{"id":424,"date":"2018-07-05T01:29:30","date_gmt":"2018-07-05T01:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=424"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"politipo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/politipo","title":{"rendered":"Pol\u00edtipo"},"content":{"rendered":"<p>Suicidou-se anteontem o meu triste amigo Boaventura da Costa.<\/p>\n<p>Pobre Boaventura! Jamais o caiporismo encontrou asilo t\u00e3o c\u00f4modo para as suas trai\u00e7oeiras manobras como naquele corpinho dele, arqueado e seco, cuja exig\u00fcidade f\u00edsica, em contraste com a rara grandeza de sua alma, muita vez me levou a pensar seriamente na injusti\u00e7a dos c\u00e9us e na desequilibrada desigualdade das cousas c\u00e1 da terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o conheci ainda criatura de melhor cora\u00e7\u00e3o, nem de pior estrela. Possu\u00eda o desgra\u00e7ado os mais formosos dotes morais de que \u00e9 suscept\u00edvel um animal da nossa esp\u00e9cie, escondidos, por\u00e9m, na mais ingrata e comprometedora figura que at\u00e9 hoje viram meus olhos por entre a int\u00e9rmina cadeia dos tipos rid\u00edculos.<\/p>\n<p>O livro era excelente, mas a encaderna\u00e7\u00e3o detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Imagine-se um homenzinho de cinco p\u00e9s de altura sobre um de largo, com uma grande cabe\u00e7a feia, quase sem testa, olhos fundos, pequenos e descabelado; nariz de feitio duvidoso, boca sem express\u00e3o, gestos vulgares, nenhum sinal de barba, bra\u00e7os curtos, peito apertado e pernas arqueadas; e ter-se-\u00e1 uma id\u00e9ia do tipo do meu malogrado amigo.<\/p>\n<p>Tipo destinado a perder-se na multid\u00e3o, mas que a cada instante se destacava justamente pela sua extraordin\u00e1ria vulgaridade; tipo sem nenhum tra\u00e7o individual, sem uma nota pr\u00f3pria, mas que por isso mesmo se fazia singular e apontado; tipo, cuja fisionomia ningu\u00e9m conseguia reter na mem\u00f3ria, mas que todos supunham conhecer ou j\u00e1 ter visto em alguma parte; tipo a que homem algum, nem mesmo aqueles a quem o infeliz, levado pelos impulsos generosos de sua alma, prestava com sacrif\u00edcio os mais galantes obs\u00e9quios, jamais encarou sem uma instintiva e secreta ponta de desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Se em qualquer conflito, na rua, num teatro, no caf\u00e9 ou no bonde, era uma senhora desacatada, ou um velho v\u00edtima de alguma viol\u00eancia; ou uma crian\u00e7a batida por algu\u00e9m mais forte do que ela, Boaventura tomava logo as dores pela parte fraca, revoltava-se indignado, castigava com palavras en\u00e9rgicas o culpado; mas ningu\u00e9m, ningu\u00e9m lhe atribu\u00eda a paternidade de a\u00e7\u00e3o t\u00e3o generosa. Ao passo que, quando em sua presen\u00e7a se cometia qualquer ato desairoso, cujo autor n\u00e3o fosse logo descoberto, todos olhavam para ele desconfiados, e em cada rosto o pobre Boaventura percebia uma acusa\u00e7\u00e3o t\u00e1cita.<\/p>\n<p>E o pior \u00e9 que nestas ocasi\u00f5es, em que t\u00e3o injustamente era tomado por outro, ficava o desgra\u00e7ado por tal modo confuso e perplexo, que, em vez de protestar, come\u00e7ava a empalidecer, a engolir em seco, agravando cada vez mais a sua dura situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro doloroso caiporismo dos seus, era o de parecer-se com todo o mundo. Boaventura n\u00e3o tinha fisionomia pr\u00f3pria; tinha um pouco da de toda a gente. Da\u00ed os quiproqu\u00f3s em que ele apesar de t\u00e3o bom e t\u00e3o pacato, vivia sempre enredado. T\u00e3o depressa o tomavam por um ator, como por um padre, ou por um barbeiro, ou por um pol\u00edcia secreto; tomavam-no por tudo e por todos, menos pelo Boaventura da Costa, rapaz solteiro, amanuense de uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pessoa honesta e de bons costumes.