{"id":399,"date":"2018-07-05T01:18:22","date_gmt":"2018-07-05T01:18:22","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=399"},"modified":"2018-07-05T01:34:54","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:54","slug":"erancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/erancas","title":{"rendered":"Eran\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>Duro o sobrecenho, a cara franzida e m\u00e1, trabalhava ele sombriamente \u00e0 sua secret\u00e1ria, importunado pelo rumor de duas vozes, uma de homem e outra de mulher, que altercavam na sala pr\u00f3xima, num arrastado crescendo de rixa habitual.<\/p>\n<p>\u2013 Diabo! resmungou, co\u00e7ando a cabe\u00e7a. J\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o os dois a brigar! N\u00e3o me deixam fazer nada!\u2026<\/p>\n<p>O ru\u00eddo aumentou. Cruzaram-se inj\u00farias mais fortes; ouviram-se punhadas e pontap\u00e9s nos m\u00f3veis.<\/p>\n<p>\u2013 Que inferno!<\/p>\n<p>E o rapaz arremessou a pena e correu \u00e0 porta da sala, exclamando desabridamente:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, meu pai! n\u00e3o tenciona acabar com isso?!<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o v\u00eas que \u00e9 tua m\u00e3e que me provoca?! berrou o outro apopl\u00e9tico de raiva. Vem ouvir s\u00f3 o que ela me est\u00e1 dizendo, esta peste!<\/p>\n<p>\u2013 Ora tenha ju\u00edzo!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Malandro!<\/p>\n<p>\u2013 Ouviste?!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o fa\u00e7a caso!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Especulador!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 demais!<\/p>\n<p>\u2013 Deixe-a l\u00e1!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 B\u00eabedo! Covarde!<\/p>\n<p>\u2013 Covarde?! Pois vou dar-te o pano de amostra da minha covardia, v\u00edbora assanhada!<\/p>\n<p>E o homem atirou-se em f\u00faria, de m\u00e3os prontas para fechar a mulher dentro das garras. Mas o filho, de um salto, susteve-lhe a carreira e apresou-o energicamente pelo vigoroso dorso, empurrando-o para o quarto onde trabalhava e cuja porta obstruiu com o corpo.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa-me, ou te arrepender\u00e1s! bradou o pai, amea\u00e7ando-o com o punho cerrado.<\/p>\n<p>\u2013 Acalme-se! O senhor j\u00e1 est\u00e1 em idade de ter ju\u00edzo! Apre!<\/p>\n<p>\u2013 Tento na l\u00edngua! Olha que ainda sou homem para amassar voc\u00eas dois numa s\u00f3 pasta!<\/p>\n<p>O filho n\u00e3o fez caso da nova amea\u00e7a, deu com \u00edmpeto uma volta \u00e0 ma\u00e7aneta da porta e disse ao outro em tom seco:<\/p>\n<p>\u2013 O senhor est\u00e1 hoje num dos seus dias, e eu preciso trabalhar, sabe? O melhor \u00e9 p\u00f4r-se ao fresco! V\u00e1 dar um giro pela estrada. A lua j\u00e1 nasceu e os caminhos est\u00e3o secos at\u00e9 \u00e0 esta\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vou! Ningu\u00e9m aqui nesta casa tem o direito de mandar-me sair!<\/p>\n<p>\u2013 Decerto, mas \u00e9 melhor que se afaste\u2026 No fim de contas sou seu filho e pesa-me ter de faltar-lhe ao respeito para defender minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2013 Chega a tempo esse escr\u00fapulo\u2026 N\u00e3o h\u00e1 que ver!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o puxe palavras! Sinto-me pouco disposto a discutir e tenho muito que fazer!<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o me provocasses! N\u00e3o te fosses meter onde n\u00e3o eras chamado!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o o provoquei, ora esta! Meti-me na sua contenda com minha m\u00e3e, para lhe n\u00e3o deixar que batesse nela. N\u00e3o seria a primeira vez. Sei at\u00e9 onde vai a for\u00e7a do seu g\u00eanio!<\/p>\n<p>\u2013 Meu g\u00eanio! E podes tu falar dele?\u2026 Acaso tens tu melhor g\u00eanio do que eu?\u2026 N\u00e3o me ter\u00e1s dado porventura as mais belas provas da tua brutalidade e da tua insol\u00eancia?