{"id":423,"date":"2018-07-05T01:28:51","date_gmt":"2018-07-05T01:28:51","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=423"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"rendas-e-fitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/rendas-e-fitas","title":{"rendered":"Rendas e Fitas"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>\u2013 Ol\u00e1! exclamei eu, vendo saltar do bonde de Botafogo o meu querido Ernesto Branco. Bons ares te tragam! Como vais tu? Mas que diabo de cara tens agora? Est\u00e1s zangado?<\/p>\n<p>\u2013 Ora! N\u00e3o me fales! N\u00e3o estou zangado; estou aborrecido. Aborrecido com esta vida infernal do Rio de Janeiro; aborrecido com este calor selvagem, este calor inimigo da civiliza\u00e7\u00e3o e do trabalho; e aborrecido principalmente com as nossas patr\u00edcias, esses monstros de olhos sedutores e sorrisos virginais!<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 diabo! a cousa agora \u00e9 mais grave\u2026 Dar-se-\u00e1 o caso de que o meu espirituoso amigo levasse t\u00e1bua de alguma mo\u00e7a com quem estivesse para casar?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Hein?! Casar?! Eu?! Com quem?!<\/p>\n<p>\u2013 Oh! com qualquer mo\u00e7a do teu gosto\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea ! Que mal fiz eu, para me condenarem assim, sem apela\u00e7\u00e3o nem agravo!\u2026 Casar! Casar com uma dessas criaturinhas que neste instante acabam de encher-me de indigna\u00e7\u00e3o e de vergonha? Casar com uma dessas mo\u00e7as ignorantezinhas, pretensiosas e malcriadas? Oh, nunca! Nunca! Nunca! Antes ser c\u00e3o de cego; antes ser ministro do Sr. Floriano; antes ser leitor do F\u00edgaro!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, que te fizeram, Santo Deus! para te ver neste estado de c\u00f3lera contra o sexo mimoso?\u2026 para te ver assim terr\u00edvel e feroz contra essas belas flores com alma, que s\u00e3o o encanto da nossa vida, o perfume do nosso lar, a seguran\u00e7a da nossa felicidade?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que me fizeram? perguntas tu! Oh! dir-se-ia que nunca viajaste em um bonde em que v\u00e3o patr\u00edcias nossas! Dir-se-ia que nunca cedeste o lugar a uma senhora, para v\u00ea-la aceitar a tua fineza, sem voltar sequer o rosto, quanto mais dizer \u201cMuito obrigada!\u201d<\/p>\n<p>\u2013 Acanhamento!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Qual acanhamento! S\u00e3o acanhadas para cumprir com t\u00e3o insignificante preceito de boa educa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o lhes falta desembara\u00e7o para protestar com uma careta, e \u00e0s vezes at\u00e9 com um muxoxo, quando lhes chega a vez de se incomodarem para te dar passagem!<\/p>\n<p>E o modo afrontoso e impertinente com que elas observam e esmerilham, medindo da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, as pessoas que entram no bonde, ser\u00e1 tamb\u00e9m acanhamento \u2026<\/p>\n<p>\u2013 Curiosidade de mulher\u2026<\/p>\n<p>\u2013 De mulher mal-educada! E\u2019 muito feio que uma mo\u00e7a, pressuposta inocente e virginal, ou mesmo uma senhora j\u00e1 casada ou vi\u00fava, n\u00e3o possam ver entrar uma cocote no bonde, sem se voltarem de nariz torcido, sem a medirem com desprezo e azedume, arriscando-se a ouvirem uma merecida resposta! E n\u00e3o \u00e9 preciso que seja uma de chap\u00e9u tapageur e vestido de cor criard a pessoa que entre no bonde, para ser analisada deste modo; basta ser uma estrangeira, uma estrangeira que n\u00e3o se vista pelo detest\u00e1vel gosto com que se vestem as nossas damas; quer dizer que n\u00e3o venha coberta de seda e veludo por um dia de sol ardente e n\u00e3o traga em cima de si todas as cores do c\u00e9u e do inferno!