{"id":472,"date":"2018-07-05T03:04:33","date_gmt":"2018-07-05T03:04:33","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=472"},"modified":"2018-07-05T03:06:22","modified_gmt":"2018-07-05T03:06:22","slug":"o-inimigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-inimigo","title":{"rendered":"O Inimigo"},"content":{"rendered":"<p>A noite desceu h\u00e1 muito sobre a paisa-gem de neve, uma noite escura e pro-funda, que envolve seres e coisas no sil\u00eancio e na paz. \u00c0quela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debru\u00e7ada so-bre o ber\u00e7o onde o menino n\u00e3o quer dormir. Varka tem apenas treze anos, \u00e9 pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos s\u00e3o tris-tes e vagos. Agora impulsiona suavemente o ber\u00e7o e canta baixinho, com voz branda, uma can\u00e7\u00e3o de ninar. \u201cDorme, menino bonito, que o bicho vem pegar\u2026\u201d Uma lamparina verde, acesa junto ao \u00edcone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; pe\u00e7as de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o com-partimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande c\u00edrculo verde, as sombras das pe\u00e7as de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas so-bre a estufa, sobre Varka e sobre o ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, est\u00e1 rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas for\u00e7as. Varka tem um sono terr\u00edvel, seus olhos se cerram apesar de todos os esfor\u00e7os; e ela acha que o menino jamais se acalma-r\u00e1. Por mais esfor\u00e7o que fa\u00e7a, sente que as p\u00e1lpebras se ligam, come\u00e7a a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os l\u00e1bios. Dentro dela cresce uma impress\u00e3o estranha, parece-lhe que o rosto \u00e9 de madeira e que a cabe\u00e7a \u00e9 pequena, como a de um alfinete. \u201cDorme, menino bonito\u2026\u201d Sua voz \u00e9 apenas percept\u00edvel, um cicio tr\u00eamulo na noite profun-da. Ouve-se agora o canto mon\u00f3tono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o ber\u00e7o geme, trist\u00edssimo.<\/p>\n<p>Todos esses ru\u00eddos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce m\u00fasica, boa para fazer dormir. Mas Varka n\u00e3o pode deitar-se, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patr\u00f5es a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela m\u00fasica aca-lentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terr\u00edvel que a subjuga. Quando poder\u00e1 estender-se no ch\u00e3o e dormir, dormir profun-damente, dormir e n\u00e3o acordar nunca mais?<\/p>\n<p>A lamparina est\u00e1 a ponto de apagar-se, a chama t\u00eanue oscila incerta. O c\u00edrculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua ca-be\u00e7a meio adormecida nascem sonhos vagos e fant\u00e1sticos. Atrav\u00e9s dos sonhos ela v\u00ea nu-vens negras correndo no c\u00e9u, nuvens que choram aos gritos, como crian\u00e7as de peito. O vento, por\u00e9m, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos \u00e0s costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bos-ques cobertos de neve. Subitamente os cami-nhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Por que \u00e9 que voc\u00eas fazem isso?<\/p>\n<p>\u2013 Para dormir! \u2013 dizem todos. Quere-mos dormir!<\/p>\n<p>E dormem tranq\u00fcilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respira\u00e7\u00f5es, o argar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.<\/p>\n<p>De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do tel\u00e9grafo, fazem tudo para despert\u00e1-los. \u201cDorme, menino bonito\u2026\u201d En-tre os sonhos a voz de Varka \u00e9 mais d\u00e9bil ainda.<\/p>\n<p>Pouco depois sonha que est\u00e1 em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamava-se Efim Stepanov, j\u00e1 morreu h\u00e1 muito tempo, mas ela o sente agora revolvendo-se no ch\u00e3o. N\u00e3o pode v\u00ea-lo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doen\u00e7a que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorce-se e range os dentes.