{"id":402,"date":"2018-07-05T01:19:34","date_gmt":"2018-07-05T01:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=402"},"modified":"2018-07-05T01:34:54","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:54","slug":"casas-de-comodos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/casas-de-comodos","title":{"rendered":"Casas de C\u00f4modos"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 no Rio de Janeiro, entre os que n\u00e3o trabalham e conseguem sem base pecuni\u00e1ria fazer pec\u00falio e at\u00e9 enriquecer, um tipo digno de estudo \u2013 \u00e9 o \u201cdono de casa de c\u00f4modos\u201d; mais curioso e mais completo no g\u00eanero que o \u201cdono de casa de jogo\u201d, pois este ao menos representa o capital da sua banca, suscet\u00edvel de ir \u00e0 gl\u00f3ria, ao passo que o outro nenhum capital representa, nem arrisca, ficando, al\u00e9m de tudo, isento da pecha de mal procedido.<\/p>\n<p>Quase sempre forasteiro, exercia antes um of\u00edcio na p\u00e1tria que deixou para vir tentar fortuna no Brasil; mas percebendo que aqui a especula\u00e7\u00e3o velhaca produz muito mais do que o trabalho honesto, tratou logo de esconder as ferramentas do of\u00edcio e de fariscar os meios de, sem nada fazer, fazer dinheiro. Foi a um patr\u00edcio seu, estabelecido no com\u00e9rcio, pediu e dele obteve uma carta de fian\u00e7a, alugou um vasto casar\u00e3o de dois ou tr\u00eas andares, meteu-se l\u00e1 dentro, pregou escritos em todas as janelas; e agora o ver\u00e1s!<\/p>\n<p>Como na Capital Federal h\u00e1 mais quem habite do que onde habitar, come\u00e7ou logo a entrar-lhe pela casa, \u00e0 procura de c\u00f4modos, uma intermin\u00e1vel prociss\u00e3o de desamparados da sorte e de magros lutadores pela vida, que lhe foram enchendo surdamente, do primeiro ao \u00faltimo, os numerosos quartos. Mais houvesse, e n\u00e3o faltariam para os ocupar estudantes pobres, carteiros e praticantes do correio, rep\u00f3rteres de jornais ef\u00eameros, mo\u00e7os de botequim, oper\u00e1rios de todas as profiss\u00f5es, comparsas e figurantes de teatro, pianistas de contrato por noite, cantores de igreja, costureiras sem oficina, cigarreiros sem f\u00e1brica, barbeiros sem loja, tip\u00f3grafos, guarda-freios, limpa- trilhos, bandeiras de bondes, enfim toda essa gente, para quem se inventaram os postos mais ingratos na luta pela vida, os mais prec\u00e1rios e os mais arriscados; essa gente que em tempo de paz morre de fome, e em tempo de guerra d\u00e1 de comer com a pr\u00f3pria carne \u00e0s bocas de fogo das baterias inimigas.<\/p>\n<p>Mas, por entre a aflita farandolagem dos ganhadores de p\u00e3o para a boca, surge sempre na casa de c\u00f4modos um tipo que \u00e9 o desespero do locador e o tormento dos locat\u00e1rios. Refiro-me ao poeta bo\u00eamio.<\/p>\n<p>O poeta bo\u00eamio \u00e9 para o alugador de c\u00f4modos o osso do seu of\u00edcio. Sem emprego, sem rendimentos de nenhuma esp\u00e9cie, sem mesada e sem mob\u00edlia, carregado de sonhos, que s\u00e3o os filhos que lhe deu Quimera, sua amante, o poeta vive da desgra\u00e7a e da gl\u00f3ria de ser poeta, atravessando indiferentemente todos os andares da mis\u00e9ria, olhos fitos no ideal, aos encontr\u00f5es com os miser\u00e1veis que sobem e com os miser\u00e1veis que descem as longas escadarias do negro e frio castelo. Seu p\u00e9 quase descal\u00e7a n\u00e3o respeita o que topa, nem escolhe o terreno que pisa, e vai mundo afora,\u00a0<em>kneippeando<\/em>\u00a0pelos sim\u00e9tricos canteiros da burguesia indignada e pelos relvosos coradouros das lavadeiras em f\u00faria.