{"id":435,"date":"2018-07-05T01:32:02","date_gmt":"2018-07-05T01:32:02","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=435"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"o-macaco-azul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-macaco-azul","title":{"rendered":"O Macaco Azul"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Ontem, mexendo nos meus pap\u00e9is velhos, encontrei a seguinte carta:<\/p>\n<p><em>Caro Senhor.<br \/>\nEscrevo estas palavras possu\u00eddo do maior desespero. Cada vez menos esperan\u00e7a tenho de alcan\u00e7ar o meu sonho dourado. \u2013 O seu macaco azul n\u00e3o me sai um instante do pensamento! \u00c9 horr\u00edvel! Nem um verso!<br \/>\nDo amigo infeliz<\/em><\/p>\n<p align=\"right\">PAULINO<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o parece um disparate este bilhete?<\/p>\n<p align=\"justify\">Pois n\u00e3o \u00e9. Ou\u00e7am o caso e ver\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma noite \u2013 isto vai h\u00e1 um bom par de anos \u2013 conversava eu com o Artur Barreiros no largo da M\u00e3e do Bispo, a respeito dos \u00faltimos versos ent\u00e3o publicados pelo conselheiro Otaviano Rosa, quando um sujeito de fraque cor de caf\u00e9 com leite, veio a pouco e pouco, aproximando-se de n\u00f3s e deixou-se ficar a pequena dist\u00e2ncia, com a m\u00e3o no queixo, ouvindo atentamente o que convers\u00e1vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 O Otaviano, sentenciou o Barreiros, o Otaviano faz magn\u00edficos versos, l\u00e1 isso ningu\u00e9m lhe pode negar! mas, tem paci\u00eancia! o Otaviano n\u00e3o \u00e9 poeta!<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu sustentava precisamente o contr\u00e1rio afian\u00e7ando que o aplaudido Otaviano fazia maus versos, tendo ali\u00e1s uma verdadeira alma de poeta, e poeta inspirado.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Barreiros replicou, acumulando em abono da sua opini\u00e3o uma infinidade de argumentos de que j\u00e1 me n\u00e3o lembro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu trepliquei firme, citando os alexandrinos errados do conselheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Barreiros n\u00e3o se deu por vencido e exigiu que eu lhe apontasse algu\u00e9m no Brasi4 que soubesse arquitetar alexandrinos melhor que S. Ex.\u00aa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu respondi com esta frase esmagadora:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Quem? Tu!<\/p>\n<p align=\"justify\">E acrescentei, dando um piparote na aba do chap\u00e9u e segurando o meu contendor, com ambas as m\u00e3os pela gola do fraque:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Queres que te fale com franqueza?\u2026 Isto de fazer versos inspirados e bem feitos; ou, por outra: isto de ser ou n\u00e3o ser poeta, depende \u00fanica e exclusivamente de uma cousa muito simples\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 O que \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 ter o segredo da poesia! Se o sujeito est\u00e1 senhor do segredo da poesia, faz, brincando, a quantidade de versos que entender, e todos bons, corretos, f\u00e1ceis, harmoniosos; e, se o sujeito n\u00e3o tem o segredo, escusa de quebrar a cabe\u00e7a pode ir cuidar de outro of\u00edcio, porque com as musas n\u00e3o arranjar\u00e1 nada que preste! N\u00e3o \u00e9s do meu parecer?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Sim, nesse ponto estamos de pleno acordo, conveio o Barreiros. Tudo est\u00e1 em possuir o segredo!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">E, tomando uma express\u00e3o de orgulho concentrado, rematou, abaixando a cabe\u00e7a e olhando-me por cima das lunetas: \u2013 Segredo que qualquer um de n\u00f3s dois conhece melhor que as palmas da pr\u00f3pria m\u00e3o!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Segredo que eu me prezo de possuir, como at\u00e9 hoje ningu\u00e9m o conseguiu, declarei convicto.<\/p>\n<p align=\"justify\">E com esta frase me despedi e separei-me do Artur. Ele tomou para os lados de Botafogo, onde morava, e eu desci pela rua Guarda Velha.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mal dera sozinho alguns passos, o tal sujeito de fraque cor de caf\u00e9 com leite aproximou-se de mim, tocou-me no ombro, e disse-me com suma delicadeza:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Perd\u00e3o, cavalheiro! Queria desculpar interromp\u00ea-lo. Sei que vai estranhar o que lhe vou dizer, mas\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Estou \u00e0s suas ordens. Pode falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 que ainda h\u00e1 pouco quando o senhor conversava com o seu amigo, afirmou a respeito da poesia certa cousa que muito e muito me interessa\u2026 Desejo que me explique\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Bonito! pensei eu. \u00c9 algum parente ou algum admirador do conselheiro Otaviano, que vem tomar-me uma satisfa\u00e7\u00e3o. Bem feito! Quem me manda a mim ter a l\u00edngua t\u00e3o comprida?