{"id":392,"date":"2018-07-05T01:17:15","date_gmt":"2018-07-05T01:17:15","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=392"},"modified":"2018-07-05T01:34:55","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:55","slug":"figuras-iii-sizenando-nabuco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/figuras-iii-sizenando-nabuco","title":{"rendered":"Figuras III \u2013 Sizenando Nabuco"},"content":{"rendered":"<p>Mais um homem de esp\u00edrito que se recolheu \u00e0 terra; mais um companheiro que desabou para sempre na infind\u00e1vel noite em que n\u00e3o h\u00e1 estrelas nem esperan\u00e7as de aurora, mais uma parcela da grande e generosa alma brasileira, que se perdeu para a p\u00e1tria nestes dolorosos per\u00edodos de ang\u00fastia e desalento.<\/p>\n<p>Sizenando Nabuco foi um lutador vitorioso como advogado p\u00fablico e como propagandista das mais santas e elevadas causas sociais; mas, como homem de talento, foi nada mais que uma v\u00edtima do seu meio e da desorientada \u00e9poca em que teve de decidir e tra\u00e7ar a sua carreira.<\/p>\n<p>A natureza talhara-o para homem de letras; dera-lhe uma alma ardente e apaixonada de poeta; uma delicad\u00edssima suscetibilidade nervosa, pronta sempre a vibrar sonoramente ao toque mais sutil da mais passageira asa de uma como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu primeiro ideal foi a literatura, e durante os anos acad\u00eamicos todo o seu esfor\u00e7o, todos o seus estudos fora do curso, foram a ela consagrados. Muito mo\u00e7o ainda, creio que aos dezenove anos, revelou-se com um drama A t\u00fanica de Nesso, que marcou a sua primeira vit\u00f3ria no teatro. Esse trabalho fez sensa\u00e7\u00e3o. O Imperador chamou o autor no seu camarote, cumprimentou-o, deu-lhe conselhos.<\/p>\n<p>Sizenando continuou a trabalhar, sempre com \u00eaxito, mas em breve reconheceu que no Brasil a literatura poderia ser um belo ideal de estudante, nunca por\u00e9m um seguro e produtivo meio de vida para um homem de aspira\u00e7\u00f5es. E rejeitou as solicita\u00e7\u00f5es do seu talento liter\u00e1rio, cortou as asas da sua imagina\u00e7\u00e3o, escondeu os seus manuscritos, e de um salto atirou-se \u00e0 tribuna de advogado.<\/p>\n<p>Como ao lado dos dotes de escritor, a natureza lhe pusera todos os dotes orat\u00f3rios, fez r\u00e1pida carreira na jurisprud\u00eancia e ganhou logo o prest\u00edgio e a popularidade que o acompanharam at\u00e9 ao fim da sua vida de lutas sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 velho, enfarado dos seus triunfos jur\u00eddicos, convencido de que as gl\u00f3rias de um tribuno s\u00e3o como as fugitivas conquistas de um ator, cujo trabalho n\u00e3o vai al\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o que o ouviu, cansado dessa campanha da vida pela vida, em que vamos deixando dia a dia os farrapos da alma mo\u00edda e esfalfada, era para os seus primitivos ideais que ele volvia os olhos desiludidos e saudosos.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cAh! tivera eu nascido em outro pa\u00eds, fora sempre e seria ainda um homem de letras!\u2026\u201d disse-me ele urna vez, com um triste sorriso, conversando-me sobre literatura.<\/p>\n<p>Um dia de seus anos, h\u00e1 talvez cinco, Sizenando, sem \u00e2nimo para fazer uma festa, mas querendo viver um instante das alegrias do passado e embriagar-se por um momento com o vinho das suas primeiras ilus\u00f5es, convidou um grupo de rapazes de letras para passarem algumas horas de palestra em sua casa.<\/p>\n<p>Eu fui um deles.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam o Valentim Magalh\u00e3es, o Filinto de Almeida, o Urbano Duarte, o Raimundo Correia, o Luiz Murat, o Rou\u00e8de, e outros.<\/p>\n<p>Que noite deliciosa! O Sizenando parecia ter voltado aos seus vinte anos.<\/p>\n<p>Falava de arte vertiginosamente, rindo, criticando, numa prodigalidade de pilh\u00e9ria e de bom humor, que a todos n\u00f3s se comunicava e que a todos n\u00f3s seduzia. Com o seu esp\u00edrito e com os segredos daquela prodigiosa e fascinante galanteria que era um dos mais belos privil\u00e9gios do seu tipo, conseguiu transformar aquelas horas de simples palestra de rapazes no mais encantador ser\u00e3o liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Instado por todos n\u00f3s, consentiu em ler alguma cousa de sua produ\u00e7\u00e3o, mas exigiu que fosse obra do bom tempo, do tempo dos sonhos e das quimeras.<\/p>\n<p>Trouxe uni manuscrito, assentou-se a uma mezinha ao centro da sala; assentamo-nos em torno dele, e come\u00e7ou a leitura<\/p>\n<p>Sabeis de qu\u00ea! De um drama tirado do c\u00e9lebre romance Monseur de Camors de Ot\u00e1vio Feuillet escrito em bom e nervoso franc\u00eas, com estilo, com a naturalidade e a gra\u00e7a de quem escreve na pr\u00f3pria l\u00edngua.<\/p>\n<p>Oh! como os seus olhos se acendiam, como a sua voz pujante se inflamava com aquelas frases apaixonadas! Como a sua bela alma rom\u00e2ntica acordava aquela m\u00fasica do passado! Uma quente ressurrei\u00e7\u00e3o de beijos da mocidade! Um del\u00edrio de amor e de m\u00e1goas sentimentais!<\/p>\n<p>Depois leu outra obra, esta agora escrita em portugu\u00eas. E de cada p\u00e1gina o mesmo efl\u00favio de poesia se evolava, como um perfume dos tempos do romantismo. Aqueles manuscritos de letras amarelecidas eram as urnas de velhos b\u00e1lsamo consagrados pelo sacrif\u00edcio do seu talento de escritor, jaziam ali todas as suas ilus\u00f5es, todos os seus sonhos de artista e todas as l\u00e1grimas da sua alma primitiva.<\/p>\n<p>E quando voltei de l\u00e1, sentindo ainda cantar-me aos ouvidos a melancolia daquela vaporosa m\u00fasica do passado, tive assomos de amaldi\u00e7oar esta p\u00e1tria burguesa, esta m\u00e3e desalmada, que n\u00e3o tem seios para acalentar os seus poetas.<\/p>\n<p>E agora, quando me disseram que Sizenando Nabuco acabava de morrer, foi ainda a lembran\u00e7a dessa noite de escava\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, essa noite de passeio pelos cemit\u00e9rios do seu passado, que me veio ao cora\u00e7\u00e3o como uma triste e p\u00e1lida figura de saudade, assentar-se ao lado da palpitante dor de o saber morto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um homem de esp\u00edrito que se recolheu \u00e0 terra; mais um companheiro que desabou para sempre na infind\u00e1vel noite em que n\u00e3o h\u00e1 estrelas nem esperan\u00e7as de aurora, mais uma parcela da grande e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-392","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=392"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":395,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/392\/revisions\/395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}