{"id":442,"date":"2018-07-05T01:33:29","date_gmt":"2018-07-05T01:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=442"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"vicios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/vicios","title":{"rendered":"V\u00edcios"},"content":{"rendered":"<p>Tarde de inverno. Ouvia-se o rel\u00f3gio palpitar soturnamente ao fundo da longa sala e ouvia-se o crepitar das asas de um inseto que se debatia contra as vidra\u00e7as de uma janela fechada. A casa, na sua adormecida opul\u00eancia coberta de p\u00f3, tinha um duro e profundo aspecto de tristeza.<\/p>\n<p>Dois homens, pai e filho, um eternamente irrespons\u00e1vel e crian\u00e7a, apesar das suas rugas e dos seus cabelos falsamente negros, o outro j\u00e1 desiludido e velho, a despeito dos seus miser\u00e1veis vinte e poucos anos; ambos cansados, ambos tristes ambos in\u00fateis e vencidos, quedavam-se, sem \u00e2nimo para mais nada, assentados um defronte do outro, olhando o espa\u00e7o, como que vegetalizados ambos por um s\u00f3 e mesmo t\u00e9dio, por um s\u00f3 e mesmo desgosto de existir, por uma s\u00f3 e mesma pregui\u00e7a de viver.<\/p>\n<p>Sentia-se desconsoladamente que naquelas escuras paredes sobrecobertas de enegrecidos pain\u00e9is e desbotadas tape\u00e7arias e naquele teto de estuque j\u00e1 sem cor e naqueles dourados m\u00f3veis despolidos pelo tempo, h\u00e1 muito n\u00e3o ecoavam rir e palrear de crian\u00e7as ou alegres vozes de fam\u00edlia. Apesar dos dois espectros de homem que l\u00e1 permaneciam im\u00f3veis, a casa toda parecia totalmente desabitada.<\/p>\n<p>O velho de cabelos tintos levantou-se afinal, bocejando, deu como um son\u00e2mbulo algumas tr\u00f4pegas voltas pelo aposento, tomou um c\u00e1lice de cognac da frasqueira que havia a um canto sobre um trem\u00f3 antigo, acendeu um cigarro e encaminhou-se lentamente para o outro, a quem tocou no ombro.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o\u2026. disse, parando defronte dele.<\/p>\n<p>O rapaz fixou-o com o seu indiferente olhar de enfermo sem cura, e balbuciou suplicante:<\/p>\n<p>\u2013 Prepara-me uma inje\u00e7\u00e3o de morfina\u2026 Sim?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Ora!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, meu filho\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Por amor de Deus!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. S\u00f3 logo mais quando eu voltar.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o contraiu aflitivamente o rosto, em c\u00f3pia de toda a sua dolorida contrariedade; e abateu-se mais na cadeira, deixando pender a cabe\u00e7a sobre o peito e abandonando os bra\u00e7os ao pr\u00f3prio peso.<\/p>\n<p>\u2013 Sentes-te mal hoje? perguntou o pai.<\/p>\n<p>O interrogado sacudiu os ombros indiferentemente, sem levantar o rosto.<\/p>\n<p>Pobre crian\u00e7a?\u2026 pensou aquele, refranzindo as rugas da sua marm\u00f3rea e despojada fronte de velho folgaz\u00e3o. Muito caro pagas tu a minha loucura de te haver dado a vida!\u2026 Maldita hora em que consenti, por conveni\u00eancias de fortuna, me casassem com tua m\u00e3e!\u2026<\/p>\n<p>O enfermo, como se lhe percebera o pensamento, ergueu os olhos para fixar os do pai; e este acrescentou, agora falando:<\/p>\n<p>\u2013 Que falta te fez ela na inf\u00e2ncia!\u2026 tua m\u00e3e!