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Entremos aqui no jardim da f\u00e1brica, prop\u00f4s o meu interlocutor; tomaremos um copo de cerveja enquanto o senhor far-me-\u00e1 o obs\u00e9quio de esclarecer o ponto em quest\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O tom destas palavras tranq\u00fcilizou-me em parte. Concordei e fomos assentar-nos em volta de uma mesinha de ferro, defronte de dois chopes, por baixo de um pequeno grupo de palmeiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 O senhor, principiou o sujeito, depois de tomar dois goles do seu copo, declarou ainda h\u00e1 pouco que possui o segredo da poesia\u2026 N\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu olhei para ele muito s\u00e9rio, sem conseguir perceber onde diabo queria o homem chegar.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o \u00e9 verdade? insistiu com empenho. Nega que ainda h\u00e1 pouco declarou possuir o segredo dos poetas?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Gracejo!\u2026 Foi puro gracejo de minha parte\u2026 respondi, sorrindo modestamente. Aquilo foi para mexer com o Barreiros, que \u2013 aqui para n\u00f3s \u2013 na prosa \u00e9 um purista, mas que a respeito de poesia, n\u00e3o sabe distinguir um alexandrino de um decass\u00edlabo. Tanto ele como eu nunca fizemos versos; creia!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00d3 senhor! por quem \u00e9 n\u00e3o negue! fale com franqueza!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas juro-lhe que estou confessando a verdade\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o seja ego\u00edsta!<\/p>\n<p align=\"justify\">E o homem chegou a sua cadeira para junto de mim e segurou-me uma das m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Diga! suplicou ele, diga por amor de Deus qual \u00e9 o tal segredo; e conte que, desde esse momento, o senhor ter\u00e1 em mim o seu amigo mais reconhecido e devotado!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas, meu caro senhor, juro-lhe que\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">O tipo interrompeu-me, tapando-me a boca com a m\u00e3o, e exclamou deveras comovido:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ah! Se o senhor soubesse; se o senhor pudesse imaginar quanto tenho at\u00e9 hoje sofrido por causa disto!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Disto o qu\u00ea? A poesia?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 verdade! Desde que me entendo, procuro a todo o instante fazer versos!\u2026 Mas qual! em v\u00e3o consumo nessa luta de todos os dias os meus melhores esfor\u00e7os e as minhas mais profundas concentra\u00e7\u00f5es!\u2026 \u00c9 in\u00fatil! Todavia, creia, senhor, o meu maior desejo, toda a ambi\u00e7\u00e3o de minha alma, foi sempre, como hoje ainda, compor alguns versos, poucos que fossem, fracos muito embora; mas, com um milh\u00e3o de raios! que fossem versos! e que rimassem! e que estivessem metrificados! e que dissessem alguma cousa!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E nunca at\u00e9 hoje o conseguiu?\u2026 interroguei sinceramente pasmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Nunca! Nunca! Se o metro n\u00e3o sai mau, \u00e9 a id\u00e9ia que n\u00e3o presta; e se a id\u00e9ia \u00e9 mais ou menos aceit\u00e1vel, em v\u00e3o procuro a rima! A rima n\u00e3o chega nem \u00e0 m\u00e3o de Deus Padre! Ah! tem sido uma campanha! uma campanha sem tr\u00e9guas! N\u00e3o me farto de ler os mestres; sei de cor o comp\u00eandio do Castilho; trago na algibeira o Dicion\u00e1rio de consoantes; e n\u00e3o consigo um soneto, uma estrofe, uma quadra! Foi por isso que pensei c\u00e1 comigo: \u201cQuem sabe se haver\u00e1 algum mist\u00e9rio, algum segredo, nisto de fazer versos?\u2026 algum segredo, de cuja posse dependa em rigor a faculdade de ser poeta?\u2026\u201d Ah! e o que n\u00e3o daria eu para alcan\u00e7ar semelhante segredo?\u2026 Matutava nisto justamente, quando o senhor, conversando com o seu amigo, afirmou que o segredo existe com efeito, e melhor ainda, que o senhor o possui, podendo por conseguinte transmiti-lo adiante!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Perd\u00e3o! Perd\u00e3o! O senhor est\u00e1 enganado, eu\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Oh! n\u00e3o negue! N\u00e3o negue por quem \u00e9! O senhor tem fechada na m\u00e3o a minha felicidade! Se n\u00e3o quer que eu enlouque\u00e7a confie-me o segredo! Pe\u00e7o-lhe! Suplico-lhe! Dou-lhe em troca a minha vida, se a exige!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas, meu Deus! o senhor est\u00e1 completamente iludido\u2026 N\u00e3o existe semelhante cousa!\u2026 Juro-lhe que n\u00e3o existe!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o seja mau! N\u00e3o insista em recusar um obs\u00e9quio que lhe custa t\u00e3o pouco e que vale tanto para mim! Bem sei que h\u00e1 de prezar muito o seu segredo mas dou-lhe minha palavra de honra que me conservarei digno dele at\u00e9 \u00e0 morte! Vamos! declare! fale! diga logo o que \u00e9, ou nunca mais o largarei! nunca mais o deixarei tranq\u00fcilo! Diga ou serei eternamente a sua sombra!