{"id":504,"date":"2018-07-05T05:31:55","date_gmt":"2018-07-05T05:31:55","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=504"},"modified":"2018-07-05T05:35:51","modified_gmt":"2018-07-05T05:35:51","slug":"o-mau-vidraceiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-mau-vidraceiro","title":{"rendered":"O Mau Vidraceiro"},"content":{"rendered":"<p>Existem naturezas puramente contemplativas e totalmente impr\u00f3prias para a a\u00e7\u00e3o, que, no entanto, sob uma impuls\u00e3o misteriosa e desconhecida, agem \u00e0s vezes com uma rapidez de que elas pr\u00f3prias se julgariam incapazes.<\/p>\n<p>Como aquele que, temendo encontrar com o zelador uma not\u00edcia aflitiva, ronda covardemente durante uma hora frente \u00e0 porta da casa sem ousar entrar, como aquele que guarda durante quinze dias uma carta sem abri-la, ou s\u00f3 ao fim de seis meses se conforma em efetuar um empreendimento necess\u00e1rio desde um ano, elas se sentem \u00e0s vezes bruscamente precipitadas para a a\u00e7\u00e3o por uma for\u00e7a irresist\u00edvel, como a flecha de um arco. O moralista e o m\u00e9dico, que afirmam saber de tudo, n\u00e3o podem explicar de onde vem t\u00e3o de s\u00fabito uma louca energia nessas almas pregui\u00e7osas e voluptuosas, e como \u00e9 que elas, incapazes de cumprir as coisas mais simples e mais necess\u00e1rias, encontram em dado momento uma coragem de luxo para executar os atos mais absurdos e at\u00e9, muitas vezes, os mais perigosos.<\/p>\n<p>Um dos meus amigos, o mais inofensivo sonhador que j\u00e1 existiu, ateou fogo uma vez numa floresta, para ver, dizia, se o fogo pegava com tal facilidade como se afirma comumente. Dez vezes consecutivas a experi\u00eancia falhou; mas, na d\u00e9cima primeira, foi por demais bem sucedida.<\/p>\n<p>Outro ir\u00e1 acender um charuto ao lado de um barril de p\u00f3lvora, para ver, para saber, para tentar o destino, para se for\u00e7ar a si mesmo a dar provas de energia, para se fazer de jogador, para conhecer os prazeres da ansiedade, por nada, por capricho, por desocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de energia que jorra do t\u00e9dio e do devaneio; e aqueles nos quais ela se manifesta t\u00e3o inopinadamente s\u00e3o, geralmente, como eu disse, os mais indolentes e sonhadores dos seres.<\/p>\n<p>Outro, t\u00edmido a ponto de abaixar os olhos mesmo diante dos olhares dos homens, a ponto de ser-lhe preciso ajuntar toda a sua pobre vontade para entrar num bar ou passar diante de uma bilheteria de teatro, onde os fiscais lhe parecem investidos da majestade de Minos, \u00c9aco e Radamanto, se jogar\u00e1 bruscamente nos bra\u00e7os de um anci\u00e3o que estiver passando ao seu lado, e o beijar\u00e1 com entusiasmo diante da multid\u00e3o espantada.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Porque\u2026 porque essa fisionomia lhe era irresistivelmente simp\u00e1tica? Talvez; mais \u00e9 mais leg\u00edtimo supor que ele pr\u00f3prio n\u00e3o saiba por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Fui v\u00edtima, mais uma vez, dessas crises e desses impulsos, que nos autorizam a crer que Dem\u00f4nios maliciosos se insinuam dentro de n\u00f3s e nos fazem cumprir, \u00e0 revelia, suas mais absurdas vontades.<\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, eu me levantara aborrecido, triste, cansado de ociosidade e levado, me parecia, a fazer algo, grande, uma a\u00e7\u00e3o de brilho; e abri a janela, infelizmente!<\/p>\n<p>(Queiram observar, por favor, que o esp\u00edrito de mistifica\u00e7\u00e3o, que em certas pessoas n\u00e3o \u00e9 resultado de um trabalho ou de uma combina\u00e7\u00e3o, mas de uma inspira\u00e7\u00e3o fortuita, tem parte, muito, mesmo que apenas ardor do desejo, neste humor, hist\u00e9rico segundo os m\u00e9dicos, sat\u00e2nico segundo aqueles que pensam um pouco melhor do que os m\u00e9dicos, que nos empurra sem resist\u00eancia para uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es perigosas ou inconvenientes.)<\/p>\n<p>A primeira pessoa que avistei na rua foi um vidraceiro cujo grito penetrante, dissonante, me veio atrav\u00e9s da pesada e suja atmosfera parisiense.<\/p>\n<p>Me seria, ali\u00e1s, imposs\u00edvel dizer por que fui tomado, em rela\u00e7\u00e3o a esse pobre homem, de um \u00f3dio t\u00e3o repentino quanto desp\u00f3tico.<\/p>\n<p>\u201cEi, ei\u201d e eu lhe gritei que subisse.<\/p>\n<p>Entretanto eu refletia, n\u00e3o sem certa alegria, que o quarto encontrando-se no sexto andar e sendo a escada bastante estreita, o homem deveria estar experimentando certa dificuldade em efetuar sua ascens\u00e3o, e esbarrando em diversos lugares os \u00e2ngulos de sua fr\u00e1gil mercadoria.<\/p>\n<p>Ele enfim apareceu: examinei com curiosidade todas as suas vidra\u00e7as, e lhe disse: \u201cMas como?<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o tem vidros coloridos? Vidros cor-de-rosa, vermelhos, azuis, vidros m\u00e1gicos, vidros de para\u00edso? Que atrevido \u00e9 voc\u00ea! Ousa passear pelos bairros pobres e nem mesmo possui vidros que tornem a vida bela de ser ver!\u201d<\/p>\n<p>E o empurrei com vivacidade para a escada na qual trope\u00e7ou resmungando. Aproximei-me da sacada e agarrei um vasinho de flores e, quando o homem reapareceu no v\u00e3o da porta, deixei cair perpendicularmente meu engenho de guerra na borda traseira de suas forquilhas; e derrubado pelo choque, ele acabou de destro\u00e7ar sob suas costas toda a sua pobre fortuna inconstante, que produziu o ru\u00eddo estrondoso de um pal\u00e1cio de cristal atingido por um raio.<\/p>\n<p>E, embriagado por minha loucura, gritei-lhe furiosamente:<\/p>\n<p>\u201cA vida bela de se ver! A vida bela de se ver!\u201d<\/p>\n<p>Essas brincadeiras nervosas n\u00e3o s\u00e3o isentas de perigo, e pode-se \u00e0s vezes pagar caro por elas. Mas o que importa a eternidade da dana\u00e7\u00e3o a quem encontrou num segundo o infinito da frui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem naturezas puramente contemplativas e totalmente impr\u00f3prias para a a\u00e7\u00e3o, que, no entanto, sob uma impuls\u00e3o misteriosa e desconhecida, agem \u00e0s vezes com uma rapidez de que elas pr\u00f3prias se julgariam incapazes. 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