{"id":443,"date":"2018-07-05T01:33:41","date_gmt":"2018-07-05T01:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=443"},"modified":"2018-07-05T01:34:32","modified_gmt":"2018-07-05T01:34:32","slug":"ultimo-lance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/ultimo-lance","title":{"rendered":"\u00daltimo Lance"},"content":{"rendered":"<p>Dez lu\u00edses!<\/p>\n<p>Era tudo que lhe restava!\u2026 Eram as \u00faltimas moedas da larga e velha heran\u00e7a que at\u00e9 a ele chegara, escorrendo sonoramente, de degrau em degrau, por uma nobre escadaria de av\u00f3s. Dez lu\u00edses!\u2026<\/p>\n<p>E D. Filipe, depois de agitar na m\u00e3o fidalga, as derradeiras moedas de ouro, encaminhou-se lentamente para o lugar que meia hora antes havia abandonado \u00e0 banca da roleta.<\/p>\n<p>De p\u00e9, apoiado ao espaldar da sua cadeira ainda vazia, deixou cair sobre o tabuleiro verde o seu frio olhar indiferente e altivo. Os n\u00fameros desapareciam afogados no ouro e na prata dos outros jogadores.<\/p>\n<p>Permaneceu im\u00f3vel por longo tempo, sem ver o que olhava. Seus sentidos estavam de todo ocupados pelo pensamento que lhe trabalhava aflito dentro do c\u00e9rebro: \u2013 Era preciso refazer a fortuna esbanjada, ou parte dela\u2026 Mas com cem mil francos, apenas cem mil! poderia salvar-se, sem cair no rid\u00edculo aos olhos do meio em que se arruinara\u2026 Com cem mil francos correria, sem perda de tempo a Paris, solveria as d\u00edvidas que ali deixara garantidas sob palavra, e logo em seguida, a pretexto de qualquer exig\u00eancia da sa\u00fade, simularia uma viagem \u00e0 Su\u00ed\u00e7a e partiria para a Am\u00e9rica, com o que lhe restasse em dinheiro. Na Am\u00e9rica engendravam-se r\u00e1pidas riquezas; descobriam-se dotes fabulosos! Se fosse preciso trabalhar \u2013 trabalharia!<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia em que, e como, iria trabalhar, mas a miragem do novo mundo surgia-lhe \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o num sonho de ouro; numa apoteose de milagres de reabilita\u00e7\u00e3o, em que a sua incompet\u00eancia para qualquer trabalho produtivo encontraria lugar entre os vencedores. Nenhum programa, nenhuma id\u00e9ia acompanhava aquela esperan\u00e7a; confiava na Am\u00e9rica como confiara nas cartas e na roleta. Era ainda uma esperan\u00e7a de jogador. Era a cega confian\u00e7a no acaso!<\/p>\n<p>N\u00e3o seria a Am\u00e9rica tamb\u00e9m um tabuleiro verde, banhado pelo ouro da Calif\u00f3rnia?\u2026 Ele era a moeda jogada num \u00faltimo lance pelo desespero!<\/p>\n<p>Iria!<\/p>\n<p>E, depois?\u2026 Como seria belo volver \u00e0 Europa, muitas vezes milion\u00e1rio, com um resto de mocidade, para continuar a gozar os v\u00edcios interrompidos?\u2026<\/p>\n<p>E, enquanto castelavam seus doidos pensamentos, sucediam-se os golpes da roleta, e o ouro e a prata dos jogadores perpassavam em rio por defronte dos seus olhos distra\u00eddos.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, e se eu perder?\u2026 interrogou ele \u00e0 pr\u00f3pria consci\u00eancia.<\/p>\n<p>E o fidalgo n\u00e3o teve \u00e2nimo de entestar com a solu\u00e7\u00e3o que esta pergunta exigia, como se temesse abrir de pronto, ali mesmo, um duro e violento compromisso com a sua honra.<\/p>\n<p>Todavia, se perdesse aquele miser\u00e1vel punhado de moedas, que lhe restava al\u00e9m do\u2026 suic\u00eddio?\u2026 Que lhe restava no mundo, que n\u00e3o fosse rid\u00edculo e humilhante?\u2026<\/p>\n<p>E viu-se sem vint\u00e9m, esgueirando-se como uma sombra pelas ruas escuras, com as m\u00e3os escondidas nas algibeiras do sobretudo, fugindo de todos, desconfiado de que a sua irremedi\u00e1vel mis\u00e9ria fosse de longe pressentida como uma mol\u00e9stia infecta. Teve um calefrio de terror.