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ora esta! Como quer que lhe diga que n\u00e3o sei de semelhante segredo?!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o mo negue por tudo o que o seu cora\u00e7\u00e3o mais ama neste mundo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 O senhor tomou a nuvem por Juno! N\u00e3o compreendeu o sentido de minhas palavras!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 O segredo! O segredo! O segredo!<\/p>\n<p align=\"justify\">Perdi a paci\u00eancia. Ergui-me e exclamei disposto a fugir:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Quer saber o que mais?! V\u00e1 para o diabo que o carregue!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Espere, senhor! Espere! Ou\u00e7a-me por amor de Deus!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o me aborre\u00e7a. Ora bolas!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Hei de persegui-lo at\u00e9 alcan\u00e7ar o segredo!<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p align=\"justify\">E, como de fato, o tal sujeito acompanhou-me logo com tamanha insist\u00eancia, que eu, para ver-me livre dele, prometi-lhe afinal que lhe havia de revelar o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">No dia seguinte j\u00e1 l\u00e1 estava o dem\u00f4nio do homem defronte da minha casa e n\u00e3o me largava a porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para o restaurante, para o trabalho, para o teatro, para toda a parte, acompanhava-me aquele implac\u00e1vel fraque cor de caf\u00e9 com leite, a pedir-me o segredo por todos os modos, de viva voz, por escrito e at\u00e9 por m\u00edmica, de longe.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu vivia j\u00e1 nervoso, doente com aquela obsess\u00e3o. Cheguei a pensar em queixar-me \u00e0 pol\u00edcia ou empreender uma viagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ocorreu-me por\u00e9m, uma id\u00e9ia feliz, e mal a tive disse ao tipo que estava resolvido a confiar-lhe o segredo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ele quase perdeu os sentidos de t\u00e3o contente que ficou. Marcou-me logo uma entrevista em lugar seguro; e, \u00e0 hora marcada, l\u00e1 est\u00e1vamos os dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o que \u00e9?\u2026 perguntou-me o monstro, esfregando as m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Uma cousa muito simples, segredei-lhe eu. Para qualquer pessoa fazer bons versos, seja quem for, basta-lhe o seguinte: \u2013 N\u00e3o pensar no macaco azul. \u2013 Est\u00e1 satisfeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 N\u00e3o pensar no\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Macaco azul.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Macaco azul? O que \u00e9 macaco azul\u2026?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Pergunta a quem n\u00e3o lhe sabe responder ao certo. Imagine um grande s\u00edmio azul ferrete, com as pernas e os bra\u00e7os bem compridos, os olhos pequeninos, os dentes muito brancos, e a\u00ed tem o senhor o que \u00e9 o macaco azul.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas que h\u00e1 de comum entre esse mono e a poesia?\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tudo, visto que, enquanto o senhor estiver com a id\u00e9ia no macaco azul, n\u00e3o pode compor um verso!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Mas eu nunca pensei em semelhante bicho!\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Parece-lhe; \u00e9 que \u00e0s vezes a gente est\u00e1 com ele na cabe\u00e7a e n\u00e3o d\u00e1 por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Pois hoje mesmo vou fazer a experi\u00eancia\u2026 Ora quero ver se desta vez\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Fa\u00e7a e ver\u00e1.<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p align=\"justify\">No dia seguinte, o pobre homem entrou-me pela casa como um raio. Vinha furioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Agora, gritou ele, \u00e9 que o diabo do bicho n\u00e3o me larga mesmo! \u00c9 pegar eu na pena, e a\u00ed est\u00e1 o maldito a dar-me voltas no miolo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Tenha paci\u00eancia! Espere alerta a ocasi\u00e3o em que ele n\u00e3o lhe venha \u00e0 id\u00e9ia e aproveite-a logo para escrever seus versos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Ora! Antes o senhor nunca me falasse no tal bicho! Assim, nem s\u00f3 continuo a n\u00e3o fazer versos, como ainda quebro a cabe\u00e7a de ver se consigo n\u00e3o pensar no dem\u00f4nio do macaco!<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p align=\"justify\">E foi nestas circunst\u00e2ncias que Paulino me escreveu aquela carta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, mexendo nos meus pap\u00e9is velhos, encontrei a seguinte carta: Caro Senhor. Escrevo estas palavras possu\u00eddo do maior desespero. 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