{"id":405,"date":"2018-07-05T01:19:58","date_gmt":"2018-07-05T01:19:58","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=405"},"modified":"2018-07-05T03:02:43","modified_gmt":"2018-07-05T03:02:43","slug":"aos-vinte-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/aos-vinte-anos","title":{"rendered":"Aos Vinte Anos"},"content":{"rendered":"<p>Abri minha janela sobre a ch\u00e1cara. Um bom cheiro de resed\u00e1s e laranjeiras entrou-me pelo quarto, de camaradagem com o sol, t\u00e3o confundidos que parecia que era o sol que estava recendendo daquele modo. Vinham \u00e9brios de Abril. Os canteiros riam pela boca vermelha das rosas; as verduras cantavam, e a rep\u00fablica das asas papeava, saltitando, em conflito com a rep\u00fablica das folhas. Borboletas doidejavam, como p\u00e9talas vivas de flores animadas que se desprendessem da haste.<\/p>\n<p>Tomei a minha x\u00edcara de caf\u00e9 quente e acendi um cigarro, disposto \u00e0 leitura dos jornais do dia. Mas, ao levantar os olhos para certo lado da vizinhan\u00e7a, dei com os de algu\u00e9m que me fitava; fiz com a cabe\u00e7a um cumprimento quase involunt\u00e1rio, e fui deste bem pago, porque recebi outro com os juros de um sorriso; e, ou porque aquele sorriso era fresco e perfumado como a manh\u00e3 daquele Abril, ou porque aquela manh\u00e3 era alegre e animadora como o sorriso que dasabotoou nos l\u00e1bios da minah vizinha, o certo foi que neste dia escrevi os meus melhores versos e no seguinte conversei a respeito destes com a pessoa que os inspirou.<\/p>\n<p>Chamava-se Ester, e era bonita. Delgada sem ser magra; morena, sem ser trigueira; af\u00e1vel, sem ser vulgar : uns olhos que falavam todos os caprichosos dialetos da ternura; uma boquinha que era um beijo feito de duas p\u00e9talas; uns dentes melhores que as j\u00f3ias mais valiosas de Golconda; cabelos mais lindos do que aqueles com que Eva escondeu o seu primeiro pudor no para\u00edso.<\/p>\n<p>Fiquei fascinado. Ester enleou-me todo nas teias da sua formosura, penetrando-me at\u00e9 ao fundo da alma com os irresist\u00edveis tent\u00e1culos dos seus dezesseis anos. Desde ent\u00e3o conversamos todos os dias, de janela contra janela. Disse-me que era solteira, e eu jureu que ser\u00edamos um do outro.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe uma vez se me amava, e ela, sorrindo, atirou-me com um bogari que nesse momento trazia pendente dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>A\u00ed! Sonhei com a minha Ester, bonita e pura, noites e noites seguidas. Idealizei toda uma exist\u00eancia de felicidade ao lado daquela meiga criatura ador\u00e1vel; at\u00e9 que um dia, j\u00e1 n\u00e3o podendo resistit ao desejo de v\u00ea-la mais de perto, aproveitei-me de uma casa \u00e0 sua cont\u00edgua, que estava para alugar, e consegui, galgando o muro do terra\u00e7o, cair-lhe aos p\u00e9s, humilde e apaixonado.<\/p>\n<p>\u2013 Ui! Que veio o senhor fazer aqui? perguntou-me tr\u00eamula, empalidecendo.<\/p>\n<p>\u2013 Dizer-te que te amo loucamente e que n\u00e3o sei continuar a viver sem ti! suplicar-te que me apresente a que devo pedir a tua m\u00e3o, e que marques um dia para o casamento, ou ent\u00e3o que me emprestes um rev\u00f3lver e me deixes meter aqui mesmo duas balas nos miolos!<\/p>\n<p>Ela, em vez de responder, tratou de tirar-se do meu alcance e fugiu para a porta do terra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o?\u2026 Nada respondes?\u2026 inquiri no fim de alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e1-se embora, criatura!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me amas?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o digo que n\u00e3o; ao contr\u00e1rio, o senhor \u00e9 o primeiro rapaz de quem eu gosto, mas v\u00e1-se embora, por amor de Deus!<\/p>\n<p>\u2013 Quem disp\u00f5e de tua m\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Quem disp\u00f5e de mim \u00e9 meu tutor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Onde est\u00e1 ele? Quem \u00e9? Como se chama?