{"id":400,"date":"2018-07-05T01:19:18","date_gmt":"2018-07-05T01:19:18","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=400"},"modified":"2018-07-05T01:34:54","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:54","slug":"como-o-demo-as-arma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/como-o-demo-as-arma","title":{"rendered":"Como o Demo as Arma"},"content":{"rendered":"<p>Teresinha era a flor das pequenas l\u00e1 da f\u00e1brica. Todos lhe queriam bem. Ningu\u00e9m como ela para saber guardar as conveni\u00eancias e saber cumprir com os seus deveres sem fazer caretas de sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Vivia de cara alegre; tocava o seu bocado de piano; sabia arranjar desenhos para os seus bordados; tinha repentes de muita gra\u00e7a; e nunca nenhuma das companheiras lhe apanhara a ponta de um desses esc\u00e2ndalos, que s\u00e3o a riqueza das palestras nos lugares em que h\u00e1 muitas raparigas juntas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, era de uma economia limpa e natural; nas suas m\u00e3ozinhas cor-de-rosa e picadas de agulha o escasso ordenado de costureira parecia transformar-se em moeda forte. Vestido seu nunca ficava fatalmente velho: era j\u00e1 mudar-lhe o feitio; era j\u00e1 trocar-lhe os enfeites, e a\u00ed estava Teresinha metendo as outras no chinelo.<\/p>\n<p>\u2013 Uma j\u00f3ia! resumia o gerente da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>E jurava que, se n\u00e3o fora velho e casado, havia de fazer-lhe a felicidade.<\/p>\n<p>Mas Teresinha, pelo jeito, n\u00e3o queria casar. Por mais de uma vez apareceram-lhe partidos bem aceit\u00e1veis, e ela torcera o narizinho a todos, dizendo que ainda era muito cedo para pensar nisso. Um seu vizinho, o Lucas com armarinho de modas e rapaz estimado no com\u00e9rcio, chegou a oferecer-lhe um dote de dez contos de r\u00e9is; outro, o Cruz tamb\u00e9m com armarinho e n\u00e3o menos estimado que o primeiro, jurou-lhe numa carta, que faria saltar os miolos, se ela n\u00e3o o tomasse por marido. Teresinha, n\u00e3o quis nenhum dos dois e continuou, muito escorreita no seu vestidinho justo ao corpo, uma flor ao peito, a bolsa de couro na m\u00e3o, a passar-lhes todos os dias pela porta, no sonoro tique-taque dos seus passos mi\u00fados, indo pela manh\u00e3 para a f\u00e1brica e voltando \u00e0 tarde para casa, sempre ligeira e saltitante como um p\u00e1ssaro arisco.<\/p>\n<p>Mas, quando lhe morreu a tia com que ela habitava, e a pequena ficou s\u00f3 no mundo, disseram logo:<\/p>\n<p>\u2013 Agora \u00e9 que veremos se ela quebra ou n\u00e3o quebra o capricho!<\/p>\n<p>\u2013 Talvez se agregue por a\u00ed a qualquer fam\u00edlia conhecida\u2026 conjeturaram.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o tola que se sujeite a isso, podendo dispor de um marido logo que o queira!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 De um ou de mais!<\/p>\n<p>\u2013 Ora! n\u00e3o falta quem a deseje!<\/p>\n<p>Teresinha, todavia, n\u00e3o se casou nem foi abrigar-se \u00e0 sombra de ningu\u00e9m; ficou morando na mesma casa em que lhe morrera a tia conservando uma criada velha que as acompanhava havia muitos anos. Na f\u00e1brica a mesma pontualidade, a mesma linha de conduta, a mesma limpeza e dilig\u00eancia no servi\u00e7o, na rua \u2013 aquele mesmo passinho curto e apressado, que mal deixava aos seus v\u00e1rios pretendentes lobrigar a ponta das suas honestas botinas pretas de salto baixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, meses depois, principiaram de aparecer-lhe transforma\u00e7\u00f5es. Notavam todos, l\u00e1 na f\u00e1brica, que a Teresinha j\u00e1 n\u00e3o era aquela rapariga alegre e caprichosa dos primeiros tempos; agora tinha esquisitices de g\u00eanio e ca\u00eda em fundas abstra\u00e7\u00f5es, quedando-se horas perdidas a olhar para o espa\u00e7o, de boca aberta, o trabalho esquecido sobre os joelhos.<\/p>\n<p>\u2013 Que ter\u00e1 ela?\u2026 cochichavam as companheiras.