{"id":407,"date":"2018-07-05T01:24:06","date_gmt":"2018-07-05T01:24:06","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=407"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"hamleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/hamleto","title":{"rendered":"Hamleto"},"content":{"rendered":"<p>Todo o homem inteligente, que tenha lido durante a vida mais de dez livros de literatura, sente um delicado abalo e um ligeiro fr\u00eamito nervoso agitarem-lhe o cora\u00e7\u00e3o, todas as vezes que v\u00ea anunciado, por um ator de nome, o inabal\u00e1vel Hamleto de Shakespeare.<\/p>\n<p>E s\u00f3 com o Hamleto acontece isto. Donde lhe vir\u00e1 t\u00e3o transcendente privil\u00e9gio? Qual o segredo da magia dessa misteriosa obra de arte, que assim acorda ao mesmo tempo mil impress\u00f5es, sem que destas nenhuma entretanto se definisse at\u00e9 hoje claramente?<\/p>\n<p>Todos conhecem Hamleto; muitos o discutem; ningu\u00e9m e nega; todos o aceitam; todos o desejam; todos o amam doidamente; mas ningu\u00e9m o explica; ningu\u00e9m o define, porque o pr\u00f3prio Hamleto n\u00e3o se explica, nem se define a si mesmo. N\u00e3o se define, porque ele pr\u00f3prio \u00e9 a mesma d\u00favida; \u00e9 a mesma contradi\u00e7\u00e3o; ele \u00e9 o indefinido afei\u00e7oado por um poeta de g\u00eanio.<\/p>\n<p>Anunciado o Hamleto, correm todos a v\u00ea-lo inda uma vez; mas, por melhor que seja a interpreta\u00e7\u00e3o que lhe d\u00ea o artista ningu\u00e9m at\u00e9 hoje saiu do teatro amplamente satisfeito por ter visto mover-se em cena o Hamleto sonhado pelo seu cora\u00e7\u00e3o e pela sua intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Nenhum tr\u00e1gico deu jamais ou ser\u00e1 capaz de dar ao vivo esse tipo-enigma, esse idolatrado mito, que vive na imagina\u00e7\u00e3o de todos, porque fia Hamleto, posto que muito humano, n\u00e3o \u00e9 homem.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um personagem em arte, \u00e9 um s\u00edmbolo. \u00c9 a d\u00favida, intang\u00edvel e incorpor\u00e1vel como o indefinido. E nisso est\u00e1 o seu valor. Todos o compreendem, mas ningu\u00e9m o define em cr\u00edtica, nem o traduz em cena satisfatoriamente.<\/p>\n<p>Todos o sentem; todos o compreendem; todos o conhecem, como a um \u00edntimo e querido companheiro da sua pr\u00f3pria alma e da sua pr\u00f3pria incerteza. Pelo esp\u00edrito de todo o homem inteligente, por mais curta, mais longa, mais tranq\u00fcila ou agitada que seja a sua vida, j\u00e1 pelo menos uma vez, atravessou essa misteriosa sombra, com O seu olhar estranho, embaciado pela indefinida tristeza da d\u00favida. E essa sombra nunca mais se apagou desse esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Por todo o c\u00e9rebro, iluminado pelo menos por uma id\u00e9ia, j\u00e1 algum dia se arrastou gemendo a desvairada melancolia de Hamleto, perguntando \u00e0 dor da sua pr\u00f3pria d\u00favida, o irrespond\u00edvel \u201cser ou n\u00e3o ser\u201d? E o eco desse gemido sem resposta a\u00ed ficou gravado para sempre, como a saudade de um amor, ou como o remorso de um crime.<\/p>\n<p>Shakespeare, que formou genialmente os seus tipos com a intensidade das pr\u00f3prias paix\u00f5es que eles sintetizam; ele que criou o Ci\u00fame com o pr\u00f3prio ci\u00fame; a Loucura com a pr\u00f3pria loucura; a Avidez com a pr\u00f3pria avidez e o Amor com o pr\u00f3prio amor \u2013 fez o Indefinido com o pr\u00f3prio indefinido.<\/p>\n<p>Se Hamleto n\u00e3o fosse contradit\u00f3rio; se fosse explic\u00e1vel e coerente, seria incoerente e contradit\u00f3rio, e nunca seria D\u00favida.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 todo feito de contradi\u00e7\u00f5es; \u00e9 en\u00e9rgico e vacilante; indiferente e apaixonado; vingativo e carinhoso; louco e sensato; hip\u00f3crita e sincero; paciente e desensofrido; prudente e arrebatado; generoso e p\u00e9rfido; \u00e9 bom e \u00e9 cruel; \u00e9 bom filho, e \u00e9 mau filho. As suas l\u00e1grimas s\u00e3o escarninhas e o seu sorriso d\u00f3i. O seu amor \u00e9 uma queixa contra o seu pr\u00f3prio amor, e o seu \u00f3dio \u00e9 a seiva e \u00e9 a vida do seu cora\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 a D\u00favida, que s\u00f3 se define pela d\u00favida. Ele \u00e9 a Contradi\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 se afirma pela contradi\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 enfim o indefinido.