<\/p>\n<p>\u2013 Chama-se Jos\u00e9 Bento Furtado. \u00c9 capitalista, comendador, e deve estar agora na pra\u00e7a do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>\u2013 Preciso falar-lhe.<\/p>\n<p>\u2013 Se \u00e9 para pedir-me em casamento, declaro-lhe que perde o seu tempo.<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Meu tutor n\u00e3o quer que eu case antes dos vinte anos e j\u00e1 decidiu com quem h\u00e1 de ser.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1?! Com quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 Com ele mesmo.<\/p>\n<p>\u2013 Com ele? Oh! E que idade tem seu tutor?<\/p>\n<p>\u2013 Cinq\u00fcenta anos.<\/p>\n<p>\u2013 Jesus! E a senhora consente?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que rem\u00e9dio! Sou \u00f3rf\u00e3, sabe? De pai e m\u00e3e\u2026 Teria ficado ao desamparo desde pequenina se n\u00e3o fosse aquele santo homem.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 seu parente?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, \u00e9 meu benfeitor.<\/p>\n<p>\u2013 E a senhora ama-o?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Como filha sou louca por ele.<\/p>\n<p>\u2013 Mas esse amor, longe de satisfazer a um noivo, \u00e9 pelo contr\u00e1rio um s\u00e9rio obst\u00e1culo para o casamento\u2026 A senhora vai fazer a sua desgra\u00e7a e a do pobre homem!<\/p>\n<p>\u2013 Ora! O outro amor vir\u00e1 depois\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Duvido!<\/p>\n<p>\u2013 Vir\u00e1 \u00e0 for\u00e7a de dedica\u00e7\u00e3o por parte dele e de reconhecimento por minha parte.<\/p>\n<p>\u2013 Acho tudo isso imoral e rid\u00edculo, permita que lho diga!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o estamos de acordo.<\/p>\n<p>\u2013 E se eu me entender com ele? Se lhe pedir que me d\u00ea, suplicar, de joelhos, se preciso for?\u2026 Pode ser que o homem, bom, como a senhora diz que \u00e9, se compade\u00e7a de mim, ou de n\u00f3s, e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 in\u00fatil! Ele s\u00f3 tem uma preocupa\u00e7\u00e3o na vida : ser meu marido!<\/p>\n<p>\u2013 Fujamos ent\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Deus me livre! Estou certa de que com isso causaria a morte do meu benfeitor!<\/p>\n<p>\u2013 Devo, nesse caso, perder todas as esperan\u00e7as de\u2026?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! Deve esperar com paci\u00eancia. Pode bem ser que ele mude ainda de id\u00e9ia, ou, quem sabe? Pode ser que morra antes de realizar o seu projeto\u2026<\/p>\n<p>\u2013 E acha a senhora que esperarei, sabe Deus por quanto tempo! Sem sucumbir \u00e0 viol\u00eancia da minha paix\u00e3o?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 O verdadeiro amor a tudo resiste, quando mais ao tempo! Tenha f\u00e9 e const\u00e2ncia \u00e9 s\u00f3 o que lhe digo. E adeus.<\/p>\n<p>\u2013 Pois adeus!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vale zangar-se. Trepe de novo ao muro e retire-se. Vou buscar-lhe uma cadeira.<\/p>\n<p>\u2013 Obrigado. N\u00e3o \u00e9 preciso. Fa\u00e7o todo o gosto em cair, se me escorregar a m\u00e3o! Quem me dera at\u00e9 que morresse da queda, aqui mesmo!<\/p>\n<p>\u2013 Deixe-se de tolices! V\u00e1!<\/p>\n<p>Sa\u00ed; sa\u00ed ridiculamente, trepando-me pelo muro, como um macaco, e levando o desalento no cora\u00e7\u00e3o. \u201e\u0178 Ah! maldito tutor dos diabos! Velho gaiteiro e libertino! Ign\u00f3bil maluco, que acabava de transformar em fel todo o encanto e toda a poesia da minha exist\u00eancia! \u201e\u0178 A vontade que eu sentia era de mat\u00e1-lo; era de vingar-me ferozmente da terr\u00edvel agonia que aquele monstro me ferrara no cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o as perdes, miser\u00e1vel! Deixa estar! Prometia eu com os meus bot\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude comer, nem dormir, durante muitos dias. Entretanto, a minha ador\u00e1vel vizinha falava-me sempre, sorria-me, atirava-me flores, recitava os meus versos e conversava-me sobre o nosso amor. Eu estava cada vez mais apaixonado.<\/p>\n<p>Resolvi destruir o obst\u00e1culo da minha felicidade. Resolvi dar cabo do tutor de Ester.