{"id":477,"date":"2018-07-05T03:05:58","date_gmt":"2018-07-05T03:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=477"},"modified":"2018-07-05T03:06:21","modified_gmt":"2018-07-05T03:06:21","slug":"o-bilhete-premiado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-bilhete-premiado","title":{"rendered":"O Bilhete Premiado"},"content":{"rendered":"<p>Ivan Dm\u00edtritch, homem remediado que vivia com a fam\u00edlia na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sof\u00e1 e come\u00e7ou a ler o jornal.<\/p>\n<p>\u2013 Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje \u2013 disse sua mulher tirando a mesa. \u2013 D\u00ea uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.<\/p>\n<p>\u2013 Saiu \u2013 respondeu Ivan Dm\u00edtritch -, mas voc\u00ea n\u00e3o penhorou seu bilhete?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. Paguei os juros na ter\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Qual \u00e9 o n\u00famero?<\/p>\n<p>\u2013 A s\u00e9rie \u00e9 9499, bilhete 26.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o\u2026 Vejamos\u2026 9499 e 26.<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch n\u00e3o acreditava na sorte da loteria e em outra ocasi\u00e3o jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, por\u00e9m, que n\u00e3o tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os n\u00fameros da s\u00e9rie. E n\u00e3o \u00e9 que logo de cara, corno que para zombar de sua descren\u00e7a, j\u00e1 no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o n\u00famero do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se algu\u00e9m lhe tivesse derramado \u00e1gua na barriga, sentiu um friozinho agrad\u00e1vel no fundo do est\u00f4mago. Era urna sensa\u00e7\u00e3o de coceira terr\u00edvel e deliciosa ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>\u2013 Macha \u2013 disse com voz surda -, o 9499 est\u00e1 aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido n\u00e3o estava brincando.<\/p>\n<p>\u2013 9499? \u2013 perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sim\u2026 Est\u00e1, de verdade!<\/p>\n<p>\u2013 E o n\u00famero do bilhete?<\/p>\n<p>\u2013 E mesmo! Ainda falta o n\u00famero do bilhete. Mas tenha paci\u00eancia\u2026 espere. Ent\u00e3o, que tal? De qualquer modo o n\u00famero de nossa s\u00e9rie est\u00e1, hem? De qualquer modo, entendeu?\u2026<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma crian\u00e7a a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher tamb\u00e9m sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a s\u00e9rie e n\u00e3o ter tido pressa em saber do n\u00famero do feliz bilhete. E t\u00e3o delicioso, t\u00e3o angustiante consumir-se e espica\u00e7ar-se na esperan\u00e7a de uma felicidade poss\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2013 A nossa s\u00e9rie est\u00e1 \u2013 disse Ivan Dm\u00edtritch depois de um longo sil\u00eancio. \u2013 Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 bem, mas agora, olhe.<\/p>\n<p>\u2013 Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o pr\u00eamio \u00e9 de 75 mil. Isso n\u00e3o \u00e9 dinheiro, \u00e9 uma for\u00e7a, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e l\u00e1 estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?<\/p>\n<p>Os c\u00f4njuges come\u00e7aram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles n\u00e3o conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os n\u00fameros 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imagina\u00e7\u00e3o, mas a id\u00e9ia da felicidade, que estava t\u00e3o pr\u00f3xima, parecia n\u00e3o lhes passar pela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas m\u00e3os e s\u00f3 quando a primeira impress\u00e3o se acalmou \u00e9 que, aos poucos, come\u00e7ou a sonhar.<\/p>\n<p>\u2013 E se tivermos ganho? \u2013 disse. \u2013 Seria uma vida nova, uma cat\u00e1strofe! O bilhete \u00e9 seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum im\u00f3vel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mob\u00edlia nova\u2026 uma viagem\u2026 pagamento de d\u00edvidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Realmente, uma propriedade seria \u00f3timo \u2013 disse a mulher sentando-se e deixando cair os bra\u00e7os no colo. \u2013 Nalgum canto, na regi\u00e3o de Tula ou de Orl\u00f3v\u2026 Em primeiro lugar, n\u00e3o seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, n\u00e3o deixa de ser uma renda.<\/p>\n<p>E na imagina\u00e7\u00e3o dele come\u00e7aram a se aglomerar imagens, uma mais po\u00e9tica e apraz\u00edvel que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranq\u00fcilo, saud\u00e1vel e chegou a sentir um calorzinho agrad\u00e1vel, um calorz\u00e3o, mesmo! L\u00e1 est\u00e1 ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma t\u00edlia\u2026 Faz calor\u2026 O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou ca\u00e7am algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa n\u00e3o ter de ir ao servi\u00e7o nem hoje, nem amanh\u00e3, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou ent\u00e3o ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrast\u00e3o. Ao p\u00f4r-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um temp\u00e3o alisando o peito nu com as palmas das m\u00e3os e finalmente cai n\u2019\u00e1gua. Na \u00e1gua, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sab\u00e3o e as plantas aqu\u00e1ticas balan\u00e7am na corrente. Depois do banho, um ch\u00e1 com creme e rosquinhas doces\u2026 \u00c0 noite, um passeio ou uma partida de u\u00edste com os vizinhos.