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Varka saiu correndo, rumo \u00e0 casa senhorial, para dizer que o marido est\u00e1 morrendo, e ainda n\u00e3o voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi h\u00e1 muito tempo, j\u00e1 devia ter chegado.<\/p>\n<p>Varka est\u00e1 encostada na estufa, continua so-nhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um m\u00e9dico ainda mo\u00e7o para ver o agonizante. Entra em sil\u00eancio. Varka n\u00e3o consegue v\u00ea-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.<\/p>\n<p>\u2013 Acenda a luz \u2013 diz ele, por fim.<\/p>\n<p>Efim Stepanov range os dentes em res-posta e a m\u00e3e de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, \u00e0 procura de velas. Depois de um longo sil\u00eancio o doutor tira uma do bolso e acende-a.<\/p>\n<p>As faces do doente est\u00e3o roxas, as pupi-las brilham intensamente e os olhares pare-cem fundir-se estranhamente agudo no dou-tor e nas paredes.<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9 isso, homem? \u2013 pergunta o m\u00e9dico inclinando-se sobre ele. \u2013 H\u00e1 muito tempo que est\u00e1 doente?<\/p>\n<p>\u2013 Chegou na hora, doutor \u2013 respon-deu Efim Stepanov penosamente. \u2013 N\u00e3o te-nho ilus\u00f5es.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o diga tolices. Voc\u00ea vai ver como fica bom.<\/p>\n<p>\u2013 Obrigado, doutor. Eu sei, por\u00e9m, que n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. Quando a morte diz \u201caqui estou\u201d, \u00e9 in\u00fatil lutar contra ela.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico olha demoradamente o velho e declara:<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 n\u00e3o posso fazer nada. \u00c9 preciso lev\u00e1-lo ao hospital para ser operado imedia-tamente. Ainda que seja tarde, n\u00e3o importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receber\u00e1 voc\u00ea. Mas sem perda de tempo!<\/p>\n<p>\u2013 Doutor, como havemos de lev\u00e1-lo? \u2013 pergunta a m\u00e3e. \u2013 N\u00e3o temos cavalos.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico olha-a um instante e depois diz:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tem import\u00e2ncia. Explicarei isso l\u00e1 na casa senhorial e eles mandar\u00e3o um.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribun-do.<\/p>\n<p>Meia hora depois um coche p\u00e1ra \u00e0 porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.<\/p>\n<p>Passa enfim a noite e sai o sol, a manh\u00e3 clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka est\u00e1 triste. Sua m\u00e3e foi ao hospital ver como passa o marido e ainda n\u00e3o voltou. Varka olha a paisagem atrav\u00e9s da janela meio carcomida, contempla a extens\u00e3o de neve, o cora\u00e7\u00e3o se confrange a solid\u00e3o pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma can\u00e7\u00e3o suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que \u00e9 a sua pr\u00f3pria voz que canta.<\/p>\n<p>Agora v\u00ea na dist\u00e2ncia o vulto negro de sua m\u00e3e na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignando-se.<\/p>\n<p>\u2013 Acabaram de oper\u00e1-lo, mas ele mor-reu! Deus o tenha no c\u00e9u. O doutor disse que a opera\u00e7\u00e3o foi feita demasiado tarde.<\/p>\n<p>Varka sai de casa e se dirige para o bos-que, ao longe. Cresce dentro dela um pro-fundo sentimento de dor e de m\u00e1goa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo do-lorido, os p\u00e9s terrivelmente frios a enterrarem-se na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a dist\u00e2ncia aumenta cada vez mais\u2026<\/p>\n<p>Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do ber\u00e7o. Acorda e v\u00ea com terror a cara tir\u00e2nica do patr\u00e3o, que grita:<\/p>\n<p>\u2013 Peste! O menino chorando e tu dor-mindo!<\/p>\n<p>O patr\u00e3o ainda lhe puxa as orelhas com for\u00e7a brutal, deixa-a humilde e at\u00f4nita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sa-code a cabe\u00e7a com for\u00e7a, para afugentar o sono irresist\u00edvel, e p\u00f5e-se de novo a embalar o ber\u00e7o, cantando com voz afogada.