<\/p>\n<p>As falazes hip\u00f3teses de salva\u00e7\u00e3o, que covardemente se lhe apresentavam ao esp\u00edrito, lembrando amigos ricos e recursos inconfess\u00e1veis, eram amargamente repelidas pelo seu orgulho, ainda n\u00e3o vencido.<\/p>\n<p>\u2013 Faites vos jeux, messieurs!<\/p>\n<p>exclamou o banqueiro.<\/p>\n<p>E D. Filipe sorriu resignado e triste, como respondendo afirmativamente para dentro de si mesmo \u00e0 voz que apelava para seus brios, e, depois de sacudir ainda uma vez as dez moedas, espalmou a sua linda m\u00e3o in\u00fatil e, com um ar mais do que nunca indiferente e sobranceiro, despejou-as na se\u00e7\u00e3o do vermelho que \u00e0 mesa lhe ficava em frente.<\/p>\n<p>\u2013 Rien ne va plus!<\/p>\n<p>Uma vertigem toldou-lhe a fingida calma.<\/p>\n<p>A pequena esfera de marfim girava j\u00e1 no quadrante da roleta. Fez-se em toda a sala um sil\u00eancio que do\u00eda de frio.<\/p>\n<p>Se naquele golpe, em vez de um n\u00famero vermelho, viesse um n\u00famero preto, pensou o desgra\u00e7ado, qualquer mendigo das ruas seria mais rico do que ele!\u2026<\/p>\n<p>E a bola girava j\u00e1 com menos for\u00e7a, prestes a tombar no n\u00famero vencedor.<\/p>\n<p>O fidalgo deixou-se cair assentado na cadeira, fincando os cotovelos na mesa e escondendo o rosto nas suas duas m\u00e3os abertas.<\/p>\n<p>A bola tombou no n\u00famero. Vermelho!<\/p>\n<p>Os dez lu\u00edses de D. Filipe transformaram-se em vinte. E o fidalgo n\u00e3o teve um gesto; esperou novo golpe, aparentemente imperturb\u00e1vel.<\/p>\n<p>O tabuleiro esvaziou-se e de novo se encheu de reluzentes paradas. O banqueiro fechou o jogo; a bola girou, caiu.<\/p>\n<p>Veio outra vez vermelho.<\/p>\n<p>D. Filipe continuou im\u00f3vel, sem tirar as m\u00e3os do rosto. Sobre os seus vinte lu\u00edses derramaram-se outros vinte.<\/p>\n<p>E o jogo continuou, silenciosamente.<\/p>\n<p>E, no meio do surdo ansiar dos que jogavam, um terceiro n\u00famero vermelho dobrou a parada de D. Filipe, que conservava a sua imobilidade de pedra.<\/p>\n<p>T\u00e3o forte,, por\u00e9m, era o arfar do seu peito, que todo o corpo lhe acompanhava as pulsa\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vermelho!<\/p>\n<p>E oitenta lu\u00edses despejaram-se sobre os oitenta lu\u00edses do jogador im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Vermelho!<\/p>\n<p>E o ouro come\u00e7ou a avultar defronte dele.<\/p>\n<p>Vermelho ainda!<\/p>\n<p>E as moedas iam formando j\u00e1 um c\u00f4moro de ouro defronte daquela figura est\u00e1tica, da qual s\u00f3 se viam distintamente as duas m\u00e3os, muito brancas, ligeiramente veiadas de azul puro.<\/p>\n<p>Ainda vermelho!<\/p>\n<p>E a figura imperturb\u00e1vel parecia agora de todo petrificada. E as duas m\u00e3os brancas pareciam fitar escarninhamente os outros jogadores, rindo por entre os dedos fixos.<\/p>\n<p>A imobilidade e a fortuna do singular parceiro come\u00e7avam a impressionar a todos.<\/p>\n<p>Vermelho!<\/p>\n<p>E j\u00e1 os olhares dos homens e das mulheres n\u00e3o se podiam despregar daquele misterioso companheiro de v\u00edcio, cuja fisionomia nenhum deles conhecia ainda, absorvido como at\u00e9 ent\u00e3o estivera cada qual no pr\u00f3prio jogo.<\/p>\n<p>Vermelho! Vermelho!<\/p>\n<p>E o monte de ouro ia crescendo, crescendo, defronte daquelas duas m\u00e3os que pareciam cada vez mais brancas, mais escarninhas, e mais ferradas ao rosto do jogador im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Vermelho! Vermelho! Vermelho!