<\/p>\n<p>Tinha cara de tudo e n\u00e3o tinha cara de nada, ao. certo. A circunst\u00e2ncia da sua falta absoluta, de barba dava-lhe ao rosto uma d\u00fabia express\u00e3o, que tanto podia ser de homem, como de mulher, ou mesmo de crian\u00e7a. Era muito dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, determinar-lhe a idade. Visto de certo modo, parecia um sujeito de trinta anos, mas bastava que ele mudasse de posi\u00e7\u00e3o para que o observador mudasse tamb\u00e9m de julgamento; de perfil representava pessoa bastante idosa, mas, olhado de costas, dir-se-ia um estudante de preparat\u00f3rios; contemplado de cima para baixo era quase um bonito mo\u00e7o, por\u00e9m, de baixo para cima era simplesmente horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Encarando-o bem de frente, ningu\u00e9m hesitaria em dar-lhe vinte e cinco anos, mas, com o rosto em tr\u00eas quartos, afigurava apenas dezoito. Quando sa\u00eda \u00e0 rua, em noites chuvosas, com a gola do sobretudo at\u00e9 \u00e0s orelhas e o chap\u00e9u at\u00e9 \u00e0 gola do sobretudo, passava por um velhinho octogen\u00e1rio; e, quando estava em casa, no ver\u00e3o, em fralda de camisa, a brincar com o seu gato ou com o seu cachorro, era tirar nem p\u00f4r, um nh\u00f4nh\u00f4 de uns dez ou doze anos de idade.<\/p>\n<p>Um dia, entre muitos, em que a pol\u00edcia, por engano, lhe invadiu os aposentos, surpreendeu-o dormindo, muito agachadinho sob os len\u00e7\u00f3is, com a cabe\u00e7a embrulhada num len\u00e7o \u00e0 laia de touca, e o sargento exclamou comovido:<\/p>\n<p>\u2013 Uma crian\u00e7a! Pobrezinha! Como a deixaram aqui t\u00e3o desamparada!<\/p>\n<p>De outra vez quando ainda a pol\u00edcia quis dar ca\u00e7a a certas mulheres, que tiveram a fantasia de tomar trajos de homem e percorrer assim as ruas da cidade, Boaventura foi logo agarrado e s\u00f3 na esta\u00e7\u00e3o conseguiu provar que n\u00e3o era quem supunham. Outra ocasi\u00e3o, indo procurar certo artista, de cujos servi\u00e7os precisava, foi recebido no corredor com esta singular\u00edssima frase:<\/p>\n<p>\u2013 Qu\u00ea? Pois a senhora tem a coragem de voltar?\u2026 E quer ver se me engana com essas cal\u00e7as?<\/p>\n<p>Tomara-o pela pobre, a quem na v\u00e9spera havia despedido de casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se dava conflito de rua, em que, passando perto o Boaventura, n\u00e3o o tomassem imediatamente por um dos desordeiros. Era ele sempre o mais sobressaltado, o mais l\u00edvido, o mais suspeito dos circunstantes. N\u00e3o conseguia atravessar um quarteir\u00e3o, sem que fosse a cada passo interrompido por v\u00e1rias pessoas desconhecidas, que lhe davam joviais palmadas no ombro e na barriga, acompanhando-as de alegres e risonhas frases de velha e \u00edntima amizade.<\/p>\n<p>Em outros casos era um credor que o perseguia, convencido de que o devedor queria escapar-lhe, fingindo n\u00e3o ser o pr\u00f3prio; ou uma mulher que o descompunha em p\u00fablico; ou um agente policial que lhe rondava os passos; ou um soldado que lhe cortava o caminho supondo ver nele um colega desertor.<\/p>\n<p>E tudo isto ia o infeliz suportando, sem nunca ali\u00e1s ter em sua vida cometido a menor culpa.