{"id":564,"date":"2018-07-05T15:03:30","date_gmt":"2018-07-05T15:03:30","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=564"},"modified":"2018-07-05T15:09:38","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:38","slug":"singularidades-de-uma-rapariga-loura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/singularidades-de-uma-rapariga-loura","title":{"rendered":"Singularidades de uma Rapariga Loura"},"content":{"rendered":"<p>I<br \/>\nCome\u00e7ou por me dizer que o seu caso era simples \u2014 e que se chamava Mac\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eri\u00e7avam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectid\u00e3o \u2014 por tr\u00e1s dos seus \u00f3culos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por tr\u00e1s com uma fivela; um casaco comprido cor de pinh\u00e3o, com as mangas estreitas e justas e canh\u00f5es de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilh\u00e3o antigo \u2014 sa\u00edam as pregas moles de uma camisa bordada.<\/p>\n<p>Era isto em Setembro; j\u00e1 as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escurid\u00e3o aparatosa. Eu tinha descido da dilig\u00eancia, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrej\u00e3o de listras escarlates.<\/p>\n<p>Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os c\u00e9us estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar mon\u00f3tono da dilig\u00eancia, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influ\u00eancia da paisagem escarpada e chata, sobre c\u00f4ncavo sil\u00eancio nocturno, ou a opress\u00e3o da electricidade que enchia as alturas, o facto \u00e9 que eu \u2014 que sou naturalmente positivo e realista \u2014 tinha vindo tiranizado pela imagina\u00e7\u00e3o e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de n\u00f3s, \u00e9 certo \u2014 t\u00e3o friamente educados que sejamos \u2014 um resto de misticismo; e basta \u00e0s vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemit\u00e9rio, um ermo asc\u00e9tico, as emolientes brancuras de um luar \u2014 para que esse fundo m\u00edstico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensa\u00e7\u00e3o e a ideia, e fique assim o mais matem\u00e1tico, ou o mais cr\u00edtico, t\u00e3o triste, t\u00e3o vision\u00e1rio, t\u00e3o idealista \u2014 como um velho monge poeta. A mim, o que me lan\u00e7ara na quimera e no sonho fora o aspecto do Mosteiro de Restelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Ent\u00e3o, enquanto anoitecia, a dilig\u00eancia rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gab\u00e3o enterrado na cabe\u00e7a, ruminava no seu cachimbo \u2014 eu pus-me elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a \u00e1gua da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a \u00abImita\u00e7\u00e3o\u00bb, e, ouvindo os rouxin\u00f3is nos loureirais, ter saudades do C\u00e9u. \u2014 N\u00e3o se pode ser mais est\u00fapido. Mas eu estava assim, e atributo a esta disposi\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria a falta de esp\u00edrito \u2014 a sensa\u00e7\u00e3o \u2014 que me fez a hist\u00f3ria daquele homem dos canh\u00f5es de veludinho.<\/p>\n<p>A minha curiosidade come\u00e7ou \u00e0 ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogado em arroz branco, com fatias escarlates de paio \u2014 e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava de fronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimar\u00e3es suspenso nos dedos \u2014 se ele era de Vila Real.<\/p>\n<p>\u2014 Vivo l\u00e1. H\u00e1 muitos anos \u2014 disse-me ele.<\/p>\n<p>\u2014 Terra de mulheres bonitas, segundo me consta \u2014 disse eu.<\/p>\n<p>O homem calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Hem? \u2014 tornei.<\/p>\n<p>O homem contraiu-se num sil\u00eancio saliente. At\u00e9 a\u00ed estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas ent\u00e3o imobilizou o seu sorriso fino.<\/p>\n<p>Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembran\u00e7a. Havia de certo no destino daquele velho uma \u00abmulher\u00bb. A\u00ed estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na ideia de que o \u00abfacto\u00bb, o \u00abcaso\u00bb daquele homem, devera ser grotesco. e exalar esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p>De sorte que lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 A mim t\u00eam-me afirmado que as mulheres de Vila Real s\u00e3o as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimar\u00e3es, para corpos Santo Aleixo, para tran\u00e7as os Arcos: \u00e9 l\u00e1 que se v\u00eaem os cabelos claros cor de trigo.<\/p>\n<p>O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.<\/p>\n<p>\u2014 Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante \u2014 e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conhe\u00e7a. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.<\/p>\n<p>\u2014 O Peixoto, sim \u2014 disse-me ele, olhando gravemente para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar \u00e0 Andaluzia \u2014 quest\u00e3o de arranjar a fina-flor da perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0 sua sa\u00fade.<\/p>\n<p>Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi \u00e0 janela com um passo pesado, e eu reparei ent\u00e3o nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro. E saiu.<\/p>\n<p>Quando eu pedi o meu casti\u00e7al, a criada trouxe-me um candeeiro de lat\u00e3o lustroso e antigo e disse;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor est\u00e1 com outro. E no n\u00ba3.<\/p>\n<p>Nas estalagens do Minho, \u00e0s vezes, cada quarto \u00e9 um dormit\u00f3rio impertinente.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 \u2014 disse eu.<\/p>\n<p>O n\u00ba 3 era no fundo do corredor. \u00c0s portas dos lados os passageiros tinham posto o seu cal\u00e7ado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um ca\u00e7ador, botas de propriet\u00e1rio, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua borla de retr\u00f3s; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das portas, o n\u00ba15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma crian\u00e7a, todas co\u00e7adas e batidas, e os seus canos de pelica-mor ca\u00edam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. Defronte do n\u00ba3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canh\u00f5es de veludilho, que amarrava na cabe\u00e7a um len\u00e7o de seda estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de l\u00e3, grossa e alta, e os p\u00e9s metidos nuns chinelos de ourelo.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o repare \u2014 disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0 vontade. \u2014 E para estabelecer intimidade tirei o casaco.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi os motivos por que ele da\u00ed a pouco, j\u00e1 deitado, me disse a sua hist\u00f3ria. H\u00e1 um prov\u00e9rbio eslavo da Gal\u00edcia que diz: \u00abO que n\u00e3o contas \u00e0 tua mulher, o que n\u00e3o contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.