<\/p>\n<p>\u2013 Tu exageras!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o exagero tal! Agora mesmo acabo de presenciar revoltado uma dessas cenas. Estava uma fam\u00edlia ocupando o banco em frente do meu: uma velha, uma senhora de meia idade, e duas mo\u00e7as de quinze a vinte anos; todas as quatro tudo que h\u00e1 de mais tipo brasileiro e de mais rid\u00edculo.<\/p>\n<p>O grupo formava uma orgia de cores, de flores e de fitas; uma loucura de sedas, de l\u00e3s, de veludo, e de algod\u00e3o.<\/p>\n<p>Entra um casal americano do norte. O homem de cal\u00e7a e palet\u00f3 de brim, chap\u00e9u de palha com toalha em volta, e guarda-sol de pano claro, a mulher com um singelo vestido de linho cor de palha, enfeitado de rendas da mesma cor, e na cabe\u00e7a um abat-jour de linho branco, preso despretensiosamente ao pesco\u00e7o por duas pontas largas de cadar\u00e7o.<\/p>\n<p>Pois, meu amigo, n\u00e3o imaginas o rebuli\u00e7o que se produziu naquela fam\u00edlia com a chegada deste casal, que ali\u00e1s, nada mais fez do que entrar, assentar-se e p\u00f4r-se a conversar em voz baixa, natural e discretamente.<\/p>\n<p>Oito olhos arregalados cravaram-se imediatamente sobre a americana com tal insist\u00eancia que a nobre senhora come\u00e7ou a examinar-se, e perguntou depois ao seu cavalheiro se ela tinha em si alguma cousa que chamasse a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDeus te livre!\u201d disse a velha, com arrelia, dando um estalo de l\u00edngua e torcendo enojada a cabe\u00e7a, como para n\u00e3o continuar a ver um espet\u00e1culo indecoroso.<\/p>\n<p>\u201cIche! desdenhou por sua vez a quarentona. Esta gente n\u00e3o tem vergonha de sair assim \u00e0 rua?\u2026 Parecem mascarados, Deus me perdoe!\u201d<\/p>\n<p>E as duas mo\u00e7as come\u00e7aram, de len\u00e7o contra a boca, a emitir consecutivas gaitadas de riso, e a remexerem-se no banco, e a cochicharem t\u00e3o impertinentemente, que os americanos voltavam a cabe\u00e7a de vez em quando, patenteando na fisionomia o mais completo ar de intriga e de assombro.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvi o que eles disseram l\u00e1 entre si; vi, apenas, o desdenhoso movimento dos seus l\u00e1bios e senti venetas de estrangular aquela fam\u00edlia brasileira, t\u00e3o tola, t\u00e3o rid\u00edcula, t\u00e3o chinfrim!<\/p>\n<p>E ainda me vens falar em casamento! Mas a id\u00e9ia que me d\u00e1 \u00e2nimo para continuar a viver; a \u00fanica raz\u00e3o por que n\u00e3o me atiro ao mar; o meu \u00fanico momento de felicidade, \u00e9 quando me lembro de que aqui no Rio de Janeiro, onde todos s\u00e3o mais ou menos casados, eu me conservo solteiro como no dia em que nasci! E, juro-te que n\u00e3o \u00e9 da febre-amarela, que tenho medo, nem das bexigas, nem do berib\u00e9ri, nem da legalidade do Sr. Floriano, nem da queixada do Sr. Aristides, \u00e9 daquilo que ali vem. \u2013 Olha!<\/p>\n<p>E Ernesto apontou para um grupo de tr\u00eas mocinhas que se aproximavam de n\u00f3s, muito risonhas, acompanhadas pela mam\u00e3e; e deitou a fugir como um louco em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, a gritar.<\/p>\n<p>\u2013 Livra! Livra!<\/p>\n<p>E foi-se.