{"id":415,"date":"2018-07-05T01:24:39","date_gmt":"2018-07-05T01:24:39","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=415"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"fora-de-horas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/fora-de-horas","title":{"rendered":"Fora de Horas"},"content":{"rendered":"<p>Ora! Para que lhes hei de contar isto? Hist\u00f3rias do Norte! Hist\u00f3rias de amor! Cousas que n\u00e3o voltam mais!<\/p>\n<p>Era a \u00faltima vez que eu ia ter com ela, e seria menos uma entrevista de amor do que um encontro de despedida; meus l\u00e1bios pressentiam j\u00e1 ligeiro travor de l\u00e1grimas nos beijos que sonhava pelo caminho.<\/p>\n<p>Fui. Ela me esperava \u00e0 meia-noite, como de costume, espreitando por detr\u00e1s da porta cerrada, descal\u00e7a e palpitante de ansiedade e de susto. Eu costumava chegar furtivamente, cosendo-me \u00e0 pr\u00f3pria sombra pelas paredes da rua. Entrava; a porta fechava-se ent\u00e3o de todo, surdamente, e n\u00f3s fic\u00e1vamos sendo um do outro at\u00e9 esgotar-se a noite. Ningu\u00e9m desconfiava da nossa felicidade.<\/p>\n<p>Vivia a minha amada em companhia de uma parenta velha, sua madrinha, vi\u00fava e rica, senhora de engenho, dona austera e vener\u00e1vel, devota at\u00e9 ao fanatismo. A madrinha idolatrava-a loucamente. A casa era grande, antiga e nobre, povoada de agregados, de mucambas e muitos f\u00e2mulos. Para chegar ao quarto da afilhada era preciso atravessarmos, eu a ela, de m\u00e3os dadas, na escurid\u00e3o, longos corredores e varandas; com o calcanhar no ar, a respira\u00e7\u00e3o suspensa, os sapatos fora. Mas que pr\u00eamio era ganhar o fim dessa jornada aflitiva e tenebrosa! A alcova l\u00e1 no fundo, isolada do resto da casa, dava janelas sobre um jardim de \u00e1rvores flor\u00edferas, todo cercado de altos muros de convento e todo envolvido no doce mist\u00e9rio de uma fortaleza de amor.<\/p>\n<p>Que del\u00edcia contemplar da altura das janelas silenciosas o c\u00e9u todo orvalhado de estrelas, e beber o segredo da noite; cinturas presas, cabe\u00e7as juntas, cabelos confundidos.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o tinha m\u00e3e desde o ber\u00e7o e fora criada pela madrinha. Casara aos quinze anos e enviuvara aos dezoito. A nossa loucura principiou no calor das valsas e foi-se derramando num del\u00edrio de mocidade at\u00e9 \u00e0quela perfumada alcova, onde a nossa \u00faltima madrugada recolheu no seio o eco dos nossos derradeiros beijos.<\/p>\n<p>A madrinha n\u00e3o me podia ver.<\/p>\n<p>Ressentimentos de devota: Eu nesse tempo, com pouco mais de vinte anos, supunha-me um batalhador predestinado a regenerar o mundo a golpes desapiedados contra as velhas institui\u00e7\u00f5es; tinha o meu jornal republicano e acat\u00f3lico e duelava-me, dia a dia, ferozmente, com os redatores de um \u00f3rg\u00e3o ultramontano e com os velhos jornalistas conservadores. Imaginem se a velha me podia ver!<\/p>\n<p>Era por toda a cidade apontado a dedo; amado pela metade da popula\u00e7\u00e3o e amaldi\u00e7oado pela outra. Os devotos enfureciam-se comigo e os padres pediam ao diabo que me carregasse para longe da minha prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Ouviu-os o demo. Tive de partir para o Rio de Janeiro. E foi nas \u00faltimas horas precursoras desse triste dia que os mais amorosos l\u00e1bios de mulher gemeram contra os meus a dolorosa cavatina precursora da saudade.<\/p>\n<p>Ai! quantas l\u00e1grimas nos ensoparam os beijos e quantos solu\u00e7os nos cortaram os juramentos de fidelidade! S\u00f3 resolvemos separar-nos quando o horizonte j\u00e1 nos amea\u00e7ava com a aurora. E lentamente nos afastamos do nosso para\u00edso, mais tristes e mais mudos que os dois primeiros amantes enxotados sobre a terra. Ao meu lado ela caminhava quase t\u00e3o nua e certamente mais comovida e chorosa do que a primeira Eva.<\/p>\n<p>\u2013 Espera! Espera ainda um instante, meu querido amor! suplicava-me entre beijos desesperan\u00e7ados, na ocasi\u00e3o de abrirmos a porta da rua. Espera! Diz-me um negro pressentimento que nunca mais nos veremos! Espera ainda! um instante s\u00f3!