\u00bb Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confid\u00eancia. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, \u00e0quele velho de quase sessenta anos. Talvez a hist\u00f3ria seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sens\u00edvel, pareceu-me terr\u00edvel \u2014 mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa\u2026<\/p>\n<p>Come\u00e7ou pois por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe ent\u00e3o se era de uma fam\u00edlia que eu conhecera, que tinha o apelido de \u00abMac\u00e1rio\u00bb. E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu car\u00e1cter uma ideia simp\u00e1tica, porque os Mac\u00e1rios eram uma antiga fam\u00edlia, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa a sua velha tradi\u00e7\u00e3o de honra e de escr\u00fapulo. Mac\u00e1rio disse-me que nesse tempo, em I8z; ou ;g, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armaz\u00e9m de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento pr\u00e1tico e aritm\u00e9tico de Mac\u00e1rio, e deu-lhe a escritura\u00e7\u00e3o. Mac\u00e1rio tornou-se o seu \u00abguarda-livros\u00bb.<\/p>\n<p>Disse-me ele que sendo naturalmente linf\u00e1tico e mesmo t\u00edmido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentra\u00e7\u00e3o. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A exist\u00eancia, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os esp\u00edritos eram mais ing\u00e9nuos, os sentimentos menos complicados.<\/p>\n<p>Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a \u00e1gua das regas \u2014 chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam \u00e0 burguesia cautelosa. Al\u00e9m disso, as tempos eram confusos e revolucion\u00e1rios: e nada torna o homem recolhido, conchegado \u00e0 lareira, simples e facilmente feliz \u2014 como a guerra. E a paz que, dando os vagares da imagina\u00e7\u00e3o, causa as impaci\u00eancias do desejo.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio, aos vinte e dois anos, ainda n\u00e3o tinha \u2014 como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arc\u00e1dia \u2014 \u00absentido V\u00e9nus\u00bb.<\/p>\n<p>Mas por esse tempo veio morar para defronte do armaz\u00e9m dos Mac\u00e1rios, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e ba\u00e7a, o busto bem feito e redondo e um aspecto desej\u00e1vel. Mac\u00e1rio tinha a sua carteira no primeiro andar por cima do armaz\u00e9m, ao p\u00e9 de uma varanda, e dali viu uma manh\u00e3 aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e bra\u00e7os nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Mac\u00e1rio afirmou-se, e, sem mais inten\u00e7\u00e3o, dizia mentalmente aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de dom\u00ednio: por que os seus cabelos violentos e \u00e1speros, o sobrolho espesso, o l\u00e1bio forte, perfil aquilino e firme, revelam um temperamento activo e imagina\u00e7\u00f5es apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas \u00e0 noite estava sentado fumando \u00e0 janela do seu quarto, que abria sobre o p\u00e1tio: era em Julho e a atmosfera estava el\u00e9ctrica e amorosa: a rabeca de um vizinho gemia uma x\u00e1cara mourisca, que ent\u00e3o sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mist\u00e9rio \u2014 Mac\u00e1rio, que estava em chinelas, come\u00e7ou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles bra\u00e7os que tinham a cor dos m\u00e1rmores p\u00e1lidos: espregui\u00e7ou-se, rolou morbidamente a cabe\u00e7a pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sens\u00edveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era mon\u00f3tona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se \u00e0 sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o pr\u00e9dio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes \u2014 come\u00e7ou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ningu\u00e9m se chegou \u00e0 janela do peitoril, com caixilhos verdes. Mac\u00e1rio estava enfastiado. pesado \u2014 e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilvas! E quando fechou a carteira sentiu defronte correr-se a vidra\u00e7a; eram de certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Mac\u00e1rio veio logo salientemente para a varanda aparar um l\u00e1pis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez \u2014 fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa de transpar\u00eancia das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura., como de uma medalha antiga e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado \u2014 pomba, arminho, neve e ouro.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio disse consigo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 filha.<\/p>\n<p>A outra vestia de luto, mas esta, a loura tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um len\u00e7o de cambraia trespassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, mo\u00e7o, fresco, flex\u00edvel e tenro.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio, nesse tempo, era louro, com barba curta. O cabelo era anelado e a sua figura devia ter aquele ar seco e nervoso que depois do s\u00e9culo XVIII e da revolu\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o vulgar nas ra\u00e7as plebeias.<\/p>\n<p>A rapariga loura reparou naturalmente em Mac\u00e1rio, mas naturalmente desceu a vidra\u00e7a correndo por tr\u00e1s uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e elas t\u00eam na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corr\u00ea-la, pregar nela uma flor, agit\u00e1-la fazendo sentir que por tr\u00e1s um rosto atento se move e espera \u2014 s\u00e3o velhas maneiras com que na realidade e na arte come\u00e7a o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio n\u00e3o me contou por pulsa\u00e7\u00f5es \u2014 a hist\u00f3ria minuciosa do seu cora\u00e7\u00e3o. Disse singelamente que da\u00ed a cinco dias \u2014 \u00abestava louco por ela\u00bb. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo ingl\u00eas, firme e largo, ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o romance impaciente dos seus nervos. N\u00e3o a podia ver pela manh\u00e3: o sol mordente de Julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. S\u00f3 pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidra\u00e7a, e ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou Mac\u00e1rio: era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca com drag\u00f5es escarlates bordados \u00e0 pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e tr\u00e9mula como uma penugem, e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de fio de ouro, tinha incrusta\u00e7\u00f5es de n\u00e1car \u00e0 linda maneira persa.