{"id":431,"date":"2018-07-05T01:31:34","date_gmt":"2018-07-05T01:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=431"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"o-madeireiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-madeireiro","title":{"rendered":"O Madeireiro"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">\u2013 Sua ama est\u00e1 em casa, rapariga?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Est\u00e1, sim, senhor. Tenha a bondade de dizer quem \u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Diga-lhe que \u00e9 a pessoa que ela espera para jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ah! Pode subir\u2026 Minha ama vem j\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entrei e reconheci a saleta, onde eu dantes fora recebido tantas vezes pela viuvinha do general.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quanta recorda\u00e7\u00e3o! Vira-a uma noite no Clube de Regatas; apresentou-ma um jornalista ent\u00e3o em moda; dan\u00e7amos e conversamos muito. Ao despedir-nos, ela, com um sorriso prometedor, disse-me que costumava receber \u00e0s ter\u00e7as-feiras os amigos em sua casa e que eu lhe aparecesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">Fui, e um m\u00eas depois \u00e9ramos mais do que amigos, \u00e9ramos amantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ador\u00e1vel criatura! simples, inteligente e meiga. No entanto, o meu amor por ela fora sempre um tanto frouxo e pregui\u00e7oso. Aceitava e desfrutava a sua ternura como quem aceita um obs\u00e9quio de cortesia. Teria eu porventura o direito a recus\u00e1-la?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, assim como nasceram, acabaram os nossos amores; uma ocasi\u00e3o cheguei tarde demais \u00e0 entrevista; de outra vez l\u00e1 n\u00e3o fui; depois esperei-a e ela n\u00e3o se apresentou; at\u00e9 que um dia, quando dei por mim, reparei que j\u00e1 n\u00e3o era seu amante.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seis meses j\u00e1 l\u00e1 se iam depois disto, e eis que uma bela manh\u00e3, ao levantar-me da cama, entregaram-me uma carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Era dela.<\/p>\n<p><em>Meu amigo.<br \/>\nSei que conserva as minhas cartas e pe\u00e7o-lhe que mas restitua. Venha jantar comigo, mas n\u00e3o se apresente sem elas. E um caso s\u00e9rio, acredite.<br \/>\nS\u00e3o vinte. N\u00e3o me falte e conte com a estima de quem espera merecer-lhe este \u00faltimo obs\u00e9quio.<br \/>\nAfian\u00e7o que ser\u00e1 o \u00faltimo. Sua amiga,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\">LAURA.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para que diabo quereria ela as suas cartas?\u2026 Teria receio de que as mostrasse a algu\u00e9m?\u2026 Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">Principiavam-me estas considera\u00e7\u00f5es, quando se afastou a cortina da saleta e a viuvinha do general surgiu defronte de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Com efeito! disse ela. S\u00f3 assim o tornaria a ter em minha casa! Bons olhos o vejam!<\/p>\n<p align=\"justify\">Beijei-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Trouxe?\u2026 perguntou.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Suas cartas? Pois n\u00e3o! Bem sabe que para mim as suas ordens s\u00e3o sagradas\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ainda bem. Sente-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sentamo-nos ao lado um do outro. Ela recendia uma combina\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel de cananga do Jap\u00e3o e sabonete ingl\u00eas; tinha um vestido de linho enfeitado de rendas; e na frescura aveludada do seu colo destacava-se um medalh\u00e3o de \u00f4nix.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ent\u00e3o, que fantasia foi essa?\u2026 interroguei, depois de um sil\u00eancio em que nos contemplamos com o mesmo sorriso.<\/p>\n<p align=\"justify\">E no \u00edntimo j\u00e1 estava gostando de haver l\u00e1 ido. Achava-a mais galante; quase que me parecia mais mo\u00e7a e mais bonita.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Que fantasia?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 A de exigir as suas cartas\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela fez do seu meio sorriso um sorriso inteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tinha receio de que algu\u00e9m as visse?\u2026 perguntei, tomando-lhe as m\u00e3os entre as minhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o! Suponho-o incapaz de tal baixeza\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ent\u00e3o?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas para que deix\u00e1-las l\u00e1?\u2026 Est\u00e1 tudo acabado entre n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">E retirou a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu cheguei-me mais para ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Quem sabe?\u2026 disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">Laura soltou uma risada.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Voc\u00ea h\u00e1 de ser sempre o mesmo!\u2026 N\u00e3o se lembraria de mim se n\u00e3o recebesse o meu bilhete, e agora\u2026 Tipo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o digas tal, que \u00e9 uma injusti\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Espere! Tire a m\u00e3o da cinta! Tenha ju\u00edzo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 J\u00e1 n\u00e3o te mere\u00e7o nada?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Deixe em paz o passado e tratemos do futuro. Eu quero que voc\u00ea seja meu amigo\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Dizendo isto, erguera-se e fora abrir uma janela que despejava sobre o jardim.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Est\u00e1 ent\u00e3o tudo acabado?