<\/p>\n<p>Uma exist\u00eancia imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>Se se achava numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, tomavam-no, infalivelmente, pelo cont\u00ednuo; nas igrejas passava sempre pelo sacrist\u00e3o, nos caf\u00e9s, se acontecia levantar-se da mesa sem chap\u00e9u, bradava-lhe logo um consumidor, segurando-lhe o bra\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2013 Gar\u00e7\u00e3o! H\u00e1 meia hora que reclamo que me sirva.<\/p>\n<p>Se ia provar um palet\u00f3 \u00e0 loja do alfaiate, enquanto estivesse em mangas de camisa, era s\u00f3 a ele que se dirigiam as pessoas chegadas depois. Nas muitas vezes que foi preso como suposto autor de v\u00e1rios crimes, a autoridade afian\u00e7ava sempre que ele tinha diversos retratos na pol\u00edcia. Verdade era que as fotografias n\u00e3o se pareciam entre si, mas todas se pareciam com Boaventura.<\/p>\n<p>Num clube familiar, quando o infeliz j\u00e1 no corredor, reclamava do porteiro o seu chap\u00e9u para retirar-se, uma senhora de nervos fortes chegou-se por detr\u00e1s dele na ponta dos p\u00e9s e ferrou-lhe um belisc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Pensas que n\u00e3o vi o teu esc\u00e2ndalo com a vi\u00fava Sarmento, grand\u00edssimo velhaco?!<\/p>\n<p>O m\u00edsero voltara-se inalteravelmente, sem a menor surpresa. Ah! ele j\u00e1 estava mais habituado \u00e0queles enganos.<\/p>\n<p>Que vida!<\/p>\n<p>Afinal, e nem podia deixar de ser assim, atirou-se ao mar.<\/p>\n<p>No necrot\u00e9rio, onde fui por acaso, encontrei j\u00e1 muita gente; e todos aflitos, e todos agoniados defronte daquele cad\u00e1ver que se parecia com um parente ou com um amigo de cada um deles.<\/p>\n<p>Havia choro a valer e, entre o clamor geral, distinguiam-se estas e outras frases:<\/p>\n<p>\u2013 Meu filho morto! Meu filho morto!<\/p>\n<p>\u2013 Valha-me Deus! Estou vi\u00fava! Ai o meu rico homem!<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 senhores! Ia jurar que este cad\u00e1ver \u00e9 o do Manduca!<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o me engano! \u00e9 o meu caixeiro!<\/p>\n<p>\u2013 Dir-se-ia que este mo\u00e7o era um meu antigo companheiro de bilhar!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 E eu aposto como \u00e9 um velho, que tinha um botequim por debaixo da casa onde eu moro!<\/p>\n<p>\u2013 Qual velho, o que! Conhe\u00e7o este defunto. Era estudante de medicina! Uma vez at\u00e9 tomamos banho juntos, no boqueir\u00e3o. Lembro-me dele perfeitamente!<\/p>\n<p>\u2013 Estudante! Ora muito obrigado! h\u00e1 mais de dois anos chamei-o fora de horas para ir ver minha mulher que tinia de c\u00f3licas! Era m\u00e9dico velho!<\/p>\n<p>\u2013 Imposs\u00edvel! Afian\u00e7o que este era um pequeno que vendia jornais. Ia levar-me todos os dias a \u201cGazeta\u201d \u00e0 casa. \u00c9 que a morte alterou\u2013lhe as fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 Meu pai!<\/p>\n<p>\u2013 O Bernardino!<\/p>\n<p>\u2013 Olha! Meu padrinho!<\/p>\n<p>\u2013 Jesus! Este \u00e9 meu tio Jos\u00e9!<\/p>\n<p>\u2013 Coitado do padre Rocha!<\/p>\n<p>Pobre Boaventura! S\u00f3 eu compreendi, adivinhei, que aquele cad\u00e1ver n\u00e3o podia ser sen\u00e3o o teu, \u00f3 triste Boaventura da Costa!<\/p>\n<p>E isso mesmo porque me pareceu reconhecer naquele defunto todo o mundo, menos tu, meu desgra\u00e7ado amigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suicidou-se anteontem o meu triste amigo Boaventura da Costa. Pobre Boaventura! 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