<\/p>\n<p>Era um leque magn\u00edfico e naquele tempo inesperado nas m\u00e3os de plebeias de uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a m\u00e3e t\u00e3o meridional, Mac\u00e1rio, com intui\u00e7\u00e3o interpretativa dos namorados, disse \u00e0 sua curiosidade: \u00abSer\u00e1 filha de um ingl\u00eas\u00bb. O ingl\u00eas vai \u00e0 China, \u00e1 P\u00e9rsia, a Ormuz, \u00e0 Austr\u00e1lia e vem cheio daquelas j\u00f3ias dos luxos ex\u00f3ticos, e nem Mac\u00e1rio sabia por que \u00e9 que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: mas segundo ele me disse \u2014 \u00abaquilo deu-lhe no goto\u00bb.<\/p>\n<p>Tinha-se passado uma semana, quando um dia Mac\u00e1rio viu, da sua carteira, que ela, a loura, sa\u00eda com a m\u00e3e, porque se acostumara a considerar m\u00e3e dela aquela magn\u00edfica pessoa, magnificamente p\u00e1lida e vestida de luto.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio veio \u00e0 janela e viu-as atravessar a rua e a entrarem no armaz\u00e9m! Desceu logo tr\u00e9mulo, s\u00f4frego, apaixonado e com palpita\u00e7\u00f5es. Estavam elas j\u00e1 encostadas ao balc\u00e3o e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Mac\u00e1rio. Ele mesmo mo disse.<\/p>\n<p>\u2014 Porque enfim, meu caro, n\u00e3o era natural que elas viessem comprar, para si, casimiras pretas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o: elas n\u00e3o usavam \u00abamazonas\u00bb, n\u00e3o queriam decerto estofar cadeiras com casimiras pretas, n\u00e3o havia homens em casa delas; portanto aquela vinda ao armaz\u00e9m era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Mac\u00e1rio que, sendo assim, ele deveria de estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na m\u00e3e uma cumplicidade equ\u00edvoca. Ele confessou-se \u00abque nem pensava em tal\u00bb. O que fez foi chegar ao balc\u00e3o e dizer estupidamente:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor, v\u00e3o bem servidas, estas casimiras n\u00e3o encolhem.<\/p>\n<p>E a loura ergueu para ele o seu olhar azul e foi como se Mac\u00e1rio se sentisse envolvido na do\u00e7ura de um c\u00e9u.<\/p>\n<p>Mas quando ele ia a dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armaz\u00e9m o tio Francisco, com o seu comprido casaco de pinh\u00e3o, de bot\u00f5es amarelos. Como era singular e desusado achar-se o senhor guarda-livros vendendo ao balc\u00e3o e o tio Francisco, com a sua cr\u00edtica estreita e celibat\u00e1ria, escandalizar-se, Mac\u00e1rio come\u00e7ou a subir vagarosamente a escada de caracol que levava ao escrit\u00f3rio, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:<\/p>\n<p>\u2014 Agora queria ver len\u00e7os da \u00cdndia.<\/p>\n<p>E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles len\u00e7os, acamados e apertados numa tira de papel dourado.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio, tinha visto naquela visita uma revela\u00e7\u00e3o de amor, quase uma \u00abdeclara\u00e7\u00e3o\u00bb, esteve todo o dia entregue \u00e0s impaci\u00eancias amargas da paix\u00e3o. Andava distra\u00eddo abstracto, pueril, n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 escritura\u00e7\u00e3o, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as alm\u00f4ndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos \u00e1s tr\u00eas horas e n\u00e3o entendeu bem a recomenda\u00e7\u00f5es do tio e a preocupa\u00e7\u00e3o dos caixeiros sobre o desaparecimento de um pacote de len\u00e7os da \u00cdndia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o costume de deixar entrar pobres no armaz\u00e9m \u2014 tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. \u2014 S\u00e3o doze mil r\u00e9is de len\u00e7os. Lance \u00e0 minha conta.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele \u00e1 varanda, a m\u00e3e, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um amigo de Mac\u00e1rio, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, como uma cortesia toda risonha, o seu chap\u00e9u de palha. Mac\u00e1rio ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armaz\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a Vila\u00e7a. Bela mulher.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a filha?<\/p>\n<p>\u2014 A filha?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, uma loura, clara, com um leque chin\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sim. \u00c9 filha.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que eu dizia\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Sim e ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 gente de bem, hem?<\/p>\n<p>\u2014 Sim gente de bem.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom! Tu conhece-las muito?<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o-as. Muito n\u00e3o. Encontrava-as dantes em casa de D. Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, ouve l\u00e1.<\/p>\n<p>E Mac\u00e1rio, contando a hist\u00f3ria do seu cora\u00e7\u00e3o acordado e exigente e falando do amor com as exalta\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o, pediu-lhe como a gl\u00f3ria da sua vida \u00abque achasse um meio de o encaixar l\u00e1\u00bb. N\u00e3o era dif\u00edcil. As Vila\u00e7as costumavam ir aos s\u00e1bados a casa de um tabeli\u00e3o muito rico na Rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria I, e \u00e0s nove horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro s\u00e1bado Mac\u00e1rio, de casaca azul, cal\u00e7as de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava-se diante da esposa do tabeli\u00e3o, Sr.\u00aa D. Maria da Gra\u00e7a, pessoa seca e agu\u00e7ada, com um vestido bordado a matiz, um nariz adunco uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala j\u00e1 l\u00e1 estava, entre um frufru de vestidos enormes, a menina Vila\u00e7a, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A m\u00e3e Vila\u00e7a, a soberba mulher p\u00e1lida, cochichava com um desembargador de figura apopl\u00e9ctica. O tabeli\u00e3o era homem letrado, latinista, e amigo da musas; escrevia num jornal de ent\u00e3o, a \u00abAlcofa das Damas\u00bb: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, \u00abmo\u00e7o escudeiro de V\u00e9nus\u00bb. Assim, as suas reuni\u00f5es eram ocupadas pelas belas-artes \u2014 e, numa noite, um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado \u00abElmira ou a Vingan\u00e7a do Venesiano\u00bb!\u2026 Come\u00e7avam ent\u00e3o a aparecer as primeiras aud\u00e1cias rom\u00e2nticas\u2026 As revolu\u00e7\u00f5es da Gr\u00e9cia principiavam a atrair os esp\u00edritos romanescos e sa\u00eddos da mitologia para os pa\u00edses maravilhosos do oriente. Por toda a parte se falava no pax\u00e1 de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de \u00e2mbar, piratas do Arquip\u00e9lago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do alo\u00e9s onde pax\u00e1s decr\u00e9pitos acariciam le\u00f5es. De sorte que a curiosidade era grande \u2014 e quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pesco\u00e7o entalado na alta gola do seu fraque \u00e0 Restaura\u00e7\u00e3o e um canudo de lata na m\u00e3o \u2014 o Sr. Mac\u00e1rio \u00e9 que n\u00e3o teve sensa\u00e7\u00e3o alguma, porque l\u00e1 estava todo absorvido, falando com a menina Vila\u00e7a. E dizia-lhe meigamente:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, noutro dia, gostou das casimiras?