\u2026 Tudo? inquiri, erguendo-me tamb\u00e9m, e envolvendo-a no meu desejo, que ela fazia agora reviver, maior do que nunca.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 que incontestavelmente o dem\u00f4nio da viuvinha estava muito mais apetitosa. Nunca tivera aqueles ombros, aquele sorriso t\u00e3o sang\u00fc\u00edneo e aqueles dentes t\u00e3o brancos! Seus olhos ganharam muito durante a minha aus\u00eancia, estavam mais \u00famidos e misteriosos, quase brejeiros! O seu cabelo parecia-me mais preto e mais lustroso; a sua pele mais p\u00e1lida, com uma cheirosa frescura de magn\u00f3lia. Todos os seus movimentos adquiriram inesperada sedu\u00e7\u00e3o; e o seu quadril havia enrijado de um modo surpreendente; o seu colo tomara irresist\u00edveis proemin\u00eancias que meus olhos cobi\u00e7osos n\u00e3o se fartavam de beijar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ent\u00e3o, tudo acabado, hein?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tudo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tudo? tudo?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Absolutamente!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Para sempre?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Voc\u00ea assim o quis, meu amigo! Queixe-se de si!<\/p>\n<p align=\"justify\">Ia lan\u00e7ar-lhe as m\u00e3os e fech\u00e1-la num abra\u00e7o; ela, por\u00e9m, desviou-se, ordenando-me com um gesto muito s\u00e9rio que me contivesse, puxou duas cadeiras para junto da janela e pediu-me que a ouvisse com toda a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Sabe por que lhe exigi as minhas cartas?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Porque vou casar\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Como? A senhora disse que ia casar?!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Dentro de dois meses.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Com quem, Laura?<\/p>\n<p align=\"justify\">E fiquei tamb\u00e9m eu muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Com um negociante de madeiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Um madeireiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela meneou afirmativamente a cabe\u00e7a; eu fiz um trejeito de bico com os l\u00e1bios e pus-me a sacudir a perna.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Que quer voc\u00ea?\u2026 Uma senhora nas minhas condi\u00e7\u00f5es precisa casar!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ora esta! Um madeireiro!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Que me ama muito mais do que voc\u00ea me amou, tanto assim que est\u00e1 disposto a fazer o que voc\u00ea nunca teve a coragem de imaginar sequer! E juro-lhe meu amigo, que saberei merecer a confian\u00e7a de meu marido! Serei em virtude o modelo das esposas!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Olhei-a de certo modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o seja tolo! disse ela em resposta ao meu olhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">E fugiu l\u00e1 para dentro, sem consentir que eu a acompanhasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00f3 nos tornamos a ver meia hora depois, j\u00e1 a mesa do jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E as cartas? reclamou ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tirei o ma\u00e7o do bolso, desatei-lhe a fitinha cor-de-rosa que o atava; contei as cartas, estavam todas as vinte metodicamente numeradas, com as competentes datas em cima escritas em letra boa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas n\u00e3o tive \u00e2nimo de entreg\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Olhe! disse, trago-lhas noutro dia\u2026 Se as restituir agora, que pretexto posso ter para voltar c\u00e1?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Hein? Como? Isso n\u00e3o \u00e9 de cavalheiro\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o sei! Quem lhe mandou ficar mais sedutora do que era?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Est\u00e1 ent\u00e3o disposto a n\u00e3o entregar as minhas cartas?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E at\u00e9 a servir-me delas como arma de vingan\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">Laura franziu a sobrancelha e mordeu os bei\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">T\u00ednhamos j\u00e1 cruzado o talher da sobremesa e beb\u00edamos, calados ambos, a nossa ta\u00e7a de champanhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">O sil\u00eancio durou ainda bastante tempo. Ela s\u00f3 o quebrou para perguntar, muito seca, se eu queria mais a\u00e7\u00facar no caf\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">E continuamos mudos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Afinal, acendi um charuto e arrastei minha cadeira, para junto da sua.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 melhor ser minha amiga\u2026 segredei passando-lhe o bra\u00e7o na cintura.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o desejo outra cousa, balbuciou ressentida e magoada. Pe\u00e7o-lhe justamente que me proteja como amigo, em vez de p\u00f4r obst\u00e1culos ao meu futuro. Que diabo! eu preciso casar!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Eu lhe entrego as cartas\u2026 Descanse.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ent\u00e3o d\u00ea-mas!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Com a condi\u00e7\u00e3o de prolongar a minha visita at\u00e9 mais tarde\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E fazermos um pouco de m\u00fasica ao piano como dantes. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Jura que me entrega depois as cartas?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Dou-lhe a minha palavra de honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Pois ent\u00e3o fique.