{"id":426,"date":"2018-07-05T01:30:05","date_gmt":"2018-07-05T01:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=426"},"modified":"2018-07-05T01:34:33","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:33","slug":"pelo-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/pelo-caminho","title":{"rendered":"Pelo Caminho"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>Durara a p\u00e2ndega a noite inteira; uma dessas orgias banais, grosseironas, genuinamente fluminense; que principiam por um jantar de hotel, em gabinete particular, continuam durante a representa\u00e7\u00e3o de qualquer teatro, depois durante a ceia no M\u00fcnchen, at\u00e9 \u00e0s duas ou tr\u00eas horas da manh\u00e3, para terminar por um invari\u00e1vel passeio de carro aos arrabaldes da cidade.<\/p>\n<p>Os quatro p\u00e2ndegos, dois rapazes e duas raparigas armados de algumas garrafas de Cliquot, foram dar com os ossos na Tijuca quando o dia repontava.<\/p>\n<p>O carro havia parado, e os libertinos, de ta\u00e7a em punho, sopeavam a relha do champagne, prontos para saudar o primeiro raio de sol que lhes viesse iluminar a orgia daquela noite perdida. Estavam perto da raiz da serra, numa encosta em que velhas \u00e1rvores tranq\u00fcilas pareciam encolher-se de frio ao orvalhado relento. As montanhas, como gigantes estendidos ao longo do horizonte, dormiam ainda, agasalhadas nos seus len\u00e7\u00f3is de neblina. O repousado aspecto da natureza contrastava com a fei\u00e7\u00e3o dissoluta daquela libertinagem ao ar livre. Do grupo dos folgaz\u00f5es evolava-se um capitoso vapor de loucura em pleno vi\u00e7o, de estroinice em flor, uma forte exala\u00e7\u00e3o de mocidade que ferve e crepita ao doido fogo dos primeiros v\u00edcios.<\/p>\n<p>Irradiou o sol e as ta\u00e7as ergueram-se transbordantes.<\/p>\n<p>\u2013 Ao amor! Ao prazer!<\/p>\n<p>\u2013 Hurrah!<\/p>\n<p>O bramido alegre ecoou na solid\u00e3o dos vales, e uma das loureiras abriu a cantar uma can\u00e7oneta bufa, acompanhada nos estribilhos pelos tr\u00eas companheiros.<\/p>\n<p>Entretanto, nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, outro grupo bem diverso lentamente se aproximava, subindo a estrada em tardio e cansado passo.<\/p>\n<p>Era naturalmente algum enfermo acompanhado pela fam\u00edlia, que demandava a serra da Tijuca, em busca de salva\u00e7\u00e3o nos ares puros. Vinha na frente uma cadeirinha carregada \u00e0 moda antiga por dois negros; ao lado dela, caminhando a p\u00e9, guardava-lhe a portinhola um homem de cabelos brancos e respeit\u00e1vel apar\u00eancia, o ar sol\u00edcito e pesaroso; e, logo atr\u00e1s, arrastava-se uma velha e triste carruagem de aluguel, com a c\u00fapula fechada.<\/p>\n<p>O novo grupo parou defronte do primeiro. Calaram-se os estr\u00f3inas, e um destes, reconhecendo o homem que guardava o palanquim, ergueu-se, l\u00edvido e tr\u00eamulo de como\u00e7\u00e3o. \u00c9 que, por aquele velho, podia calcular com seguran\u00e7a quem era a infeliz criatura que ia ali enferma ou talvez moribunda. E, atrav\u00e9s das n\u00e9voas da sua embriaguez, come\u00e7ou-lhe por dentro a ofegar a consci\u00eancia, na medrosa previs\u00e3o de remorsos e vergonha.<\/p>\n<p>Os negros depuseram no ch\u00e3o o palanquim, desviaram do varal os ombros fatigados e afastaram-se, para descansar um instante.<\/p>\n<p>Moveu-se ent\u00e3o a cortina da portinhola; d\u00e9bil m\u00e3ozinha arredou-a de dentro com dificuldade, e uma feminil cabe\u00e7a loura surgiu \u00e0 luz dourada da manh\u00e3. No rosto, mais p\u00e1lido que o de uma santa de cera, fulguravam-lhe os olhos com estranho brilho.<\/p>\n<p>E esses olhos deram com os olhos que a fitavam do outro grupo e cintilaram mais forte, num rel\u00e2mpago seguido de um grito, que a cortina do palanquim abafou logo.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o, que a custo se conservara de p\u00e9 no carro deixou-se cair sobre as almofadas cobrindo o rosto com as m\u00e3os, enquanto os outros libertinos, esgotando a \u00faltima ta\u00e7a, gritaram ao cocheiro que tocasse para a cidade.