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>N\u00e3o, Ernesto, vem c\u00e1. Senta-te aqui; conversemos tranq\u00fcilamente. N\u00e3o comeces a gesticular como um louco e a dardejar paradoxos a torto e a direito! Ouve-me quieto e responde com bons modos, se n\u00e3o me queres ver tomar o chap\u00e9u e desaparecer pela porta da rua.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos l\u00e1!<\/p>\n<p>\u2013 Foste ontem injusto e severo demais com as nossas patr\u00edcias. Concordo que nem todas as brasileiras mere\u00e7am a minha defesa; sei que h\u00e1 por a\u00ed muita mocinha impertinente e muita senhora insuport\u00e1vel, mas ningu\u00e9m pode negar que a brasileira em geral \u00e9 meiga, virtuosa e asseada,<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o foi disso que tratei!<\/p>\n<p>\u2013 Ouve. Tu conheces bem o tipo da inglesa, com a sua barriga de t\u00e1bua, com o seu cabelinho louro grudado \u00e0 cabe\u00e7a e enrolado pobremente sobre a nuca; com a sua cintura de l\u00e2mina, muito estreita vista de lado, muito larga vista de frente; com os seus p\u00e9s espalmados e longos, como uma canoa de pescador emborcada sobre a praia; conheces a famosa Miss, t\u00e3o celebrada pelo l\u00e1pis de Gavarni; essa misteriosa criatura de olhos celestiais, que em viagem se parece com um guarda-chuva ingl\u00eas, metido cuidadosamente dentro da capa, e que em casa, no interior, lembra um vaporoso e fino caramelo encimado por uma trouxa de fios de ovos. Conheces a mulher inglesa?.<\/p>\n<p>\u2013 Se conhe\u00e7o! The\u00f3phile Gautier, o meridional rom\u00e2ntico, o bedu\u00edno franc\u00eas, que viveu para adorar as mulheres, e que amava e cultivava os gatos, por n\u00e3o poder fazer o mesmo com a pantera (que, depois da mulher, \u00e9 o bicho mais feroz de cria\u00e7\u00e3o), The\u00f3phile Gautier dizia e repetia que as inglesas s\u00e3o as mulheres mais formosas do mundo!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 exato. O que n\u00e3o impede que os outros franceses, ao v\u00ea-las atravessar o boulevard, tenham, sempre para ela as pilh\u00e9rias mais terr\u00edveis e os ditos mais rid\u00edculos. Mas, passemos adiante: conheces igualmente a espanhola?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! Pergunta-me antes se conhe\u00e7o Byronl N\u00e3o conhecer o tipo da espanhola!\u2026 Dan\u00e7ante seguidilha de amor que se transforma em mulher! Oh! se conhe\u00e7o! Mantilha, leque, castanholas e touros! Sou louco por ela! Vamos adiante!<\/p>\n<p>\u2013 Pois, meu amigo, fica sabendo que as espanholas t\u00eam cousas detest\u00e1veis nos seus costumes. \u00c2 mesa, por exemplo: n\u00e3o h\u00e1 espanhola, por mais bem educada, que n\u00e3o leve a faca \u00e0 boca, como se fosse um saltimbanco engulidor de espadas; e todas elas lambem os dedos; tiram com a l\u00edngua o que fica de comida entre os dentes, e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 falso! \u00c9 mentira! N\u00e3o prossigas, \u00f3 caluniador! que te estrangulo aqui mesmo!<\/p>\n<p>\u2013 E a italiana?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Oh! oh! O velho amor cavalheiresco! Beijos e punhaladas. L\u00e1bios grossos e quentes; punhais frios e penetrantes. Um conde assassinado ao luar, debaixo de uma ponte; a condessa veneziana fugindo com um tenor de olhos ardentes!\u2026<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o! conhe\u00e7o! mas tudo isso cheira-me um pouco a macarr\u00e3o e realejo!