<\/p>\n<p>E as moedas alargavam a zona inteira, escorrendo por entre os cotovelos do jogador de pedra, e caiam-lhe pelas pernas inalter\u00e1veis, e rolavam tinindo pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Vermelho! E os jogadores esqueciam-se do pr\u00f3prio jogo para s\u00f3 atentar no jogo do singular conviva; \u00e0 espera todos que aquelas duas m\u00e3os de m\u00e1rmore se afastassem; que aquela escarninha m\u00e1scara ca\u00edsse, revelando algu\u00e9m.<\/p>\n<p>E a cada golpe uma nova riqueza vinha dobrar a riqueza acumulada defronte do sinistro mascarado de m\u00e1rmore. Em v\u00e3o, ao lado dele, uma formosa criatura, com ares de rainha e olhos de soubrette, aquecia-lhe havia meia hora a perna esquerda com a sua perna direita; em v\u00e3o, por detr\u00e1s da sua cadeira, formara-se um palpitante grupo de mulheres, que riam forte e lhe discutiam a fortuna, apostando, a cada novo golpe da sorte, se o original jogador sustentaria ou n\u00e3o o lance por inteiro.<\/p>\n<p>E j\u00e1 quando o vermelho era ainda uma vez anunciado pelo tr\u00eamulo banqueiro, partia de toda a sala uma explosiva exclama\u00e7\u00e3o de pasmo.<\/p>\n<p>Era preciso tocar a cada instante o t\u00edmpano, pedindo aten\u00e7\u00e3o e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Mas os coment\u00e1rios reproduziam-se, fervendo em torno da est\u00e1tua feliz. Uns protestavam contra a loucura daquela pertin\u00e1cia, pedindo para seu castigo um n\u00famero negro; outros se entusiasmavam com ela e soltavam bravos de aplauso; outros ainda calculavam o ouro acumulado, somando os lances.<\/p>\n<p>E o banqueiro, cada vez mais p\u00e1lido, tomava com a m\u00e3o tr\u00eamula a bola fat\u00eddica, e, a tremer, fazia-a girar na gamela dos n\u00fameros, e, a tremer, anunciava ofegante o n\u00famero vencedor que era sempre vermelho.<\/p>\n<p>Cada n\u00famero vinha acompanhado de um coro de pragas e gargalhadas.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, num desalento do capit\u00e3o vencido, o banqueiro, dando ainda o \u00faltimo vermelho, anunciou com uma voz de n\u00e1ufrago sem esperan\u00e7as:<\/p>\n<p>\u2013 Banca\u2026 \u00e0 gl\u00f3ria!<\/p>\n<p>Mas, nem assim, o imperturb\u00e1vel jogador misterioso fizera o menor gesto; ao passo que em redor dele se acotovelavam os viciosos de ambos os sexos e de todas as na\u00e7\u00f5es, formando uma rumorosa e irrequieta muralha, ansiosa de curiosidade.<\/p>\n<p>Chamaram-no de todos os lados, em todas as l\u00ednguas e em todos os tons.<\/p>\n<p>Ele se n\u00e3o moveu.<\/p>\n<p>Tocaram-lhe no ombro; tocaram-lhe na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Nada!<\/p>\n<p>Sacudiram-lhe o corpo.<\/p>\n<p>A est\u00e1tua continuou im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, dois homens, tomando cada um uma das m\u00e3os do fidalgo, arrancaram-lhas do rosto, enquanto um terceiro lhe levantava a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>E um s\u00f3 grito de horror partiu dentre toda aquela gente.<\/p>\n<p>Quem \u00e0 gl\u00f3ria levara a banca e ali estava im\u00f3vel a jogar com eles durante a noite, provocado pelas mulheres e invejado pelos homens, era um cad\u00e1ver frio, de olhos escancarados a boca semi-aberta, e com duas l\u00e1grimas compridas escorrendo pela algidez das faces contra\u00eddas.<\/p>\n<p>Largaram-no espavoridos; e o morto tombou com a cabe\u00e7a sobre a mesa, colando o rosto e as m\u00e3os de m\u00e1rmore sobre o seu ouro, como se o quisesse defender da cobi\u00e7a dos outros jogadores sobreviventes, que j\u00e1 discutiam aos gritos a legitimidade daquela posse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dez lu\u00edses! 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