<\/p>\n<p>Mas era preciso separar-nos. O dia n\u00e3o tardaria a repontar e eu tinha de estar ao lado de minha fam\u00edlia ao amanhecer. O vapor largaria cedo. Os amigos viriam buscar-me logo pela manh\u00e3. Era preciso ir!<\/p>\n<p>\u2013 Adeus! Adeus!<\/p>\n<p>E arranquei-me dos seus bra\u00e7os, enquanto desfalecida e solu\u00e7ante, ela se amparava contra a parede do corredor. E, para n\u00e3o sucumbir tamb\u00e9m, tratei de apressar a fuga e precipitei-me sobre a porta da rua.<\/p>\n<p>Mas, que horror! a chave j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estava na fechadura. Algu\u00e9m de casa tinha carregado com ela.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Foi Dindinha com certeza, disse dolorosamente a minha pobre amada. Meu Deus! meu Deus!<\/p>\n<p>E quase sem poder andar, de t\u00e3o nervosa e tr\u00eamula, voltou ao interior da casa e tornou a ter comigo, para me segredar aterrada que havia luz no quarto da madrinha.<\/p>\n<p>\u2013 Descobriu tudo! Descobriu tudo! murmurou aflita. Fechou-nos! Estamos presos ! Estamos perdidos!<\/p>\n<p>\u2013 E agora?\u2026 perguntei, deveras agitado, lembrando-me da mon\u00e1stica altura dos muros do jardim.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei! N\u00e3o sei! foi a \u00fanica resposta que lhe obtive.<\/p>\n<p>Tornamos \u00e0 alcova, mais tristes e mais lentos do que de l\u00e1 sa\u00edmos. A id\u00e9ia da nossa separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos acabrunhava mais do que a de ficarmos juntos \u00e0 for\u00e7a. Se me do\u00eda abandonar aquele doce para\u00edso de amor, n\u00e3o me atormentava menos ter de ficar l\u00e1 dentro prisioneiro.<\/p>\n<p>E ela, perplexa, chorava, chorava, apertando a cabe\u00e7a entre os formosos bra\u00e7os, numa ang\u00fastia sem esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o. Urgia, por\u00e9m, tomar qualquer partido decisivo: o dia estava a chegar e eu n\u00e3o podia amanhecer ali, tendo de seguir para o Rio de Janeiro e embarcar dentro de poucas horas!<\/p>\n<p>Afinal, a minha companheira de agonia muniu-se de coragem e foi bater de leve, muito de leve, no quarto da madrinha.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Tornou a bater.<\/p>\n<p>Bateu terceira vez.<\/p>\n<p>\u2013 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>\u2013 Sou eu, Dindinha. Abra por favor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que quer a senhora<\/p>\n<p>\u2013 Nada, Dindinha\u2026 Eu queria a chave da porta da rua\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me pergunte, Dindinha, por amor de Deus! e d\u00ea-me a chave\u2026 Pe\u00e7o-lhe por tudo que Dindinha mais deseja no mundo!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o dou!<\/p>\n<p>\u2013 Minha Dindinha<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Abra a sua porta ao menos\u2026<\/p>\n<p>E esta s\u00faplica foi j\u00e1 toda embebida de l\u00e1grimas e solu\u00e7os.<\/p>\n<p>A velha veio \u00e0 porta e eu ent\u00e3o pude espiar l\u00e1 para dentro. Era um pequeno aposento, bem arrumado e limpo. Havia uma c\u00f4moda com um orat\u00f3rio, onde luzia uma l\u00e2mpada que era \u00fanica a iluminar o honesto e tranq\u00fcilo dormit\u00f3rio. Pelas paredes aprumavam-se quadros de santos, contrastando com o retrato a \u00f3leo de um tenente de cavalaria, mal pintado, mas de olhinhos vivos e que parecia sorrir l\u00e1 da sua moldura para a viuvinha, com o ar escarninho assim de quem diz: \u201cTu ent\u00e3o, pequena, fizeste a tua falcatrua e foste apanhada, bem?\u2026 Pois \u00e9 bem feito!\u201d<\/p>\n<p>A velha, assentada de novo na sua rede, conservava a fisionomia fechada e parecia implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>A afilhada, procurando esconder nos bra\u00e7os nus a pecadora nudez do colo, desfazia-se em l\u00e1grimas e nelas repisava as suas s\u00faplicas, jurando que nunca mais, nunca mais! por tudo que houvesse de sagrado! reincidiria naquela feia culpa!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Tenha pena de mim, Dindinha!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 que estava a\u00ed com a senhora?!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a calou-se, de olhos baixos, arfando-lhe por sob a cambraia da camisa os seios atormentados.<\/p>\n<p>\u2013 Diz ou n\u00e3o diz?