<\/p>\n<p>O mo\u00e7o deu de ombros outra vez com a mesma desdenhosa indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Minha m\u00e3e\u2026 tartamudeou depois, pondo-se a olhar um retrato de mulher que havia na sala. Minha m\u00e3e\u2026 sei c\u00e1!\u2026 Nem sequer a conheci!<\/p>\n<p>E, insistindo em contemplar o retrato, disse ainda com um suspiro bocejado:<\/p>\n<p>\u2013 Era bem bonita minha m\u00e3e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Bonita e boa! N\u00e3o serias, talvez, assim in\u00fatil e perdido para a vida, se nos teus primeiros anos ela te inoculasse no esp\u00edrito, com o seu amor, as id\u00e9ias do Bem, que eu nunca tive!<\/p>\n<p>E prosseguiu, depois de sorver de um trago um novo c\u00e1lice de cognac:<\/p>\n<p>\u2013 Era uma boa criatura; era, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! Honesta, friamente virtuosa, muito discreta e concentrada. N\u00e3o sei se algum dia me amou, casou-se por obedi\u00eancia aos pais, foi sempre em absoluto indiferente \u00e0s minhas car\u00edcias como \u00e0s irregularidades da minha m\u00e1 conduta de homem casado! Mas, quem sabe, se ela n\u00e3o morresse logo depois do parto, se te n\u00e3o deixasse t\u00e3o cedo sozinho comigo; quem sabe o que poderias vir a ser?\u2026 A nossa riqueza, o meu temperamento leviano e a educa\u00e7\u00e3o ociosa e galante que me deram, tudo isso, meu pobre filho, conspirou contra ti e fez de teu pai o pior que at\u00e9 hoje existiu no mundo!\u2026<\/p>\n<p>O rapaz sacudiu novamente os ombros, com desprezo, enquanto o outro ia ainda esgotar um c\u00e1lice de cognac \u00e0 garrafeira do trem\u00f3.<\/p>\n<p>Ah! se ela n\u00e3o tivesse morrido t\u00e3o cedo!\u2026 exclamou o velho estr\u00f3ina, lamentosamente. E acrescentou, como se precisasse descarregar a consci\u00eancia numa humilhante confiss\u00e3o de todo o seu crime paterno: \u2013 V\u00ea tu que desgra\u00e7a! Fui eu, eu s\u00f3, o teu exemplo na inf\u00e2ncia, o teu guia, o teu mestre eu! Eu, que jamais compreendi deveres de esp\u00e9cie alguma, nem tive nunca esperan\u00e7as no futuro, nem ambi\u00e7\u00f5es de qualquer g\u00eanero, nem ao menos confian\u00e7a e f\u00e9 na fam\u00edlia ou em Deus! Sei que sou homem, porque \u00e0s vezes sofro! O companheiro fiel que me seguiu pela exist\u00eancia, meu filho, n\u00e3o foste tu, nem foi tua m\u00e3e ou algum amigo estremecido, foi a forte paix\u00e3o pelos meus pr\u00f3prios v\u00edcios; e, na aus\u00eancia destes, foi s\u00f3 o t\u00e9dio que enxerguei sempre ao meu lado. Ah! como tenho remorsos de te haver feito viver!\u2026 Como fui mau, principalmente com rela\u00e7\u00e3o a ti!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 exato! suspirou o filho.<\/p>\n<p>\u2013 Como sou um pai digno da tua inutilidade e da tua degenera\u00e7\u00e3o! Como tu, pobre esqueleto gotoso, \u00e9s bem o filho dos meus ossos!<\/p>\n<p>E depois de outro c\u00e1lice de cognac, o velho come\u00e7ou a declamar, em uma explos\u00e3o nervosa, agitando os bra\u00e7os e dando \u00e0 voz inflex\u00f5es teatrais:<\/p>\n<p>\u2013 Fui na exist\u00eancia um navio in\u00fatil, sem carga, sem destino, sem bandeiras e sem muni\u00e7\u00f5es para nenhum combate! Vaguei, errante e perdido, por todos os mares largos do v\u00edcio, sacudido por todas as tempestades e por todos os vendavais da intemperan\u00e7a e da lux\u00faria! Cheguei \u00e0 velhice como um casco naufragando com a mastrea\u00e7\u00e3o partida, as enx\u00e1rcias estaladas e o cavername arrebentado! Eis o que sou!