{"id":429,"date":"2018-07-05T01:30:20","date_gmt":"2018-07-05T01:30:20","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=429"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"das-notas-de-uma-viuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/das-notas-de-uma-viuva","title":{"rendered":"Das Notas de uma Vi\u00fava"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu tinha dez meses de vi\u00fava e havia seis que Paulo me fazia a corte. Por esse tempo prop\u00f4s-me ele um passeio ao campo e eu aceitei.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 era espl\u00eandida; uma bela manh\u00e3 de Setembro, cheia de luz e temperada por um calor comunicativo e doce. Cedo metemo-nos num carrinho de vime, leve como uma cesta, rasteiro como um div\u00e3, e c\u00f4modo como um leito. Paulo deu r\u00e9deas ao animal e o carro conduziu-nos para fora da cidade.<\/p>\n<p>Eu sentia um bom humor extraordin\u00e1rio; o ar puro e consolador daquela madrugada, pulverizado no espa\u00e7o em vapores cor-de-rosa, enchia-me toda como de uma grande alma nova, feita de cousas alegres e benfazejas. Tive vontade de rir e de cantar.<\/p>\n<p>O sol principiava a destacar o contorno irregular das \u00e1rvores e derramava sobre as montanhas uma luz sang\u00fc\u00ednea e transparente. Achei-me expansiva, travessa com repentes de crian\u00e7a; e, n\u00e3o sei por que, Paulo nessa ocasi\u00e3o se me afigurou muito melhor do que nas outras. Cheguei a descobrir-lhe esp\u00edrito e a desfazer-me em risadas com algumas pilh\u00e9rias suas que, fora dali, me fariam bocejar.<\/p>\n<p>Em certa altura paramos. Ele ajudou-me a descer, prendeu o cavalo, abriu a minha sombrinha, e come\u00e7amos os dois a andar de bra\u00e7o dado por debaixo das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Que delicioso passeio! Ningu\u00e9m pode calcular quanto me sentia feliz. Mais alguns passos e t\u00ednhamos chegado a um caramanch\u00e3o, ou melhor, alpendre de verdura, misterioso, morno, impregnado de perfumes resinosos e embebidos de azul sombrio. Ao lado, uma cascata corria em sussurros; e as suas \u00e1guas esfarelavam-se nas pedras, irradiando na fulgura\u00e7\u00e3o do sol.<\/p>\n<p>Paulo deixou-me por um instante, para ir buscar o carro. E, nesse momento de inteira liberdade, quando senti que n\u00e3o era observada por ningu\u00e9m, levantei-me, bati palmas e pus-me a dan\u00e7ar como uma doida; depois galguei aos saltos o lado da cascata e recebi no rosto o p\u00f3 \u00famido das \u00e1guas, donde o sol tirava cambiantes multicores e dourados. Abaixei-me, colhi \u00e1gua na concha das m\u00e3os e bebi. Afinal, assentei-me no ch\u00e3o e abri a cantar uma cousa alegre que aprendera ainda no tempo do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Paulo voltou com o carro e recolheu ao pavilh\u00e3o o cesto do almo\u00e7o. Estendeu a toalha sobre uma mesinha de pedra que havia; pousou uma m\u00e1quina de caf\u00e9, duas garrafas de Bordeaux, uma de champagne, uma botija de cura\u00e7au, uma empada, um assado, queijo, frutas e p\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentia apetite e confesso que estava encantada com tudo aquilo. Era a primeira vez que me animava a fazer uma folia desse g\u00eanero \u2013 um almo\u00e7o ao ar livre, ao lado de um rapaz.<\/p>\n<p>E Paulo n\u00e3o me parecia o mesmo homem: descobria-lhe maneiras e qualidades, para as quais jamais atentara enquanto o vira somente nas frias atitudes circunspectas da vida; notava-lhe agora a distinta estroinice dos p\u00e2ndegos de boa fam\u00edlia, criados e animados entre senhoras finas e orgulhosas; um certo pouco caso fidalgo e elegante pelas virtudes comuns e pelos v\u00edcios vulgares; um ar altivo e m\u00e1sculo de quem est\u00e1 habituado a gastar forte com os seus prazeres; uma linha moderna, libertina e gentil a um tempo, feita de extravag\u00e2ncia de bom gosto, e um pouco de viagens, alguns conhecimentos de m\u00fasica, um nada de pol\u00edtica, anedotas francesas, algum dinheiro, charutos caros, um mon\u00f3culo, o uso de v\u00e1rias l\u00ednguas, duas gotas de mel ingl\u00eas no len\u00e7o, um fato bem feito de casimira cambraia, um chap\u00e9u de palha, luvas amarelas, polainas e uma bengala.<\/p>\n<p>E o grande caso \u00e9 que estava um rapag\u00e3o cheio de gestos largos, de atiramentos de perna e de grandes exclama\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Assentei-me no banco que circulava a mesa e ele fez o mesmo defronte de mim. Informou-se se eu estava satisfeita com o passeio; falou em repeti-lo. Era preciso aproveitar o ver\u00e3o. Mas, nos domingos nada! Havia muita gente!