<\/p>\n<p>E observavam, com pontinhas de riso brejeiro, que a exemplar Teresinha, \u2013 a dilig\u00eancia em pessoa \u2013 j\u00e1 n\u00e3o era a primeira a pegar na costura e a \u00faltima a deixar o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, puseram-se a espreit\u00e1-la e a segui-la na rua.<\/p>\n<p>Descobriram logo que Teresinha ao sair do trabalho, em vez de ir para casa, metia-se na Biblioteca Nacional ou nos gabinetes de leitura ou ent\u00e3o nas lojas dos livreiros.<\/p>\n<p>E viam-na passar um tempo esquecido a escolher brochuras, a consultar revistas e alfarr\u00e1bios, fariscando nelas com o nariz enterrado entre as p\u00e1ginas, alguma cousa, que ningu\u00e9m atinava com o que fosse.<\/p>\n<p>\u2013 Querem ver que ela deu para fil\u00f3sofa?. comentaram as outras raparigas.<\/p>\n<p>Uma das mais velhacas da roda afian\u00e7ou que n\u00e3o seria a primeira Teresa que desse para isso.<\/p>\n<p>E o grande fato \u00e9 que todo o dinheirinho das economias de Teresinha era lambido pelos vendedores de livros. J\u00e1 lhe notavam at\u00e9 certa neglig\u00eancia no traje e no penteado.<\/p>\n<p>Uma vez apresentou-se na oficina de sapatos rotos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Teresinha! objurgou-lhe uma amiga, tu est\u00e1s ficando desmazelada!<\/p>\n<p>Por outro lado, o gerente principiava a resmungar: Pois ele queria l\u00e1 doutoras no estabelecimento!\u2026 A senhora dona Teresinha parecia j\u00e1 n\u00e3o ligar a m\u00ednima import\u00e2ncia ao servi\u00e7o! O tempo era-lhe pouco para os romances que ela trazia escondidos no bolso! N\u00e3o! assim, que tivesse paci\u00eancia! mas n\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o mand\u00e1-la passear! Ia-se ali para desunhar na costura e n\u00e3o para contar-se t\u00e1buas do teto. E, por isso, que diabo! pagava-se a todas pontualmente em bom dinheiro! N\u00e3o se tinha ali ningu\u00e9m de gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o apresentou-se mais tarde, muito p\u00e1lida, com grandes olheiras. Percebia-se facilmente que passara a noite em claro.<\/p>\n<p>Trazia entre os dedos um volume de Teofile Gautier, marcado em certa p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Nesse dia trabalhou bastante, com febre. Mal, por\u00e9m, terminou a obriga\u00e7\u00e3o, correu \u00e0 casa e fechou-se na. sala, defronte do candeeiro de querosene.<\/p>\n<p>Abriu o livro no lugar marcado \u2013 Une larme du diable!<\/p>\n<p>Releu inda uma vez a singular\u00edssima novela. Aquela extravagante fantasia do rei dos bo\u00eamios, a alma doente e sonhadora do eleito da decad\u00eancia rom\u00e2ntica, a imagina\u00e7\u00e3o desvairada daquele fumador de \u00f3pio, embriagaram-na com uma del\u00edcia de vinho trai\u00e7oeiro.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima do diabo!<\/p>\n<p>Que haveria verdade nessa l\u00e1grima e o que vinha a ser ao certo, esse diabo, de que lhe falavam os poetas, os padres, os professores, as crian\u00e7as e as velhas?\u2026 J\u00e1 em outros livros encontrara o mesmo que afirmara Gautier: o tal g\u00eanio do mal, disfar\u00e7ado em rapaz bonito, a correr o mundo, para tentar as pobres raparigas. Um alfarr\u00e1bio religioso de sua tia ensinara-lhe que o maldito andava solto, a\u00ed por essas ruas da cidade, janota, barbeado e cheiroso, e que as mo\u00e7as inexperientes precisavam ter todo o cuidado, porque o patife, al\u00e9m de tudo, escondia os cornos e o rabo, e n\u00e3o havia por onde reconhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Definitivamente era muito perigoso para ela arriscar-se sozinha, todos os dias, a cair em semelhante perigo!<\/p>\n<p>E se o encontrasse?\u2026<\/p>\n<p>Santo Deus! s\u00f3 esta id\u00e9ia a fazia tremer toda.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a chegar-se muito para os velhos, a afei\u00e7oar-se por eles. Com os mo\u00e7os \u00e9 que n\u00e3o queria gra\u00e7as; temia-os a todos, principalmente os simp\u00e1ticos e esmerados na roupa.<\/p>\n<p>\u2013 Nada! nada de imprud\u00eancias! Pode muito bem ser que eu caia nas m\u00e3os do tal!.