<\/p>\n<p>O filho afastou-o com a m\u00e3o, enfastiadamente, a torcer o rosto aflito em um esgar de repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2013 Vai-te embora!\u2026 murmurou. J\u00e1 est\u00e1s b\u00eabedo!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 E \u00e9 este despojo, continuou a declamar o pai, sem levar em conta aquelas palavras; e \u00e9 este resto de naufr\u00e1gio que h\u00e1 vinte anos representa para ti, minha querida v\u00edtima, todo o teu passado e toda a tua fam\u00edlia!\u2026 Oh! sem d\u00favida que n\u00e3o serias isso que a\u00ed est\u00e1 prostrado nessa cadeira, a implorar por amor de Deus uma inje\u00e7\u00e3o de morfina, se fosses gerado por qualquer outro homem!\u2026 Perdoa-me ter sido eu o teu pai, meu filho!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, vai-te embora! Vai-te embora, por piedade! Para que me h\u00e1s de torturar?!<\/p>\n<p>\u2013 Amo-te, entretanto, pobre crian\u00e7a! sempre te amei! O meu amor, por\u00e9m, nunca te serviu de benef\u00edcio; fez-te ao contr\u00e1rio, caminhar at\u00e9 hoje pela minha m\u00e3o no sombrio e \u00famido caminho da minha loucura, sem me lembrar, desgra\u00e7ados de n\u00f3s! que n\u00e3o tinhas tu herdado de mim, como eu herdei de meu pai, a resist\u00eancia f\u00edsica que ele economizara durante a sua vida e que eu prodigamente gastei toda inteira, s\u00f3 comigo, nos meus prazeres ego\u00edstas!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, vai-te embora! S\u00e3o quatro horas. A primeira banca principia no Clube \u00e0s quatro e meia! Vai-te embora! Vai jogar!<\/p>\n<p>\u2013 Queres tu vir comigo?\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00ea se te resolves. .. Talvez at\u00e9 isso te fa\u00e7a bem\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o posso.. Sinto-me mal.<\/p>\n<p>\u2013 Como tens um pai diferente do pai que eu tive!\u2026 Aquele que ali est\u00e1 naquele quadro, ao lado de tua av\u00f3, ah! esse era um homem!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o recomeces por amor de Deus! Vai-te embora!<\/p>\n<p>\u2013 Aquele n\u00e3o conhecia t\u00e9dios, nem fastios! N\u00e3o tinha v\u00edcios! Trabalhou toda a vida! Triplicou a fortuna que herdou e que eu desbaratei antes dos trinta anos! Era um justo!<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 sei de tudo isso! j\u00e1 mo disseste mil vezes! Vai-te embora! Vai-te embora, se me n\u00e3o queres ver disparatar.<\/p>\n<p>\u2013 Se eu tivesse ao menos amado tua m\u00e3e\u2026 \u00e9 poss\u00edvel, se assim fosse, que te salvasses!\u2026 E como merecia ela ser amada!\u2026 a infeliz senhora!\u2026 Ah! se a conhecesses, meu filho!\u2026 (E a voz do miser\u00e1vel come\u00e7ou a estalar, amea\u00e7ando abrir em solu\u00e7os). Era uma santa criatura! Fria, indiferente, mas resignada e casta!\u2026 Imagina que eu\u2026<\/p>\n<p>O outro, por\u00e9m, ergueu-se possesso e come\u00e7ou a agitar-se por toda a sala, bradando desabridamente:<\/p>\n<p>\u2013 Mas que mal fiz eu para me torturarem deste modo?!<\/p>\n<p>\u2013 Acalma-te! Acalma-te!<\/p>\n<p>\u2013 Arre! \u00c9 muito! \u00c9 demais!<\/p>\n<p>\u2013 Acalma-te, meu filho!<\/p>\n<p>\u2013 Acalmar-me, \u00e9 boa! J\u00e1 me n\u00e3o posso conter! Era isto que querias?! Pois aqui o tens! Daqui a pouco estou por terra, espumando!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o te apoquentes! Saio j\u00e1! Saio imediatamente!