{"id":412,"date":"2018-07-05T01:23:31","date_gmt":"2018-07-05T01:23:31","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=412"},"modified":"2018-07-05T01:34:34","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:34","slug":"insepultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/insepultos","title":{"rendered":"Insepultos"},"content":{"rendered":"<p>Havia nada menos de trinta e cinco anos que eu deixara minha cidade natal quando l\u00e1 tornei pela primeira vez.<\/p>\n<p>Trinta e cinco anos! Quantas voltas n\u00e3o dera o mundo durante essa larga aus\u00eancia! De l\u00e1 sa\u00edra levando por \u00fanica bagagem \u2013 pobre \u00f3rf\u00e3o desamparado! \u2013 um leve saco cheio de ilus\u00f5es, e voltava agora triunfante, de novo sozinho \u00e9 verdade, mas com o meu saco cheio de ouro at\u00e9 \u00e0 boca.<\/p>\n<p>Como \u00e9 de calcular, t\u00e3o brilhante foi a volta qu\u00e3o mesquinha e triste tinha sido a partida; receberam-me com m\u00fasica, vivas e foguetes, numa estrondosa manifesta\u00e7\u00e3o de entusiasmo; e desde logo por diante come\u00e7aram a ferver em volta do meu nome ou do meu t\u00edtulo os melhores e mais carinhosos adjetivos, como em volta de mim ferveram as festas, os bailes e os regalos.<\/p>\n<p>Tomaram-me por tal modo que me n\u00e3o deixaram tempo sequer para lembrar-me da \u00fanica pessoa talvez que tivesse tido uma l\u00e1grima sincera quando de l\u00e1 parti desamparado e pobre.<\/p>\n<p>Foi essa gentil pessoa a dona dos meus primeiros amores. Um romancete dos dezoito anos. \u2013 Ah! como nesse tempo meu cora\u00e7\u00e3o era puro! \u2013 Vi-a uma vez numa festa de arraial e logo ficamos namorados. Chamava-se Alice. Consegui relacionar-me com a fam\u00edlia dela; depois tivemos entrevista ao fundo do quintal de sua casa, debaixo de um caramanch\u00e3o de jasmins. Fiz-lhe, tr\u00eamulo, com as suas pequeninas m\u00e3os entre as minhas, a confiss\u00e3o do meu amor; ela abaixou os olhos enrubescendo e, toda confusa, toda medrosa, jurou, balbuciando como num sonho, que s\u00f3 a mim queria por toda a vida e s\u00f3 a mim aceitaria por esposo.<\/p>\n<p>E parti, no entanto, para o Rio de Janeiro sem ao menos lhe dizer adeus, porque nessa ocasi\u00e3o estava Alice fora da cidade. Mas, por muitas vezes, nos meus primeiros desenganos e na febre das minhas lutas pela vida e principalmente depois na ressaca das minhas vit\u00f3rias sem m\u00e9rito, a sua singela imagem, graciosa e casta, vinha alegrar a sombria aridez dos castelos da minha ambi\u00e7\u00e3o com a brancura das suas asas, como alva pomba vai \u00e0s vezes pousar na enegrecida torre de uma velha igreja abandonada e vazia.<\/p>\n<p>Amigo desmemoriado e ingrato que \u00e9s tu, meu pobre cora\u00e7\u00e3o! s\u00f3 tr\u00eas meses depois da minha estada na prov\u00edncia \u2013 tr\u00eas meses! te lembraste de Alice! E achaste-la de novo, perjuro! achaste-la, de mem\u00f3ria, na amargura da tua velha saudade, como no fundo de um venturoso sonho extinto! achaste-la, a fitar-me ainda do passado, com os seus grandes olhos inocentes e amorosos. Achaste-la, sim, que meus l\u00e1bios ainda sentiram a doce impress\u00e3o da inocente boca de donzela que os beijou noutro tempo! Achaste-la, que em minha alma cansada respirou ainda o delicado aroma que eu nela adivinhava dantes, como se adivinha no bot\u00e3o de rosa o perfume que h\u00e1 de ter a flor desabrochando.<\/p>\n<p>Ah! muito e muito me impressionaram semelhantes recorda\u00e7\u00f5es! impressionaram-me tanto que, quando depois me achava em sociedade, instintivamente iam sempre meus olhos procurar no grupo das damas alguma que me desse id\u00e9ia da formosa criatura por quem meu cora\u00e7\u00e3o gemeu a primeira nota de amor. Mas qual! estavam todas bem longe de lembrar sequer aquela gra\u00e7a meiga e despretensiosa, aquele doce agrado, humilde, quase infantil, que em Alice me cativaram. Em nenhum daqueles olhos de mulher que agora me cobi\u00e7avam, em nenhum daqueles sorrisos que nas salas me seguiam atados numa esperan\u00e7a de casamento rico, encontrava eu o mais ligeiro vislumbre do amor passado, daquele amor que eu vira outrora nos olhos dela, t\u00e3o natural e sincero!