{"id":420,"date":"2018-07-05T01:26:40","date_gmt":"2018-07-05T01:26:40","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=420"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"resposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/resposta","title":{"rendered":"Resposta"},"content":{"rendered":"<p>Sim, minha senhora, pode acreditar nas frases que me enviou na sua enternecida consulta, transcritas da carta que \u201cEle\u201d lhe escreveu. S\u00e3o sinceras, afian\u00e7o!<\/p>\n<p>Ai, minha senhora como eu conhe\u00e7o esses casos!\u2026 A estas horas deve o infeliz estorcegar-se de agonia num dos c\u00edrculos mais torturantes desse inferno subterr\u00e2neo do amor, para onde, depois dos beijos trocados \u00e0 luz das estrelas ou no confidencial sigilo das alcovas, v\u00e3o as almas penar tristemente com saudades e ci\u00fames \u00e0s doidas e fugitivas horas que beberam de l\u00e1bios juntos pela mesma ta\u00e7a agora partida.<\/p>\n<p>O amor, interrompido na plenitude do seu enlevo, \u00e9 a m\u00e1goa maior e mais amarga que o cora\u00e7\u00e3o conhece. O homem, quando se v\u00ea for\u00e7ado a deixar a mulher que ama, mal dela se afasta, sente logo, a rondar-lhe os passos, a retardar-lhe a fuga, o doloroso espetro da sua felicidade perdida. E essa sombra, expulsa com ele do para\u00edso, nunca mais o larga, acompanha-o, solu\u00e7ando-lhe ao lado, gemendo e suplicando, a puxar-lhe a cada instante a negra t\u00fanica de desesperos que o infeliz a custo l\u00e1 vai arrastando pela noite sem estrelas da sua retirada.<\/p>\n<p>E se \u00e9 ela que lhe foge dos bra\u00e7os\u2026 ah! eu t\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 m\u00e1goa, \u00e9 dor e verdadeira, que \u00e0s vezes mata. Quando a mulher nos foge dos bra\u00e7os deixa-nos a alma vazia, como o abandonado molde de uma est\u00e1tua.<\/p>\n<p>Para onde formos, para onde fugirmos, havemos de levar a aus\u00eancia dela. Em tudo que ouvirmos, em tudo que fizermos, havemos de sentir um pouco da sua ess\u00eancia, como se a ingrata se volatilizasse num doloroso aroma e estivesse a pairar sobre todas as cousas que nos cercam.<\/p>\n<p>Cor, m\u00fasica, perfume, tudo nos diz que ela existe, mas tudo nos diz que ela est\u00e1 ausente de n\u00f3s. Todos os objetos que vemos se ressentem dela, como se a nossa amada acabasse nesse instante de passar por eles. Descobrimos a marca do seu p\u00e9 por todos os caminhos da nossa vida, o aroma da sua m\u00e3o em todas as car\u00edcias que nos fa\u00e7am outras mulheres, um raio dos seus olhos mentirosos em todas as luzes da terra e em todas as luzes do c\u00e9u, o negrume dos seus cabelos em todas as trevas do nosso abandono e o eco do seu riso e a harmonia da sua voz em todos os nossos \u00edntimos gemidos e em todos os gorjeios e todos os murm\u00farios da natureza.<\/p>\n<p>A feiticeira abelha passou por n\u00f3s, fugiu, sumiu-se, mas o cristal ainda geme, ferido, \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es produzidas pelo ro\u00e7ar da sua asa dourada!<\/p>\n<p>Estranha natureza das cousas! Quando a mulher, que nos enchia toda a exist\u00eancia com o seu amor, nos foge repentinamente, n\u00f3s, que hav\u00edamos nela tudo concentrado; n\u00f3s, que faz\u00edamos dela a nossa melhor preocupa\u00e7\u00e3o e o nosso \u00fanico ego\u00edsmo; n\u00f3s, que com o seu vulto querido escond\u00edamos todos os aspectos da vida, todas as outras criaturas da terra, e tudo, tudo, que n\u00e3o fosse o nosso pr\u00f3prio amor; n\u00f3s, que s\u00f3 a ela v\u00edamos, s\u00f3 a ela sent\u00edamos, s\u00f3 a ela am\u00e1vamos; n\u00f3s, uma vez despojados da sua presen\u00e7a vamos encontr\u00e1-la virtualmente por toda a parte, a cada passo, e em todos os objetos que ela dantes n\u00e3o nos deixava sentir nem ver.<\/p>\n<p>Como isto \u00e9 penosamente verdadeiro, minha senhora!<\/p>\n<p>Enquanto a possu\u00edamos, ela representava para n\u00f3s o mundo inteiro; perdemo-la, \u00e9 o mundo inteiro que para n\u00f3s a representa agora. O sol que se levanta fala-nos dela; a noite ao cair-no-la lembra com a sua primeira estrela. Uma mulher que passa, um p\u00e1ssaro que canta, tudo nos aviva a nossa saudade, tudo nos lembra a nossa amada ausente, tudo nos apunhala o cora\u00e7\u00e3o. E quanto mais queremos esquec\u00ea-la, tanto mais a sua lembran\u00e7a nos arrebata para as extintas \u00e9pocas felizes do nosso amor. Os mais insignificantes de ent\u00e3o dos quais at\u00e9 a\u00ed nem sequer nos record\u00e1vamos, transformam-se agora em objeto de saudade e fazem-nos chorar de dor.