<\/p>\n<p>J\u00e1 o conhecia de vista; muita vez encontramo-nos \u00e0 volta do espet\u00e1culo, em caminho de casa. Ora a rua em que habitava o miser\u00e1vel era escusa e sombria\u2026 N\u00e3o havia que hesitar : comprei um rev\u00f3lver de seis tiros e as competentes balas.<\/p>\n<p>\u2013 E h\u00e1 de ser amanh\u00e3 mesmo! jurei comigo.<\/p>\n<p>E deliberei passar o resto desse dia a familiarizar-me com a arma no fundo da ch\u00e1cara; mas logo \u00e0s primeiras detona\u00e7\u00f5es os vizinhos protestaram; interveio a pol\u00edcia, e eu tive de resignar-me a tomar um bode da Tijuca e ir continuar o meu sinistro exerc\u00edcio no hotel Jord\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficou, pois, transferido o terr\u00edvel des\u00edgnio para mais tarde. Eram alguns dias de vida que eu concedia ao desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>No fim de uma semana estava apto a disparar sem receio de perder a pontaria. Voltei para o meu c\u00f4modo de rapaz solteiro; acendi um charuto; estirei-me no canap\u00e9 e dispus-me a esperar pela hora.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, pensei j\u00e1 \u00e0 noite, quem sabe se Ester n\u00e3o exagerou a cousa?\u2026 Ela \u00e9 um pouquinho imaginosa\u2026 Pode ser que, se eu falasse ao tutor de certo modo\u2026 Hein? Sim! \u00c9 bem poss\u00edvel que o homem se convencesse e\u2026 Em todo o caso, que diabo, nada perderia eu em tentar!\u2026 Seria at\u00e9 muito digno de minha parte\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 dito! resolvi, enterrando a cabe\u00e7a entre os travesseiros. Amanh\u00e3 procuro-o; fa\u00e7o-lhe o pedido com todas as formalidades; se o est\u00fapido negar \u201e\u0178 insisto, falo, discuto; e, se ele, ainda assim, n\u00e3o ceder, ent\u00e3o bem \u201e\u0178 Z\u00e1s! Morreu! Acabou-se!<\/p>\n<p>No dia imediato, de casaca e gravata branca, entrava eu na sala de visitas do meu homem.<\/p>\n<p>Era domingo, e apesar de uma hora da tarde, ouvi barulho de lou\u00e7a l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Mandei o meu cart\u00e3o. Meia hora depois apareceu-me o velhote, de rodaque branco, chinelas, sem colete, palitando os dentes.<\/p>\n<p>A gravidade do meu trajo desconcertou-o um tanto. Pediu-me desculpa por me receber t\u00e3o \u00e0 frescata, ofereceu-me uma cadeira e perguntou-me ao que devia a honra daquela visita.<\/p>\n<p>Que, lhe parecia, tratava-se de cousa s\u00e9ria\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Do que h\u00e1 de mais s\u00e9rio, senhor comendador Furtado! Trata-se da minha felicidade! Do meu futuro! Trata-se da minha pr\u00f3pria vida!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Tenha a bondade de p\u00f4r os pontos nos ii\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Venho pedir-lhe a m\u00e3o de sua filha\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Filha?<\/p>\n<p>\u2013 Quer dizer : sua pupila\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Pupila!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sua ador\u00e1vel pupila, a quem amo, a quem idolatro e por quem sou correspondido com igual ardor! Se ela n\u00e3o o declarou ainda a V.S.a \u00e9 porque receia com isso contrari\u00e1-lo; creia, por\u00e9m, senhor comendador, que\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Mas, perd\u00e3o, eu n\u00e3o tenho pupila nenhuma!<\/p>\n<p>\u2013 Como? E D. Ester?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ester?!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sim! A encantadora, a minha divina Ester! Ah! Ei-la! \u00c9 essa que a\u00ed chega! exclamei, vendo que a minha estremecida vizinha surgiu na saleta cont\u00edgua.<\/p>\n<p>\u2013 Esta?!\u2026 Balbuciou o comendador, quando ela entrou na sala, mas esta \u00e9 minha mulher!\u2026<\/p>\n<p>\u2013?!\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abri minha janela sobre a ch\u00e1cara. Um bom cheiro de resed\u00e1s e laranjeiras entrou-me pelo quarto, de camaradagem com o sol, t\u00e3o confundidos que parecia que era o sol que estava recendendo daquele modo. 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