<\/p>\n<p>E abria garrafas, dava lume \u00e0 m\u00e1quina de caf\u00e9, servia-me de mariscos e falava-me do seu amor. Eu contei-lhe francamente as impress\u00f5es que recebera aquela manh\u00e3 e mostrei-me contente.<\/p>\n<p>\u2013 Se soubesse, minha amiga, disse-me ele, quanto me sinto bem a seu lado!\u2026 Nem mesmo me reconhe\u00e7o, creia! Fico tolo s\u00f3 a pensar em nossa futura felicidade, em nossa casa e em nossos\u2026<\/p>\n<p>Ia falar nos filhos, mas deteve-se e ficou a olhar-me em sil\u00eancio, com os olhos afogados numa grande insist\u00eancia humilde. Parecia haver um pranto escondido por detr\u00e1s das suas pupilas verdes.<\/p>\n<p>\u2013 Descanse, falta pouco \u2026 . respondi, possu\u00edda de alguma cousa que n\u00e3o sei bem se era compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Falta um s\u00e9culo!\u2026 emendou ele com um suspiro.<\/p>\n<p>E chegou-se mais para mim. Tinha o ar t\u00e3o respeitoso que n\u00e3o fugi.<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o fica mais \u00e0 vontade? aconselhou-me, ajudando-me, muito sol\u00edcito, a tirar o chap\u00e9u e desfazer-me do mantelete.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio. Ele queixou-se da falta de gelo, abriu uma nova garrafa de Bordeaux e encheu as ta\u00e7as. Depois, leu-me uns versos que a mim fizera no meu tempo de solteira. Vieram recorda\u00e7\u00f5es. \u2013 O nosso namoro! Quanta criancice!<\/p>\n<p>\u2013 E o bofet\u00e3o?\u2026<\/p>\n<p>Esta lembran\u00e7a trouxe-me uma risada que me fez engasgar. Sobreveio-me tosse; fiquei um pouco sufocada\u2026<\/p>\n<p>Ele levantou-se logo, come\u00e7ou a bater-me delicadamente nas costas. E, a pretexto de auxiliar-me, afagava-me os cabelos e a fronte.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada! n\u00e3o \u00e9 nada! dizia. Um gole de champagne!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! antes \u00e1gua\u2026<\/p>\n<p>Correu \u00e0 cascata e voltou com um copo d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Tornamos \u00e0 palestra, e n\u00e3o reparei logo que o rapaz desta vez ficara inteiramente encostado a mim. Passamos \u00e0 sobremesa. As pilh\u00e9rias repetiam-se mais a mi\u00fado. Paulo p\u00f4s-se a fumar.<\/p>\n<p>Consenti e disse at\u00e9 que gostava do cheiro do fumo. Ele fez saltar a rolha do champagne. Sentia-me enlanguescer; os olhos ardiam-me um tanto e todo o corpo me pedia repouso; insensivelmente fui perdendo alguma cousa da minha cerim\u00f4nia e pondo-me \u00e0 vontade; estiquei mais as pernas, recostei-me nas costas do banco e debrucei para tr\u00e1s a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele ficou a olhar-me muito com um ar s\u00e9rio e infeliz. Tive vontade de dizer qualquer cousa e nada mais consegui do que sorrir. Estava fatigada.<\/p>\n<p>Paulo aconselhou-me que fumasse um cigarrinho e esta id\u00e9ia extravagante n\u00e3o me pareceu m\u00e1. Fumei o meu primeiro cigarro.<\/p>\n<p>Em seguida senti um vago desejo de dormir. Ele serviu o caf\u00e9 e o licor. Fez-me tomar antes um pouco de champagne misturado com Bordeaux.<\/p>\n<p>E continuamos a conversar. As recorda\u00e7\u00f5es de antes do meu casamento vinham a todo instante.<\/p>\n<p>Isto sempre teve g\u00eanio!\u2026 segredava ele, ameigando-me o queixo.<\/p>\n<p>Chamava-me criaturinha m\u00e1, sem cora\u00e7\u00e3o; amea\u00e7ava-me com vingan\u00e7azinhas, que se realizariam quando f\u00f4ssemos casados. Tinha ditos maliciosos, palavras de sentido d\u00fabio e olhares cheios de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu estendia-me cada vez mais no banco, amolecida por um entorpecimento agrad\u00e1vel; as p\u00e1lpebras fechavam-se-me. Fazia-se-me vontade de ser menos severa para com aquele pobre companheiro de inf\u00e2ncia; tanto que n\u00e3o me sobressaltei quando senti a sua m\u00e3o empolgar-me a cintura.<\/p>\n<p>\u2013 Como eu te amo! murmurou ele, com a boca muito perto de meu rosto.<\/p>\n<p>O seu h\u00e1lito abrasava-me as faces.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o fa\u00e7a assim: pedi, repelindo-o frouxamente.<\/p>\n<p>Mas ele passou-me a outra m\u00e3o na cinta e puxou-me para si.<\/p>\n<p>Fiz ainda alguma resist\u00eancia; sentia-me, por\u00e9m, t\u00e3o mole, e al\u00e9m disso sabia-me tanto ser abra\u00e7ada por algu\u00e9m naquela ocasi\u00e3o, que me deixei levar e cai sobre ele, com a cabe\u00e7a desfalecida no seu ombro.<\/p>\n<p>Paulo segurou-me o rosto e estonteou-me de beijos.<\/p>\n<p>Eram ardentes, vivos, repetidos, como os tiros de uma metralhadora\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu tinha dez meses de vi\u00fava e havia seis que Paulo me fazia a corte. 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