<\/p>\n<p>O c\u00edrculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patr\u00e3o sal ela volta a dormir, come\u00e7a outra vez a sonhar \u2013 e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra \u00famida. Ela tamb\u00e9m quer deitar-se, mas sua m\u00e3e caminha ao lado e n\u00e3o deixa. Varka n\u00e3o pode dormir, ambas se diri-gem a uma grande cidade em busca de traba-lho. De repente a m\u00e3e olha a multid\u00e3o, p\u00e1ra e estende a m\u00e3o, pedindo:<\/p>\n<p>\u2013 Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadecei-vos de n\u00f3s, bons crist\u00e3os!<\/p>\n<p>Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do so-nho, partindo a vis\u00e3o que lhe resta da m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1-me o menino! Outra vez dormin-do, peste!<\/p>\n<p>Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma p\u00e9 na realidade; n\u00e3o h\u00e1 caminho nem caminhantes, nem a m\u00e3e est\u00e1 junto dela. S\u00f3 v\u00ea a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.<\/p>\n<p>Enquanto o menino mama, ela espera de p\u00e9, pacientemente, meio tonta, esfor\u00e7ando-se para n\u00e3o dormir diante da patroa.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o come\u00e7a a azular-se atr\u00e1s dos vitrais, o c\u00edrculo verde do teto e as sombras v\u00e3o empalidecendo, desmaiando nas pare-des, a manh\u00e3 vem surgindo maravilhosa-mente branca.<\/p>\n<p>A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Volta-se para Varka berrando:<\/p>\n<p>\u2013 Toma o menino! N\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo. Sempre chorando, chorando!<\/p>\n<p>Ela estende os bra\u00e7os, deita a crian\u00e7a no ber\u00e7o e embala-o. O c\u00edrculo verde e as som-bras, menos percept\u00edveis a cada instante, j\u00e1 n\u00e3o exercem nenhuma influ\u00eancia sobre Varka, que j\u00e1 n\u00e3o os percebe. Apesar disso, en-tretanto, ela tem sono, um sono terr\u00edvel, e sua necessidade de dormir \u00e9 imperiosa, irresist\u00ed-vel. Ap\u00f3ia a cabe\u00e7a na borda do ber\u00e7o e deixa o corpo embalar-se, acompanhando o movi-mento r\u00edtmico, que provoca um ru\u00eddo seco e mon\u00f3tono, como um gemido. Os olhos est\u00e3o quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:<br \/>\n\u2013 Varka! acende a estufa!<br \/>\nJ\u00e1 \u00e9 dia, vai come\u00e7ar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o ber\u00e7o, corre \u00e0 estufa. Anima-se um pouco, acha mais f\u00e1cil resistir ao sono andando do que assenta-da. A n\u00e9voa que envolvia sua cabe\u00e7a vai-se dissipando.<br \/>\n\u2013 Varka! prepara o samovar! \u2013 grita a patroa.<br \/>\nAs ordens n\u00e3o cessam, s\u00e3o muitas e confundem-na.<br \/>\n\u2013 Varka, limpa as botinas do patr\u00e3o!<br \/>\nEnquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabe\u00e7a num daqueles sapat\u00f5es e dormir um tempo enorme. Subi-tamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espa\u00e7o enorme, c\u00f4ncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da m\u00e3o lentamente, p\u00f5e-se a dormir.<br \/>\nUm minuto apenas, e acorda sobres-saltada, faz um grande esfor\u00e7o, sacode a ca-be\u00e7a, abre os olhos o mais que pode.<\/p>\n<p>\u2013 Varka! Vai lavar a escada! Est\u00e1 t\u00e3o suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.<\/p>\n<p>Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaiv\u00e9m intermin\u00e1vel. S\u00e3o tantos os afa-zeres que ela n\u00e3o tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso \u00e9 ficar de p\u00e9, im\u00f3vel, diante da mesa da cozinha, descas-cando batatas. A cabe\u00e7a se inclina, sem que lhe seja poss\u00edvel evit\u00e1-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fan-t\u00e1sticas, suas m\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o podem sustent\u00e1-las. Mas n\u00e3o pode deixar-se vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali est\u00e1 a patroa, gorda e m\u00e1, indiferente ao seu supl\u00edcio. H\u00e1 momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no ch\u00e3o e dormir, dormir, dormir.