<\/p>\n<p>\u2014 Muito \u2014 disse ela baixo.<\/p>\n<p>E, desde esse momento, envolveu-os um destino nupcial.<\/p>\n<p>No entanto, na larga sala, a noite passava-se espiritualmente. Mac\u00e1rio n\u00e3o p\u00f4de dar todos os pormenores hist\u00f3ricos e caracter\u00edsticos daquela assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o \u00abMadrigal a L\u00eddia\u00bb: lia-o de p\u00e9, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lan\u00e7ada para diante, a m\u00e3o na abertura do colete branco de gola alta, e em redor, formando c\u00edrculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas, terminadas num fofo de rendas, mitenes de retr\u00f3s cheias da cintila\u00e7\u00e3o dos an\u00e9is, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmura\u00e7\u00f5es, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. \u00abMuito bonito\u00bb, diziam, \u00abmuito bonito!\u00bb E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo \u2014 e via-se-lhe um dente podre.<\/p>\n<p>Depois, a preciosa D. Jer\u00f3nima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou a sua voz roufenha a antiga \u00e1ria de Sully:<\/p>\n<p>Oh Ricardo, oh meu rei,<br \/>\nO mundo te abandona.<\/p>\n<p>O que obrigou o terr\u00edvel Gaud\u00eancio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Mac\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u2014 Reis-v\u00edboras!\u2026<\/p>\n<p>Depois o c\u00f3nego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. Jo\u00e3o VI: \u00ab Lindas mo\u00e7as, lindas mo\u00e7as.\u00bb E a noite ia assim correndo, liter\u00e1ria, pachorrenta erudita, requintada e toda cheia de musas. Oito dias depois, Mac\u00e1rio era recebido em casa da Vila\u00e7a, num domingo. A m\u00e3e convidara-o dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Espero que o vizinho honre esta choupana.<\/p>\n<p>E at\u00e9 o desembargador apopl\u00e9tico, que estava ao lado, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Choupana! Diga alc\u00e1\u00e7ar! Formosa dama!<\/p>\n<p>Estavam, nesta noite, o amigo do chap\u00e9u de palha, um velho cavaleiro de Malta, tr\u00f4pego, est\u00fapido e surdo, um beneficiado da S\u00e9, ilustre pela sua voz tiple, e as manas Hil\u00e1rias, a mais velha das quais, tendo assistido, como aia de uma senhora da Casa da Mina, \u00e0 tourada de Salva \u2014 terra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixara de narrar os epis\u00f3dios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da Casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado \u00e0 espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata; o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu na trincheira alta, e a hilariedade da corte, que at\u00e9 a senhora condessa de Povolide apertava as m\u00e3os nas ilhargas; depois el-rei, o senhor D. Jos\u00e9 I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, fazendo girar entre os dedos a sua caixa de rap\u00e9 cravejada, e atr\u00e1s, im\u00f3veis, o f\u00edsico Louren\u00e7o e o frade seu confessor; depois o rico aspecto da pra\u00e7a cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve quando D. Jos\u00e9 I entrou: \u2014 Viva el-rei, nosso senhor! \u2014 E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo atr\u00e1s dele. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e at\u00e9 el-rei todo debru\u00e7ado, batendo com a m\u00e3o no parapeito, gritava na confus\u00e3o, e o capel\u00e3o da Casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-un\u00e7\u00e3o. Ela, Hil\u00e1ria ficara atarracada de pavor: sentia os urros dos bois, os gritos agudos das mulheres, os ganidos dos flatos, e vira ent\u00e3o um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na m\u00e3o,\u2026 debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se \u00e0 pra\u00e7a, bradando cheio de raiva! \u00ab\u00c9 o pai do conde.\u00bb Ela ent\u00e3o desmaia nos bra\u00e7os de um padre da Congrega\u00e7\u00e3o. Quando veio a si, achou-se junto da pra\u00e7a; a berlinda real est\u00e1 \u00e0 porta com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores com pampilhos: el-rei j\u00e1 estava dentro, escondido no fundo, p\u00e1lido, sorvendo febrilmente rap\u00e9, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das m\u00e3os apoiadas \u00e0 alta bengala, forte, espada\u00fado, com o aspecto carregado o Marqu\u00eas de Pombal falando devagar e intimativamente, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos postilh\u00f5es retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: \u2014 Viva el-rei, nosso senhor! \u2014 e o sino da porta da capela do pa\u00e7o tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia \u00e0 Casa dos Arcos.<\/p>\n<p>Quando D. Hil\u00e1ria acabou de contar, suspirando, estas desgra\u00e7as passadas, come\u00e7ou-se a jogar. Era singular que Mac\u00e1rio n\u00e3o se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. S\u00f3 se recordava que ele tinha ficado ao lado da menina Vila\u00e7a, que se chamava Lu\u00edsa, que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua m\u00e3o, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se tamb\u00e9m de um acidente exc\u00eantrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da S\u00e9. Mac\u00e1rio estava sentado \u00e0 mesa, e ao p\u00e9 dele Lu\u00edsa: Lu\u00edsa estava toda voltada para ele, com uma das m\u00e3os apoiando a sua fina cabe\u00e7a loura e amorosa, e a outra esquecida no rega\u00e7o. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus \u00f3culos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do cr\u00e2nio como dois postigos abertos. Ora como era necess\u00e1rio no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Mac\u00e1rio tirou da algibeira uma pe\u00e7a, e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas de um \u00e1s, Mac\u00e1rio conversava com Lu\u00edsa, e fazia girar sobre o pano verde a sua pe\u00e7a de ouro, com um bilro ou um pi\u00e3o. Era uma pe\u00e7a nova que luzia, faiscava, rodando e fazia \u00e0 vista como uma bola de n\u00e9voa dourada. Lu\u00edsa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Mac\u00e1rio que todo o c\u00e9u, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distra\u00eddo, espiritual, arcang\u00e9lico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da pe\u00e7a de ouro nova. Mas, de repente, a pe\u00e7a, correndo at\u00e9 \u00e0 borda da mesa, caiu para o lado do rega\u00e7o de Lu\u00edsa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de t\u00e1buas o seu ru\u00eddo met\u00e1lico. O beneficiado abaixou-se logo cortesmente: Mac\u00e1rio afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a m\u00e3e Vila\u00e7a alumiou com um casti\u00e7al, e Lu\u00edsa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A pe\u00e7a n\u00e3o apareceu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 c\u00e9lebre \u2014 disse o amigo de chap\u00e9u de palha. \u2014 Eu n\u00e3o ouvi tinir no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu, nem eu \u2014 disseram.