{"id":433,"date":"2018-07-05T01:30:55","date_gmt":"2018-07-05T01:30:55","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=433"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"no-maranhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/no-maranhao","title":{"rendered":"No Maranh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu tinha treze anos, l\u00e1 na prov\u00edncia, uma das fam\u00edlias que mais intimamente se dava com a minha era a do velho Cunha, um bom homem, j\u00e1 afastado do com\u00e9rcio a retalho onde fizera o seu pec\u00falio, e casado com uma senhora brasileira, D. Mariana.<\/p>\n<p>Tinham um casal de filhos: Lu\u00eds e Rosa, ou Rosinha, como lhe cham\u00e1vamos. Lu\u00eds era mais velho que a irm\u00e3 apenas um ano e mais mo\u00e7o do que eu apenas meses.<\/p>\n<p>Fomos por bem dizer criados juntos, porque, quando n\u00e3o era eu que ia visit\u00e1-los, eram eles dois que vinham passar o dia comigo.<\/p>\n<p>Morava na praia de Santo Ant\u00f4nio, num grande e belo sobrado, cujos fundos, como o de todas as casas do litoral da ilha do Maranh\u00e3o, davam diretamente para o mar.<\/p>\n<p>O Cunha, al\u00e9m desta casa, que era de sua propriedade, tinha um s\u00edtio onde ia freq\u00fcentemente passear com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quase sempre levavam-me tamb\u00e9m. O s\u00edtio chamava-se \u201cBoa-Vinda\u201d e ficava \u00e0 margem do rio Anil, para al\u00e9m de Vinhais. Embarcava-se no pr\u00f3prio quintal da casa.<\/p>\n<p>Estes passeios \u00e0 Boa-Vinda constitu\u00edam um dos maiores encantos da minha inf\u00e2ncia. Criado \u00e0 beira-mar na minha ilha, eu adorava a \u00e1gua; aos doze anos era j\u00e1 valente nadador, sabia governar um escaler ou uma canoa, amainar com destreza a vela num temporal, e meu remo n\u00e3o se deixava bater facilmente pelo remo de p\u00e1 de qualquer jacuma\u00faba pescador de piabas.<\/p>\n<p>Sa\u00edamos quase sempre no segredo da primeira madrugada e cheg\u00e1vamos ao s\u00edtio ao repontar do sol.<\/p>\n<p>Ah! que deliciosos passeios! Que belas manh\u00e3s frescas, deslizadas por entre os mangais, sentindo-se recender forte o odor salgado das maresias! E depois, l\u00e1 no s\u00edtio, instalados na varanda de telha-v\u00e3, que prazer n\u00e3o era devorar o almo\u00e7o, assentados todos em bancos de pau, de volta de uma mesa coberta de linho claro, a beber-se o vinho novo do caju por grandes canecas de terra vermelha! E depois \u2013 toca a brincar! toca a correr por a\u00ed a fora, em pleno mato, cabelos ao vento, corpo e cora\u00e7\u00e3o \u00e0 larga!<\/p>\n<p>E, \u00e0 tarde, depois do jantar, quando a natureza principiava a cair nos desfalecimentos chorosos do crep\u00fasculo, v\u00ednhamos todos assentar-nos na eira, defronte da casa, ouvindo o pio mavioso e plangente das sururinas que se acoitavam para dormir nas matas pr\u00f3ximas. Ent\u00e3o, Lu\u00eds ia buscar a sua flauta, Rosinha o seu viol\u00e3o, e eu, acompanhado por eles, punha-me a cantar as modas mais bonitas de minha terra.<\/p>\n<p>D. Mariana e o Cunha gostavam de ouvir-me cantar. Nesse tempo a minha voz tinha ainda, como minha alma, toda a frescura da inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, enfim, metiam-se de novo no balaio as vasilhas do farnel, carregava-se com tudo para bordo da canoa, estendia-se por cima uma vela de lona, em que nos assent\u00e1vamos os tr\u00eas, Lu\u00eds, a irm\u00e3 e eu; o Cunha tomava conta do leme, com a mulher ao lado; tr\u00eas escravos encarregavam-se dos remos; e rebat\u00edamos para a cidade.