{"id":410,"date":"2018-07-05T01:23:47","date_gmt":"2018-07-05T01:23:47","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=410"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"o-impenitente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-impenitente","title":{"rendered":"O Impenitente"},"content":{"rendered":"<p>Conto-vos o caso como mo contaram.<\/p>\n<p>Frei \u00c1lvaro era um bom homem e um mau frade. Capaz de todas as virtudes e de todos os atos de devo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha, todavia, a her\u00f3ica ci\u00eancia domar os impulsos de seu voluptuoso temperamento de mesti\u00e7o e, a despeito dos constantes protestos que fazia para n\u00e3o pecar, pecava sempre. Como extremo recurso, condenara-se, nos \u00faltimos tempos, a n\u00e3o arredar p\u00e9 do convento. \u00c0 noite fechava-se na cela, procurando penitenciar-se dos passados desvarios; mas, s\u00f3 reprimir o irresist\u00edvel desejo de recome\u00e7\u00e1-los, era j\u00e1 o maior dos sacrif\u00edcios que ele podia impor \u00e0 sua carne rebelde.<\/p>\n<p>Chorava.<\/p>\n<p>Chorava ardendo de remorsos por n\u00e3o poder levar de vencida os inimigos da sua alma envergonhada; chorava por n\u00e3o ter for\u00e7as para fazer calar os endemoniados h\u00f3spedes do seu corpo, que, dia e noite, lhe amotinavam o sangue. Quanto mais violentamente procurava combate-los, tanto mais viva lhe acometia o esp\u00edrito a incendi\u00e1ria mem\u00f3ria dos seus amores pecaminosos.<\/p>\n<p>E no palpitante cord\u00e3o de mulheres que, em vertigem, lhe perpassavam cantando diante dos desejos torturados, era Leon\u00edlia, com seus formosos cabelos pretos, a de imagem mais n\u00edtida, mais persistente e mais perturbadora.<\/p>\n<p>Em que dia a vira pela primeira vez e como se fizera amar por ela, n\u00e3o o sei, porque esses mon\u00e1sticos amores s\u00f3 chegam a ser percebidos pelos leigos como eu, quando o fogo j\u00e1 minou de todo e abriu em labareda a lan\u00e7ar fumo at\u00e9 c\u00e1 fora. \u00c0 primeira fa\u00edsca e \u00e0s primeiras brasas, nunca ningu\u00e9m, que eu saiba, os pressentiu nem deles suspeitou.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que, durante belos anos, Frei \u00c1lvaro, meia-noite dada, fugia aos muros do seu convento, e, escolhendo escuras ruas, cosendo-se \u00e0 pr\u00f3pria sombra, ia pedir \u00e0 alcova de Leon\u00edlia o que n\u00e3o lhe podia dar a solid\u00e3o da cela.<\/p>\n<p>Pertenceria s\u00f3 ao frade a bela mo\u00e7a? N\u00e3o o creio.<\/p>\n<p>E ele? seria s\u00f3 dela? Tamb\u00e9m n\u00e3o, pois reza a lenda donde me vem o caso que, em v\u00e1rios outros pontos da cidade Frei \u00c1lvaro era igualmente visto fora de horas, embu\u00e7ado e suspeito, correndo sem d\u00favida em busca de profanas consola\u00e7\u00f5es daquele mesmo g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mas, no mart\u00edrio da reclus\u00e3o a que por \u00faltimo se votara, era seguro a lembran\u00e7a de Leon\u00edlia o seu maior tormento. E assim, aconteceu que, certa noite, \u00e0 for\u00e7a de pensar nela, foi tal o seu desassossego de corpo e alma, que o frade n\u00e3o p\u00f4de rezar, nem p\u00f4de dormir, nem p\u00f4de ler, nem p\u00f4de fazer nada. Com os olhos fechados ou abertos, tinha-a defronte deles, linda de amor, a enlouquec\u00ea-lo de saudade e de desejo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, desistindo da cama e dos livros, p\u00f4s-se \u00e0 janela, muito triste, e ficou longo tempo a consultar a noite silenciosa. L\u00e1 fora a lua, inda mais triste, iluminava a cidade adormecida e no alto as estrelas pareciam que pestanejavam de t\u00e9dio. Nada lhe mandava um ar de consola\u00e7\u00e3o para aquela infind\u00e1vel tortura de desejar o proibido.<\/p>\n<p>De repente, por\u00e9m, estremeceu, sem poder acreditar no que viam seus olhos.<\/p>\n<p>Seria verdade ou seria ilus\u00e3o dos seus atormentados desejos?\u2026 La embaixo, no p\u00e1tio, dentro dos muros do convento, um vulto de mulher passeava sobre o lajedo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia haver d\u00favida!