{"id":408,"date":"2018-07-05T01:22:57","date_gmt":"2018-07-05T01:22:57","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=408"},"modified":"2018-07-05T01:34:34","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:34","slug":"inveja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/inveja","title":{"rendered":"Inveja"},"content":{"rendered":"<p>Era uma rica tarde de novembro. O sol acabava de retirar-se naquele instante, mas a terra, toda enrubescida, palpitava ainda com o calor dos seus \u00faltimos beijos.<\/p>\n<p>O c\u00e9u, vermelho e quente, debru\u00e7ava-se sobre ela, envolvendo-a num longo abra\u00e7o voluptuoso; de todos os lados ouvia-se o lamentoso estridular das cigarras, e as \u00e1rvores concentravam-se, murmurando, em \u00eaxtases, como se rezassem a ora\u00e7\u00e3o do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora de recolhimento e de amor a natureza parecia comovida.<\/p>\n<p>A noite abria lentamente no espa\u00e7o as suas asas de paz, \u00famidas de orvalho, prenhez de estrelas que ainda mal se denunciavam numa palpita\u00e7\u00e3o difusa. Uma boiada recolhida ao longe, abeberando nos charcos do caminho, e bois tranq\u00fcilos levantavam a cabe\u00e7a, com a boca escorrendo em fios de prata, e enchiam a solid\u00e3o das clareiras com a prolongada tristeza dos seus mugidos. Num quintal, entre uma nuvem de pombos, uma rapariga apanhava da corda a roupa lavada que estivera a secar durante o dia; enquanto um homem, em mangas de camisa, passava pela estrada, cantando, de ferramenta ao ombro. De cada casa vinha um rumor alegre de fam\u00edlias que se re\u00fanem para jantar, e, junto com latidos de c\u00e3es e choros de crian\u00e7a, ouvia-se o contente palavrear dos trabalhadores em descanso, ao lado da mulher e dos filhos.<\/p>\n<p>Entretanto, um padre ainda mo\u00e7o, depois de passear silenciosamente \u00e0 sombra das \u00e1rvores, foi assentar-se, triste e preocupado, nos restos de uma fonte de pedra, cuja pobreza as ervas disfar\u00e7avam com a opul\u00eancia da sua folhagem vi\u00e7osa e florida. E a\u00ed ficou a cismar, perdido num profundo enlevo, como se o ardente perfume daquela tarde de ver\u00e3o fora forte demais para a sua pobre alma enferma de homem casto.<\/p>\n<p>Estranhos e indefinidos desejos levantavam-se dentro dele, pedindo confortos de uma felicidade que lhe n\u00e3o pertencia e levando-o a cobi\u00e7ar uma doce exist\u00eancia desconhecida, que seu cora\u00e7\u00e3o magoado e ressentido mal se animava de sonhar por instinto.<\/p>\n<p>E, assim, vinham-lhe \u00e0 mem\u00f3ria, com uma reminisc\u00eancia dolorosa, todas as suas aspira\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia. Ah! nesse tempo, quanta esperan\u00e7a no futuro!\u2026 Quanta inoc\u00eancia nas suas aspira\u00e7\u00f5es!\u2026 Quanta confian\u00e7a em tudo que \u00e9 da terra e em tudo que \u00e9 do c\u00e9u!\u2026 Nesse tempo n\u00e3o conhecia ele a luta dos homens contra os homens; n\u00e3o conhecia as guerras da inveja e as guerras da vaidade; n\u00e3o conhecia as humilhantes necessidades deste mundo; n\u00e3o conhecia ainda a responsabilidade da sua vida e n\u00e3o sabia como e quanto d\u00f3i ambicionar muito e nada conseguir. Ah! nesse tempo feliz, ele era expansivo e risonho. Nesse tempo ele era bom.