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Agora! Agora pouco me importa que saias ou n\u00e3o! O que eu n\u00e3o queria era cair neste estado! V\u00ea como tremo todo! Olha como tenho j\u00e1 a l\u00edngua! Olha para as minhas m\u00e3os!<\/p>\n<p>\u2013 V\u00ea se sossegas!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que inferno! Que inferno! bramiu o mo\u00e7o. E, depois de puxar pelos cabelos e bater contra a cabe\u00e7a os punhos contra\u00eddos, exclamou, de bra\u00e7os e olhos arrancados para o teto: \u2013 Mas meu Deus! meu Deus! por que me fizeram viver?! Que esp\u00edrito cruel me chamou a esta vida de lama, sem indagar se eu tinha for\u00e7as para arrast\u00e1-la pelo mundo! Por que me entalaram nesta pris\u00e3o que me d\u00f3i, onde meu pobre esp\u00edrito ofega oprimido e a minha carne geme e os meus ossos estalam?! E para que me deixaram c\u00e1 dentro do barro podre deste corpo s\u00f3 prest\u00e1vel para doer, esta maldita consci\u00eancia que marca os segundos da minha agonia como um rel\u00f3gio de m\u00e9dico; esta enfermeira coberta de luto que ronda a minha ins\u00f4nia e pesa a minha incalcul\u00e1vel mis\u00e9ria, grama a grama, numa balan\u00e7a de hospital?! Por qu\u00ea?! Por qu\u00ea?! Que mal fiz eu ao mundo, meu Deus?! Amaldi\u00e7oados sejam os criadores de exist\u00eancias e mais os seus agentes e os seus c\u00famplices! Amaldi\u00e7oado sejas tu, velho libertino!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Meu filho\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Vai-te para o diabo! Se ao menos pudesse eu matar-me! Mas o covarde instinto da vida agarra-me torpemente a esta carca\u00e7a epil\u00e9tica e leva-me de bru\u00e7os pela exist\u00eancia, como a lesma rastejando na pr\u00f3pria baba!<\/p>\n<p>\u2013 Acalma-te, meu filho!<\/p>\n<p>\u2013 Mostra-me ent\u00e3o o meu lugar nesse alegre banquete, do qual nunca te levantaste! Mostra-me o meu talher e o meu copo! Aponta-me a cama da mulher que tenha l\u00e1bios e bra\u00e7os para me amar! Vamos! O que \u00e9 do meu quinh\u00e3o? Devoraste-mo tu, Falstaff! Choras, hein? mas choras repleto e ainda n\u00e3o saciado! Choras, bem vejo! mas tens rido a vida toda com todas as dissolutas que topaste no caminho! tens palpitado de como\u00e7\u00e3o em todas as bancas de azar! tens-te embriagado com todos os vinhos que existem na terra! E continuas a beber, a fumar, a viver noites inteiras no amor e no jogo; e eu?! O que foi que eu gozei at\u00e9 agora?! Deste-me para ama de leite uma das tuas c\u00famplices ven\u00e9reas! desmamaste-me a cognac! levaste-me ainda crian\u00e7a a todos os lugares em que te corrompeste! fizeste-me, na idade em que se aprendem as ora\u00e7\u00f5es fumar e beber para divertir os teus companheiros de libertinagem e fizeste-me macaquear os libertinos para servir de histri\u00e3o \u00e0s tuas prostitutas! \u00c9s um monstro! Sai da minha presen\u00e7a ou eu te mato!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! n\u00e3o, meu filho, n\u00e3o quero que fiques mal comigo!\u2026 N\u00e3o ficar\u00e1s! Aqui tens morfina!<\/p>\n<p>\u2013 Morfina?! Ah! d\u00e1-ma! d\u00e1-ma! Perd\u00f4o-te tudo! Como \u00e9s bom! como \u00e9s bom, meu pai obrigado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tarde de inverno. Ouvia-se o rel\u00f3gio palpitar soturnamente ao fundo da longa sala e ouvia-se o crepitar das asas de um inseto que se debatia contra as vidra\u00e7as de uma janela fechada. 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