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9\u2026 \u00e9\u2026 Para que Dindinha quer saber?\u2026 Dindinha vai ficar zangada se eu disser\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Diga quem \u00e9!<\/p>\n<p>\u2013 Dindinha saber\u00e1 depois\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Pois ent\u00e3o retire-se j\u00e1 daqui! Saia da minha presen\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o\u2026 N\u00e3o\u2026 Eu digo\u2026 \u00c9\u2026<\/p>\n<p>E ouvi o meu nome balbuciado a medo no ouvido da velha.<\/p>\n<p>Um charuto aceso, que lhe metessem pela orelha, n\u00e3o lhe produziria tanto efeito.<\/p>\n<p>A devota teve um frouxo de tosse convulsa.<\/p>\n<p>\u2013 Com efeito! rosnou afinal, contendo a custo uma explos\u00e3o de c\u00f3lera. Com efeito! Pois \u00e9 esse alma perdida, esse ateu, esse monstro, que a senhora introduziu velhacamente em minha casa?!<\/p>\n<p>\u2013 Tenha paci\u00eancia, Dindinha\u2026 Ele parte esta manh\u00e3 mesmo para o Rio de Janeiro\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Paci\u00eancia?!\u2026 \u00c9 boa! Esse herege h\u00e1 de ficar aqui preso e s\u00f3 sair\u00e1 com alto dia e na presen\u00e7a do senhor vig\u00e1rio geral e dos padres da S\u00e9, a quem vou chamar! o p\u00fablico h\u00e1 de ver e apreciar o esc\u00e2ndalo, para vergonha sua e para castigo dele! Paci\u00eancia! Sim, hei de ter paci\u00eancia, mas ser\u00e1 para desmascarar aquele pedreiro livre!<\/p>\n<p>A velha tinha chegado ao auge da c\u00f3lera e j\u00e1 falava em voz alta.<\/p>\n<p>Vi o caso perdido.<\/p>\n<p>E a minha pobre c\u00famplice, de p\u00e9 ao lado da rede, descal\u00e7a e apenas resguardada pela tr\u00eamula camisa, abaixou ainda mais o rosto e deixou que as suas perdidas l\u00e1grimas lhe corressem ao suspirado resfolegar do peito.<\/p>\n<p>A velha conservava-se inflex\u00edvel. Mas a afilhada chegou-se mais para junto dela e pousando carinhosamente uma das m\u00e3os nos punhos da rede, come\u00e7ou a embal\u00e1-la de leve, e come\u00e7ou a murmurar num fl\u00e9bil queixume ressentido:<\/p>\n<p>\u2013 Dindinha, entretanto, n\u00e3o devia fazer assim comigo\u2026 Dindinha bem sabe o muito que lhe quero e o muito que a respeito\u2026 Mas Dindinha devia lembrar-se de que enviuvei com dezoito anos e tenho apenas vinte\u2026 devia lembrar-se de que sou mo\u00e7a e que o rapaz a quem amo n\u00e3o pode sequer aproximar-se de Dindinha\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Confiada!<\/p>\n<p>\u2013 Devia lembrar-se que\u2026 certa noite. (e abaixou mais a voz) quando eu era ainda pequenina e dormia no mesmo quarto com Dindinha\u2026 j\u00e1 depois que meu padrinho se separou de vosmec\u00ea\u2026 o tenente Ferraz, que ali est\u00e1 pintado na parede, saltou a janela do nosso quarto e Dindinha o recebeu nos bra\u00e7os, depois de ter ido verificar se eu estava dormindo\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Cala-te, doida!<\/p>\n<p>\u2013 Eu estava bem acordada, mas fiquei quietinha na minha rede, fingindo que dormia, s\u00f3 para ser agrad\u00e1vel \u00e0 Dindinha\u2026 e ouvi todas as palavras de ternura que o tenente disse ao ouvido da Dindinha.. E nunca falei disto a ningu\u00e9m\u2026 Ouvi tudo! Por sinal que o tenente dizia: \u201cEu te amo, minha flor! Eu te amo como um louco!<\/p>\n<p>\u2013 Se quiseres qu\u00ea\u2026\u201d<\/p>\n<p>Mas a velha interrompeu-a.<\/p>\n<p>\u2013 Cala-te! Cala-te! disse.<\/p>\n<p>A sua fisionomia tinha pouco a pouco se transformado com as palavras da afilhada e ia ganhando um triste e compassivo ar de desconsola\u00e7\u00e3o. Os olhos relentaram-se-lhe de saudade com aquele frio recordar do passado.<\/p>\n<p>Quando a rapariga quis continuar as suas revela\u00e7\u00f5es, ela interrompeu-a de novo com um fundo suspiro e acrescentou com a voz quebrada pela como\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Cala-te, minha filha!\u2026 A\u00ed tens a chave\u2026 Abre-lhe a porta\u2026 Vai! vai, antes que amanhe\u00e7a\u2026 E deixa-me s\u00f3! deixa-me ficar s\u00f3!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ora! Para que lhes hei de contar isto? Hist\u00f3rias do Norte! Hist\u00f3rias de amor! Cousas que n\u00e3o voltam mais! 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