{"id":493,"date":"2018-07-05T05:30:08","date_gmt":"2018-07-05T05:30:08","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=493"},"modified":"2018-07-09T02:57:55","modified_gmt":"2018-07-09T02:57:55","slug":"o-cafe-de-surata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-cafe-de-surata","title":{"rendered":"O Caf\u00e9 de Surata"},"content":{"rendered":"<p>Havia em Surata um caf\u00e9 onde muitos estrangeiros se reuniam \u00e0 tarde. Certo dia a\u00ed foi um \u201cseidre\u201d persa, ou doutor da lei que escrevera toda a sua vida sobre a teologia e que n\u00e3o mais acreditava em Deus. \u201cQue \u00e9 Deus? dizia; de onde vem? Quem o criou? onde est\u00e1? Se fosse um corpo n\u00f3s o ver\u00edamos; se fosse um esp\u00edrito seria inteligente e justo: n\u00e3o permitiria que houvesse infelizes sobre a terra. Eu pr\u00f3prio, ap\u00f3s tanto haver trabalhado a seu servi\u00e7o, seria pont\u00edfice em Ispahan e n\u00e3o teria sido obrigado a fugir da P\u00e9rsia, depois de haver procurado esclarecer os homens. Logo, Deus n\u00e3o existe. Destarte o doutor, transviado por sua ambi\u00e7\u00e3o, \u00e0 for\u00e7a de raciocinar sobre a raz\u00e3o primeira de todas as coisas, acabara perdendo a sua e acreditando que n\u00e3o era a sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia que deixara de existir, mas sim aquela que governa o universo. Tinha como escravo um cafre quase nu, que ficou \u00e0 porta do caf\u00e9. Quanto a ele, foi deitar-se num div\u00e3 e tomou uma tapa de coquenar ou de \u00f3pio. Quando essa bebida come\u00e7ou a esquentar-lhe o c\u00e9rebro, dirigiu-se ao escravo que estava sentado numa pedra, ao sol, entretido em afugentar as moscas que o devoravam, e disse-lhe: \u201cMiser\u00e1vel negro, acredita na exist\u00eancia de Deus?\u201d \u2013 \u201cQuem pode duvidar?\u201d . Respondeu-lhe o cafre. Pronunciando essas palavras, o cafre tirou da tanga que lhe rodeava a cintura uma figurinha de madeira e disse: \u201cAqui est\u00e1 o Deus que me protege desde que estou no mundo; \u00e9 feito de um galho da \u00e1rvore sagrada de minha terra.\u201d Todos as pessoas que se encontravam no caf\u00e9 ficaram t\u00e3o surpresas com a pergunta do senhor quanto com a resposta do escravo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um br\u00e2mane, encolhendo os ombros, disse ao negro: \u201cPobre imbecil, como, levas teu deus em tua cintura? Saiba que o \u00fanico Deus que h\u00e1 \u00e9 Brama, criador do mundo, e cujos tempos ficam \u00e0s margens do Ganges. Os br\u00e2manes s\u00e3o os seus \u00fanicos sacerdotes e \u00e9 por sua especial prote\u00e7\u00e3o que eles subsistem h\u00e1 cento e vinte mil anos, apesar de todas as revolu\u00e7\u00f5es da \u00cdndia\u201d. Imediatamente, um judeu, agenciador de neg\u00f3cios, tomou a palavra e disse: \u201cComo podem acreditar os br\u00e2manes que Deus s\u00f3 possui templos na \u00cdndia e que ele s\u00f3 exista para sua casta? O \u00fanico Deus \u00e9 o de Abra\u00e3o, cujo \u00fanico povo \u00e9 o de Israel. Ele conserva-o, embora dispersado por toda a terra, at\u00e9 reuni-lo em Jerusal\u00e9m para lhe dar o imp\u00e9rio das na\u00e7\u00f5es, quando tiver sido reedificado seu templo, outrora a maravilha do universo.