<\/p>\n<p>O beneficiado, curvado como um F, buscava tenazmente, e Hil\u00e1ria mais nova rosnava o responso de Santo Ant\u00f3nio.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a casa n\u00e3o tem buracos \u2014 dizia a m\u00e3e Vila\u00e7a.<\/p>\n<p>No entanto Mac\u00e1rio exalava-se em exclama\u00e7\u00f5es desinteressadas:<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus! Ora que tem! amanh\u00e3 aparecer\u00e1! Tenham a bondade! Por quem s\u00e3o! Ent\u00e3o Sr. \u00aa D. Lu\u00edsa! pelo amor de Deus! N\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtrac\u00e7\u00e3o \u2014 e atribui-a ao beneficiado. A pe\u00e7a rolara, decerto, at\u00e9 junto dele, sem ru\u00eddo, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesi\u00e1stico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando sa\u00edram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camel\u00e3o, dizia a Mac\u00e1rio pela escada:<\/p>\n<p>\u2014 Ora o sumi\u00e7o da pe\u00e7a, hem? Que brincadeira!<\/p>\n<p>\u2014 Acha, senhor beneficiado? \u2014 disse Mac\u00e1rio parando, absorto de impud\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma pe\u00e7a de sete mil r\u00e9is! S\u00f3 se o Senhor as semeia! Safa! eu dava em doudo!<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio teve t\u00e9dio daquela ast\u00facia fria. N\u00e3o lhe respondeu. O beneficiado \u00e9 que acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 mande l\u00e1 pela manh\u00e3, homem. Que diabo\u2026 Deus me perdoe! Que diabo! Uma pe\u00e7a n\u00e3o se perde assim. Que bolada, hem!<\/p>\n<p>E Mac\u00e1rio tinha vontade de lhe bater.<\/p>\n<p>Foi neste ponto que Mac\u00e1rio me disse, com a voz singularmente sentida:<\/p>\n<p>\u2014 Enfim, meu amigo, para encurtarmos raz\u00f5es resolvi-me casar com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a pe\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pensei mais nisso! Pensava eu l\u00e1 na pe\u00e7a! resolvi-me casar com ela!<\/p>\n<p>II<br \/>\nMac\u00e1rio contou-me o que o determinara mais precisamente \u00e0quela resolu\u00e7\u00e3o profunda e perp\u00e9tua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o \u2014 mesmo porque a \u00fanica testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada\u2026 Um beijo fugitivo, superficial, ef\u00e9mero. Mas isso bastou ao esp\u00edrito recto e severo para o obrigar a tom\u00e1-la como esposa, a dar-lhe uma f\u00e9 imut\u00e1vel e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simp\u00e1tica sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a ideia dominante do seu trabalho. E esta hist\u00f3ria toma, desde logo, um alto car\u00e1cter de santidade e de tristeza.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio falou-me muito do car\u00e1cter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus \u00f3culos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princ\u00edpios antigos, autorit\u00e1rios e tir\u00e2nicos e a brevidade telegr\u00e1fica das suas palavras.<\/p>\n<p>Quando Mac\u00e1rio lhe disse, uma manh\u00e3, ao almo\u00e7o, abruptamente, sem transi\u00e7\u00f5es emolientes: \u00abPe\u00e7o-lhe licen\u00e7a para casar\u00bb, o tio Francisco, que deitava o a\u00e7\u00facar no seu caf\u00e9, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terr\u00edvel: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ru\u00eddo, tirou do pesco\u00e7o o guardanapo, dobrou-o, agu\u00e7ou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas \u00e0 porta da sala parou, e voltando-se para Mac\u00e1rio, que estava de p\u00e9, junto da mesa, disse secamente:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, tio Francisco!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ou\u00e7a, tio Francisco\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio sentiu uma grande c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, fa\u00e7o-o sem licen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Despedido de casa.<\/p>\n<p>\u2014 Sairei. N\u00e3o haja d\u00favida.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje.<\/p>\n<p>E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se :<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! \u2014 disse ela a Mac\u00e1rio. que estava exasperado, apopl\u00e9ctico, raspando nos vidros da janela.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio voltou-se com uma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00ea-me da\u00ed a caixa do rap\u00e9 \u2014 disse o tio Francisco.<\/p>\n<p>Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado.<\/p>\n<p>\u2014 Tio Francisco\u2026 \u2014 come\u00e7ou Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Basta. Estamos a doze. Receber\u00e1 o seu m\u00eas por inteiro. V\u00e1.<\/p>\n<p>As antigas educa\u00e7\u00f5es produziam estas situa\u00e7\u00f5es insensatas. Era brutal e idiota. Mac\u00e1rio afirmou-me que era assim.<\/p>\n<p>Nessa tarde Mac\u00e1rio achava-se no quarto de uma hospedaria da Pra\u00e7a da Figueira com seis pe\u00e7as, o seu ba\u00fa de roupa branca e a sua paix\u00e3o. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha rela\u00e7\u00f5es e amizades no com\u00e9rcio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da fam\u00edlia, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo ingl\u00eas, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escrit\u00f3rios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga rela\u00e7\u00e3o comercial da sua casa.<\/p>\n<p>\u2014 De muito boa vontade, meu amigo \u2014 disse-me ele. \u2014 Quem mo dera c\u00e1. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem v\u00ea. For\u00e7a maior. Eu sinto, mas\u2026<\/p>\n<p>E todos a quem Mac\u00e1rio se dirigiu, confiado em rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, receavam \u00abficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos\u00bb.<\/p>\n<p>E todos \u00absentiam, mas\u2026\u00bb.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio dirigiu-se ent\u00e3o a negociantes novos, estranhos \u00e0 sua casa e \u00e0 sua fam\u00edlia, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para esses, Mac\u00e1rio era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o h\u00e1bil trabalho. Se tomavam informa\u00e7\u00f5es, sabiam que ele fora despedido de casa do tio repentinamente, por causa de uma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunst\u00e2ncia tirava as simpatias a Mac\u00e1rio. O com\u00e9rcio evita o guarda livros sentimental. De sorte que Mac\u00e1rio come\u00e7ou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fora sempre de temperamento recolhido, n\u00e3o criara amigos. De modo que se encontrava desemparado e solit\u00e1rio \u2014 e a vida aparecia-lhe como um descampo.