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c0s onze e meia, Laura apresentou-me o chap\u00e9u e a bengala.<\/p>\n<p align=\"justify\">Repeli-os e declarei positivamente que n\u00e3o lhe entregaria as cartas, se ela n\u00e3o me concedesse por aquela noite, aquela noite s\u00f3 gozar ainda uma vez dos direitos que dantes o meu amor me conferia t\u00e3o solicitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela a princ\u00edpio n\u00e3o quis, mostrou-se zangada; mas eu insisti, supliquei, jurei que seria a \u00faltima vez, a \u00faltima!<\/p>\n<p align=\"justify\">E n\u00e3o sa\u00ed.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pela manh\u00e3, depois do almo\u00e7o, Laura exigiu de novo as suas cartas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tirei o pacotinho da algibeira, abri-o, contei dez.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 a metade. A\u00ed ficam!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Como a metade?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Pois, Laura, voc\u00ea me acha t\u00e3o tolo que te entregasse logo todas as tuas cartas?\u2026 E depois, em troca do que te pediria que prolongasse um outro jantar como o de ontem?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Isso \u00e9 uma velhacada!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Que seja!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Estou quase n\u00e3o aceitando nenhuma!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Daqui a uma semana vir-te-ei trazer as outras dez. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p align=\"justify\">Da\u00ed a uma semana, com efeito, l\u00e1 ia eu, com as dez cartinhas na algibeira, em caminho da casa de Laura. E nunca em minha vida esperei com tanta \u00e2nsia a hora de uma entrevista de amor. Os dias que a precederam afiguraram-se-me intermin\u00e1veis e tristes. A viuvinha tamb\u00e9m se mostrava ansiosa, quando menos por apanhar as suas cartas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, coitada! n\u00e3o recebeu as dez, recebeu cinco.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pois se a achei ainda mais arrebatadora nesta segunda concess\u00e3o que na primeira!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">E na seguinte semana recebeu apenas duas cartas, e nas outras que se seguiram recebeu uma de cada vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ah! mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m poder\u00e1 imaginar a minha afli\u00e7\u00e3o ao desfazer-me da \u00faltima! um jogador n\u00e3o estaria mais comovido ao jogar o derradeiro tento! Eu ia ficar completamente arruinado; ia ficar perdido; ia ficar sem Laura, o que agora se me afigurava a maior desgra\u00e7a deste mundo!<\/p>\n<p align=\"justify\">Arrependi-me de lhe ter dado dez logo de uma vez e cinco da outra. Que grande est\u00fapido fora eu! Esbanjara o meu belo capital, quando o podia ter feito render por muito tempo!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o o espetro do madeireiro surgiu-me \u00e0 fantasia, como eu o imaginava: bruto, vermelho, gordo e suarento. E Laura, ao meu lado, no abandono t\u00e9pido da sua alcova sorria triunfante, porque tinha rasgado o \u00fanico la\u00e7o que a prendia a outro homem. Estava livre!<\/p>\n<p align=\"justify\">Rasguei a carta ao meio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tratante!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Aqui tem, disse passando-lhe metade da folha de papel. Ainda me fica direito a um almo\u00e7o e metade de uma noite em sua companhia\u2026 Pe\u00e7o-lhe que me deixe voltar..<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela riu-se, e s\u00f3 ent\u00e3o reparei que meus olhos estavam cheios d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Queres que te passe de novo o baralho?\u2026 perguntou-me enternecida, cingindo-se ao meu peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Se quero!\u2026 Isso nem se pergunta!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas agora \u00e9 a minha vez de p\u00f4r a condi\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Qual \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 S\u00f3 tornaremos a jog\u00e1-lo depois de casados, serve-te?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E o madeireiro? Ele n\u00e3o tem cartas tuas?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tranq\u00fciliza-te que, al\u00e9m de meu marido, eu s\u00f3 amei e escrevi a um homem, que \u00e9s tu!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Pois aceito com todos os diabos! E, como ainda tenho jus a um almo\u00e7o, n\u00e3o preciso sair j\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma semana depois, Laura dizia-me \u00e0 volta da igreja:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas, meu querido, como queres tu que eu te mostre uma pessoa que n\u00e3o existe ?.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Como n\u00e3o existe?\u2026 Ent\u00e3o o teu ex-noivo, o c\u00e9lebre madeireiro, cujo retrato trazias no medalh\u00e3o de \u00f4nix\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Qual noivo! Aquela fotografia \u00e9 de um jardineiro que tive h\u00e1 muitos anos e que morreu aqui em casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ent\u00e3o tudo aquilo foi\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Foi o meio de arrastar-te para junto de mim, tolo! e reconquistar o teu amor, que era tudo o que ambicionava nesta vida!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 Sua ama est\u00e1 em casa, rapariga? \u2013 Est\u00e1, sim, senhor. Tenha a bondade de dizer quem \u00e9. \u2013 Diga-lhe que \u00e9 a pessoa que ela espera para jantar. \u2013 Ah! 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