\u201d Ao pronunciar essas palavras, o israelita derramou algumas l\u00e1grimas. Dispunha-se a prosseguir quando um italiano, trajado de azul, disse-lhe col\u00e9rico: \u201cEst\u00e1 fazendo Deus injusto, dizendo que ele s\u00f3 ama o povo de Israel. Ele repeliu-o h\u00e1 mais de mil e setecentos anos, como pode verificar pela sua pr\u00f3pria dispers\u00e3o. Hoje ele chama todos os homens para a Igreja Romana, fora da qual n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o.\u201d Um ministro protestante, da miss\u00e3o dinamarquesa de Trinquebar, respondeu empalidecendo ao mission\u00e1rio cat\u00f3lico: \u201cComo pode limitar a salva\u00e7\u00e3o dos homens a sua comunh\u00e3o id\u00f3latras? Saiba que s\u00f3 se salvar\u00e3o aqueles que, conforme os Evangelhos, adorarem Deus em esp\u00edrito e em verdade, sob a lei de Jesus.\u201d A\u00ed um turco, oficial da alf\u00e2ndega de Surata, que fumava seu cachimbo, disse gravemente aos dois crist\u00e3os: \u201cPadres, como podem restringir o conhecimento de Deus \u00e0s suas igrejas? A lei de Jesus foi abolida depois da chegada de Mafoma, o Par\u00e1clito predito pelo pr\u00f3prio Jesus, o Verbo de Deus. Sua religi\u00e3o subsiste apenas em alguns reinos, e foi sobre suas ru\u00ednas que a nossa se ergueu na mais bela parte da Europa, da \u00c1frica, da \u00c1sia e de suas ilhas. Ela hoje se acha instalada no trono do Mogol e espalha-se at\u00e9 a China, esse pa\u00eds de sabedoria. Os senhores mesmos reconhecem a condena\u00e7\u00e3o dos judeus \u00e0 sua humilha\u00e7\u00e3o; reconhe\u00e7am, portanto, a predestina\u00e7\u00e3o do Profeta \u00e0s suas vit\u00f3rias; s\u00f3 se salvar\u00e3o os amigos de Mafoma e de Omar; quanto aos seguidores de Ali, s\u00e3o infi\u00e9is.\u201d A tais palavras, o \u201cseidre\u201d, que era da P\u00e9rsia, onde o povo pertence \u00e0 seita de Ali, p\u00f4s-se a sorrir; mas come\u00e7ou no caf\u00e9 uma grande disputa por causa de todos os estrangeiros que pertenciam a v\u00e1rias religi\u00f5es e entre os quais ainda havia crist\u00e3os abiss\u00ednios, coptas, lamas t\u00e1rtaras, \u00e1rabes ismaealitas, e guebros, ou adoradores do fogo. Todos discutiam sobre a natureza de Deus e sobre seu culto, cada qual afirmando que a verdadeira religi\u00e3o s\u00f3 existia em sua terra.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m no caf\u00e9, um letrado da China, disc\u00edpulo de Conf\u00facio, que viajava para se instruir. Estava a um canto, tomando ch\u00e1, tudo ouvindo sem pronunciar palavra. O turco, funcion\u00e1rio de alf\u00e2ndega, dirigindo-se a ele, gritou com voz forte: \u201cBom chin\u00eas, que se conserva em sil\u00eancio, o senhor sabe que muitas religi\u00f5es penetraram na China? Assim mo disseram mercadores de seu pa\u00eds que necessitavam de meus servi\u00e7os, afirmando-me que a melhor era a de Mafoma. Renda, \u2013 a exemplo deles, justi\u00e7a \u00e0 verdade: que pensa, de Deus e da religi\u00e3o de seu Profeta?