{"id":508,"date":"2018-07-05T05:32:51","date_gmt":"2018-07-05T05:32:51","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=508"},"modified":"2018-07-05T05:32:51","modified_gmt":"2018-07-05T05:32:51","slug":"os-olhos-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/os-olhos-dos-pobres","title":{"rendered":"Os Olhos dos Pobres"},"content":{"rendered":"<p>Quer saber por que a odeio hoje? Sem d\u00favida lhe ser\u00e1 menos f\u00e1cil compreend\u00ea-lo do que a mim explic\u00e1-lo; pois acho que voc\u00ea \u00e9 o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. T\u00ednhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma s\u00f3; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.<\/p>\n<p>De noite, um pouco cansada, voc\u00ea quis se sentar num caf\u00e9 novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e j\u00e1 mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O caf\u00e9 resplandecia. O pr\u00f3prio g\u00e1s disseminava ali todo o ardor de uma estr\u00e9ia e iluminava com todas as suas for\u00e7as as paredes ofuscantes de brancura, as superf\u00edcies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de c\u00e3es, as damas rindo para o falc\u00e3o em suas m\u00e3os, as ninfas e deusas portando frutos na cabe\u00e7a, os pat\u00eas e a ca\u00e7a, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena \u00e2nfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a hist\u00f3ria e toda a mitologia a servi\u00e7o da comilan\u00e7a.<\/p>\n<p>Plantado diante de n\u00f3s, na cal\u00e7ada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela m\u00e3o um menino e no outro bra\u00e7o um pequeno ser ainda muito fr\u00e1gil para andar. Ele desempenhava o of\u00edcio de empregada e levava as crian\u00e7as para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes tr\u00eas rostos eram extraordinariamente s\u00e9rios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo caf\u00e9 com id\u00eantica admira\u00e7\u00e3o, mas diversamente nuan\u00e7ada pela idade.<\/p>\n<p>Os olhos do pai diziam: \u201cComo \u00e9 bonito! Como \u00e9 bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes.\u201d Os olhos do menino: \u201cComo \u00e9 bonito, como \u00e9 bonito, mas \u00e9 uma casa onde s\u00f3 entra gente que n\u00e3o \u00e9 como n\u00f3s.\u201d Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que n\u00e3o uma alegria est\u00fapida e profunda.<\/p>\n<p>Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somente essa fam\u00edlia de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos t\u00e3o belos e t\u00e3o estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando voc\u00ea me disse: \u201cEssa gente \u00e9 insuport\u00e1vel, com seus olhos abertos como portas de cocheira! N\u00e3o poderia pedir ao ma\u00eetre para os tirar daqui?\u201d<\/p>\n<p>Como \u00e9 dif\u00edcil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento \u00e9 incomunic\u00e1vel, mesmo entre pessoas que se amam!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quer saber por que a odeio hoje? Sem d\u00favida lhe ser\u00e1 menos f\u00e1cil compreend\u00ea-lo do que a mim explic\u00e1-lo; pois acho que voc\u00ea \u00e9 o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"class_list":["post-508","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-charles-baudelaire"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=508"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":509,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions\/509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}