<\/p>\n<p>O carro disparou.<\/p>\n<p>\u2013 Ao amor! Ao prazer!<\/p>\n<p>\u2013 Hurrah!<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Tinham sido namorados. Ele era rico e belo, a mo\u00e7a pobre e de fei\u00e7\u00f5es modestas. O namoro fora em casa da fam\u00edlia dela, antes do bandoleiro se ter atirado \u00e0 vida dos prazeres.<\/p>\n<p>Um dia, depois de todos os juramentos trocados na linguagem dos olhos e na linguagem dos sorrisos, ele aproximou a sua cadeira da m\u00e1quina de costura em que a mo\u00e7a trabalhava, e segredou:<\/p>\n<p>\u2013 Se eu tivesse plena certeza de que me amas!\u2026<\/p>\n<p>Ela estremeceu e corou, abaixando os olhos.<\/p>\n<p>Ele prosseguiu no mesmo tom: \u2013 E quanto sofro a pensar nisto!\u2026. S\u00e3o vagos desejos incompletos, um querer sem vontade, um desejar sem \u00e2nimo\u2026 E, no entanto, minha flor, sinto que me falta na vida alguma cousa, que talvez n\u00e3o seja s\u00f3 a tua ternura\u2026 Se me perguntarem o que \u00e9, n\u00e3o saberei responder\u2026 mas sinto que preciso dedicar-me a qualquer ideal, sacrificar-me por qualquer amor!<\/p>\n<p>Ela deixara de coser e n\u00e3o levantava o rosto. Ele aproximou mais a sua cadeira e segredou ainda, tomando-lhe as m\u00e3os: \u2013 Tu me amas?\u2026 Fala!\u2026<\/p>\n<p>A mo\u00e7a estremeceu mais forte e levantou para o seu amado os olhos transparentes, no fundo dos quais brilhava agora o reflexo de uma esperan\u00e7a feliz.<\/p>\n<p>\u2013 Sim\u2026 balbuciou, enrubescendo.<\/p>\n<p>E por um instante sua doce alma de donzela sentiu aproximar-se a m\u00fasica de uma confiss\u00e3o de amor. E seu cora\u00e7\u00e3o abriu, de par em par, as p\u00e9talas vi\u00e7osas, para recolher a palavra ambicionada, a palavra insubstitu\u00edvel na vida da mulher. \u2013 Amo-te! \u2013 o sagrado \u201cAmo-te\u201d que toda a mulher, para ser feliz, precisa ter ouvido, da boca de um homem, pelo menos uma vez na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas a desejada palavra n\u00e3o chegou aos ouvidos da mo\u00e7a, nem passou dos l\u00e1bios irresolutos do seu namorado.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m interrompeu o id\u00edlio. A leviana cadeira afastou-se, sem declarar o que tinha a dizer \u00e0 modesta maquinazinha de costura.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Depois que o bandoleiro se ausentou de todo, a pobre mo\u00e7a ia contando os dias pelos progressos da sua m\u00e1goa. A dor e a tristeza cristalizaram-se em mol\u00e9stia. Demais, fora sempre propensa \u00e0s afec\u00e7\u00f5es pulmonares; a melindrosa suscetibilidade do seu fr\u00e1gil organismo reclamava, para o milagre da vida, o milagre do amor.<\/p>\n<p>Como toda mo\u00e7a casta, sem brilhante prest\u00edgio de ouro ou de beleza, fora sempre concentrada e retra\u00edda. N\u00e3o dividia com outros os seus t\u00edmidos desgostos de donzela e as suas humildes decep\u00e7\u00f5es de menina pobre. Um como \u00edntimo recato de orgulhosa franqueza, um como consciente pudor da sua imaculada inferioridade, um como decoro da sua virtude in\u00fatil, faziam-na reprimir os solu\u00e7os diante da fam\u00edlia e das amigas, recalcando em segredo as l\u00e1grimas vencidas, que lhe subiam do cora\u00e7\u00e3o e para o cora\u00e7\u00e3o voltavam, sem ningu\u00e9m que as compreendesse ou enxugasse.<\/p>\n<p>Nunca lhe ouviram a sombra de uma queixa. Todavia, na sua angelical credulidade, chegara a crer houvesse, no circo gin\u00e1stico da vida, alguma cousa entre os homens que n\u00e3o fosse ego\u00edsmo s\u00f3 e vaidade; chegou, pobre inocente! a supor que o fato de ser meiga d\u00f3cil, virtuosa e pura lhe valeria o amor do mo\u00e7o pelo seu cora\u00e7\u00e3o eleito. E uma vez desiludida, a sua feminilidade, em vez de expandir em flor o aroma dos vinte anos, fechou-se em bot\u00e3o, para nunca mais recender, vencida, como foram vencidas as suas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m nunca mais lhe voltaram \u00e0s faces as rosas que a natureza a\u00ed lhe tinha posto para atrair as asas dos beijos amorosos; nem aos olhos tampouco lhe voltaram as alegrias com que dantes esperavam sorrindo o \u201cAmo-te\u201d sagrado.