\u201d Fez-se ent\u00e3o profundo sil\u00eancio no caf\u00e9. O disc\u00edpulo de Conf\u00facio, retirando as m\u00e3os das largas mangas de sua veste, e cruzando-as sobre o peito, concentrou-se e disse em voz suave e pausada: \u201cSenhores, dir-lhes-ei, caso mo permitam, que a ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 que impede, em todas as coisas, que os homens fiquem de acordo. Se tiverem a paci\u00eancia de me ouvir, hei de lhes citar um exemplo que ainda est\u00e1 muito recente em minha mem\u00f3ria. Quando parti na China, com destino a Surata, embarquei num navio ingl\u00eas que fizera a volta do mundo. Durante a viagem, ancoramos na costa oriental de Sumatra. Cerca de meio-dia, havendo eu descido \u00e0 terra com muitos homens da tripula\u00e7\u00e3o, fomos sentar-nos \u00e0 beira-mar, junto a uma aldeola, debaixo de coqueiros a cuja sombra repousavam muitos homens de diferentes pa\u00edses. Entre eles havia um cego que perdera a vis\u00e3o \u00e0 for\u00e7a de contemplar o sol. Tivera a ambiciosa loucura de compreender sua natureza, a fim de apropriar-se de sua luz. Tentara todos os meios da \u00f3tica, da qu\u00edmica, e mesmo da necromancia, para encerrar numa garrafa um de seus raios; n\u00e3o havendo conseguido faze-lo, dizia: A luz do sol n\u00e3o \u00e9 absolutamente um fluido, porque n\u00e3o pode ser agitado pelo vento; n\u00e3o \u00e9 absolutamente um s\u00f3lido, porque n\u00e3o se pode partir; de modo algum um fogo, porque n\u00e3o se apaga na \u00e1gua; de modo algum \u00e9 esp\u00edrito, porque \u00e9 vis\u00edvel; n\u00e3o \u00e9 um corpo, porque n\u00e3o \u00e9 suscet\u00edvel de ser manejada; nem mesmo \u00e9 um movimento, porque n\u00e3o agita os corpos mais leves: logo, n\u00e3o \u00e9 coisa alguma\u201d. Afinal, de tanto contemplar o sol e raciocinar sobre sua luz, perdera os olhos, e, o que \u00e9 pior, a raz\u00e3o. Acreditava que n\u00e3o era a sua vis\u00e3o, mas sim o sol, que deixara de existir no universo. Tinha como guia um negro que, depois de fazer seu amo sentar-se \u00e0 sombra de um coqueiro, apanhou do ch\u00e3o um coco e posse a fazer uma candeia com a casca, uma mecha com a fibra, e a espremer um pouco de \u00f3leo do caro\u00e7o para p\u00f4-lo na candeia. Enquanto o negro estava assim entretido, disse-lhe o cego suspirando: \u201cEnt\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 mais luz no mundo? H\u00e1 a do sol, respondeu o negro. \u2013 Que \u00e9 o sol? retrucou o cego. \u2013 Nada sei a esse respeito, respondeu o africano, a n\u00e3o ser que come\u00e7o a trabalhar quando ele nasce e acabo quando se esconde. Sua luz interessa-me menos que a de minha candeia, que me ilumina em minha choupana; sem ela eu n\u00e3o poderia atende-lo durante a noite\u201d. E ent\u00e3o; apontando para o coquinho disse: \u201cAqui est\u00e1 meu sol\u201d. Ao ouvir isso um homem da aldeia, que andava com muletas, come\u00e7ou a rir. E, julgando que o cego nascera assim, disse-lhe: \u201cSaiba que o sol \u00e9 um globo de fogo que nasce todos os dias no mar e que se p\u00f5e todas as tardes no ocidente, nas montanhas de Sumatra. \u00c9 o que o senhor veria pessoalmente como todos n\u00f3s, se possu\u00edsse a vis\u00e3o\u201d. Um pescador tomou ent\u00e3o a palavra e disse ao coxo: \u201cBem se v\u00ea que o senhor nunca saiu de sua aldeia. Se possu\u00edsse pernas e tivesse dado a volta. \u00e0 ilha de Sumatra, saberia que o sol n\u00e3o se p\u00f5e em suas montanhas, mas sim, que todas as manh\u00e3s nasce do mar e todas as tardes volta a ele para se refrescar; \u00e9 o que todos os dias vejo ao longo da costa\u201d. Um habitante da