<\/p>\n<p>Mas uma noite, no pal\u00e1cio do presidente, por ocasi\u00e3o de um baile que me era oferecido, ruminava a minha incoerc\u00edvel saudade ao fundo de uma janela, quando notei que viera colocar-se ao meu lado uma senhora gorda, idosa e respeit\u00e1vel. Aprumei-me logo, vergando-me galantemente, de claque em punho, e, antes de achar tempo para dizer qualquer banalidade de cortesia, reparei que ela me fitava com estranha insist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tive um sobressalto. O cora\u00e7\u00e3o bateu-me com mais for\u00e7a. Entre n\u00f3s dois cavou-se um profundo sil\u00eancio, frio e desconsolado como a velhice.<\/p>\n<p>Encaramo-nos ainda um instante, sem dar palavra; depois, voltando pouco a pouco do meu abalo, senti ir acordando a minha mem\u00f3ria defronte daquela triste e cansada fisionomia, que ali me fitava obstinadamente, como se por detr\u00e1s dela uma alma oculta me estivesse espiando do passado.<\/p>\n<p>E reunindo, como depois de um naufr\u00e1gio, os miser\u00e1veis destro\u00e7os de uma querida formosura que j\u00e1 n\u00e3o existia sen\u00e3o na mem\u00f3ria do meu cora\u00e7\u00e3o e na poesia da minha saudade, balbuciei com os l\u00e1bios tr\u00eamulos e os olhos \u00famidos:<\/p>\n<p>\u2013 Alice!<\/p>\n<p>Ela sorriu tristemente e conservou-se muda.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo suspirou e disse-me que estava \u00e0 espera de ver se eu ainda a reconheceria.<\/p>\n<p>Aproximamo-nos ent\u00e3o um do outro e conversamos. Contou-me que j\u00e1 tinha netos. Enviuvara com seis filhos e sofrera muito desde o primeiro parto.<\/p>\n<p>Em seguida vieram as recorda\u00e7\u00f5es, e tudo lembrado por ela, com uma voz em que faltavam dentes e uma como\u00e7\u00e3o que lhe fazia os olhos menores e mais empapu\u00e7ados.<\/p>\n<p>E eu, enquanto a ouvia, examinava-a disfar\u00e7adamente, procurando descobrir e colher uma lembran\u00e7a da encantadora companheira dos meus primeiros sonhos por entre aqueles f\u00fanebres restos insepultos.<\/p>\n<p>Que terr\u00edvel desilus\u00e3o, meu Deus!<\/p>\n<p>Oh! por que aquela desumana criatura consentiu que eu a visse assim, indecorosamente descomposta de beleza? Por que aquela insensata n\u00e3o fugiu para dentro do mundo, n\u00e3o se escondeu na terra, antes que a senilidade lhe viesse daquele modo ultrajar t\u00e3o miseravelmente o corpo que eu at\u00e9 esse instante divinizava na minha saudade?<\/p>\n<p>Ela, coitada! como se percebera o meu \u00edntimo ju\u00edzo, fez-me notar, jovialmente, que tamb\u00e9m eu pelo meu lado estava bem longe de lembrar o que fui. E de novo entristecida, malgrado o esfor\u00e7o que fazia para alegrar o rosto, recordou-me, com um inquietante sorriso, os meus belos cabelos de mo\u00e7o, quando eu os tinha negros, abundantes e anelados; e referiu-se, meneando a cabe\u00e7a desconsoladamente, \u00e0 extinta alvura dos meus dentes e \u00e0 rosada frescura primitiva de meus l\u00e1bios, outrora t\u00e3o bonitos e t\u00e3o senhores dos meus \u00faltimos beijos de crian\u00e7a e dos seus primeiros beijos de mulher. E, fitando meus olhos, parecia procurar neles uns olhos que n\u00e3o eram os meus, mas ia com os dela entrando por eles familiarmente, para vir c\u00e1 dentro de mim buscar os outros, os seus \u00edntimos, os seus alegres companheiros de mocidade, que deviam l\u00e1 estar ainda nesse passado feliz que cada um de n\u00f3s carinhosamente continuava a guardar no fundo d\u2019alma.<\/p>\n<p>Acordei-a desse devaneio com uma fac\u00e9cia desenxabida, falando do meu bigode branco e da minha calva.