{"id":476,"date":"2018-07-05T03:05:45","date_gmt":"2018-07-05T03:05:45","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=476"},"modified":"2018-07-05T03:06:21","modified_gmt":"2018-07-05T03:06:21","slug":"cronologia-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/cronologia-viva","title":{"rendered":"Cronologia Viva"},"content":{"rendered":"<p>O sal\u00e3o do Conselheiro de Estado Charamikin est\u00e1 mergulhado em agrad\u00e1vel penumbra. A grande l\u00e2mpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, \u00e0 maneira de uma \u201cnoite da Ucr\u00e2nia\u201d, as paredes, os m\u00f3veis, as fisionomias\u2026 De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clar\u00e3o de inc\u00eandio. Isto, por\u00e9m, n\u00e3o perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mant\u00e9m-se.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de su\u00ed\u00e7as cinzentas de funcion\u00e1rio, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melanc\u00f3lico franze-lhe os l\u00e1bios. A seus p\u00e9s, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se pregui\u00e7osamente, est\u00e1 sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.<\/p>\n<p>Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin \u2013 Nina, K\u00f3lia, N\u00e1dia e V\u00e2nia.<\/p>\n<p>Do sal\u00e3o da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz t\u00edmida. Ali, sentada \u00e0 secret\u00e1ria, v\u00ea-se Ana Pavlovna, presidenta do Comit\u00ea das damas da cidade \u2014 jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Atrav\u00e9s do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas p\u00e1ginas de um romance franc\u00eas. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relat\u00f3rio do Comit\u00ea, do ano anterior.<\/p>\n<p>\u2014 Antigamente, nesse ponto de vista \u2014 diz Charamikin, piscando os olhos pacatos \u00e0 claridade dos ti\u00e7\u00f5es morredi\u00e7os \u2014, nossa cidade era mais favorecida. N\u00e3o se passava um inverno que n\u00e3o aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores c\u00e9lebres. E agora?\u2026 Sabe o diabo o que \u00e9! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, n\u00e3o vem mais ningu\u00e9m. Nenhum prazer est\u00e9tico\u2026 Parece que vivemos no mato\u2026 Sim\u2026 Lembra-se, Excel\u00eancia, daquele tr\u00e1gico italiano?\u2026 Como se chamava mesmo?\u2026 Um moreno, alto\u2026 Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento not\u00e1vel\u2026 Que for\u00e7a! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espet\u00e1culos\u2026 Ele, em recompensa, lhe deu li\u00e7\u00f5es de declama\u00e7\u00e3o e de m\u00fasica. Um amor de homem! Ele esteve aqui\u2026 n\u00e3o v\u00e1 eu enganar-me\u2026 h\u00e1 doze anos\u2026 N\u00e3o, estou enganado\u2026 Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?<\/p>\n<p>\u2014 Vai fazer dez anos \u2014 gritou Ana Pavlovna l\u00e1 do seu escrit\u00f3rio. \u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Nada, minha filhinha, s\u00f3 para saber\u2026 E \u00e0s vezes tamb\u00e9m vinham bons cantores\u2026 Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que apar\u00eancia!\u2026 Um louro\u2026 semblante expressivo, maneiras parisienses\u2026 E que voz, Excel\u00eancia! S\u00f3 tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o r\u00e9 em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick\u2026 Anniutotchka e eu conseguimos para ele o sal\u00e3o do C\u00edrculo, e, como prova de gratid\u00e3o, ele cantava em nossa casa, dias e noites\u2026 Ensinava canto a Anniutotchka\u2026 Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto h\u00e1\u2026 doze anos. N\u00e3o, mais!\u2026 Que mem\u00f3ria, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena N\u00e1dia?<\/p>\n<p>\u2014 Doze anos.<\/p>\n<p>\u2014 Doze\u2026 se acrescentarmos dez meses\u2026 Exatamente\u2026 treze anos!\u2026 Antigamente havia na cidade \u2014 como direi? \u2014 mais vida\u2026 Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de benefic\u00eancia. Que belos saraus que houve\u2026 Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se\u2026 Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benef\u00edcio dos feridos. Rendeu mil e cem rublos\u2026 Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a m\u00e3o. Eh! eh!\u2026 Apesar de asi\u00e1ticos, s\u00e3o pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcan\u00e7ou tamanho \u00eaxito que \u2014 imagine V. Exa. \u2014 eu anotei no meu di\u00e1rio. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76\u2026 N\u00e3o\u2026 Em 77\u2026 N\u00e3o! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?<\/p>\n<p>\u2014 Eu tenho sete anos, papai \u2014 disse K\u00f3lia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carv\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, a gente envelhece \u2014 assenta Charamikin, sorrindo. \u2014 A nossa energia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma\u2026 Eis a\u00ed a raz\u00e3o de tudo\u2026 A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram\u2026 J\u00e1 n\u00e3o se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais mo\u00e7o, n\u00e3o gostava que as pessoas se aborrecessem\u2026 Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna\u2026 Tratava-se de organizar um sarau de benefic\u00eancia, uma t\u00f4mbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia m\u00e3os \u00e0 obra\u2026 Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que ca\u00ed doente\u2026 N\u00e3o posso esquecer esse inverno\u2026 Lembra-se do espet\u00e1culo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benef\u00edcio das v\u00edtimas do inc\u00eandio?<\/p>\n<p>\u2014 Em que ano foi isso?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz muito tempo\u2026 Em 79. N\u00e3o, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso V\u00e2nia?<\/p>\n<p>\u2014 Cinco anos \u2014 grita Ana Pavlovna l\u00e1 do seu sal\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o foi h\u00e1 seis anos\u2026 Sim, meu caro, tantas coisas\u2026 Agora j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada disso! O ardor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>Lopnef e Charamikin meditam. A acha morredi\u00e7a aviva-se pela \u00faltima vez e se cobre de cinza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sal\u00e3o do Conselheiro de Estado Charamikin est\u00e1 mergulhado em agrad\u00e1vel penumbra. A grande l\u00e2mpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, \u00e0 maneira de uma \u201cnoite da Ucr\u00e2nia\u201d, as paredes, os m\u00f3veis, as fisionomias\u2026&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[19],"class_list":["post-476","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-anton-tchekhov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=476"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":479,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476\/revisions\/479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}