pen\u00ednsula da \u00cdndia disse ent\u00e3o ao pescador: \u201cComo pode um homem dotado de senso comum acreditar que o sol seja um globo de fogo que todos os dias sai do mar e que a ele retorna sem se apagar? Saiba, assim, que o sol \u00e9 uma \u201cdenta\u201d ou divindade de meu pa\u00eds, que todos os dias percorre o c\u00e9u num carro, girando em torno da montanha de ouro da Meruwa, que quando se eclipsa \u00e9 que foi \u2013 devorado pelas serpentes Ragu e Quetu, das quais s\u00f3 se liberta com as ora\u00e7\u00f5es dos hindus nas margens do Ganges. \u00c9 uma ambi\u00e7\u00e3o bem louca, para um habitante de Sumatra julgar que ele s\u00f3 resplandece no horizonte de sua ilha; ela s\u00f3 pode entrar na cabe\u00e7a de um homem que apenas haja navegado numa piroga\u201d. Um \u201clascar\u201d, patr\u00e3o de um barco mercante que estava fundeado, tomou ent\u00e3o a palavra e disse: \u201cAmbi\u00e7\u00e3o ainda mais louca \u00e9 a de julgar que o sol prefere a \u00cdndia a todos os pa\u00edses do mundo. Viajei pelo mar Vermelho, nas costas da Ar\u00e1bia, em Madagascar, nas ilhas Molucas e nas Filipinas: o sol ilumina a todas essas regi\u00f5es tanto quanto a \u00cdndia. N\u00e3o gira absolutamente em torno de uma montanha; mas ergue-se nas ilhas do Jap\u00e3o por esse motivo chamadas Jepon ou Gue-puan, terra do sol nascente; e deita-se muito longe, no ocidente, atr\u00e1s das ilhas inglesas. Tenho toda a certeza, porque em crian\u00e7a o ouvi de meu av\u00f4, que viajara at\u00e9 os confins do mar.\u201d Ia prosseguir quando um marinheiro ingl\u00eas de nossa tripula\u00e7\u00e3o o interrompeu dizendo: \u201cN\u00e3o h\u00e1 regi\u00e3o onde se conhe\u00e7a melhor o curso do sol do que na Inglaterra; saiba, pois, que ele n\u00e3o se ergue nem se p\u00f5e em parte alguma. D\u00e1 sem cessar volta ao mundo; e tenho toda certeza disso, porque o mesmo acabamos de fazer e por toda parte o encontramos\u201d. Tomando, ent\u00e3o, um rotim das m\u00e3os de um dos ouvintes, tra\u00e7ou um c\u00edrculo na areia, procurando explicar-lhe o curso do sol de um tr\u00f3pico a outro; mas, n\u00e3o o conseguindo fazer, tomou como testemunha de tudo o que acabava de dizer o piloto de seu navio. O piloto que era um homem s\u00e1bio, e que ouvira toda a discuss\u00e3o sem dizer coisa alguma, quando viu todos os presentes manterem-se em sil\u00eancio para ouvi-lo, tomou palavra e disse: \u201cCada um de voc\u00eas engana os outros e engana-se. O sol n\u00e3o gira absolutamente em redor da terra; mas a terra \u00e9 que gira \u00e0 sua volta, apresentando-lhe sucessivamente, em cada vinte e quatro horas, as ilhas do Jap\u00e3o, as Filipinas, as Molucas, Sumatra, a \u00c1frica, a Europa, a Inglaterra, e muitas outras regi\u00f5es. O sol n\u00e3o brilha apenas para uma montanha, uma ilha, um horizonte, um mar, nem mesmo para a terra, mas encontra-se no centro do universo, de onde a ilumina e mais cinco outros planetas que tamb\u00e9m giram \u00e0 sua roda, e alguns dos quais s\u00e3o muito maiores que a terra e est\u00e3o muito mais distantes do sol, que ela. Assim, entre outros Saturno, de trinta mil l\u00e9guas de di\u00e2metro e que est\u00e1 a duzentos e oitenta e cinco milh\u00f5es de l\u00e9guas do sol. N\u00e3o me refiro \u00e0s luas, que refletem a luz do sol nos planetas dele afastados, e que s\u00e3o bastante numerosas. Cada um dos presentes teriam a id\u00e9ia dessas verdades si se contentasse em dirigir, \u00e0 noite, os olhos para o c\u00e9u e n\u00e3o tivesse a ambi\u00e7\u00e3o de julgar que o sol s\u00f3 brilha para a sua terra\u201d. Assim falou, com grande surpresa dos ouvintes, o piloto que dera a volta ao mundo e observara o firmamento.