<\/p>\n<p>Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infind\u00e1veis, os c\u00edlios prestes a ligarem-se pesados, o grande esfor\u00e7o para n\u00e3o dormir e os gritos da patroa.<\/p>\n<p>Enfim chega a noite e Varka olha as tre-vas atrav\u00e9s da janela, sente aquela mesma impress\u00e3o estranha de que seu rosto \u00e9 de madeira. Sorri de modo est\u00fapido, completa-mente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a espe-ran\u00e7a de poder dormir.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma visita naquela noite, movimen-tos diferentes, vozes confusas.<\/p>\n<p>\u2013 Varka, acende o samovar!<\/p>\n<p>O samovar \u00e9 pequeno, e para que todos possam tomar ch\u00e1, \u00e9 necess\u00e1rio acend\u00ea-lo muitas vezes. Servido o ch\u00e1, Varka fica de p\u00e9 a pequena dist\u00e2ncia, aguardando outras or-dens, os olhos fixos nos visitantes.<\/p>\n<p>\u201cVarka, serve a vodca! Varka, onde est\u00e1 isso? Varka, limpa um arenque!\u201d<\/p>\n<p>Finalmente a visita se vai, apagam-se as luzes, os patr\u00f5es se recolhem. E ela ouve a \u00faltima ordem:<\/p>\n<p>\u2013 Varka, pega o menino!<\/p>\n<p>Novamente o quarto, a atmosfera carre-gada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o c\u00edrculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixando\u2013lhe a cabe\u00e7a enevoada. \u201cDorme, menino bo-nito\u2026\u201d<\/p>\n<p>A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua m\u00e3e; sente confusamente a figura do pai mo-ribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presen\u00e7a de tudo que a cerca. S\u00f3 sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindo-a de viver. Faz um esfor\u00e7o supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que for\u00e7a, que pot\u00eancia \u00e9 essa, t\u00e3o estranha e t\u00e3o grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e n\u00e3o a deixa dormir. Mas n\u00e3o com-preende nada, nenhuma id\u00e9ia precisa lhe acode. J\u00e1 sem for\u00e7as, tr\u00eamula e abatida, olha o c\u00edrculo verde e as sombras. Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no cora\u00e7\u00e3o de Varka, enche-lhe a cabe\u00e7a cansada, como uma s\u00fabita revela\u00e7\u00e3o. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. \u201cEsse \u00e9 o inimigo que n\u00e3o me deixa viver. O inimigo \u00e9 o menino.\u201d P\u00f5e-se a rir, acha estranho n\u00e3o ter compreendido isso at\u00e9 agora, a id\u00e9ia lhe parece clara e simples. \u201cO inimigo \u00e9 o menino.\u201d Completamente ab-sorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, d\u00e1 alguns passos pelo quar-to. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertar\u00e1 do menino inimigo. \u00c9 s\u00f3 mat\u00e1-lo, e depois poder\u00e1 dormir o tempo que quiser, tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do ber\u00e7o, pisando de leve. Inclina-se sobre o menino, qualquer coisa de tr\u00e1gico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora sim-ples, objetivo \u2013 uma sensa\u00e7\u00e3o de leveza em todos os seus movimentos. As m\u00e3os \u00e1geis apalpam o pequeno corpo, sobem at\u00e9 a gar-ganta, e v\u00e3o apertando, apertando, entrela\u00e7adas, como elos de a\u00e7o. O menino torna-se azul, contorce-se num r\u00e1pido e \u00faltimo movi-mento de desespero, depois estremece ape-nas, o corpinho fr\u00e1gil e distendido se aquieta para sempre. Est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensa\u00e7\u00e3o de liberdade. E submerge-se num grande sono, profundo e sem sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite desceu h\u00e1 muito sobre a paisa-gem de neve, uma noite escura e pro-funda, que envolve seres e coisas no sil\u00eancio e na paz. \u00c0quela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debru\u00e7ada so-bre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[19],"class_list":["post-472","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-anton-tchekhov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=472"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":475,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/472\/revisions\/475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}