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 o Indefinido quando diz a Of\u00e9lia que nunca a amou, mas que a ama agora, contanto que ela nada espere desse amor e se recolha a um convento. Ele \u00e9 Contradi\u00e7\u00e3o quando diz que todos os homens, sem excetuar nenhum, nem ele pr\u00f3prio, suo miser\u00e1veis, tendo afirmado que seu pai, o rei da Dinamarca, era t\u00e3o belo modelo de valor e virtudes que s\u00f3 aos deuses podia ser comparado. Ele \u00e9 contradi\u00e7\u00e3o no seu extremoso amor filial, porque ele \u00e9 o carrasco de sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Ele \u00e9 Contradi\u00e7\u00e3o quando, tendo j\u00e1 se encontrado e entendido com o espetro de seu pai, que lhe faz revela\u00e7\u00f5es imprevistas, vem depois, no c\u00e9lebre mon\u00f3logo do terceiro ato, falar-nos dessa outra margem oposta \u00e0 da vida, a morte, donde, afirma ele, nunca ningu\u00e9m voltou ao mundo que habitamos. Ele \u00e9 Contradi\u00e7\u00e3o quando, tendo friamente assassinado Of\u00e9lia com a sua cruel indiferen\u00e7a, lan\u00e7a-se diante do cad\u00e1ver dela, desafiando a quem na terra a possa amar mais do que ele.<\/p>\n<p>Toda essa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a D\u00favida.<\/p>\n<p>E porque Hamleto \u00e9 a Contradi\u00e7\u00e3o, Hamleto \u00e9 inexplic\u00e1vel, \u00e9 vago, \u00e9 sombra que escapa \u00e0 grosseira vista dos sentidos, e s\u00f3 pode ser bem julgada e compreendida pelo esp\u00edrito e pelo cora\u00e7\u00e3o. Ele, s\u00f3 dentro de n\u00f3s mesmos, existe real e perfeito; desde que qualquer arte pl\u00e1stica pretenda dar-lhe forma, as suas fant\u00e1sticas propor\u00e7\u00f5es logo se amesquinham, e Hamleto deixa de ser Hamleto como todos o conhecem.<\/p>\n<p>Hamleto fora da nossa imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 um polvo fora d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Ele pertence a todos e pertence a cada um em particular. O abalo que se experimenta ao ouvir o seu nome m\u00e1gico parece a cada indiv\u00edduo um caso privado de simpatia. \u00c9 que Hamleto \u00e9 a misteriosa express\u00e3o da d\u00favida de cada um de n\u00f3s. Todos nos embriagamos com esse doloroso e eternal id\u00edlio entre o conhecido e o desconhecido.<\/p>\n<p>Pensar em Hamleto \u00e9 pensar em Of\u00e9lia. Menos ideal do que ele, mais terrena, mais sensual, ela \u00e9 tamb\u00e9m ainda assim uma vis\u00e3o intang\u00edvel. Of\u00e9lia, toda branca, toda loura, toda amorosa, esbate-se como sombra abra\u00e7ada \u00e0 sombra de Hamleto; mas a loucura que nele \u00e9 sonho e embriaga, nela \u00e9 realidade e d\u00f3i.<\/p>\n<p>S\u00f3 um instante ela \u00e9 mulher. A sua carne de virgem desaparece desde que ela inclina a dourada fronte, vencida n\u2019alma pela irresist\u00edvel d\u00favida do seu pr\u00edncipe incompreens\u00edvel, e a pensativa sombra de Hamleto arrasta-a para o indefinido.<\/p>\n<p>Of\u00e9lia \u00e9 triste e contradit\u00f3ria estrela, que se acende \u00e0 luz do dia e desmaia \u00e0 sombra da noite. E\u2019 uma estrela afogada na noite da D\u00favida.<\/p>\n<p>O seu di\u00e1logo com Hamleto \u00e9 o melanc\u00f3lico id\u00edlio de uma luz que morre e suspira com a treva que geme e arqueja.<\/p>\n<p>H\u00e1 por entre as suas frases doloridas todos os solu\u00e7os da mis\u00e9ria humana, como entre as de Hamleto h\u00e1 toda a velha agonia da d\u00favida em que nos arrastamos na vida.<\/p>\n<p>\u2013 Eu te amei\u2026 Outrora\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Assim o supus\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o devias acreditar\u2026 Eu nunca te amei\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ai!