<\/p>\n<p>Mas, continuou a pensar, cruzando sobre o fundo est\u00f4mago as m\u00e3os finas e descoradas, enterraram-me numa casa abomin\u00e1vel, para ser padre. Deram-me depois uma mortalha negra e disseram-me: \u201cEstuda, medita, reza, e faze-te um santo! \u00c9s mo\u00e7o? Pois bem! quando o sangue, em ondas de fogo, subir-te \u00e0 cabe\u00e7a e quiser estrangular os teus votos, agarra aquele cil\u00edcio e fustiga com ele o corpo! quando vires uma mulher, cujo olhar, \u00famido e casto, te fa\u00e7a sonhar os deslumbramentos do amor, bate com os punhos cerrados contra o teu peito e alanha tua carne com as unhas, at\u00e9 que sangres de todo o veneno da tua mocidade! Fecha-te ao prazer e \u00e0 ternura, fecha-te dentro da tua f\u00e9, como se te fechasses dentro de um t\u00famulo!\u201d<\/p>\n<p>E, com estas recorda\u00e7\u00f5es, o infeliz quedara-se esquecido, a olhar cegamente para a paisagem que defronte dele ia pouco e pouco se esfumando e esbatendo nos crepes da noite; ao passo que no c\u00e9u as estrelas se acendiam.<\/p>\n<p>Desde que o destinaram a padre, sentia-se arrastado para a tristeza e para a solid\u00e3o; achava certo gozo amargo em deixar-se consumir pela \u00e1spera certeza da sua inutilidade f\u00edsica. N\u00e3o queria a conviv\u00eancia dos outros homens, porque todos tinham e desfrutavam aquilo que lhe era vedado \u2013 o amor, a alegria, a doce consola\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. O que ele desejava do fundo do seu desgosto era morrer, morrer logo ou quando menos envelhecer quanto antes; ficar feio, acabado, impotente; que o seu cabelo de preto e lustroso se tornasse todo branco; que o seu olhar arrefecesse; que os seus dentes amarelassem e a sua fronte se abrisse em rugas. Desejava refugiar-se covardemente na velhice como num abrigo seguro contra as paix\u00f5es mundanas.<\/p>\n<p>Sofria \u00edmpetos de arrancar aquele seu cora\u00e7\u00e3o importuno e esmag\u00e1-lo debaixo dos p\u00e9s. N\u00e3o se sentia capaz de domar a matilha que lhe rosnava no sangue; sobressaltava-se com a id\u00e9ia de sucumbir a uma revolta mais forte dos nervos, e s\u00f3 a lembran\u00e7a de que seria capaz de uma paix\u00e3o sensual sacudia-o todo com um frio tremor de febre.<\/p>\n<p>\u2013 Todavia.. replicou-lhe do \u00edntimo da consci\u00eancia uma voz meiga, medrosa, quase impercept\u00edvel todavia, o amor deve ser bem bom!\u2026<\/p>\n<p>E dois fios compridos escorreram pelas faces p\u00e1lidas do padre.<\/p>\n<p>Nisto, o canto de um passarinho f\u00ea-lo olhar para cima. Na embalsamada c\u00fapula de verdura que cobria a monte o inocente intruso trinava ao lado da sua companheira.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o estremeceu e ficou a olhar fixamente para eles. Os dois velhaquinhos, descuidosos na sua felicidade, conservavam-se muito unidos, como se estivessem cochichando segredos de amor. A f\u00eamea estendia a cabe\u00e7a ao amigo e, enquanto este lhe ordenava as penas com o bico, ela, num arrepio, contra\u00eda-se toda, com as asas levemente abertas e tr\u00eamulas. Depois, uniram-se ainda mais, prostrados logo pelo mesmo entorpecimento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o jovem eclesi\u00e1stico, tomado de uma vertigem, levantou o guarda-chuva e com uma pancada lan\u00e7ou por terra o amoroso par.<\/p>\n<p>Os pobrezitos, ainda palpitantes de amor, ca\u00edram, estrebuchando a seus p\u00e9s<\/p>\n<p>O padre voltou o rosto e afastou-se silenciosamente.<\/p>\n<p>No horizonte esbatia-se a \u00faltima r\u00e9stia de sol e o sino de uma torre distante come\u00e7ou a solu\u00e7ar Ave-Maria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma rica tarde de novembro. O sol acabava de retirar-se naquele instante, mas a terra, toda enrubescida, palpitava ainda com o calor dos seus \u00faltimos beijos. 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