\u2026 Sempre te conheci feroz! Ainda bem pequeno, em um \u00edmpeto de raiva uma vez que no a\u00e7ude te quis constranger a nadar comigo, mordeste-me o bra\u00e7o como um c\u00e3o! conservo at\u00e9 hoje no corpo o sinal dos teus dentes! olha!<\/p>\n<p>E, em um s\u00f3 tempo, o homem arrega\u00e7ou at\u00e9 os b\u00edceps as mangas do bra\u00e7o esquerdo, e estendeu-o ereto e nu defronte dos olhos do filho.<\/p>\n<p>Este abaixou a cabe\u00e7a com tristeza, sem desfranzir o sobrecenho\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 exato\u2026 disse, sa\u00ed aos meus\u2026 Juro-lhe por\u00e9m que sempre me arrependo das minhas viol\u00eancias, mal as cometo\u2026 E se ainda h\u00e1 pouco n\u00e3o interviesse na sua disputa com minha m\u00e3e, o senhor t\u00ea-la-ia espancado\u2026<\/p>\n<p>\u2013 E o que tinhas a ver com isso? Antes dela ser tua m\u00e3e, j\u00e1 era minha mulher! Tu lhe deves respeito, mas eu tenho o direito de ser respeitado por ela!<\/p>\n<p>\u2013 Bom! Acabou-se! V\u00e1 dar um passeio; v\u00e1 que isso lhe far\u00e1 bem\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o acabou tal! quiseste arrematar a contenda, pois agora \u00e9 ag\u00fcentar com ela! Se assim n\u00e3o fosse, escusava eu de estar aqui a trocar palavras contigo; j\u00e1 sabes que posso passar perfeitamente sem te ouvir a voz\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Mas afinal, onde quer o senhor chegar?<\/p>\n<p>\u2013 Quero despejar os meus ressentimentos contra tua m\u00e3e e contra ti!<\/p>\n<p>O rapaz sacudiu a cabe\u00e7a com impaci\u00eancia, e soprou forte todo o ar dos pulm\u00f5es, cerrando mais as sobrancelhas.<\/p>\n<p>O outro prosseguiu resfolegando a mi\u00fado:<\/p>\n<p>\u2013 Ela, aos teus olhos, ser\u00e1 tudo quanto quiseres; para mim \u00e9 e sempre foi um dem\u00f4nio! uma f\u00faria infernal! uma serpente venenosa!<\/p>\n<p>\u2013 Lembro-lhe de novo que sua mulher e minha m\u00e3e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sei, e \u00e9 por isso justamente que n\u00e3o a conheces. N\u00e3o podes ver nela a verdadeira criatura que nela existe! Todas as mulheres s\u00e3o, para os seus competentes filhos, uns anjos impec\u00e1veis; mas se aquele diabo te dissesse uma s\u00f3 parte do que a mim me repete a cada instante, na febre do rancor e da maldade, terias a cabe\u00e7a em fogo como a minha me escalda neste momento!<\/p>\n<p>\u2013 Basta! n\u00e3o quero saber disso!<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1s de saber! N\u00e3o aceito imposi\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>\u2013 Pe\u00e7o-lhe ent\u00e3o que se cale, ou se retire.<\/p>\n<p>\u2013 Pedes-me? Com que direito? Acaso esperas tu que eu atenda aos teus pedidos? S\u00f3 pedidos de amigos se tomam em considera\u00e7\u00e3o e tu nunca foste meu amigo!<\/p>\n<p>\u2013 Se nunca fui seu amigo a culpa n\u00e3o \u00e9 minha. O amor filial \u00e9 sempre uma conseq\u00fc\u00eancia do amor dos pais. N\u00e3o nasce com o filho, \u00e9 preciso form\u00e1-lo. Sei que amo minha m\u00e3e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Tal m\u00e3e, tal filho! Ela declara que me detesta; ele declara que nunca me amou\u2026<\/p>\n<p>\u2013 E o senhor?\u2026 amou-me algum dia?\u2026 No entanto o seu amor de pai devia ter nascido comigo, que sou seu filho. Eu tinha o direito, ao apear-me na vida, de encontrar o seu amor j\u00e1 de p\u00e9, \u00e0 minha espera ao lado dos gemidos de minha m\u00e3e parturiente; e foi s\u00f3 o amor materno que me recebeu, e s\u00f3 ele me vigilou o ber\u00e7o. Car\u00edcias de pai n\u00e3o me recorda hav\u00ea-las recebido na idade em que se forma o amor no cora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Sa\u00ed dos alugados bra\u00e7os de uma ama para o venal desterro de um internato de segunda ordem, onde bem raras vezes o senhor foi visitar-me. Nesse tempo, confesso-lhe, menos me lembrava das suas fei\u00e7\u00f5es que das de outros pais que l\u00e1 iam freq\u00fcentemente visitar os filhos mais felizes do que eu, nem sei, com franqueza! at\u00e9 como n\u00e3o cheguei a esquec\u00ea-las de todo! Do internato segui logo