{"id":418,"date":"2018-07-05T01:26:21","date_gmt":"2018-07-05T01:26:21","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=418"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"a-serpente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-serpente","title":{"rendered":"A Serpente"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Br\u00e1s foi jantar \u00e0 Santa Teresa com o seu amigo Manuel Fortuna, como costumava fazer invariavelmente todos os domingos.<\/p>\n<p>Eram ambos do com\u00e9rcio: Jo\u00e3o guarda-livros e o outro estabelecido com uma loja de alfaiate. Grisalhando j\u00e1 entre os quarenta e os cinq\u00fcenta, n\u00e3o tinham eles todavia vinte anos quando se conheceram; e essa longa amizade jamais fora perturbada pelo menor atrito de car\u00e1ter.<\/p>\n<p>\u2013 A paz dos anjos seja nesta casa! exclamou Jo\u00e3o Br\u00e1s, no tom risonho e tranq\u00fcilo com que, ao chegar os domingos \u00e0 casa do velho amigo, dizia sempre e sempre essa mesma frase.<\/p>\n<p>\u2013 Bons ventos o tragam, compadre, respondeu Manuel, estendendo-lhe a m\u00e3o. Como tem passado? E minha afilhada como vai?<\/p>\n<p>\u2013 Sem novidade, gra\u00e7as a Deus. L\u00e1 foi mais o marido e os filhos visitar a sogra, na Piedade. Naturalmente s\u00f3 voltam amanh\u00e3 no trem das nove e meia.<\/p>\n<p>\u2013 D. Maria, j\u00e1 sei, est\u00e1 l\u00e1 dentro?<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1. V\u00e1 entrando compadre.<\/p>\n<p>E o guarda-livros enfiou sem-cerim\u00f4nia at\u00e9 \u00e0 cozinha para ir entregar a Dona Maria, que l\u00e1 estava as voltas com o jantar e com a cozinheira, os pacotes de doces e frutas que ele trazia pendurados da m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>Abra\u00e7aram-se formalmente, entre as palavras e os risos do costume.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Br\u00e1s era vi\u00favo j\u00e1 pela segunda vez. Do primeiro matrim\u00f4nio ficara-lhe uma filha, que, pelo batismo, o fizera compadre de Manuel, e depois, dezoito anos mais tarde, lhe dera um lindo casal de netos, agora constitu\u00eddos no alegre enlevo da sua velhice.<\/p>\n<p>Aqueles jantarinhos domingueiros em casa do amigo tinham para ele o irresist\u00edvel encanto do mais velho h\u00e1bito de sua vida. Mal cumprimentava os donos da casa, trocava a sobrecasaca por um rodaque de linho branco e estendia-se numa cadeira de balan\u00e7o, sob as \u00e1rvores do jardim, a espera que o chamassem para a mesa. O cozido, o vinho virgem e os motivos da conversa entre os tr\u00eas eram quase sempre os mesmos. Depois do caf\u00e9, os dois compadres armavam sobre as pernas o tabuleiro do gam\u00e3o e enfiavam partidas at\u00e9 \u00e0s dez e meia da noite, enquanto D. Maria se arranchava l\u00e1 fora com as fam\u00edlias da vizinhan\u00e7a fazendo roda \u00e0 porta da ch\u00e1cara ou passeando pelas aproxima\u00e7\u00f5es da casa.<\/p>\n<p>Manuel todavia n\u00e3o era casado com a sua companheira. Tendo, aos trinta anos, a recolhido como empregada para lhe tomar conta da casa, da despesa e das roupas brancas, deixou-se afinal entrar passivamente no invent\u00e1rio dessas cousas, e ela acabou por tomar conta tamb\u00e9m dele. Quando deram por si, estavam unidos pela mais leg\u00edtima ternura e estavam conviventes no mais perfeito p\u00e9 de igualdade.<\/p>\n<p>D. Maria era honesta por \u00edndole, era sadia e limpa; o negociante sentiu-se bem ao lado dela e deixou-se ficar.<\/p>\n<p>Terminado o jantar, Manuel foi, como de costume, buscar o gam\u00e3o; e assentados um defronte do outro, dispuseram-se os dois amigos \u00e0 pachorrenta campanha, trocando logo as primeiras fac\u00e9cias e as primeiras risadas de todas as suas inumer\u00e1veis partidas.