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o anjo mau da casa, o terror dos vizinhos, o mal querido de todos os locat\u00e1rios. Dorme enquanto os outros trabalham e durante a noite conversa com as estrelas, declamando em voz alta coisas de amor e de fantasia que, ali, s\u00f3 ele e elas compreendem. Esse nunca paga. Mas que importa o calote de um bo\u00eamio, cujo quarto era um pouco maior que uma sepultura, se os outros inquilinos a\u00ed ficam para ir despejando, todos os meses, na funda algibeira do malandro, os trinta, os quarenta, os cinq\u00fcenta e os cem mil-r\u00e9is; e se com esse dinheiro pode o alugador de c\u00f4modos pagar o aluguel do pr\u00e9dio, e comer, e beber, e gozar, pondo ainda de parte o seu pec\u00falio em que j\u00e1 se abotoa a futura riqueza e talvez a futura comenda?<\/p>\n<p>E assim vai vivendo o esperto forasteiro \u00e0 barba longa, perna al\u00e7ada e barriga farta, enquanto os outros trabalham para ele.<\/p>\n<p>L\u00e1 um belo dia de fim de m\u00eas, um dos estudantes da casa, tendo devorado a mesada, atira a canastra pela janela e foge em seguida, abandonando a estreita cama de ferro, a mesinha e o lavat\u00f3rio; e, como os maus exemplos aproveitam sempre, um segundo estudante, e um terceiro e um quarto, seguem, como as famosas pombas de mestre Raimundo Correia, o v\u00f4o do companheiro, e c\u00e1 v\u00e3o ficando no pombal as meias c\u00f4modas, as estantes americanas e as cadeiras compradas no belchior.<\/p>\n<p>E outros, e outros inquilinos, atrasados no pagamento do m\u00eas vencido, l\u00e1 se v\u00e3o a contragosto n\u00e3o j\u00e1 pela janela, mas pela porta da rua, com uma descompostura atr\u00e1s, deixando nas gloriosas m\u00e3os do triunfador, como despojo da luta, os tarecos que constitu\u00edam a sua mob\u00edlia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o dono da casa de c\u00f4modos come\u00e7a a anunciar \u201cQuartos mobiliados\u201d e come\u00e7a a cobrar aos novos h\u00f3spedes o duplo do que cobrava aos primitivos. E, ao fim de algum tempo, a\u00ed est\u00e1 o nosso homem pondo de parte, a cada m\u00eas, o triplo do que dantes punha, porque j\u00e1 n\u00e3o aluga aposento sem mob\u00edlia e sem roupa de cama.<\/p>\n<p>S\u00e3o sempre os inquilinos quem guarnecem de m\u00f3veis as hospedarias desse g\u00eanero. Da\u00ed a ter o que se chama \u201cCasa de pens\u00e3o\u201d s\u00f3 vai a um passo, e a coisa faz-se quase sempre do seguinte modo: \u2013 Como o malandro nada mais tem a fazer durante todo o m\u00eas do que cobrar os alugu\u00e9is no dia primeiro, enche as horas de calor a ensinar habilidades ao seu c\u00e3o ou ao seu papagaio, e nas horas frescas vai para a cal\u00e7ada da rua cavaquear com os vizinhos.<\/p>\n<p>Entre estes h\u00e1 sempre uma quitandeira de quem o dono da casa de c\u00f4modos, come\u00e7ando por merecer a simpatia, acaba por conquistar a confian\u00e7a e o amor. Juntam-se e, quando ela d\u00e1 por si, est\u00e1 cozinhando e lavando para todos os h\u00f3spedes do eleito do seu cora\u00e7\u00e3o, sem outros vencimentos al\u00e9m das car\u00edcias, que lhe d\u00e1 o amado s\u00f3cio.<\/p>\n<p>Assim chega a empresa ao seu completo desenvolvimento, e o dono da casa de pens\u00e3o come\u00e7a a ganhar em grosso, acumulando forte, sem trabalhar nunca, nem empregar capital pr\u00f3prio, at\u00e9 que um dia, farto de aturar o Brasil, passa com as luvas o estabelecimento e retira-se para a p\u00e1tria, deixando, naturalmente tamb\u00e9m com luvas, a quitandeira ao seu substituto.