{"id":495,"date":"2018-07-05T05:30:43","date_gmt":"2018-07-05T05:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=495"},"modified":"2018-07-05T05:32:22","modified_gmt":"2018-07-05T05:32:22","slug":"o-brinquedo-do-pobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-brinquedo-do-pobre","title":{"rendered":"O Brinquedo do Pobre"},"content":{"rendered":"<p>Quero dar a id\u00e9ia de uma distra\u00e7\u00e3o inocente. H\u00e1 poucas divers\u00f5es que o sejam!<\/p>\n<p>Quando sair de manh\u00e3 com a inten\u00e7\u00e3o de vagar pelas estradas, enche o bolso de pequeninas inven\u00e7\u00f5es baratas \u2013 como o polichinelo simples de uma corda s\u00f3, os ferreiros que malham a bigorna, o cavaleiro e o cavalo de cauda em forma de apito \u2013 e pelos cabar\u00e9s embaixo das \u00e1rvores presta com elas homenagem \u00e0s crian\u00e7as pobres e desconhecidas que encontrar. Ver\u00e1s aumentarem desmesuradamente os seus olhos.<\/p>\n<p>Primeiro, elas n\u00e3o ousar\u00e3o tocar em nada, n\u00e3o acreditar\u00e3o na sua felicidade. Depois, suas m\u00e3os agarrar\u00e3o com vivacidade o presente e elas fugir\u00e3o como os gatos que, tendo aprendido a desconfiar do homem, v\u00e3o comer longe o bocado que ganharam.<\/p>\n<p>Numa estrada, por tr\u00e1s das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma crian\u00e7a terna e bela, vestida com essas roupas do campo t\u00e3o cheias de coqueteria.<\/p>\n<p>O luxo, a indol\u00eancia e o espet\u00e1culo habitual da riqueza tornam essas crian\u00e7as t\u00e3o bonitas que parecem feitas de outra massa que n\u00e3o a dos filhos da mediocridade ou da pobreza.<br \/>\nAo lado dela, sobre a grama, um brinquedo espl\u00eandido, t\u00e3o vi\u00e7oso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de p\u00farpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a crian\u00e7a n\u00e3o ligava para seu brinquedo predileto, antes olhava isto:<\/p>\n<p>Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra crian\u00e7a, suja, mirrada, fuliginosa, um desses p\u00e1rias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante p\u00e1tina da mis\u00e9ria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dessas grades simb\u00f3licas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a crian\u00e7a pobre mostrava \u00e0 rica o seu brinquedo, que a segundo examinava avidamente, como um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balan\u00e7ava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extra\u00eddo o brinquedo da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>E as duas crian\u00e7as riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero dar a id\u00e9ia de uma distra\u00e7\u00e3o inocente. H\u00e1 poucas divers\u00f5es que o sejam! Quando sair de manh\u00e3 com a inten\u00e7\u00e3o de vagar pelas estradas, enche o bolso de pequeninas inven\u00e7\u00f5es baratas \u2013 como o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"class_list":["post-495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-charles-baudelaire"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":499,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/495\/revisions\/499"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}