<\/p>\n<p>as pe\u00e7as findaram. Mac\u00e1rio entrou, pouco, na tradi\u00e7\u00e3o antiga da mis\u00e9ria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: come\u00e7ou por empenhar. Depois vendeu. Rel\u00f3gio, an\u00e9is, casaca azul, cadeia, palet\u00f3 de alamares, tudo foi levando pouco a pouco, embrulhado debaixo do xale, uma velha seca e cheia de asma.<\/p>\n<p>No entanto via Lu\u00edsa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa; era feliz ali naquela penumbra, toda sentado castamente: n\u00e3o a via de dia porque trazia j\u00e1 a roupa usada, as botas cambadas e n\u00e3o queria mostrar \u00e0 fresca Lu\u00edsa, toda mimosa nas suas cambraias assentadas, a sua mis\u00e9ria remendada: ali, \u00e0quela luz t\u00e9nue e esbatida, ele exaltava a sua paix\u00e3o crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Mac\u00e1rio \u2014 era muito singular o temperamento de Lu\u00edsa . Tinha o car\u00e1cter louro como o cabelo \u2014 se \u00e9 certo que o louro \u00e9 uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo \u00abpois sim\u00bb; era mais simples, quase indiferente, cheia de transig\u00eancias.<\/p>\n<p>Amava decerto Mac\u00e1rio, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza d\u00e9bil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e \u00e0s vezes, naqueles encontros nocturnos, tinha sono.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, Mac\u00e1rio encontrou-a excitada: estava com pressa, o xale tra\u00e7ado \u00e0 toa, olhando sempre para a porta interior.<\/p>\n<p>\u2014 A mam\u00e3 percebeu \u2014 disse ela.<\/p>\n<p>E contou-lhe que a m\u00e3e desconfiava, ainda rabugenta e \u00e1spera, e que decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o me vens pedir \u00e0 mam\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Mas, filha, se eu n\u00e3o posso! N\u00e3o tenho arranjo nenhum. Espera. \u00c9 mais um m\u00eas talvez. Tenho agora a\u00ed um neg\u00f3cio em bom caminho. Morr\u00edamos de fome.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa calou-se, torcendo a ponta do xale, com os olhos baixos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ao menos \u2014 disse ela \u2014 enquanto eu te n\u00e3o fizer sinal da janela, n\u00e3o subas mais, sim ?<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio rompeu a chorar, os solu\u00e7os sa\u00edam violentos e desesperados.<\/p>\n<p>\u2014 Chut! \u2014 dizia-lhe Lu\u00edsa. \u2014 N\u00e3o chores alto!\u2026<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a nudenta friagem de Janeiro, na sua quinzena curta. N\u00e3o dormiu, e logo pela manh\u00e3, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 tudo o que tenho. \u2014 E mostrava-lhe tr\u00eas pintos. \u2014 Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.<\/p>\n<p>O tio Francisco, que fazia a barba \u00e0 janela, com o len\u00e7o da \u00cdndia amarrado na cabe\u00e7a, voltou-se e, pondo os \u00f3culos, fitou-o.<\/p>\n<p>\u2014 A sua carteira l\u00e1 est\u00e1. Fique \u2014 e acrescentou com um gesto decisivo \u2014 solteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Tio Francisco, ou\u00e7a-me!\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Solteiro, disse eu \u2014 continuou o tio Francisco, dando o fio \u00e0 navalha numa tira de sola.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, rua!<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio saiu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. Quando saiu, \u00e0 noitinha, n\u00e3o tinha resolu\u00e7\u00e3o, nem ideia. Estava como uma esponja. Deixava-se ir.<\/p>\n<p>De repente uma voz disse de dentro de uma loja:<\/p>\n<p>\u2014 Eh! pst! ol\u00e1!<\/p>\n<p>Era o amigo do chap\u00e9u de palha: abriu grandes bra\u00e7os pasmados.<\/p>\n<p>\u2014 Que diacho! Desde manh\u00e3 que te procuro.<\/p>\n<p>E contou-lhe que tinha chegado da prov\u00edncia, tinha sabido a sua crise e trazia-lhe um desenlace.<\/p>\n<p>\u2014 Queres?<\/p>\n<p>\u2014 Tudo.<\/p>\n<p>Uma casa comercial queria um homem h\u00e1bil, resoluto, e duro, para ir numa comiss\u00e3o dif\u00edcil e de grande ganho a Cabo Verde.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto! \u2014 Disse Mac\u00e1rio. \u2014 Pronto! Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E foi logo escrever a Lu\u00edsa, pedindo-lhe uma despedida, um ultimo encontro, aquele em que os bra\u00e7os desolados e veementes tanto custam a desenla\u00e7ar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu xale, tiritando de frio. Mac\u00e1rio chorou. ela, com a sua passiva e loura do\u00e7ura, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Fazes bem. Talvez ganhes.<\/p>\n<p>E ao outro dia Mac\u00e1rio partiu.<\/p>\n<p>Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjoo mon\u00f3tono num beliche abafado, os duros s\u00f3is das col\u00f3nias, a brutalidade tir\u00e2nica dos fazendeiros ricos, o peso dos fardos humilhantes, as dilacera\u00e7\u00f5es da aus\u00eancia, as viagens ao interior das terras negras e melancolia das caravanas que o costeiam por violentas noites, durante dias e dias, o rios tranquilos, donde exala a morte.<\/p>\n<p>Voltou.<\/p>\n<p>E logo nessa tarde a viu a ela, Lu\u00edsa, clara, fresca, repousada, serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E, ao outro dia, sofregamente, foi pedi-la \u00e0 m\u00e3e. Mac\u00e1rio tinha feito um ganho saliente \u2014 e a m\u00e3e Vila\u00e7a abriu-lhe uns grandes bra\u00e7os amigos, cheia de exclama\u00e7\u00f5es. O casamento decidiu-se para da\u00ed a um ano.<\/p>\n<p>\u2014 Porqu\u00ea? \u2014 disse eu a Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>E ele explicou-me que os lucros de Cabo Verde n\u00e3o podiam constituir um capital definitivo: eram apenas um capital de habilita\u00e7\u00e3o: trazia de Cabo Verde elementos de poderosos neg\u00f3cios: trabalharia, heroicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E trabalhou: p\u00f4s naquele trabalho a for\u00e7a criadora da sua paix\u00e3o. Erguia-se de madrugada, comia \u00e0 pressa, mal falava. \u00c0 tardinha ia visitar Lu\u00edsa. Depois voltava sofregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo \u00edmpeto das ideias e dos m\u00fasculos; vivia numa tempestade de cifras. \u00c0s vezes Lu\u00edsa de passagem, entrava no seu armaz\u00e9m: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, valor, f\u00e9, reconforto para todo o m\u00eas cheiamente trabalhado.