\u2026 Era uma mulher, uma mulher toda de branco, com a cabe\u00e7a nua e os longos cabelos negros derramados.<\/p>\n<p>C\u00e9us ! E era Leon\u00edlia!\u2026 sim, sim, era ela, nem podiam ser de outra mulher aqueles cabelos t\u00e3o formosos aquele airoso menear de corpo! Sim! era ela\u2026 Mas, como entrara ali?\u2026 Como se animara a tanto?<\/p>\n<p>E o frade, sem mais ter m\u00e3o em si, correu a tomar o chap\u00e9u e a capa e lan\u00e7ou-se como um doido para fora da cela.<\/p>\n<p>Atravessou fremente os longos corredores, desgalgou escadaria de pedra e ganhou o p\u00e1tio.<\/p>\n<p>Mas o vulto j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estava.<\/p>\n<p>O monge procurou-o, aflito, por todos os cantos. N\u00e3o o encontrou.<\/p>\n<p>Correu ao parapeito que dava do alto para a rua, sobre o qual se debru\u00e7ou ansioso e, com assombro, desde novo o misterioso vulto, agora, l\u00e1 fora, a passear embaixo, \u00e0 luz do lampi\u00e3o de g\u00e1s.<\/p>\n<p>J\u00e1 impressionado de todo, Frei \u00c1lvaro desceu de um relance as escadas do \u00e1trio, escalou as grades do mosteiro e saltou \u00e0 rua.<\/p>\n<p>O vulto j\u00e1 n\u00e3o se achava no mesmo ponto; tinha-se afastado para mais longe. Frei \u00c1lvaro atirou-se para l\u00e1 em disparada, mas o vulto deitou a correr, fugindo na frente dele.<\/p>\n<p>\u2013 Leon\u00edlia ! Leon\u00edlia! Espera! N\u00e3o me fujas!<\/p>\n<p>O vulto corria sempre, sem responder.<\/p>\n<p>\u2013 Olha que sou eu! Atende!<\/p>\n<p>Leon\u00edlia parou um instante, voltou o rosto para tr\u00e1s, sorriu e fugiu de novo quando o monge se aproximava.<\/p>\n<p>Afinal, j\u00e1 n\u00e3o corria, deslizava, como se fora levada pelas frescas vira\u00e7\u00f5es da noite velha, que lhe desfraldavam as saias e os cabelos flutuantes.<\/p>\n<p>E o monge a persegui-la, ardendo por alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2013 Atende! Atende, flor de minha alma! \u2013 suplicava j\u00e1 com a voz quebrada pelo cansa\u00e7o. \u2013 Atende, pelo amor de Deus, que deste modo me matas, criminosa!<\/p>\n<p>Ela, ao escutar-lhe as sentidas vozes, parecia atender, suspendendo o v\u00f4o, n\u00e3o por comovida, mas por feminil nega\u00e7a, a rir, provocadora, bra\u00e7os no ar e o calcanhar suspenso, pronta, mal o frade se chegasse, a desferir nova carreira.<\/p>\n<p>E assim venceram ambos ruas e becos, quebrando esquinas, cortando largos e pra\u00e7as. O frade j\u00e1 tinha perdido a no\u00e7\u00e3o do tempo e do lugar e estava prestes a cair exausto quando, vendo a mo\u00e7a tomar certa ladeira muito conhecida deles dois, criou novo \u00e2nimo e prosseguiu na empresa, sem afrouxar o passo.<\/p>\n<p>\u2013 Vai recolher-se a casa! \u2013 concluiu de si para si. N\u00e3o me quis falar na rua\u2026 Ainda bem!<\/p>\n<p>Leon\u00edlia, com efeito, ao chegar \u00e0 porta da casa onde outrora o religioso fru\u00eda as consola\u00e7\u00f5es que o seu mosteiro lhe negava, enfiou por ela e sumiu-se sem ru\u00eddo.<\/p>\n<p>O frade acompanhou-a de carreira, mas j\u00e1 n\u00e3o a viu no corredor e foi galgando a escada. Encontrou em cima a porta aberta, mas a sala tenebrosa e solit\u00e1ria. Penetrou nela, tateando, e seguiu adiante, sem topar nenhum m\u00f3vel pelo caminho.<\/p>\n<p>\u2013 Leon\u00edlia! chamou ele.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m lhe respondeu.<\/p>\n<p>O quarto imediato estava tamb\u00e9m franqueado, tamb\u00e9m deserto e vazio, mas n\u00e3o t\u00e3o escuro, gra\u00e7as \u00e0 luz que vinha da sala do fundo. O religioso n\u00e3o hesitou em precipitar-se para esta; mas, ao chegar \u00e0 entrada, estacou, soltando um grito de terror.<\/p>\n<p>Gelara-lhe o sangue o que se lhe ofereceu aos olhos. Eri\u00e7aram-se-lhe os cabelos; invenc\u00edvel tremor apoderou-se do seu corpo inteiro.