{"id":467,"date":"2018-07-05T03:03:45","date_gmt":"2018-07-05T03:03:45","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=467"},"modified":"2018-07-05T03:06:22","modified_gmt":"2018-07-05T03:06:22","slug":"a-obra-de-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-obra-de-arte","title":{"rendered":"A Obra de Arte"},"content":{"rendered":"<p>Carregando sob o bra\u00e7o um objeto embrulhado no n\u00famero 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mam\u00e3e, assumiu uma express\u00e3o de tristeza e entrou no consult\u00f3rio do doutor Kochelkoff.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! meu grande jovem! \u2014 exclamou o m\u00e9dico. \u2014 Como vamos? O que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>Fechando as p\u00e1lpebras, Sacha p\u00f4s a m\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o e, comovido, falou:<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicola\u00ecevitch, e me encarregou de lhe agradecer\u2026 Mam\u00e3e s\u00f3 tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida\u2026 curando-me de grave enfermidade e\u2026 n\u00e3o sabemos como lhe agradecer.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! O que \u00e9 isso, meu jovem! \u2014 atalhou o m\u00e9dico, realizado. \u2014 N\u00e3o fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito\u2026<\/p>\n<p>Depois de observar o presente, o m\u00e9dico co\u00e7ou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.<\/p>\n<p>\u2014 Sim \u2014 murmurou \u2014, \u00e9 algo realmente magn\u00edfico\u2026 como diria?\u2026 um tanto ou quanto ousado\u2026 N\u00e3o \u00e9 apenas decotada; \u00e9\u2026 sei l\u00e1, que diabos!<\/p>\n<p>\u2014 Mas\u2026 por que diz isso?<\/p>\n<p>\u2014 Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.<\/p>\n<p>\u2014 Que modo mais exc\u00eantrico tem o senhor de interpretar a arte! \u2014 disse Sacha, ofendido. \u2014 \u00c9 um objeto art\u00edstico!\u2026 Olhe! Que beleza! Que eleg\u00e2ncia! \u00c9 de se ficar com a alma inundada de piedade, e com l\u00e1grimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra\u2026 Veja bem\u2026 Que movimentos! Que harmonia! Que express\u00e3o!\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo muito bem tudo isso, meu caro \u2014 interrompeu o m\u00e9dico \u2014, mas acontece que eu sou pai de fam\u00edlia. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras\u2026<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 evidente \u2014 disse Sacha \u2014 que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente art\u00edstico, causar\u00e1 uma impress\u00e3o diferente\u2026 Sou o filho \u00fanico de mam\u00e3e\u2026 somos pobres, e por isso n\u00e3o podemos lhe recompensar os seus cuidados; e n\u00e3o sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mam\u00e3e e eu\u2026 seu filho \u00fanico\u2026 lhe suplicamos de todo o cora\u00e7\u00e3o que aceite, como penhor de gratid\u00e3o\u2026 esta ninharia que\u2026 \u00c9 um bronze antigo\u2026 uma obra rara\u2026 de arte.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o havia necessidade \u2014 disse o m\u00e9dico, franzindo as sobrancelhas. \u2014 Por que raz\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, eu imploro ao senhor, n\u00e3o recuse! \u2014 continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. \u2014 Seria uma ofensa, a mam\u00e3e e a mim\u2026 Trata-se um objeto bel\u00edssimo\u2026 em bronze antigo. Foi heran\u00e7a de papai, guardada como uma querida lembran\u00e7a.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores\u2026 J\u00e1 mam\u00e3e e eu n\u00e3o nos ocupamos disso\u2026<\/p>\n<p>Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que n\u00e3o ousaria \u2014 nem tenho temperamento para isso \u2014 descrever.<\/p>\n<p>As figuras sorriam ostensivamente, dando a impress\u00e3o de que, n\u00e3o fossem retidas pela obriga\u00e7\u00e3o de suster o casti\u00e7al, teriam imediatamente fugido do pedestal dan\u00e7ado tal canc\u00e3 que, amigo leitor, nem \u00e9 bom imaginar.<\/p>\n<p>\u2014 O doutor, claro, est\u00e1 acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mam\u00e3e e a mim, uma enorme frustra\u00e7\u00e3o. Sou o filho \u00fanico de mam\u00e3e; o senhor me salvou a vida\u2026 Damos-lhe de presente o que de mais precioso possu\u00edmos, e\u2026 s\u00f3 tenho a tristeza de n\u00e3o nos pertencer o par do candelabro!<\/p>\n<p>\u2014 Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato\u2026 Minhas recomenda\u00e7\u00f5es \u00e0 sua m\u00e3e, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a quest\u00e3o! Meus garotos costumam vir aqui\u2026 Aparecem muitas senhoras\u2026 Mas deixo-o aqui, j\u00e1 que me parece imposs\u00edvel convenc\u00ea-lo!<\/p>\n<p>\u2014 Ora, n\u00e3o h\u00e1 de que me convencer! \u2014 disse Sacha com habilidade. \u2013 Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade n\u00e3o possuir o par!\u2026 Bem, vou indo, adeus, doutor.<\/p>\n<p>Depois da sa\u00edda de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, co\u00e7o orelha e concluiu:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode negar que \u00e9 magn\u00edfico. \u00c9 uma pena abrir m\u00e3o dele. Ao mesmo tempo \u00e9 imposs\u00edvel deix\u00e1-lo aqui\u2026 Hum\u2026 Est\u00e1 criado o problema\u2026 Poderia d\u00e1-lo de presente a quem?