz delicada interrompeu-se por um momento, e o presidente tomou a palavra:<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isto n\u00e3o nos diz o que fazia a senhora com o petr\u00f3leo encontrado em seu poder, quando os soldados a detiveram.<\/p>\n<p>\u2014 Eu queimava Paris, meu bom senhor \u2014 respondeu a velha, muito tranq\u00fcilamente. \u2014 Eu incendiava Paris, porque a odeio, porque ela se ri de tudo, porque foi ela que nos matou. Foi Paris que enviou s\u00e1bios para analisarem nossas belas fontes miraculosas, e dizerem exatamente o que entrava de ferro e de enxofre na sua composi\u00e7\u00e3o. Paris zombou de n\u00f3s nos teatros. Nossos encantamentos se tornaram truques; nossos milagres, divertimentos; e viram-se tantas caras abjetas ostentarem nossos vestidos cor-de-rosa, nossos carros alados, em meio ao luar e aos fogos de Bengala, que ningu\u00e9m mais pensa em n\u00f3s sem rir\u2026 Havia pequerruchos que nos conheciam pelos nomes, que nos amavam e nos temiam um pouco.<\/p>\n<p>Mas, em lugar dos belos livros, enfeitados de ouro e de figuras, onde aprendiam nossa hist\u00f3ria, Paris agora lhes p\u00f5e nas m\u00e3os a ci\u00eancia ao alcance das crian\u00e7as, grossos alfarr\u00e1bios, de onde o aborrecimento remonta como poeira cinzenta e apaga nos pequeninos olhos os pal\u00e1cios encantados e os espelhos m\u00e1gicos\u2026 Oh! sim, estou contente de os ver queimar, vossa Paris\u2026 Era eu que enchia as caixas dos incendi\u00e1rios, e eu pr\u00f3pria que os conduzia aos lugares adequados: \u201cV\u00e3o, meus filhos, queimem tudo, queimem, queimem\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Decididamente, essa velha \u00e9 louca \u2014 disse o presidente. \u2014 Podem lev\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Acusado, levante-se! \u2014 disse o presidente. 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