<\/p>\n<p>E principiamos, minha senhora, a reconstruir todos e todos os epis\u00f3dios, at\u00e9 os mais \u00edntimos, da vida de amantes que dantes t\u00ednhamos; come\u00e7amos, com uma paci\u00eancia inquisitorial, a apanhar do fundo da nossa saudade, um por um, todos os fragmentos do poema de amor que ela e n\u00f3s estra\u00e7alhamos num fatal momento de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos escapa a mais pequenina part\u00edcula do passado feliz; mergulhamos aos vales mais profundos da mem\u00f3ria, para de l\u00e1 voltarmos ofegantes com uma frase, uma palavra, um sorriso, que ela nos deu despreocupadamente nos tempos venturosos.<\/p>\n<p>Tudo isso, todos esses nadas da ternura, t\u00eam agora grande valimento para n\u00f3s; tudo isso ganhou prest\u00edgio e perfume aos olhos da nossa alma ferida. Uma flor sem destino que ela nos enfiara um dia na botoeira do fraque; algumas palavras que de outra vez nos disse, assentada sobre os nossos joelhos; um suspiro que lhe escapou quando em certa ocasi\u00e3o lhe fal\u00e1vamos de outra mulher; um sonho em que lhe ouvimos dizer baixinho o nosso nome; tudo, tudo, para o que n\u00e3o atent\u00e1vamos ent\u00e3o, surge-nos agora ao esp\u00edrito, repassado de um melanc\u00f3lico arrependimento de n\u00e3o termos sabido melhor aproveitar em tempo aquela felicidade, para sempre perdida.<\/p>\n<p>E eis que vemos a sua imagem, n\u00edtida, real, estendida no leito, com os olhos meio cerrados, um leve sorriso, em que transparece uma pontinha de fadiga, a entreabir-lhe as p\u00e9talas da boca. \u00cdamos ent\u00e3o a sair e, enquanto aboto\u00e1vamos o sobretudo, de costas, indiferentemente, v\u00edamos a sua imagem refletida no espelho. Ah! nessa ocasi\u00e3o, loucos que somos! n\u00e3o repar\u00e1vamos quanto ela era formosa! Olh\u00e1vamos saciados para o m\u00e1rmore do seu corpo como um guarda de museu olha a nudez das V\u00eanus gregas.<\/p>\n<p>E continua o mart\u00edrio: Vemo-la agora vestida, esbelta, pronta para o passeio, a prender uma flor ao colo, enquanto n\u00f3s, estendidos num div\u00e3, esper\u00e1vamos por ela a fumar ou a ler. E vemo-la assentada negligentemente \u00e0 mesa do almo\u00e7o, em roupa de manh\u00e3, ou mais tarde, \u00e0s horas de calor, na ch\u00e1cara, a folhear um romance ou solfejar uma can\u00e7\u00e3o. E na rua, no teatro, na sala ou na alcova, \u00e9 sempre ela que vemos, \u00e9 sempre ela que encontramos, depois que ela nos fugiu dos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>E o tormento n\u00e3o p\u00e1ra mais, nunca mais, minha senhora! O c\u00e9rebro n\u00e3o larga de raspar as paredes da mem\u00f3ria. A saudade trabalha, trabalha dentro da nossa amargura, como uma toupeira dentro da terra, de dia e de noite, a escavar o passado, para extrair de l\u00e1 as ra\u00edzes do nosso amor com que ela, a bruxa, se alimenta. E \u00e9 a chorar que sonhamos todas as sepultadas venturas que a perjura nos deu um dia; \u00e9 com o cora\u00e7\u00e3o aberto, a escorrer sangue, que nos arrastamos at\u00e9 \u00e0 miragem dos beijos que j\u00e1 n\u00e3o existem; \u00e9 com as asas partidas e as carnes alanhadas que de l\u00e1 ca\u00edmos desiludidos, desabando, como o anjo maldito, no mais fundo do abismo, da nossa dor sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ah, n\u00e3o! minha senhora, n\u00e3o! Ele n\u00e3o lhe mentia na carta que lhe escreveu. Responda e ver\u00e1.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 preciso preveni-la de uma cousa, e \u00e9 que os frutos da reconcilia\u00e7\u00e3o por melhores, n\u00e3o valer\u00e3o juntos uma s\u00f3 part\u00edcula da deliciosa m\u00e1goa que neste instante lhe faz arfar o seio e que ontem a levou t\u00e3o comovida a consultar-me sobre o estado atual do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na uni\u00e3o amorosa de um par, diz certo fil\u00f3sofo, \u00e9 sempre um s\u00f3 o que ama; o outro deixa-o amar. Pois na separa\u00e7\u00e3o deve ser o mesmo \u2013 um sofre e o outro deixa-o sofrer.<\/p>\n<p>\u00c9 o que lhe dou de conselho, minha senhora \u2013 deixe-o sofrer. Deixe-o l\u00e1, que sofra sozinho, porque, quando chegar a sua vez, juro que V. Exa. n\u00e3o me consultar\u00e1 sobre o caso; todas as loucuras aconselhadas pelo seu pr\u00f3prio desespero lhe parecer\u00e3o boas, desde que a conduzam para junto da pessoa amada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, minha senhora, pode acreditar nas frases que me enviou na sua enternecida consulta, transcritas da carta que \u201cEle\u201d lhe escreveu. S\u00e3o sinceras, afian\u00e7o! Ai, minha senhora como eu conhe\u00e7o esses casos!\u2026 A estas horas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-420","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=420"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":422,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420\/revisions\/422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}