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, seria bom comprar uma propriedade \u2013 diz a mulher, tamb\u00e9m sonhando. L\u00ea-se em seu rosto que est\u00e1 encantada com os pr\u00f3prios pensamentos.<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa \u00e9poca \u00e9 preciso andar um temp\u00e3o pelo jardim, pela horta, pela margem do rio at\u00e9 sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto \u2013 tomar outro trago. As crian\u00e7as v\u00eam correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra\u2026 Depois, estirar-se no sof\u00e1 e folhear uma revista qualquer, sem pressa, at\u00e9 que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se\u2026<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o veranico o tempo \u00e9 fechado, ruim. Chove dia e noite. As \u00e1rvores despidas choram, o vento \u00e9 \u00famido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas \u2013 n\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o esteja molhado, melanc\u00f3lico, encolhido. N\u00e3o se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas emba\u00e7adas. Que coisa enfadonha!<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch parou e olhou para a mulher.<\/p>\n<p>\u2013 Sabe de uma coisa, Macha, eu iria \u00e9 para o estrangeiro.<\/p>\n<p>E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da Fran\u00e7a, para a It\u00e1lia\u2026 Para a \u00cdndia!<\/p>\n<p>\u2013 Eu tamb\u00e9m iria para o estrangeiro correndo \u2013 disse a mulher. \u2013 Mas olhe o n\u00famero do bilhete!<\/p>\n<p>\u2013 Espere! Daqui a pouco\u2026<\/p>\n<p>Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar \u00e9 bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e n\u00e3o com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crian\u00e7as, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dm\u00edtritch imaginou sua mulher no vag\u00e3o, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabe\u00e7a, que gastou muito dinheiro. \u00c9 preciso correr na esta\u00e7\u00e3o atr\u00e1s de \u00e1gua quente, sandu\u00edches, \u00e1gua pot\u00e1vel. Almo\u00e7ar ela n\u00e3o pode, custa caro\u2026<\/p>\n<p>\u201cTenho certeza que ela iria controlar cada copeque\u201d, pensou ele, olhando para a mulher. \u201cO bilhete \u00e9 dela, n\u00e3o \u00e9 meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que \u00e9 que lhe falta ver l\u00e1 de importante? J\u00e1 sei. Ficar\u00e1 fechada o tempo todo no hotel e n\u00e3o me deixar\u00e1 desgrudar dela um s\u00f3 momento.\u201d<\/p>\n<p>E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era mo\u00e7o, saud\u00e1vel, vi\u00e7oso, bom para se casar uma segunda vez.<\/p>\n<p>\u201cClaro, tudo isso \u00e9 bobagem, \u00e9 besteira\u201d, pensou. \u201cMas\u2026 para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria l\u00e1? Mas iria mesmo\u2026 Imagino. Para ela N\u00e1poles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria tranc\u00e1-lo a sete chaves, como faz o mulherio\u2026 Iria escond\u00ea-lo de mim\u2026 Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irm\u00e3ozinhos, irm\u00e3zinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha s\u00f3rdida! Se lhe oferecem a m\u00e3o, pegam o bra\u00e7o. Se n\u00e3o lhe oferecem, amaldi\u00e7oam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ivan Dm\u00edtritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferen\u00e7a, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o uns canalhas\u201d, ele pensou.<\/p>\n<p>E o rosto da mulher come\u00e7ou tamb\u00e9m a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu \u00edntimo come\u00e7ou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: \u201cN\u00e3o entende nada de dinheiro, por isso \u00e9 avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 olhava agora para a mulher com \u00f3dio e n\u00e3o mais com um sorriso. Ela tamb\u00e9m olhava para ele com maldade e com \u00f3dio. Ela tinha seus pr\u00f3prios sonhos dourados, seus pianos, suas id\u00e9ias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avan\u00e7ar no que ela teria ganho.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 bom sonhar por conta dos outros!\u201d, dizia o olhar dela. \u201cN\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o conseguir\u00e1!\u201d.<\/p>\n<p>O marido compreendeu seu olhar: o \u00f3dio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou r\u00e1pido na quarta p\u00e1gina do jornal e anunciou solene:<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e9rie 9499, bilhete 46! N\u00e3o 26!<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a e o \u00f3dio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dm\u00edtritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 o diabo sabe \u2013 disse Ivan Dm\u00edtritch, come\u00e7ando a implicar. \u2013 Por todo lado que eu pise, s\u00f3 h\u00e1 pap\u00e9is, migalhas, casquinhas, sei l\u00e1. Ser\u00e1 que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira \u00e1rvore.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ivan Dm\u00edtritch, homem remediado que vivia com a fam\u00edlia na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sof\u00e1 e come\u00e7ou a ler o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[19],"class_list":["post-477","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-anton-tchekhov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=477"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":481,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477\/revisions\/481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}