{"id":563,"date":"2018-07-05T15:03:02","date_gmt":"2018-07-05T15:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=563"},"modified":"2018-07-05T15:09:38","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:38","slug":"o-suave-milagre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-suave-milagre","title":{"rendered":"O Suave Milagre"},"content":{"rendered":"<p>Nesse tempo Jesus ainda se n\u00e3o afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiber\u00edade \u2014 mas a nova dos seus milagres penetrara j\u00e1 at\u00e9 Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no pa\u00eds de Issacar.<\/p>\n<p>Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado \u00e0 beira da Fonte dos Verg\u00e9is, contou ainda que esse rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decuri\u00e3o romano, s\u00f3 com estender sobre ele a sombra das suas m\u00e3os; e que noutra manh\u00e3, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde come\u00e7ava a colheita do b\u00e1lsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem consider\u00e1vel e douto que comentava os livros na sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog \u2014 o homem, sem mesmo beber daquela \u00e1gua t\u00e3o fria de que bebera Josu\u00e9, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperan\u00e7a, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja at\u00e9 \u00c1scalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as crian\u00e7as, colhendo ramos de an\u00e9monas, espreitavam pelos caminhos se al\u00e9m da esquina do muro, ou de sob o sic\u00f4moro, n\u00e3o surgiria uma claridade, e nos bancos de pedra, \u00e0s portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, j\u00e1 n\u00e3o desenrolavam, com t\u00e3o sapiente certeza, os ditames antigos.<\/p>\n<p>Ora ent\u00e3o vivia em Enganim um velho, por nome Obed, de uma fam\u00edlia pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas \u2014 e com o cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o cheio de orgulho como seu celeiro de trigo. Mas um vento \u00e1rido e abrasado, esse vento de desola\u00e7\u00e3o que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, s\u00f3 deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos de cepas mirradas, e a parra ro\u00edda de crespa ferrugem. E Obed, agachado \u00e0 soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.<\/p>\n<p>Apenas ouvira por\u00e9m desse novo rabi da Galileia que alimentava as multid\u00f5es, amedrontava os dem\u00f3nios, emendava todas as desventuras \u2014 Obed, homem lido, que viajara na Fen\u00edcia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, t\u00e3o costumados na Palestina, como Apol\u00f3nio, ou rabi Ben-Dossa, ou Sim\u00e3o, \u00abo Subtil\u00bb. Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e f\u00e1ceis nos seus segredos; com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto; e agarram entre os dedos as sombras das \u00e1rvores, que conduzem, como toldos ben\u00e96cos, para cima das eiras, \u00e0 hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais vi\u00e7osas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Ent\u00e3o Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no pa\u00eds de Issacar.<\/p>\n<p>Os servos apertaram os cintur\u00f5es de couro \u2014 e largaram pela estrada das caravanas, que, costeando o lago, se estende at\u00e9 Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma rom\u00e3 muito madura, as neves 6nas do monte H\u00e9rmon. Depois, na frescura de uma manh\u00e3 macia, o lago de Tiber\u00edade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de sil\u00eancio, mais azul que o c\u00e9u, todo orlado de prados floridos, de densos verg\u00e9is, de rochas de p\u00f3rfiro, e de alvos terra\u00e7os por entre os palmares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava pregui\u00e7osamente a sua barca de uma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O rabi de Nazar\u00e9? Oh! desde o m\u00eas de Ijar, o rabi descera, com os seus disc\u00edpulos, para os lados para onde o Jord\u00e3o leva as \u00e1guas.<\/p>\n<p>Os servos correndo, seguiram pelas margens do rio, at\u00e9 adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, im\u00f3vel e verde, \u00e0 sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Ess\u00e9nios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, nela beira da \u00e1gua, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o limpo, e claro, e c\u00e2ndido como as suas vestes cada manh\u00e3 levadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Ess\u00e9nios, ensinava a do\u00e7ura, e curava as gentes e os gados? O Ess\u00e9nio murmurou que o rabi atravessara o o\u00e1sis de Engaddi, depois se adiantara para al\u00e9m\u2026 \u2014 Mas onde, al\u00e9m? \u2014 Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Ess\u00e9nio mostrou as terras de al\u00e9m-Jord\u00e3o, a plan\u00edcie de Moab. Os servos vadearam o rio \u2014 e debalde procuravam Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, at\u00e9 \u00e0s fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur\u2026 No Po\u00e7o de Jacob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egipto mirra, especiarias e b\u00e1lsamos de Gilead, e os cameleiros, tirando a \u00e1gua com os baldes de couro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um rabi maravilhoso, maior que David ou Isa\u00edas, arrancara sete dem\u00f3nios do peito de uma tecedeira, e que, \u00e0 sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrab\u00e1s