a trabalhar para um pa\u00eds estranho, onde suas cartas foram t\u00e3o raras quanto foram as suas visitas ao col\u00e9gio. Volto \u00e0 minha terra, entro de novo nesta casa, sou friamente acolhido pelo senhor e, pouco depois, recebo ordem sua para tomar por esposa uma rapariga, que eu mal conhecia; recuso. O senhor insiste. Resisto a p\u00e9 firme; o senhor op\u00f5e-me com empenho uma s\u00e9rie de raz\u00f5es pecuni\u00e1rias, que em nada alteram o meu prop\u00f3sito; e ent\u00e3o o senhor amea\u00e7a-me, como se eu fora uma crian\u00e7a ou um imbecil, e lan\u00e7a-me \u00e0 cara todas as brutalidades que lhe v\u00eam \u00e0 boca; eu pela primeira vez, fico conhecendo o homem que \u00e9 meu pai: come\u00e7o a detest\u00e1-lo e uma vez por todas, perco-lhe o respeito: insulto-o! Desde esse infeliz momento, toda a indiferen\u00e7a que o senhor tinha por mim transformou-se em \u00f3dio, \u00f3dio legitimo e mortal. E, de ent\u00e3o at\u00e9 hoje, o senhor, apesar dos meus esfor\u00e7os em ser bom filho para minha m\u00e3e, n\u00e3o procura disfar\u00e7ar sequer a profunda avers\u00e3o que eu lhe inspiro! N\u00e3o \u00e9 esta a verdade?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, \u00e9! Eu te odeio, porque o teu proceder para comigo, negando-te a aceitar a esposa, cujo dote vinha salvar tua fam\u00edlia da mis\u00e9ria, foi indigno e cruel, em vista da franqueza com que te falei e das s\u00faplicas que te fiz!<\/p>\n<p>\u2013 Indigno?<\/p>\n<p>\u2013 Foi mais: foi degradante, porque foi uma extors\u00e3o, foi um roubo!<\/p>\n<p>\u2013 Oh!<\/p>\n<p>\u2013 Sim, um roubo! Posso prov\u00e1-lo!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es que justifiquem a exig\u00eancia de tal sacrif\u00edcio nem h\u00e1 homem de bom senso que se preste a casar pelas conveni\u00eancias pecuni\u00e1rias do pai!<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Eu fui um deles! Como tu, sa\u00ed do col\u00e9gio para aprender a ganhar a vida longe de minha terra; ao voltar a esta casa meu pai apontou-me, como te apontei, a mulher com quem devia eu casar. Recalcitrei, como tu recalcitraste; mas o pobre homem trouxe-me para este quarto, que era ent\u00e3o o seu gabinete de trabalho, fechou-se comigo e, chorando abriu-me o cora\u00e7\u00e3o e contou-me a sua vida; disse-me que seu casamento tinha j\u00e1 sido feito em id\u00eanticas circunst\u00e2ncias para salvar meu av\u00f4 de uma vergonhosa ru\u00edna, e pintou-me nua e crua, tal qual como fiz contigo, a sua trist\u00edssima posi\u00e7\u00e3o. Ele, coitado, tinha aqui em casa uma \u00f3rf\u00e3 rica e feia, de quem era tutor, e de cujo dote lan\u00e7ara m\u00e3o; a maioridade dela estava a bater \u00e0 porta; ia chegar o momento da presta\u00e7\u00e3o de contas e meu pai n\u00e3o tinha com qu\u00ea. A sua \u00faltima esperan\u00e7a era o meu casamento com a pupila, essa detest\u00e1vel criatura que foi depois tua m\u00e3e. Pois bem! eu, ali\u00e1s apaixonado por outra mulher, de quem at\u00e9 hoje nunca mais me esqueci; eu n\u00e3o tive \u00e2nimo como tu tiveste, miser\u00e1vel, de abandonar meu pai ao desespero e ao opr\u00f3brio que o esperavam e sacrifiquei-me por ele. Era o meu dever de filho \u2013 cumpri-o. Meu filho, por sua vez, n\u00e3o fez o mesmo a meu favor \u2013 lesou-me! \u00c9 um ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Cale-se, por amor de Deus! exclamou o rapaz, sentindo que a c\u00f3lera, dentro dele a custo reprimida, amea\u00e7ava rebentar.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me calarei! H\u00e1s de me ouvir!<\/p>\n<p>\u2013 Oh! cale-se! cale-se! n\u00e3o me queira fazer mais desgra\u00e7ado do que sou! Cale-se, ou n\u00e3o responderei por mim!<\/p>\n<p>\u2013 Amea\u00e7as-me?! bramiu o pai. N\u00e3o te tenho medo!<\/p>\n<p>O rapaz cerrou os punhos, rilhando os dentes. Tremiam-lhe os m\u00fasculos da face, tal era o esfor\u00e7o que fazia para conter-se.<\/p>\n<p>E os dois olharam-se, em mudo e ofegante desafio. Pai e filho mediram-se com o mesmo \u00f3dio, com a mesma irascibilidade heredit\u00e1ria, com a mesma loucura consang\u00fc\u00ednea.