<\/p>\n<p>\u201cEm rela\u00e7\u00e3o a Deus, acrescentou o disc\u00edpulo de Conf\u00facio, acontece o mesmo que em rela\u00e7\u00e3o ao sol. Todos os homens acreditam possu\u00ed-lo com exclusividade, em sua capela, ou pelo menos em sua terra. Todos os povos julgam encerrar em seu templo aquele que o universo vis\u00edvel n\u00e3o cont\u00e9m. E entretanto haver\u00e1 algum templo compar\u00e1vel \u00e0quele que o pr\u00f3prio Deus ergueu para congregar todos os homens na mesma comunh\u00e3o. Todos os templos do mundo s\u00e3o feitos apenas \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do templo da natureza. Em quase todos eles se encontram lavabos ou pias, colunas, ab\u00f3badas, l\u00e2mpadas, est\u00e1tuas inscri\u00e7\u00f5es, livros da lei, sacrif\u00edcios, altares, sacerdotes. Mas em que templo haver\u00e1 uma pia t\u00e3o vasta quanto o mar, que n\u00e3o est\u00e1 contido numa concha? colunas t\u00e3o belas quanto as \u00e1rvores das florestas, ou dos pomares carregados de frutos? ab\u00f3bada t\u00e3o alta quanto o c\u00e9u e l\u00e2mpada t\u00e3o resplandecente quanto o sol? Onde veremos est\u00e1tuas t\u00e3o interessantes como tantas criaturas sens\u00edveis que se amam, que mutuamente se ajudam e que falam? Inscri\u00e7\u00f5es t\u00e3o leg\u00edveis e mais religiosos que as pr\u00f3prias merc\u00eas da natureza? um livro da lei t\u00e3o universal quanto o amor de Deus baseado em nosso reconhecimento e quanto o amor de nosso semelhante baseado em nossos pr\u00f3prios interesses? sacrif\u00edcios mais comoventes que o de nossos louvores \u00e0quele que tudo nos deu, e que o de nossas paix\u00f5es por aqueles com os quais tudo devemos partilhar? finalmente, um altar t\u00e3o augusto quanto o cora\u00e7\u00e3o do homem de bem, cujo pont\u00edfice \u00e9 o pr\u00f3prio Deus? Assim, quanto mais o homem ampliar o poder de Deus, tanto mais pr\u00f3ximo estar\u00e1 de conhec\u00ea-lo; e quanto mais indulg\u00eancia revelar para com os homens, tanto mais imitar\u00e1 sua bondade. Que aquele, portanto, que desfruta da luz divina, espalhada por todo o universo, n\u00e3o despreze o supersticioso que da mesma s\u00f3 distingue um raiozinho em seu \u00eddolo, nem mesmo o ateu que est\u00e1 inteiramente privado dela, de medo que em puni\u00e7\u00e3o de seu orgulho n\u00e3o lhe aconte\u00e7a como \u00e0quele fil\u00f3sofo que, querendo apossar-se da luz do c\u00e9u, cegou e viu-se reduzido, para se orientar, a servir-se da candeia de um negro.\u201d<\/p>\n<p>Assim falou o disc\u00edpulo de Conf\u00facio; e todas as pessoas presentes no caf\u00e9, que discutiam quanto \u00e0 primazia de sua religi\u00e3o, conservaram-se em profundo sil\u00eancio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia em Surata um caf\u00e9 onde muitos estrangeiros se reuniam \u00e0 tarde. 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