<\/p>\n<p>Enfermou de todo. Afinal sua exist\u00eancia era j\u00e1 um caminhar seguro para a morte. O pai estalava de desespero sentindo fugir-lhe irremissivelmente aquela vida estremecida, pouco a pouco, como um perfume que se evapora. Ela sorria, resignada. Estava cada vez mais abatida, mais fraca, parecia alimentar-se s\u00f3 com a muda preocupa\u00e7\u00e3o da sua m\u00e1goa sem consolo. O pai levou-a a princ\u00edpio para o Silvestre, depois para a raiz da serra da Tijuca; o m\u00e9dico, por\u00e9m, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a mol\u00e9stia subia, ordenou que fossem tamb\u00e9m subindo sempre em busca de ares mais puros.<\/p>\n<p>E l\u00e1 iam eles, como um bando de foragidos, a fugir diante da morte. S\u00f3 a doente parecia conformada com a situa\u00e7\u00e3o, os mais se maldiziam e choravam. Ela sorria sempre, sempre triste, com o rosto levemente inclinado sobre o ombro.<\/p>\n<p>J\u00e1 quase se n\u00e3o distinguiam as suas falas, e s\u00f3 pelos olhos verdadeiramente se exprimia, que esses eram agora mais vivos e penetrantes. \u00c0s vezes, como se pretendesse desabituar-se de viver, fugia para um profundo cismar, de que a custo desmergulhava estremunhada. Pedia nesses momentos que lhe abrissem a janela do quarto, e o seu olhar voava logo para o azul, como mensageiro da sua alma que tamb\u00e9m n\u00e3o tardaria, com o mesmo destino, a desferir o v\u00f4o.<\/p>\n<p>E assim foi que a maquinazinha de costura para sempre se conservou fechada e esquecida a um canto da modesta sala de jantar. Nunca mais a leviana cadeira se aproximou dela, para declarar o que lhe tinha a dizer.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>\u2013 Ao Amor! Ao Prazer! Hurrah! blasfemou o eco.<\/p>\n<p>E o carro dos libertinos sumiu-se na primeira dobra da estrada.<\/p>\n<p>O campo recaiu na sua concentra\u00e7\u00e3o murmurosa.<\/p>\n<p>A cadeirinha continuava no ponto em que a depuseram. O sol, ainda brando, derramava-se como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de amor e nuvens de t\u00eanue fumo brancacento desfiavam-se no espa\u00e7o, subindo dos vales como de um incens\u00f3rio religioso. O c\u00e9u tinha uma consoladora transpar\u00eancia em que se lhe via a alma; p\u00e1ssaros cantavam em torno da tranq\u00fcila moribunda; ouvia-se o marulhar choroso das cascatas, a s\u00faplica dos ventos, a prece matinal dos ninhos. Toda a natureza parecia em ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a pediu que lhe abrissem a porta do palanquim e, reclinada sobre o colo do pai, fitou o espa\u00e7o com o seu olhar de turquesa \u00famida. O azul do c\u00e9u compreendeu o azul daqueles olhos celestiais. Houve entre eles um id\u00edlio mudo e supremo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m em torno dava uma palavra; s\u00f3 se ouviam os murm\u00farios da mata, acordando ao sol e os esgar\u00e7ados ecos da m\u00fasica dos Meninos Desvalidos que, para al\u00e9m da serra, tocava a alvorada. A mo\u00e7a continuou a olhar para o azul, como se se deixasse arrebatar lentamente pelos olhos. Encarou longo e longo tempo o espa\u00e7o, sem pestanejar. Depois, duas l\u00e1grimas apontaram-lhe nas p\u00e1lpebras im\u00f3veis e foram descendo silenciosas pela palidez das faces. Um sorriso que j\u00e1 n\u00e3o era da terra pairou um instante \u00e0 superf\u00edcie dos seus l\u00e1bios puros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Durara a p\u00e2ndega a noite inteira; uma dessas orgias banais, grosseironas, genuinamente fluminense; que principiam por um jantar de hotel, em gabinete particular, continuam durante a representa\u00e7\u00e3o de qualquer teatro, depois durante a ceia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":428,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions\/428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}