<\/p>\n<p>\u2013 Quando n\u00e3o cheira pior\u2026 porque, meu caro, debaixo de todo aquele romanesco l\u00edrico e daqueles transportes de paix\u00e3o, com punhal, cabelos soltos e dentes cerrados, mal sabes o que vai! A italiana em geral \u00e9 boa para ser vista de longe. S\u00f3 tem efeitos cenogr\u00e1ficos. N\u00e3o te aproximes muito dela, se queres conservar a bela impress\u00e3o art\u00edstica que recebeste!<\/p>\n<p>\u2013 E da francesa? que me dizes tu da encantadora francesa?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Digo-te que \u00e9 a mais vulgar de todas as mulheres\u2026 a que menos tem a linha original\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Socorro! Socorro! Este homem acaba de enlouquecer!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o enlouqueci! N\u00e3o confundas a francesa com a parisiense. Fala-me desta, e eu te direi que a parisiense \u00e9 a mulher mais feia e mais sedutora entre todas as filhas de Eva; eu te direi que s\u00f3 ela tem o segredo do amor que ri, e canta, e brinca; o segredo da amabilidade que satiriza e confunde como um piparote na ponta do nariz. N\u00e3o \u00e9 uma mulher, \u00e9 uma bonita fantasia feita de can\u00e7onetas, alj\u00f4fares de champagne e rendas valencianas!<\/p>\n<p>\u2013 Seduzem-no mais o esp\u00edrito do que os sentidos. E\u2019 a primeira mulher do mundo.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! A primeira mulher do mundo, meu querido Ernesto, \u00e9 a brasileira.<\/p>\n<p>\u2013 E por que n\u00e3o a portuguesa?<\/p>\n<p>\u2013 Porque a portuguesa aos trinta anos, idade da grande afei\u00e7\u00e3o da beleza feminil, em geral come\u00e7a a barbar e a criar umas singulares bochechinhas ao lado do queixo, que lhe tiram todo o encanto e lhe d\u00e3o ares de abadessa.<\/p>\n<p>\u2013 E a brasileira ent\u00e3o? A brasileira aos trinta anos est\u00e1 coberta de sardas; j\u00e1 se n\u00e3o aperta; j\u00e1 se n\u00e3o penteia; anda em casa com o roup\u00e3o desabotoado sobre o ventre; arrasta os chinelos, e, \u00e0s vezes, fuma at\u00e9 cachimbo!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 verdade! Ou tens consci\u00eancia de que est\u00e1s mentindo ou n\u00e3o sei que diabo de brasileiras conheces tu! Repito: a brasileira \u00e9 a primeira mulher do mundo. Sela se re\u00fane tudo o que as outras possuem de melhor; ela tem a gra\u00e7a e o donaire da espanhola; tem o calor e o arrebatamento da italiana; tem o coquetismo da francesa, tem o asseio e a virtude das inglesas e o talento dom\u00e9stico da alem\u00e3.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 lhe faltam, para ser completa, as barbas \u00e0 portuguesa!<\/p>\n<p>\u2013 Mas tem uma cousa ideal, que nenhuma outra possui como ela, e \u00e9 a meiguice, o carinho profundamente sincero, a dedica\u00e7\u00e3o sem limites pela pessoa amada. S\u00f3 a brasileira, s\u00f3 ela no mundo, tem o segredo de dar cafun\u00e9s e de fazer certos quitutes e certos doces que nos arrebatam! S\u00f3 ela\u2026<\/p>\n<p>Mas Ernesto n\u00e3o me deixou prosseguir, ergueu-se indignado e exclamou, enterrando o chap\u00e9u na cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Ora, vai-te para o diabo! Est\u00e1s apaixonado por alguma pasteleira! E eu a dar ouvidos a este comil\u00e3o!<\/p>\n<p>E foi-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I \u2013 Ol\u00e1! exclamei eu, vendo saltar do bonde de Botafogo o meu querido Ernesto Branco. Bons ares te tragam! Como vais tu? Mas que diabo de cara tens agora? Est\u00e1s zangado? \u2013 Ora! 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