<\/p>\n<p>Tanto era risonha e viva a ida pela manh\u00e3, quanto era arrastada e quase triste a volta pela noite. D. Mariana come\u00e7ava a cabecear de sono; o Cunha punha-se a falar conosco sobre as nossas obriga\u00e7\u00f5es de aula no dia seguinte; Lu\u00eds em geral deitava-se com a cabe\u00e7a no rega\u00e7o da irm\u00e3; e eu esticava-me sobre a lona, de rosto para o c\u00e9u, a olhar as estrelas.<\/p>\n<p>Uma noite volt\u00e1vamos do s\u00edtio nessas condi\u00e7\u00f5es. Mas havia luar.<\/p>\n<p>E que luar! Desse que parece feito para quem anda embarcado; desse que vai espalhando pelo caminho adiante brancos fantasmas que solu\u00e7am, correndo pelas \u00e1guas, surgindo e desaparecendo com as suas mortalhas de prata, numa agonia de morte, como se fossem as almas aflitas dos afogados.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos j\u00e1 passado Vinhais havia muito e \u00edamos agora deixando atr\u00e1s de n\u00f3s, uma por uma, todas as velhas quintas do Caminho-Grande, que d\u00e3o um lado para o Anil. D. Mariana toscanejava como de costume, recostada numa almofada, o rosto pousado na palma da m\u00e3o; Rosinha, com um bra\u00e7o fora da canoa, brincava pensativa, com as pontas dos dedos na orla fosforescente que se fazia nas \u00e1guas a cada rumorosa braceagem dos remos; Lu\u00eds cantarolava distra\u00eddo; o velho Cunha, vergado sobre o bra\u00e7o do leme, com o seu grande chap\u00e9u de carna\u00faba derreado para a nuca, a camisa e o casaco de brim pardo abertos sobre o peito, fitava as praias que \u00edamos percorrendo, como se a beleza daquela noite do Norte e a solid\u00e3o daquele formoso rio azul lhe enleassem trai\u00e7oeiramente o esp\u00edrito burgu\u00eas, fazendo o milagre de arrebat\u00e1-lo para um devaneio contemplativo e po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Qual! No fim de longo recolhimento, quando pass\u00e1vamos em certa altura do rio, disse-me ele com um suspiro de l\u00e1stima:<\/p>\n<p>\u2013 Que desperd\u00edcio de dinheiro e quanta inc\u00faria vai por aqui!\u2026 V\u00eas aquelas ru\u00ednas cobertas de mato? aqui foi principiado h\u00e1 bem quarenta anos para um grande armaz\u00e9m de alf\u00e2ndega\u2026 nunca passou do come\u00e7o! Teve a mesma sorte do cais da Sagra\u00e7\u00e3o e do dique das Merc\u00eas! Que gente!<\/p>\n<p>E eu pus-me a considerar as ru\u00ednas, que pareciam crescer \u00e0 luz do luar; e o Cunha, possu\u00eddo de uma febre de censura, continuava a derramar pelas tristes \u00e1guas do Anil a sua cansada indigna\u00e7\u00e3o contra os malditos presidentes de prov\u00edncia, que t\u00e3o mal cuidavam da nossa pobre e querida capital.<\/p>\n<p>E, \u00e0 marcha mon\u00f3tona e vagarosa da canoa, ia-se desdobrando lentamente ao lado de n\u00f3s todo o flanco alcantilado da cidade.<\/p>\n<p>Surgiu \u00e0 dist\u00e2ncia o largo dos Rem\u00e9dios, elevando-se da praia como um velho baluarte dos tempos guerreiros.<\/p>\n<p>Ouvia-se j\u00e1 um rumor tristonho de casuarinas.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 ali! exclamou o Cunha estendendo o bra\u00e7o para o lado de terra. Para que esbanjar dinheiro com uma est\u00e1tua daquela ordem, quando h\u00e1 por a\u00ed tanta cousa de necessidade s\u00e9ria de que se n\u00e3o cuida?\u2026<\/p>\n<p>Olhei a dire\u00e7\u00e3o que o Cunha indicava e vi a est\u00e1tua de Gon\u00e7alves Dias, erguida no meio do largo dos Rem\u00e9dios, toda branca, muito alta, triste ao luar como a solit\u00e1ria coluna de um t\u00famulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o achei \u00e2nimo nem palavras para protestar contra o que dizia o velho Cunha. De Gon\u00e7alves Dias sabia apenas que fora um poeta infeliz e nada mais.