<\/p>\n<p>Por esse tempo o amigo do chap\u00e9u de palha veio pedir a Mac\u00e1rio que fosse seu fiador por uma grande quantia, que ele pedira para estabelecer uma loja de ferragens em grande. Mac\u00e1rio, estava no vigor do seu cr\u00e9dito, cedeu com alegria. O amigo do chap\u00e9u de palha \u00e9 que lhe dera o neg\u00f3cio providencial de Cabo Verde. Faltavam ent\u00e3o seis meses para o casamento. Mac\u00e1rio j\u00e1 sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhid\u00f5es da esperan\u00e7a. J\u00e1 come\u00e7ava a tratar dos banhos mas um dia o amigo do chap\u00e9u de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em come\u00e7o. Era uma confusa aventura n\u00e3o se p\u00f4de nunca precisar nitidamente aquele imbr\u00f3glio doloroso. O que era positivo \u00e9 que Mac\u00e1rio era fiador, Mac\u00e1rio devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:<\/p>\n<p>\u2014 Liquido e pago.<\/p>\n<p>E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na opini\u00e3o, a casa Peres &#038; C.\u00aa, que o mandara a Cabo Verde, veio propor-lhe uma outra viagem outros ganhos.<\/p>\n<p>\u2014 Faz outra vez fortuna, homem. O senhor \u00e9 o Diabo! \u2014 disse o Sr. Eleut\u00e9rio Peres.<\/p>\n<p>Quando se viu assim, s\u00f3 e pobre, Mac\u00e1rio desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necess\u00e1rio recome\u00e7ar, pacientemente a vida, voltar \u00e0s longas mis\u00e9rias de Cabo verde, tornar a tremer a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Lu\u00edsa? Mac\u00e1rio escreveu-lhe. depois rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz; subiu at\u00e9 ao primeiro andar, mas a\u00ed tomou-o uma m\u00e1goa, uma covardia de revelar o desastre, tr\u00e9mulo de uma separa\u00e7\u00e3o, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! E quereria ela esperar mais?! N\u00e3o se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, p\u00e9 ante p\u00e9. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a x\u00e1cara mourisca. Lembrou-se do tempo em que conhecera Lu\u00edsa, do bom sol claro que havia ent\u00e3o, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Esta na rua onde eram os armaz\u00e9ns do tio. Foi caminhando. P\u00f4s-se a olhar para a sua antiga casa. A janela do escrit\u00f3rio estava fechada. Quantas vezes dali vira Lu\u00edsa, e o brando movimento do seu leque chin\u00eas! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz: era o quarto do tio. Mac\u00e1rio vai observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, \u00e0 vidra\u00e7a: era o tio Francisco veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, pl\u00e1cido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a velha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua m\u00e3e, que estava por cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu velho aparador de pau-preto, e a grande caneca de \u00e1gua, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se e, impelido por um instinto, bateu \u00e0 porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidra\u00e7a, e a voz do tio perguntar:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.<\/p>\n<p>A vidra\u00e7a fechou-se, e da\u00ed a pouco a porta abriu-se com um grande ru\u00eddo de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candeeiro de azeite na m\u00e3o. Mac\u00e1rio achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Suba \u2014 disse o tio.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio ia calado, cosido com o corrim\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de p\u00e9, com as m\u00e3os nos bolsos, esperou.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio estava calado, anediando a barba.<\/p>\n<p>\u2014 Que quer? \u2014 gritou-lhe o tio.<\/p>\n<p>\u2014 Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.<\/p>\n<p>\u2014 Boa viagem.<\/p>\n<p>E o tio Francisco, voltando-se as costas, foi rufar na vidra\u00e7a.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio ficou im\u00f3vel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.<\/p>\n<p>\u2014 Onde vai, seu est\u00fapido? \u2014 gritou-lhe o tio.<\/p>\n<p>\u2014 Vou-me.<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se ali! E o tio Francisco falava, com grandes passadas pelo quarto:<\/p>\n<p>\u2014 O seu amigo \u00e9 um canalha! Loja de ferragens! N\u00e3o est\u00e1 m\u00e1! O senhor \u00e9 um homem de bem. Est\u00fapido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo \u00e9 um canalha! O senhor \u00e9 um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Est\u00e1 claro! Tamb\u00e9m sei! Amanh\u00e3 faz favor de ir para a sua carteira, l\u00e1 para baixo. Mandei p\u00f4r palhinha nova na cadeira. Faz favor de p\u00f4r na factura Mac\u00e1rio &#038; Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mob\u00edlia. E meta na minha conta. A sua cama l\u00e1 est\u00e1 feita.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio queria abra\u00e7\u00e1-lo, estonteado, com l\u00e1grimas nos olhos, radioso.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, bem. Adeus!<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio ia sair.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?<\/p>\n<p>E indo a um pequeno arm\u00e1rio trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.<\/p>\n<p>\u2014 Coma.<\/p>\n<p>E sentando-se ao p\u00e9 dele, e tornando a chamar-lhe est\u00fapido, tinha uma l\u00e1grimas a correr-lhe pelo engelhado da pele.<\/p>\n<p>De sorte que o casamento foi decidido para dali a um m\u00eas. E Lu\u00edsa come\u00e7ou a tratar do seu enxoval.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio estava ent\u00e3o na plenitude do amor e da alegria.<\/p>\n<p>Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A m\u00e3e tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo pr\u00e9dio, na loja.<\/p>\n<p>O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande c\u00e9u azul-ferrete, profundo, luminoso, consolado.<\/p>\n<p>\u2014 Que bonito dia! \u2014 disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>E com a noiva pelo bra\u00e7o, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1! \u2014 disse ela. \u2014 Mas podem reparar; n\u00f3s s\u00f3s\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Deixa, est\u00e1 t\u00e3o bom\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p>E Lu\u00edsa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Queria ver an\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Com pedras \u2014 disse Lu\u00edsa \u2014 e o mais bonito.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, com pedras \u2014 disse Mac\u00e1rio. \u2014 Ametista, granada. Enfim, o melhor.<\/p>\n<p>E, no entanto, Lu\u00edsa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilh\u00f5es, os colares de camafeus, os an\u00e9is de armas, as finas alian\u00e7as fr\u00e1geis como o amor , e toda a cintila\u00e7\u00e3o de pesada ourivesaria.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea, Lu\u00edsa \u2014 disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balc\u00e3o, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de an\u00e9is de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Lu\u00edsa, tomando-os e deixando-os com a ponta dos dedos, ia-os correndo e dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 feio. \u00c9 pesado. \u00c9 largo.