<\/p>\n<p>\u2013 Mas ent\u00e3o, compadre, interrogou Jo\u00e3o, armando o jogo; afinal que me diz voc\u00ea do que falei outro dia a respeito de D. Maria?\u2026 Est\u00e1 resolvido a\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ai mau! J\u00e1 a\u00ed vem voc\u00ea com a mania! Tardava-me essa cantiga! Ora para que lhe havia de dar!<\/p>\n<p>\u2013 Mania n\u00e3o, homem de Deus! \u00c9 tudo que h\u00e1 de mais razo\u00e1vel e de mais justo! D. Maria \u00e9 uma senhora s\u00e9ria\u2026 voc\u00ea n\u00e3o tenciona separar-se dela\u2026 por que, pois, n\u00e3o se casam logo?\u2026 Seria mais bonito!<\/p>\n<p>\u2013 Mas por que diabo hei de me eu casar, se somos felizes assim como vivemos h\u00e1 treze para quatorze anos\u2026 Nunca at\u00e9 hoje nenhum de n\u00f3s dois pensou em semelhante cousa\u2026 As nossas rela\u00e7\u00f5es de amizade n\u00e3o podem ser mais limitadas e modestas. Ela n\u00e3o tem pretens\u00f5es e eu, c\u00e1 pelo meu lado, nada espero nem desejo fora do meu canto, onde vivo em boa paz, gra\u00e7as a Deus! Quando queremos sair, sa\u00edmos! Vamos ao teatro! vamos ao Passeio P\u00fablico! vamos a toda a parte! Ningu\u00e9m repara em n\u00f3s! Por que ent\u00e3o hei de eu agora tirar-me dos meus cuidados e casar?!\u2026 N\u00e3o mo dir\u00e1 voc\u00ea?!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Seria mais bonito!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ora deixe-se disso, compadre!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 uma quest\u00e3o de moral!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, seu Jo\u00e3o, eu sou um homem imoral?\u2026 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o digo isso, mas\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Se tiv\u00e9ssemos filhos, v\u00e1! Convenho que seria de vantagem o casamento\u2026 mas, se at\u00e9 hoje eles n\u00e3o vieram, \u00e9 natural que nunca mais venham.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, compadre, o seu casamento com D. Maria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um ato de moralidade, \u00e9 tamb\u00e9m um dever de gratid\u00e3o e \u00e9 bom cumprimento de justi\u00e7a! Pois ent\u00e3o uma mulher uma senhora, dedica-se durante quatorze anos a um homem, procedendo sempre com a mais severa honestidade, ajudando-o na vida, tratando dele, aturando-o enfim! e, ao cabo de todo esse tempo, ele se n\u00e3o resolve a fazer por ela um pouco mais do que no primeiro dia das suas rela\u00e7\u00f5es!\u2026 N\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 justo, seu compadre! Tenha paci\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 justo!<\/p>\n<p>\u2013 Homem! Sabe de uma cousa? N\u00e3o falemos mais nisto! Voc\u00ea quando mete a cabe\u00e7a para um lado n\u00e3o h\u00e1 meio de tir\u00e1-la da\u00ed!<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o falemos! n\u00e3o falemos! O meu protesto, por\u00e9m, fica de p\u00e9!<\/p>\n<p>N\u00e3o falemos, n\u00e3o falemos, mas no domingo seguinte, durante o joguinho, o compadre Jo\u00e3o Br\u00e1s voltou \u00e0 carga e acrescentou \u00e0s novas escusas do amigo:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9! nas suas condi\u00e7\u00f5es dizem os homens geralmente a mesma cousa e afinal acabam sempre casando \u00e0 \u00faltima hora, quando a mulher est\u00e1 a despedir-se da vida e j\u00e1 nada aproveita por conseguinte com a tardia resolu\u00e7\u00e3o do seu ingrato companheiro; ao passo que esse mesmo ato de justi\u00e7a praticada antes, em pleno gozo da exist\u00eancia, seria honroso motivo de verdadeira felicidade para ela!