<\/p>\n<p>E, quando algum dos inquilinos fala mais alto no seu quarto, ou quando os estudantes e as costureiras d\u00e3o para rir e cantar, acode o locador e ordena que se calem, gritando que n\u00e3o admite barulhos em \u201csua casa\u201d.<\/p>\n<p>Sua casa! Ora, eis a\u00ed, ao meu ver, uma coisa singular\u00edssima. O aluguel daquele pr\u00e9dio \u00e9 pago pelos h\u00f3spedes, como \u00e9 a mesa, o g\u00e1s, a \u00e1gua e o servi\u00e7o dos criados. Tudo que ali est\u00e1 dentro foi comprado pelos locat\u00e1rios e n\u00e3o pelo locador; ali s\u00f3 h\u00e1 um homem que n\u00e3o trabalha e que n\u00e3o paga o lugar que ocupa, nem a comida que consome, nem o servi\u00e7o dos que o servem; e \u00e9, no entanto, esse homem justamente quem s\u00f3 tem ali o direito de dizer que est\u00e1 em sua casa e o \u00fanico que grita e manda como verdadeiro dono.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 legal, mas \u00e9 injusto e \u00e9 duro. Se ao menos o especulador tomasse a responsabilidade do que se passa dentro da \u201csua casa\u201d, v\u00e1, mas nem isso acontece, porque, quando os inquilinos s\u00e3o vitimados pelos gatunos, ningu\u00e9m lhes responde pelo objeto subtra\u00eddo.<\/p>\n<p>Entr\u00e1ssemos l\u00e1 agora, neste instante, e espi\u00e1ssemos para dentro de cada quarto. Neste ver\u00edamos um pobre homem a fazer charutos; naquele uma mulher a coser camisas; mais adiante um artista a desenhar; outro a decorar um papel de com\u00e9dia; outro a escrever; outro a consertar rel\u00f3gios; e aqui um estudante \u00e0s voltas com uma caveira e um comp\u00eandio de medicina; e ali um fot\u00f3grafo a preparar clich\u00eas. E, se indag\u00e1ssemos o que fazem os h\u00f3spedes ausentes cujos quartos est\u00e3o fechados e n\u00e3o garantidos por ningu\u00e9m, saber\u00edamos que todos eles andam a ganhar a vida, ao balc\u00e3o, na rua, nas oficinas, nas secretarias, nas reda\u00e7\u00f5es das folhas e nos escrit\u00f3rios de todos os g\u00eaneros. Pois bem! Enquanto toda essa gente moureja, o que faz o locador?<\/p>\n<p>O locador, defronte do seu papagaio, estala os dedos com a m\u00e3o no ar e, risonho, babar-se feliz, diz-lhe pela mil\u00e9sima vez: \u201cPapagaio real, para Portugal! Quem passa meu louro? \u00c9 o rei que vai \u00e0 ca\u00e7a!\u201d<\/p>\n<p>Todavia, certo \u00e9 que dentre toda aquela gente, \u00e9 ele o \u00fanico que tem imputabilidade social no nosso meio.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 justo? N\u00e3o sei, mas parece-me que o direito de ter casa de alugar c\u00f4modos ou casa de pens\u00e3o devia ser conferido pelo governo, como um privil\u00e9gio de recompensa, somente aos inv\u00e1lidos da p\u00e1tria, que j\u00e1 n\u00e3o possam trabalhar, ou \u00e0s vi\u00favas dos militares, dos artistas e dos fil\u00f3sofos, que se tenham sacrificado em nossa honra e morrido na pobreza.<\/p>\n<p>Que diabo! n\u00e3o vale a pena fazer propaganda de imigra\u00e7\u00e3o para termos belos malandros que ensinem papagaios a falar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 no Rio de Janeiro, entre os que n\u00e3o trabalham e conseguem sem base pecuni\u00e1ria fazer pec\u00falio e at\u00e9 enriquecer, um tipo digno de estudo \u2013 \u00e9 o \u201cdono de casa de c\u00f4modos\u201d; mais curioso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=402"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/402\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":406,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/402\/revisions\/406"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}