<\/p>\n<p>A sala de jantar onde, tantas vezes feliz, ceara a s\u00f3s com Leon\u00edlia, estava transformada em c\u00e2mara mortu\u00e1ria, toda funebremente paramentada de cortinas de veludo negro, que pendiam do teto, consteladas de lantejoulas e guarnecidas de caveiras de prata. S\u00f3 faltava o altar. No centro, sobre uma grande mesa, tamb\u00e9m negra e enfeitada de gal\u00f5es dourados, havia um caix\u00e3o de defunto. Dentro do caix\u00e3o um cad\u00e1ver todo de branco, cabelos soltos. Em volta, c\u00edrios ardiam, altos, em solenes tocheiros, cuspindo a cera quente e o fumo cor de crepe.<\/p>\n<p>O monge, l\u00edvido e tr\u00eamulo, aproximara-se do catafalco. Olhou para dentro do caix\u00e3o e recuou aterrado.<\/p>\n<p>Reconheceu o cad\u00e1ver. Era da pr\u00f3pria mulher que, pouco antes, o fora buscar ao convento e o viera arrastando at\u00e9 a\u00ed pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p>Sem \u00e2nimo de formular um pensamento, o frade deixou-se cair de joelhos sobre o negro tapete do ch\u00e3o e, arrancando do seio o seu crucifixo, abra\u00e7ou-se com ele come\u00e7ou a rezar fervorosamente.<\/p>\n<p>Rezou muito, de cabe\u00e7a baixa, o rosto afogado em rimas. Depois ergueu-se, foi ter \u00e0 essa, p\u00f4s-se nas pontas p\u00e9s para poder alcan\u00e7ar com os l\u00e1bios o rosto do cad\u00e1ver e pousou nas faces enregeladas um extremo beijo amor.<\/p>\n<p>Em seguida, olhou em derredor de si, desconfiado e t\u00edmido e, como n\u00e3o houvesse na sala uma s\u00f3 imagem sagrada em companhia da morta, desprendeu do pesco\u00e7o o crucifixo e foi piedosamente dependur\u00e1-lo na parede, \u00e0 cabeceira dela.<\/p>\n<p>Mas, nesse mesmo instante, as tochas apagaram-se de s\u00fabito e fez-se completa escurid\u00e3o em torno do impenitente. Foi \u00e0s apalpadelas que ele conseguiu chegar at\u00e9 \u00e0 porta de sa\u00edda e ganhar a rua.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, a noite se tinha feito tamb\u00e9m negra e os ventos se tinham desencadeado em f\u00faria, amea\u00e7ando tempestade. O monge deitou a fugir para o mosteiro, sem \u00e2nimo de voltar o rosto para tr\u00e1s, como temeroso de que Leon\u00edlia por sua vez o perseguisse agora at\u00e9 ao domic\u00edlio.<\/p>\n<p>Quando alcan\u00e7ou a cela, tiritava de febre.<\/p>\n<p>Acharam-no pela manh\u00e3, sem sentido, defronte do seu orat\u00f3rio, joelhos em terra, bra\u00e7os pendidos, cabe\u00e7a de borco sobre um degrau do altar.<\/p>\n<p>S\u00f3 muitos dias depois, um dia de sol, conseguiu sair \u00e0 rua, ainda p\u00e1lido e desfeito. Seu primeiro cuidado foi correr aonde morava Leon\u00edlia e rondar a casa em que a vira morta.<\/p>\n<p>Encontrou-a fechada e com letreiro anunciando o aluguel.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 vazia, depois que nela morreu o \u00faltimo inquilino \u2013 explicou um vizinho.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 muitos dias? \u2013 quis saber o frade, e estremeceu quando ouviu dizer que havia uns oito ou dez.<\/p>\n<p>\u2013 E o morador, quem era? \u2013 perguntou ainda.<\/p>\n<p>\u2013 Era uma mulher. Chamava-se Leon\u00edlia. Morreu de repente.<\/p>\n<p>\u2013 Ah!<\/p>\n<p>\u2013 Se quer alugar a casa, encontra a chave ali na esquina\u2026<\/p>\n<p>Frei \u00c1lvaro agradeceu, despediu-se do informante, foi buscar a chave, abriu a porta, entrou e percorreu toda a casa.<\/p>\n<p>S\u00f3 ele, al\u00e9m de Deus, soube a impress\u00e3o que sentiu ao contemplar aquelas salas e aqueles quartos.<\/p>\n<p>\u2013 Estranho caso! \u2013 disse consigo, sem \u00e2nimo de olhar de rosto para o temeroso abismo da d\u00favida. \u2013 Fui v\u00edtima de uma alucina\u00e7\u00e3o que coincidiu com a morte desta querida c\u00famplice dos meus pecados de amor\u2026<\/p>\n<p>E, enxugando os olhos, ia retirar-se, conformado com a dupla dor da saudade e do remorso, quando, ao passar rente de certa parede, estremeceu de novo.<\/p>\n<p>Tinha dado com os olhos no seu crucifixo, do qual j\u00e1 nem se lembrava. Permanecia pendurado no mesmo ponto em que o monge o deixara na terr\u00edvel noite.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto-vos o caso como mo contaram. Frei \u00c1lvaro era um bom homem e um mau frade. 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