<\/p>\n<p>\u2013 Ora deixe-me em paz, compadre! Deixe-nos viver como vamos vivendo e preste mais aten\u00e7\u00e3o ao jogo, se n\u00e3o prego-lhe um gam\u00e3o cantado.<\/p>\n<p>\u2013 Pois vivam, continuem a viver seguros pela m\u00e3o esquerda, mas eu c\u00e1 ficarei com o direito de revoltar-me, se um dia, em caso extremo, resolver-se voc\u00ea a coonestar a sua uni\u00e3o com D. Maria!<\/p>\n<p>Manuel soprou com mais for\u00e7a e arrega\u00e7ou as sobrancelhas, dando silenciosa c\u00f3pia de quanto fatigava aquela torturante catequese. E continuou a jogar sem dizer palavra.<\/p>\n<p>O outro prosseguiu, distra\u00eddo do jogo:<\/p>\n<p>\u2013 Al\u00e9m disso, \u00e9 que pode voc\u00ea morrer de um momento para outro, sem ter tido tempo de p\u00f4r em ordem os seus neg\u00f3cios, e a pobre senhora ficar para a\u00ed desamparada no mundo! Voc\u00ea tem parentes em Portugal, at\u00e9 irm\u00e3os se me n\u00e3o engano, pois saiba ent\u00e3o que mesmo com testamento, esta casa e o que voc\u00ea possui no banco h\u00e1 de tudo parar em poder deles arriscando ficar D. Maria sem ter onde cair morta e precisando na velhice andar pelas esquinas a pedir por amor de Deus um bocado de p\u00e3o para matar a fome! Vamos l\u00e1! Isto lhe parece justo, seu compadre?!<\/p>\n<p>\u2013 Oh! N\u00e3o diga isso, criatura, que voc\u00ea me aperta o cora\u00e7\u00e3o! Ora j\u00e1 se viu?!<\/p>\n<p>\u2013 Pois \u00e9 cumprir com o seu dever, homem. Case-se por uma vez!<\/p>\n<p>E, como D. Maria nesse momento entrava do passeio, o moralista levantou-se, deixando o tabuleiro do gam\u00e3o sobre as pernas do parceiro, e foi ter com ela, para lhe dizer \u00e0 queima-roupa:<\/p>\n<p>\u2013 Estive at\u00e9 agora conversando com o compadre a seu respeito, D. Maria! Mas isto \u00e9 um cabe\u00e7udo de marca! Pergunte-lhe pelo que lhe falei e ajude-me tamb\u00e9m pelo seu lado!<\/p>\n<p>Manuel soltou uma gargalhada.<\/p>\n<p>\u2013 Sabes tu qual \u00e9 agora a mania do Jo\u00e3o?\u2026 disse ele, voltando-se para a companheira. \u00c9 casar-nos! Ora j\u00e1 se viu para que lhe havia de dar?\u2026 E n\u00e3o me larga, o teimoso! N\u00e3o me fala noutra cousa!<\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o lhe parece que eu tenho raz\u00e3o? perguntou Jo\u00e3o Br\u00e1s, dirigindo-se por sua vez a D. Maria, que os escutava im\u00f3vel, sorrindo em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! respondeu ela com do\u00e7ura. Eu estimaria\u2026 isso com certeza\u2026 Para que negar?\u2026 Casada sempre \u00e9 outra cousa: Pode uma mulher andar de cabe\u00e7a erguida e pode mandar em voz alta, porque manda no que \u00e9 seu! Mas c\u00e1 por mim, em boa hora o diga! dou-me por muito feliz em ter Deus me chegado para um homem como seu compadre, e nada exijo nem reclamo, porque muito j\u00e1 \u00e9 o que ele faz por mim e pelos meus!<\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o d\u00f3i a voc\u00ea a consci\u00eancia, seu Manuel, exclamou Jo\u00e3o Br\u00e1s com a voz tragicamente comovida, estendendo o bra\u00e7o e derreando para um lado a cabe\u00e7a. N\u00e3o d\u00f3i a voc\u00ea a consci\u00eancia ao ouvir estas palavras, que s\u00e3o a express\u00e3o pura da virtude e da resigna\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem! Pois bem! rosnou Manuel, quase vencido. Havemos de ver! Havemos de ver!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! replicou o outro energicamente: \u201cHavemos de ver\u201d \u00e9 uma promessa de caloteiro! Voc\u00ea o que n\u00e3o quer, j\u00e1 sei, \u00e9 incomodar-se, pois eu me encarrego de tudo! Amanh\u00e3 mesmo trato dos pap\u00e9is. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sim! Veremos amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! n\u00e3o! J\u00e1 daqui n\u00e3o saio sem autoriza\u00e7\u00e3o para correr os banhos! Quando me meto numa cousa, \u00e9 assim! O caso \u00e9 estar convencido da justi\u00e7a e da raz\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Mas que desensofrimento! Que sangria desatada! exclamou Manuel. Irra! Parece que voc\u00ea vai salvar o pai da forca!<\/p>\n<p>\u2013 Nada, meu amigo! O que se tem de fazer, faz-se logo. \u2013 O p\u00e3o endurece de um dia para outro! \u2013 E l\u00e1 a senhora, D. Maria, ajude-me a arrastar este ego\u00edsta! Segure-o pelos ombros, que eu o seguro pelas pernas, e despejemos com ele do terra\u00e7o abaixo, se n\u00e3o nos autorizar j\u00e1 e j\u00e1 a tratar amanh\u00e3 mesmo dos pap\u00e9is do casamento!<\/p>\n<p>\u2013 Pois com um milh\u00e3o de raios! vociferou afinal o perseguido, fugindo ao terr\u00edvel compadre, que por pilh\u00e9ria o agarrava j\u00e1 pelas pernas. Arranje! arranje voc\u00ea l\u00e1 os pap\u00e9is que quiser! arranje o diabo! mas deixe-me em paz e nunca mais me fale em semelhante cousa! Apre! Pode gabar-se, meu caro, de que \u00e9 um serrazina de primeira for\u00e7a! Nunca vi cousa igual!<\/p>\n<p>\u2013 Ora bravo! aplaudiu Jo\u00e3o, batendo palmas. At\u00e9 que afinal voc\u00ea provou que \u00e9 um homem de bem! Venha de l\u00e1 este abra\u00e7o! E, quanto \u00e0 senhora, os meus parab\u00e9ns de amigo sincero! Amanh\u00e3 mesmo trato dos pap\u00e9is!<\/p>\n<p>\u2013 Mas olhe l\u00e1, seu Jo\u00e3o\u2026 atalhou o outro, segurando-lhe o bra\u00e7o. Observo-lhe que n\u00e3o estou absolutamente disposto a prestar-me ao rid\u00edculo nesta idade! S\u00f3 consinto no casamento se este for cousa muito \u00edntima, muito em segredo, sem festas sem convites e sem nada de barulho.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 homem! volveu Jo\u00e3o Br\u00e1s, o casamento faz-se de madrugada, um dia destes, na competente igreja sem que ningu\u00e9m tenha que meter l\u00e1 o nariz! E depois ficam voc\u00eas casados e dignamente unidos para sempre! Podemos \u00e9 jantar, n\u00f3s os tr\u00eas juntos esse dia; o que, para n\u00e3o alterar a praxe, bem pode ser num domingo. Hein? Que lhes parece?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Bom\u2026 Assim v\u00e1 l\u00e1! cedeu Manuel.<\/p>\n<p>\u2013 Fica ent\u00e3o marcado para o domingo que vem?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Pois marquem l\u00e1 para domingo! Irra!<\/p>\n<p>E assim foi. No domingo seguinte Manuel levou D. Maria \u00e0 igreja de sua freguesia e voltaram de l\u00e1 marido e mulher, gra\u00e7as a Jo\u00e3o Br\u00e1s que tinha tudo despachado, com uma expedi\u00e7\u00e3o capaz de envergonhar ao mais ativo agente de casamentos.<\/p>\n<p>O jantar, j\u00e1 se v\u00ea, foi melhor nesse dia e regado mais copiosamente. D. Maria mandou matar peru e recebeu de mimo um leit\u00e3o assado. Fez doces e comprou frutas e flores. Manuel, \u00e0 tarde, admirou-se de ver entrarem-lhe pela sala algumas vizinhas com trajos de festa, acompanhadas pelos parentes e n\u00e3o se p\u00f4de furtar a parab\u00e9ns e abra\u00e7os, que lhe faziam torcer o nariz.<\/p>\n<p>\u2013 Aquele compadre Jo\u00e3o Br\u00e1s era o diabo! Afinal de contas tudo aquilo estava fora do programa!<\/p>\n<p>Manuel principiava a arrepender-se do que tinha feito e parecia j\u00e1 menos alegre que nos outros dias.<\/p>\n<p>D. Maria, essa pelo contr\u00e1rio, estava radiante e mostrava-se mais empertigada mais dona de casa. \u00c0 mesa falou aos convivas com um ar empantufado e senhoril, que ningu\u00e9m, ainda menos Manuel, at\u00e9 a\u00ed lhe conhecera.