<\/p>\n<p>Uma palavra mais s\u00f3 uma palavra, bastaria para os lan\u00e7ar um contra o outro.<\/p>\n<p>Mas a porta da sala abriu-se de rold\u00e3o, e a m\u00e3e acudiu, correndo para o filho, a cujo pesco\u00e7o se agarrou com \u00edmpeto.<\/p>\n<p>\u2013 Meu filho, n\u00e3o lhe batas! n\u00e3o lhe batas, implorou a m\u00edsera.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o lhe tocarei! Obrigado, minha m\u00e3e Ele, por\u00e9m, que saia j\u00e1 da minha presen\u00e7a! N\u00e3o o posso ver!<\/p>\n<p>\u2013 Lembra-te de que ele \u00e9 teu pai \u2026<\/p>\n<p>\u2013 Seu pai, nunca! vociferou o outro. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que este monstro seja meu filho!<\/p>\n<p>E, espumando de raiva, dirigiu-se \u00e0 mulher, com o punho fechado e o bra\u00e7o estendido, quase a tocar-lhe no rosto:<\/p>\n<p>\u2013 Esse bandido \u00e9 teu sangue, \u00e9 s\u00f3 teu sangue! Semelhante traficante nunca poderia ter procedido de mim! Concebeste-o de qualquer cigano ou de qualquer vaqueiro errante!<\/p>\n<p>\u2013 Ah! gemeu a mulher em um grito de dor e de revolta, levando ao cora\u00e7\u00e3o ambas as m\u00e3os como se o tiveram apunhalado.<\/p>\n<p>\u2013 Rua! berrou o pai. Sai j\u00e1 daqui de minha casa! Bua, miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>E atirou-se sobre o filho, para o lan\u00e7ar fora.<\/p>\n<p>Ouviu-se ent\u00e3o um bramido de fera assanhada. O rapaz, com um movimento r\u00e1pido, empolgara-o pela cintura, gritando-lhe feroz:<\/p>\n<p>\u2013 Tu \u00e9 que sair\u00e1s, infame! Vou despenhar-te pela escada!<\/p>\n<p>E travou-se a luta, irracional e b\u00e1rbara. Pai e filho eram ambos possantes e destemidos. O rapaz cingia o outro pelos rins e, aos arrancos, procurava arroj\u00e1-lo para o corredor. Mas o advers\u00e1rio resistia, e os dois estreitaram-se com mais gana, feitos em um s\u00f3, em uma s\u00f3 mole ofegante e furiosa, que rodava aos trancos pela casa, levando aos trambolh\u00f5es o que topava, despeda\u00e7ando m\u00f3veis e vidra\u00e7as, esfregando-se pelas paredes, a rodar sempre fundidos em um infernal abra\u00e7o de \u00f3dio, filho de \u00f3dio, de \u00f3dio do mesmo sangue.<\/p>\n<p>Afinal fraqueou o mais velho, caindo de joelhos. E o outro, de p\u00e9, come\u00e7ou a arrast\u00e1-lo penosamente para o lado da escada.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1s de sair! H\u00e1s de sair!<\/p>\n<p>O arrastado forcejava para resistir ainda, escorando-se no ch\u00e3o com os p\u00e9s, com as pernas e com os cotovelos; mas, polegada a polegada, ia cedendo. Arfavam como dois touros.<\/p>\n<p>\u2013 Larga-me! Larga-me!<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1s de sair! H\u00e1s de sair!<\/p>\n<p>E aproximavam-se do patamar. J\u00e1 parte do caminho estava vencida. N\u00e3o tardaria o primeiro degrau. O mais velho, por\u00e9m, a certa altura do corredor, fez um supremo esfor\u00e7o para erguer a cabe\u00e7a e, pondo as m\u00e3os, suplicou de joelhos, quase sem f\u00f4lego:<\/p>\n<p>\u2013 P\u00e1ra aqui por amor de Deus ! N\u00e3o me leves mais adiante!\u2026 Foi at\u00e9 aqui, neste lugar justamente, que eu, nestas mesmas condi\u00e7\u00f5es, uma noite como esta\u2026 arrastei teu av\u00f4 como me est\u00e1s arrastando agora!\u2026 N\u00e3o me leves al\u00e9m do que eu o levei!\u2026 N\u00e3o seria justo!\u2026 Vingaste-o!\u2026 Estamos quites!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duro o sobrecenho, a cara franzida e m\u00e1, trabalhava ele sombriamente \u00e0 sua secret\u00e1ria, importunado pelo rumor de duas vozes, uma de homem e outra de mulher, que altercavam na sala pr\u00f3xima, num arrastado crescendo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-399","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=399"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/399\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":401,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/399\/revisions\/401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}