se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperan\u00e7ados, subiram logo a\u00e7odadamente pelo caminho dos peregrinos at\u00e9 Gadara, cidade de altas torres, e ainda mais longe at\u00e9 \u00e0s nascentes de Amalha\u2026 Mas Jesus, nessa madrugada, seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no lago, num batel de pesca, e \u00e0 vela navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoro\u00e7oados, de novo passavam o Jord\u00e3o na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, j\u00e1 com as sand\u00e1lias rotas dos longos caminhos, pisando j\u00e1 as terras da Judeia Romana, cruzaram um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota rever\u00eancia detiveram o homem da Lei. Encontrara ele, por acaso, esse profeta novo da Galileia que, como um deus passeando na Terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada \u2014 e a sua c\u00f3lera retumbou como um tambor orgulhoso:<\/p>\n<p>\u2014 Oh escravos pag\u00e3os! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusal\u00e9m? S\u00f3 Jeov\u00e1 tem for\u00e7a no seu Templo. De Galileia surdem os n\u00e9scios e os impostores\u2026<\/p>\n<p>E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de d\u00edsticos sagrados \u2014 o furioso doutor saltou da mula e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: \u00abRacca! Racca!\u00bb e todos os an\u00e1temas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsola\u00e7\u00e3o de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam \u2014 e todavia, radiantemente, como uma alvorada por detr\u00e1s de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.<\/p>\n<p>Por esse tempo, um centuri\u00e3o romano, P\u00fablio S\u00e9timo, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, at\u00e9 \u00e0 cidade e ao mar. P\u00fablio, homem \u00e1spero, veterano da campanha de Tib\u00e9rio contra os Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possu\u00eda minas na \u00c1tica e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da S\u00edria. Mas uma dor ro\u00eda a sua prosperidade muito poderosa como um verme r\u00f3i um fruto muito suculento. Sua filha \u00fanica, para ele mais amada que vida ou bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos escul\u00e1pios e m\u00e1gicos que ele mandara consultar a S\u00eddon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemit\u00e9rio, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um vel\u00e1rio, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de It\u00e1lia, numa galera enfestoada. Ao seu lado, por vezes, um legion\u00e1rio, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande \u00e1guia, voando de asa serena, no c\u00e9u rutilante. A filha de S\u00e9timo seguia um momento a ave torneando at\u00e9 bater morta sobre as rochas \u2014 depois, mais triste, com um suspiro, e mais p\u00e1lida, recome\u00e7ava a olhar para o mar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o S\u00e9timo, ouvindo contar, \u00e1 mercadores de Chorazim, deste rabi admir\u00e1vel, t\u00e3o potente sobre os esp\u00edritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou tr\u00eas dec\u00farias de soldados para que o procurassem por Galileia, e por todas as cidades da Dec\u00e1pole, at\u00e9 \u00e0 costa e at\u00e9 \u00c1scalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira \u2014 e as suas sand\u00e1lias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana que desde Cesareia at\u00e9 ao lago cona toda a tetrarquia de Herodes. As suas armas de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lan\u00e7as a palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam de um trago, sentados \u00e0 sombra dos sic\u00f4moros. Assim correram a Baixa Galileia \u2014 e, do rabi, s\u00f3 encontraram o sulco luminoso nos cora\u00e7\u00f5es. Enfastiados com as in\u00fateis marchas, desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que os Romanos n\u00e3o aproveitassem do superior feiti\u00e7o, derramavam com tumulto a sua c\u00f3lera, atrav\u00e9s da piedosa terra submissa. \u00c0 entrada das aldeias pobres detinham os peregrinos, gritando o nome do rabi, rasgando os v\u00e9us \u00e0s virgens: e, \u00e0 hora em que os c\u00e2ntaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas, e batiam sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os santos arm\u00e1rios de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de H\u00e9bron arrastaram os solit\u00e1rios pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o rabi \u2014 e dois mercadores fen\u00edcios que vinham de Jope com uma carga de mal\u00f3batro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dracmas a cada decuri\u00e3o. J\u00e1 a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrogavam sobre eles as M\u00e1s Sortes, invocando a vingan\u00e7a de Elias. Assim tumultuosamente erraram at\u00e9 \u00c1scalon: n\u00e3o encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sand\u00e1lias nas areias ardentes.<\/p>\n<p>Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro p\u00f3rtico de um templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma t\u00fanica cor de a\u00e7afr\u00e3o, segurando uma curta lira de tr\u00eas cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de m\u00e1rmore, a apari\u00e7\u00e3o do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e t\u00e3o destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a \u00e1gua em vinho? Serenamente, alargando os bra\u00e7os, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:<\/p>\n<p>\u2014 Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apare\u00e7am profetas consumando milagres? Como pode um b\u00e1rbaro alterar a ordem institu\u00edda por Zeus?