\u201d \u00b7<\/p>\n<p>Depois desta reflex\u00e3o, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo \u00edntimo, que gostaria de ter o objeto.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s mil maravilhas!\u201d, decidiu. \u201cUkof Ukhoff n\u00e3o aceita receber dinheiro de mim , mas ficar\u00e1 contente com esta lembran\u00e7a\u2026 E assim me livrarei deste inc\u00f4modo. Al\u00e9m do mais, ele \u00e9 solteiro e maroto\u2026\u201d \u00b7<\/p>\n<p>R\u00e1pido, o m\u00e9dico se vestiu, pegou o candelabro e foi at\u00e9 a casa do advogado.<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, amigo \u2014 disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada\u2026 \u2014 Venho lhe trazer uma recompensa pela amola\u00e7\u00e3o\u2026 J\u00e1 que n\u00e3o quer aceitar dinheiro meu, aceitar\u00e1 um pequeno presente\u2026 Ei-lo, meu amigo! \u00c9 um objeto magn\u00edfico!<\/p>\n<p>Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inef\u00e1vel encantamento.<\/p>\n<p>\u2014 Isso sim \u00e9 que \u00e9 obra de arte \u2014 disse, rindo \u00e0s gargalhadas. \u2014 Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido\u2026 \u00c9 maravilhoso! Onde foi que voc\u00ea encontrou tal preciosidade?<\/p>\n<p>Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lan\u00e7ou temerosos olhares para o lado da porta e disse:<\/p>\n<p>\u2014 No entanto, meu velho amigo, \u00e9 melhor levar de volta o seu presente. N\u00e3o posso aceit\u00e1-lo\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 quis saber, espantado, o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Porque\u2026 Mam\u00e3e vem aqui, meus clientes\u2026 e al\u00e9m do mais \u00e9 constrangedor em rela\u00e7\u00e3o aos criados\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Ora, essa \u00e9 boa!\u2026 Voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 a ousadia de recus\u00e1-lo. (E o m\u00e9dico agitou as m\u00e3os.) Eu ficaria ofendido!\u2026 Trata-se de um objeto de arte\u2026 Que movimentos! Que express\u00e3o!\u2026 N\u00e3o quero ouvir seus argumentos! Voc\u00ea me deixaria melindrado!<\/p>\n<p>\u2014 Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta\u2026<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, por\u00e9m, ainda a agitar as m\u00e3os e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>Sozinho em casa, o advogado p\u00f4s-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o m\u00e9dico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um objeto bel\u00edssimo\u201d, pensou. \u201cSeria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, \u00e9 inconveniente t\u00ea-lo em casa\u2026 Melhor seria oferec\u00ea-lo a algu\u00e9m\u2026 J\u00e1 sei, vou lev\u00e1-lo hoje \u00e0 noite ao c\u00f4mico Chachkine. O sacana adora as coisas desse g\u00eanero, e hoje \u00e9 justamente o dia de sua estr\u00e9ia\u2026\u201d<\/p>\n<p>Foi o que fez, t\u00e3o r\u00e1pido quanto pensou. \u00c0 noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao c\u00f4mico Chachkine.<\/p>\n<p>A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murm\u00farios de aprova\u00e7\u00e3o e de risadas que mais pareciam relinchos\u2026 Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: \u201cPode-se entrar?\u201d, logo a voz rouca do c\u00f4mico retumbava:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, cara amiga! Estou sem roupa!<\/p>\n<p>Terminado o espet\u00e1culo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os bra\u00e7os:<\/p>\n<p>\u2014 Onde vou colocar tamanha indec\u00eancia? Moro em casa de fam\u00edlia e recebo muitos artistas! E isso n\u00e3o \u00e9 como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..<\/p>\n<p>\u2014 Ora, por que n\u00e3o o vende, senhor? \u2014 aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. \u2014 Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. V\u00e1 l\u00e1 e pergunte pela senhora Smirnoff\u2026 Todo mundo a conhece.<\/p>\n<p>O c\u00f4mico resolveu seguir o conselho\u2026<\/p>\n<p>Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os \u00e1cidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade\u2026 Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor \u2014 disse, ofegante \u2014, imagine s\u00f3 nossa alegria!\u2026 Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!\u2026 Mam\u00e3e est\u00e1 se sentindo t\u00e3o feliz!\u2026 E o senhor me salvou a vida\u2026<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, tremendo de gratid\u00e3o, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 m\u00e9dico quis dizer alguma coisa mas n\u00e3o conseguiu. Perdera o uso da palavra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carregando sob o bra\u00e7o um objeto embrulhado no n\u00famero 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mam\u00e3e, assumiu uma express\u00e3o de tristeza e entrou no consult\u00f3rio do doutor Kochelkoff. \u2014 Ah! meu grande&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[19],"class_list":["post-467","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-anton-tchekhov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=467"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/467\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":470,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/467\/revisions\/470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}