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea este \u2014 disse-lhe Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>Era um anel de pequenas p\u00e9rolas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonito \u2014 disse ela. \u2014 \u00c9 lindo!<\/p>\n<p>\u2014 Deixa ver se serve \u2014 disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>E tomando-lhe a m\u00e3o, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito largo \u2014 disse Mac\u00e1rio. \u2014 Que pena!<\/p>\n<p>\u2014 Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Boa ideia \u2014 disse Mac\u00e1rio \u2014 sim senhor. Porque \u00e9 muito bonito. N\u00e3o \u00e9 verdade? As p\u00e9rolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E esses brincos? \u2014 acrescentou, indo ao fundo do balc\u00e3o, a outra montra. \u2014 Estes brincos com um concha?<\/p>\n<p>\u2014 Dez moedas \u2014 disse o caixeiro.<\/p>\n<p>E, no entanto, Lu\u00edsa continuava examinando os an\u00e9is, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.<\/p>\n<p>Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito p\u00e1lido, e afirmou-se em Lu\u00edsa, passando vagarosamente a m\u00e3o pela cara.<\/p>\n<p>\u2014 Bem \u2014 disse Mac\u00e1rio, aproximando-se \u2014 ent\u00e3o amanh\u00e3 temos o anel pronto. A que horas?<\/p>\n<p>O caixeiro n\u00e3o respondeu e come\u00e7ou a olhar fixamente para Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 A que horas?<\/p>\n<p>\u2014 Ao meio-dia.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, adeus \u2014 disse Mac\u00e1rio. E iam sair. Lu\u00edsa trazia um vestido de l\u00e3 azul, que arrastava um pouco, dando uma ondula\u00e7\u00e3o melodiosa ao seu passo, e as suas m\u00e3os pequenas estavam escondidas num regalo branco.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! \u2014 disse de repente o caixeiro.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio voltou-se.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o pagou.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio olha para ele gravemente.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 claro que n\u00e3o. Amanh\u00e3 venho buscar o anel, paga amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o! \u2014 disse o caixeiro.\u2014 Mas o outro\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Qual outro? \u2014 disse Mac\u00e1rio com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Essa senhora sabe \u2014 disse o caixeiro. \u2014 Essa senhora sabe.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio tirou a carteira lentamente.<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, se h\u00e1 uma conta antiga\u2026<\/p>\n<p>O caixeiro abriu o balc\u00e3o, e com aspecto resoluto:<\/p>\n<p>\u2014 Nada, meu caro Senhor, \u00e9 de agora. \u00c9 um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?! \u2014 disse Lu\u00edsa, com a voz baixa, toda escarlate.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? Que est\u00e1 a dizer?<\/p>\n<p>E Mac\u00e1rio, p\u00e1lido, com dentes cerrados, contra\u00eddo, fitava o caixeiro colericamente. O caixeiro disse ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Essa senhora tirou dali o anel. \u2014 Mac\u00e1rio ficou im\u00f3vel, encarando-o. \u2014 Um anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. \u2014 O caixeiro estava t\u00e3o excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. \u2014 Essa senhora n\u00e3o sei quem \u00e9. E tirou-o dali\u2026<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio, maquinalmente, agarrou-lhe o bra\u00e7o, e voltando-se para Lu\u00edsa com a palavra abafada, gotas de suor na testa, l\u00edvido:<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00edsa, dize\u2026 \u2014 Mas a voz cortou-se-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Eu\u2026 \u2014 disse ela. Mas estava tr\u00e9mula, assombrada, enfiada, descomposta.<\/p>\n<p>E tinha deixado cair o regalo ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio veio para ela, agarrou-lhe o pulso fintando-a: e o seu aspecto era t\u00e3o resoluto e t\u00e3o imperioso que ela meteu a m\u00e3o no bolso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fa\u00e7a mal \u2014 disse, encolhendo-se toda.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio ficou com os bra\u00e7os ca\u00eddos, o ar abstracto, os bei\u00e7os brancos; mas de repente, dando um pux\u00e3o ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o. Era distrac\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 claro! Esta senhora tinha-se esquecido. \u00c9 o anel. Sim, sim, senhor, evidentemente\u2026 Tenha a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?<\/p>\n<p>Abriu a carteira e pagou.<\/p>\n<p>Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os bei\u00e7os com o len\u00e7o, deu o bra\u00e7o a Lu\u00edsa e dizendo ao caixeiro: \u00ab desculpe, desculpe \u00bb, levou-a, inerte, passiva, extinta e aterrada.<\/p>\n<p>Deram alguns passos na rua. Um largo sol aclarava o g\u00e9nio feliz: as seges, passavam, rolando ao estalido do chicote; figuras risonhas passavam, conversando; os preg\u00f5es ganiam os seus gritos alegres; um cavalheiro de cal\u00e7\u00e3o de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.<\/p>\n<p>Mac\u00e1rio ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o bra\u00e7o de Lu\u00edsa passado no seu; e via-lhe a m\u00e3o pendente, a sua m\u00e3o de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a m\u00e3o direita, e aquela m\u00e3o era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava para essa noite \u00abPalafoz em Sarago\u00e7a \u00bb.<\/p>\n<p>De repente, soltando o bra\u00e7o de Lu\u00edsa, disse-lhe baixinho:<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te.<\/p>\n<p>\u2014 Ouve!\u2026 \u2014 disse ela, com a cabe\u00e7a toda inclinada.<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te. \u2014 E com voz abafada e terr\u00edvel: \u2014 Vai-te. Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.<\/p>\n<p>\u2014 Mas houve, Jesus \u2014 disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te! \u2014 E fez um gesto, com o punho cerrado.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus, n\u00e3o me batas aqui \u2014 disse ela, sufocada.<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te, podem reparar. N\u00e3o chores. Olha que v\u00eaem. Vai-te.<\/p>\n<p>E, chegando-se para ela, disse baixo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s uma ladra!<\/p>\n<p>E, voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o ch\u00e3o com a bengala.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e2ncia, voltou-se: ainda viu, atrav\u00e9s dos vultos, o seu vestido azul.<\/p>\n<p>Como partiu nessa tarde para a prov\u00edncia, n\u00e3o soube mais daquela rapariga loura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Come\u00e7ou por me dizer que o seu caso era simples \u2014 e que se chamava Mac\u00e1rio\u2026 Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. 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