\u2026 M\u00e1gicos e feiticeiros s\u00e3o vendilh\u00f5es, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a esp\u00f3rtula dos simples\u2026 Sem a permiss\u00e3o dos imortais nem um galho seco pode tombar da \u00e1rvore, nem seca folha pode ser sacudida na \u00e1rvore. N\u00e3o h\u00e1 profetas, n\u00e3o h\u00e1 milagres\u2026 S\u00f3 Apolo D\u00e9lfico conhece o segredo das coisas!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, devagar, com a cabe\u00e7a derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram \u00e0 fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de S\u00e9timo, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro \u2014 e todavia a fama de Jesus, curador dos l\u00e2nguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do H\u00e9rmon e, atrav\u00e9s dos hortos reanima e levanta as a\u00e7ucenas pendidas.<\/p>\n<p>Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma vi\u00fava, mais desgra\u00e7ada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho \u00fanico, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tamb\u00e9m a ela a doen\u00e7a a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a mis\u00e9ria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. At\u00e9 na l\u00e2mpada de barro vermelho secara h\u00e1 muito o azeite. Dentro da arca pintada n\u00e3o restava gr\u00e3o ou c\u00f4dea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. T\u00e3o longe do povoado, nunca esmola de p\u00e3o ou mel entrava o portal. E s\u00f3 ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde at\u00e9 \u00e0s aves mal\u00e9ficas sobrava o sustento!<\/p>\n<p>Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a m\u00e3e amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, co\u00e7ando as feridas das pernas, contou dessa grande esperan\u00e7a dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um p\u00e3o no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abund\u00e2ncia maior que a corte de Salom\u00e3o. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperan\u00e7a dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperan\u00e7avam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que at\u00e9 por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, s\u00f3 aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, t\u00e3o rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; S\u00e9timo, t\u00e3o soberano, destacara os seus soldados at\u00e9 \u00e0 costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legion\u00e1rios de S\u00e9timo. E todos voltavam, como derrotados, com as sand\u00e1lias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou pal\u00e1cio, se escondia Jesus.<\/p>\n<p>A tarde ca\u00eda. O mendigo apanhou o seu bord\u00e3o, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A m\u00e3e retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E ent\u00e3o o filhinho, num murm\u00fario mais d\u00e9bil que o ro\u00e7ar de uma asa, pediu \u00e0 m\u00e3e que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A m\u00e3e apertou a cabe\u00e7a esguedelhada:<\/p>\n<p>\u2014 Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos \u00e0 procura do rabi da Galileia? Obed \u00e9 rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim at\u00e9 ao pa\u00eds de Moab. S\u00e9timo \u00e9 forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o H\u00e9bron at\u00e9 ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi t\u00e3o desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse atrav\u00e9s das cidades at\u00e9 este ermo, para sarar um entrevadinho t\u00e3o pobre, sobre enxerga t\u00e3o rota?<\/p>\n<p>A crian\u00e7a, com duas longas l\u00e1grimas na face magrinha, murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Oh m\u00e3e! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda t\u00e3o pequeno, e com um mal t\u00e3o pesado, e que tanto queria sarar!<\/p>\n<p>E a m\u00e3e, em solu\u00e7os:<\/p>\n<p>\u2014 Oh meu filho, como te posso deixar? Longas s\u00e3o as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. T\u00e3o rota, t\u00e3o tr\u00f4pega, t\u00e3o triste, at\u00e9 os c\u00e3es me ladrariam da porta dos casais. Ningu\u00e9m atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse\u2026 Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O C\u00e9u o trouxe, o C\u00e9u o levou. E com ele para sempre morreu a esperan\u00e7a dos tristes.<\/p>\n<p>De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres m\u00e3ozinhas que tremiam, a crian\u00e7a murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, eu queria ver Jesus\u2026<\/p>\n<p>E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse \u00e0 crian\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui estou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse tempo Jesus ainda se n\u00e3o afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiber\u00edade \u2014 mas a nova dos seus milagres penetrara j\u00e1 at\u00e9 Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-563","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=563"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/563\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":566,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/563\/revisions\/566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}