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9! rosnou o pobre homem. Para o luxo de encarapitar aquele grande boneco no tope daquele imenso canudo de m\u00e1rmore houve dinheiro! E dinheiro grosso! Todo o povo do Maranh\u00e3o concorreu! Ao passo que para concluir o trapiche de Campos Melo, que \u00e9 uma necessidade reclamada todos os dias pelo com\u00e9rcio, n\u00e3o apareceu ainda quem se mexesse? S\u00facia de doidos! Isto \u00e9 uma cousa t\u00e3o revoltante que eu confesso, chego quase a arrepender-me de me ter naturalizado!<\/p>\n<p>Tornei a olhar para a est\u00e1tua e, n\u00e3o sei porque, as palavras do velho Cunha n\u00e3o me produziram desta vez a impress\u00e3o de respeito que costumavam exercer sobre o meu esp\u00edrito de crian\u00e7a. Pungia-me aquilo at\u00e9 como uma blasf\u00eamia cuspida sobre uma imagem sagrada. L\u00e1 em casa de minha fam\u00edlia todos veneravam a mem\u00f3ria do nosso poeta, e na escola onde eu aprendia a escrever a l\u00edngua portuguesa o meu pr\u00f3prio mestre lhe chamava a ele mestre.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o opus uma palavra de defesa; mas, fitando agora de mais perto a branca figura de pedra, que na sua mudez gloriosa encara aquele mesmo mar que serviu de sepultura ao cantor das palmeiras de minha terra, achei-lhe o ar t\u00e3o tranq\u00fcilo, t\u00e3o superior, t\u00e3o distante de mim e do Cunha, que balbuciei para este timidamente:<\/p>\n<p>\u2013 Mas, seu Cunha, se o povo lhe fez aquela est\u00e1tua, \u00e9 porque ele naturalmente a mereceu, coitado!<\/p>\n<p>\u2013 Mereceu?! Por qu\u00ea? O que foi que ele fez?\u2026 \u201cMinha terra tem palmeiras, onde canta o sabi\u00e1. As aves que aqui gorjeiam, n\u00e3o gorjeiam como l\u00e1\u201d?! Est\u00e1 a\u00ed o que ele fez! Fez versos!<\/p>\n<p>E o Cunha, no auge da sua indigna\u00e7\u00e3o, redobrou de f\u00faria contra a loucura dos homens, que levantavam est\u00e1tuas a poetas em vez de cuidar dos trapiches que o com\u00e9rcio a retalho reclamava.<\/p>\n<p>Nesse instante a canoa deslizava justamente por defronte do largo dos Rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>A lua, perdida e s\u00f3 no meio do c\u00e9u luminoso, banhava no seu misterioso efl\u00favio a im\u00f3vel e branca figura de m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>E Rosinha, que n\u00e3o prestara aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa conversa, abriu a cantar, com a sua voz cristalina de donzela, uma das cantigas mais populares do Brasil:<\/p>\n<p>\u201cSe queres saber os meios<br \/>\nPorque \u00e0s vezes me arrebata<br \/>\nNas asas do pensamento<br \/>\nA poesia t\u00e3o grata;<br \/>\nPorque vejo nos meus sonhos<br \/>\nTantos anjinhos dos c\u00e9us,<br \/>\nvem comigo, oh doce amada<br \/>\nQue eu te direi os caminhos<br \/>\nDonde se enxergam os anjinhos,<br \/>\nDonde se trata com Deus.\u201d<\/p>\n<p>E aquela menina, na sua virginal singeleza, estava desafrontando Gon\u00e7alves Dias, porque s\u00e3o dele os versos que ela ia cantando aos p\u00e9s da sua est\u00e1tua, inocentemente; rendendo, sem saber, enquanto o pai o amaldi\u00e7oava, o maior preito que se pode render a um poeta: repetir-lhe os versos, sem indagar quem os fez.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou supersticioso, nem o era nesse tempo, apesar dos meus treze anos, mas quis parecer-me que naquele momento a est\u00e1tua sorriu.<\/p>\n<p>Efeitos do luar, naturalmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu tinha treze anos, l\u00e1 na prov\u00edncia, uma das fam\u00edlias que mais intimamente se dava com a minha era a do velho Cunha, um bom homem, j\u00e1 afastado do com\u00e9rcio a retalho onde fizera&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=433"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":434,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/433\/revisions\/434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}