<\/p>\n<p>Rimo-nos ambos e continuei a rir durante o resto da nossa conversa. Mas, enquanto eu ria e gracejava, ia-me entrando trai\u00e7oeiramente no cora\u00e7\u00e3o um h\u00f3spede sombrio, uma sinistra amargura, que principiava a instalar-se nele, varrendo para fora os \u00faltimos farrapos de ilus\u00e3o que o intruso ainda encontraria l\u00e1 dentro, esquecidos pelo ch\u00e3o e pelas paredes frias.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude demorar-me ali. Dei-me por indisposto e retirei-me em meio da festa, sem levar na deser\u00e7\u00e3o outro companheiro al\u00e9m de um charuto acudido no momento de tomar o carro.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa dispensei o criado, recolhi-me sozinho aos meus aposentos e, ao passar pelo espelho do guarda-roupa, mirei-me longa e silenciosamente, como se s\u00f3 ent\u00e3o e de surpresa me visse t\u00e3o velho e acabrunhado, estranhando por tal modo a minha pr\u00f3pria imagem como se naquele instante desse cara a cara com um desconhecido que eu n\u00e3o sabia donde vinha, nem o que de mim queria, para estar ali a fixar-me com tamanha impertin\u00eancia.<\/p>\n<p>Maldita sombra importuna! Maldito despojo de mim mesmo!<\/p>\n<p>Tra\u00e7o por tra\u00e7o examinei-me da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; todo eu, como Alice, tinha j\u00e1 desaparecido na melhor parte, e os meus restos eram cabelos sem cor, olhos sem luz, boca sem beijos e alma sem dono.<\/p>\n<p>Como eu estava retardado neste mundo!<\/p>\n<p>Despi-me. N\u00e3o pude ler, nem pensar, nem fazer nada. Pus-me a fumar, estirado no div\u00e3, perdido numa infinidade de tolices aborrecidas. De vez em quando observava com t\u00e9dio as minhas m\u00e3os engelhadas, o meu ventre disforme, as minhas pernas tr\u00f4pegas e os meus p\u00e9s deformados.<\/p>\n<p>Oh! definitivamente esta vida era uma mistifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o valia a pena viver! isto \u00e9, trabalhar tanto, desejar tanto, e para qu\u00ea? para ir morrendo, at\u00e9 nos estalar afinal a \u00faltima fibra e rolar dentro da terra indiferente mais uma pouca de lama.<\/p>\n<p>E senti um doloroso e vago desejo de n\u00e3o continuar a existir, mas sem morrer; uma insaci\u00e1vel vontade de desertar do presente para o passado extinto; volver-me de novo o que eu fora, desprotegido e pobre, mas rico de inexperi\u00eancia, com a minha mocidade inteira e inteiro o meu tesouro de ilus\u00f5es; e que eu pudesse ir pelo passado a dentro, correndo, at\u00e9 chegar de novo aos dezoito anos, e atravessar ent\u00e3o o muro do quintal daquela Alice, que n\u00e3o morrera e que j\u00e1 vivia, e cair-lhe aos p\u00e9s, debaixo do cheiroso caramanch\u00e3o de jasmins, e beijar-lhe os dedos brancos e mimosos, e dizer-lhe com a minha boca de mo\u00e7o mil cousas de amor e ouvir em resposta: \u201cEu te amo! Eu te amo!\u201d e poder acreditar nestas palavras sem a mais ligeira sombra de desconfian\u00e7a, como outrora, quando elas sa\u00edam quentes do cora\u00e7\u00e3o de Alice para estalarem \u00e0 superf\u00edcie da boca num beijo contra meus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>E depois, abra\u00e7ado com ela, eternamente jovens como os amantes que os poetas celebram nos seus poemas de amor, queria fugir para um outro mundo bem longe deste, ideal e puro, onde n\u00e3o houvesse dinheiro nem honrarias, e onde se n\u00e3o fosse apodrecendo em vida, aos poucos, como nesta miser\u00e1vel terra em que nos arrastamos sem asas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia nada menos de trinta e cinco anos que eu deixara minha cidade natal quando l\u00e1 tornei pela primeira vez. Trinta e cinco anos! Quantas voltas n\u00e3o dera o mundo durante essa larga aus\u00eancia! 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