<\/p>\n<p>Contudo, o bom homem, apesar de deveras contrariado por sair dos seus velhos h\u00e1bitos, n\u00e3o se queixou; e, mal terminados os fervorosos brindes da sobremesa, foi pachorrentamente buscar o tabuleiro do gam\u00e3o e armou-o sobre os joelhos, no lugar do costume, assentado defronte do vitorioso compadre.<\/p>\n<p>D. Maria acabava nesse instante de assomar \u00e0 porta da sala, palitando os dentes. Ao ver o marido, que armava a primeira partida, exclamou:<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m voc\u00eas s\u00e3o terr\u00edveis com esse infernal gam\u00e3o! Oh! nem mesmo no dia de meu casamento e com visitas aqui deixam o diabo do jogo!<\/p>\n<p>E arrebatou das pernas dos dois parceiros o tabuleiro, com os dados, as pedras e os copos de couro, que se espalharam pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Br\u00e1s soltou uma risada supondo que aquilo era simples gracejo. Mas, D. Maria acrescentou de cara fechada e com voz dura:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 senhores! Que diabo, deixem-se dessa sensaboria uma vez ao menos! Tenham um pouco em conta o dia de hoje!<\/p>\n<p>E afastou-se, muito escamada, sacudindo os quadris e abanando-se com o leque.<\/p>\n<p>Os dois compadres, assentados um defronte do outro, como se fossem agora jogar o sisudo, olharam-se, sem \u00e2nimo de proferir palavra.<\/p>\n<p>E assim que se pilharam a s\u00f3s, Manuel segredou ao amigo:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea viu, compadre! Voc\u00ea viu o pano da amostra?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o n\u00e3o respondeu e Manuel murmurou, sacudindo a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Pode ser que me engane, e Deus o queira! mas suponho que para sempre me fugiu de casa a tranq\u00fcilidade!\u2026<\/p>\n<p>E tinha raz\u00e3o o pobre homem: tais cousas se foram sucedendo em casa dele que Manuel, meses depois, surgiu um dia no escrit\u00f3rio do amigo, e atirou-se numa cadeira esbaforido de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2013 Que houve de novo, compadre? que mais lhe aconteceu? perguntou o guarda-livros.<\/p>\n<p>\u2013 Foi voc\u00ea quem se encarregou dos pap\u00e9is para casar-nos, n\u00e3o \u00e9 verdade? bramiu o negociante. Pois, meu amigo, trate agora dos pap\u00e9is do div\u00f3rcio, porque este que aqui est\u00e1 nunca mais por\u00e1 os p\u00e9s na casa em que estiver aquela f\u00faria! Nunca mais, ouviu!?<\/p>\n<p>E aquele homem, at\u00e9 a\u00ed t\u00e3o pachorrento, tinha agora uma catadura de tigre assanhado e dardejava ferozmente o guarda-chuva, amea\u00e7ando quebrar os globos das arandelas do g\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2013 Arre! arre! berrava ele! V\u00e1 para o inferno e o diabo que a ature!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, compadre, reconsidere, escute! Voc\u00ea est\u00e1 fora de si, homem!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! berrou Manuel, esbugalhando os olhos e rilhando os queixais. N\u00e3o, com mil raios! Se me aproximar daquele dem\u00f4nio \u00e9 para estrangul\u00e1-lo! n\u00e3o volto a casa! n\u00e3o quero ser assassino!<\/p>\n<p>\u2013 Mas o que mais houve, compadre?<\/p>\n<p>\u2013 Que houve?! \u2013 E o infeliz soltou uma galhada sat\u00e2nica. \u2013 Que houve?! V\u00e1 l\u00e1 a casa e veja o estado em que deixamos tudo! V\u00e1 ver!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Br\u00e1s foi jantar \u00e0 Santa Teresa com o seu amigo Manuel Fortuna, como costumava fazer invariavelmente todos os domingos. 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