<\/p>\n<p>Isso, por\u00e9m, n\u00e3o impediu que a cautelosa Teresinha, um belo dia, ao dobrar uma esquina, desse cara a cara com um belo rapag\u00e3o louro, de bigodes retorcidos, nariz arrebitado e mon\u00f3culo.<\/p>\n<p>Cheirava que era um gosto.<\/p>\n<p>\u2013 Estou perdida! balbuciou ela tr\u00eamula, estacando defronte do rapaz, sem \u00e2nimo de erguer a vista, porque tinha antem\u00e3o certeza de que o olhar dele havia de ceg\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2013 Desta vez n\u00e3o me escapas! murmurou o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! \u00c9 ele mesmo! gaguejou a medrosa, quase a chorar. Valha-me Nossa Senhora!<\/p>\n<p>E recuou alguns passos.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o fujas! disse o sujeito.<\/p>\n<p>Ela obedeceu logo e at\u00e9 chegou-se mais para o diabo, atra\u00edda, presa, vencida, como se aquelas duas palavras fossem as pontas de um tenaz que a segurasse pelas carnes.<\/p>\n<p>Ele passou-lhe o bra\u00e7o na cintura.<\/p>\n<p>\u2013 Tenho tanta coisa a dizer-te, minha flor! Se quisesse ouvir-me\u2026 Oh! eu seria o ente mais feliz do mundo! Olha! a tarde est\u00e1 magn\u00edfica, vamos n\u00f3s dar um passeio juntos?<\/p>\n<p>Teresinha n\u00e3o op\u00f4s obje\u00e7\u00e3o e deixou-se conduzir.<\/p>\n<p>\u2013 Mas Deus! meu Deus! lamentava-se ela pelo caminho segurando-se ao bra\u00e7o do dem\u00f4nio. Estou aqui, estou no inferno!<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio levou-a para casa dele e mal entraram, atirou-se-lhe aos p\u00e9s, cobrindo-a de beijos ardentes.<\/p>\n<p>Ela solu\u00e7ava.<\/p>\n<p>\u2013 Por que choras, meu amor<\/p>\n<p>Seu h\u00e1lito queimava. Teresinha via sa\u00edrem-lhe fa\u00edscas dos olhos. E, sempre a tremer, e sem \u00e2nimo de recusar nada pedia-lhe compaix\u00e3o, convencida de que era aquele o \u00faltimo momento da sua vida.<\/p>\n<p>\u2013 O diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio como se pinta!\u2026 volveu o mo\u00e7o, afagando-a.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! n\u00e3o! n\u00e3o! bem o vejo!\u2026 respondeu ela, receosa de contrari\u00e1-lo. Mas, por quem \u00e9, n\u00e3o me fa\u00e7a mal!<\/p>\n<p>\u2013 Fazer-te mal? Que loucura! Fazer-te mal, eu, que te amo; eu, que h\u00e1 tanto tempo passo horas e horas \u00e0 espera que saias do servi\u00e7o para acompanhar-te de longe, sem te perder de vista; o que, sabes? \u00e9 dif\u00edcil, porque nunca vi andar t\u00e3o depressa! Mas esque\u00e7amos tudo! agora \u00e9s s\u00f3 minha, n\u00e3o \u00e9 verdade?\u2026 N\u00e3o \u00e9 verdade que, de hoje em diante me confiar\u00e1s toda a tua alma e todo o teu cora\u00e7\u00e3o?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que rem\u00e9dio tenho eu!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o imaginas como seremos felizes! Meu ordenado chega perfeitamente para os dois e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Qu\u00ea?\u2026 Seu ordenado?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sim, meu amor, eu sou empregado p\u00fablico\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Empregado? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2013 Sou, filhinha! Estou a dizer-te! Sou empregado no tesouro; apanhei o lugar por concurso; ganho trezentos mil r\u00e9is por m\u00eas, afora os achegos que aparecem.<\/p>\n<p>\u2013 O senhor est\u00e1 gracejando! Diga-me uma cousa, mas n\u00e3o me engane\u2026 O senhor n\u00e3o \u00e9 o diabo?<\/p>\n<p>O rapaz soltou uma risada.<\/p>\n<p>\u2013 Pois tu ainda acreditas no diabo? \u00c9 boa!<\/p>\n<p>\u2013 Ora esta!\u2026 murmurou Teresinha, se eu desconfiasse!\u2026 Agora\u2026 paci\u00eancia! j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio\u2026 Caso-me com o Lucas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresinha era a flor das pequenas l\u00e1 da f\u00e1brica. Todos lhe queriam bem. Ningu\u00e9m como ela para saber guardar as conveni\u00eancias e saber cumprir com os seus deveres sem fazer caretas de sacrif\u00edcio. 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