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Entra para um convento\u2026 n\u00e3o queiras ser m\u00e3e de pecadores. N\u00f3s somos todos miser\u00e1veis\u2026 Fecha-te num claustro\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Os mimos de amor que me destes aqui os tendes, levai-os\u2026 j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam perfume\u2026 o cora\u00e7\u00e3o que mos deu j\u00e1 me n\u00e3o ama\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Ah! \u00e9s virtuosa?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Senhor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9s\u2026 bela?<\/p>\n<p>\u2013 Meu senhor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Bela e virtuosa. Separa a tua formosura da tua virtude, porque a beleza tem garras fortes e a virtude fraca defesa\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Meu senhor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Entra para um convento\u2026 Eu supunha que te amava dantes\u2026 S\u00f3 agora \u00e9 que te\u2026 Faze-te freira\u2026<\/p>\n<p>E a estrela apaga-se de todo e a treva fecha-se na treva, deixando para sempre no esp\u00edrito de quem escutou o seu id\u00edlio a saudade de unia m\u00fasica indefinida, feita de suspiros e de solu\u00e7os.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E, pois, quinta-feira passada corri ao teatro L\u00edrico. E o Sr. Novelli disse-me do palco, n\u00e3o sei em nome de quem, que Hamleto era \u201cHistri\u00e3o por vingan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>E, com efeito, um calculado doido come\u00e7ou com a sua calculada loucura a intrigar, nem s\u00f3 todos os outros personagens da pe\u00e7a que se representava, como a mim pr\u00f3prio e aos outros espectadores que o ouviam.<\/p>\n<p>Desconheci a trag\u00e9dia. No fim de algum tempo perguntava a mim mesmo quem seria aquele violento intrigante, aquele sensual dinamarqu\u00eas que vociferava contra os seus companheiros de cena.<\/p>\n<p>E, \u00e2 propor\u00e7\u00e3o que o Sr. Novelli refundia Shakespeare, Hamleto, a misteriosa sombra que persiste dentro de todo o homem que j\u00e1 leu dez livros liter\u00e1rios, ia-se a pouco e pouco afastando de mim, at\u00e9 que, ao terminar o espet\u00e1culo, quando o falso doido estica-se e morre, j\u00e1 o meu querido e misterioso Pr\u00edncipe da D\u00favida, que nunca me abandonara o esp\u00edrito desde que o conheci, tinha de todo me fugido; e eu comecei a sentir-me s\u00f3, frio, abandonado moralmente, vi\u00favo de um velho companheiro espiritual.<\/p>\n<p>Tive vontade de chorar.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o apoderou-se de mim um desejo forte, desensofrido de ver Hamleto, de ouvi-lo para matar saudades, de senti-lo vivo, para me convencer de que o Sr Novelli n\u00e3o o tinha assassinado para sempre.<\/p>\n<p>Corri a casa e reli avidamente o divino poema da D\u00favida.<\/p>\n<p>Ah! felizmente, antes de adormecer, j\u00e1 de olhos fechados, achei de novo a querida sombra pensativa; estava defronte de mim, im\u00f3vel, a fitar-me com um triste olhar de t\u00e9dio e de desd\u00e9m, como se eu tivesse culpa do que. sucedeu quinta\u2013feira no teatro L\u00edrico.<\/p>\n<p>Ela voltou, felizmente, mas do susto de a ter perdido \u00e9 que j\u00e1 ningu\u00e9m me livra.<\/p>\n<p>E, agora, juro que o Sr. Novelli n\u00e3o ma roubar\u00e1 outra vez, ainda que por cinco minutos.<\/p>\n<p>Nada, com cousas s\u00e9rias n\u00e3o se brinca!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo o homem inteligente, que tenha lido durante a vida mais de dez livros de literatura, sente um delicado abalo e um ligeiro fr\u00eamito nervoso agitarem-lhe o cora\u00e7\u00e3o, todas as vezes que v\u00ea anunciado, por&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-407","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=407"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":416,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407\/revisions\/416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}