{"id":569,"date":"2018-07-05T15:05:25","date_gmt":"2018-07-05T15:05:25","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=569"},"modified":"2018-07-05T15:09:38","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:38","slug":"sao-cristovao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/sao-cristovao","title":{"rendered":"S\u00e3o Cristov\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>I <\/p>\n<p>Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sob as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surr\u00e3o de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua \u00e9gua carregada de lenha, recolheu, pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.<\/p>\n<p>Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passar na lagoa, mais reluzente, sob a amarelid\u00e3o da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua cho\u00e7a de rama. E adiante, num pinheiral, apesar de j\u00e1 luzir no alto a estrelinha da tarde, e o bom trabalhador ter fome, parou at\u00e9 encher o saco de uma velhinha que, tremendo, e arrimada a um bord\u00e3o, apanhava agulhas e pinhas. A velha murmurou: \u201cDeus te d\u00ea alegria em tua casa!\u201d<\/p>\n<p>Longamente ainda, ora por caminhos claros que soavam como lajes, ora sob a ramaria alta, por veredas fofas de musgo, tilintavam no sil\u00eancio e na penumbra os guizos da \u00e9gua. E a noite cerrava-se, quando para al\u00e9m de um ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do castelo andava erguendo a S. Cosme.<\/p>\n<p>O lenhador, com a sua \u00e9gua, meteu por uma longa alameda de faias, atr\u00e1s de um carro que chiava lentamente, carregado de mato. A estacada, que outrora cercava a aldeia, apodrecera sob os s\u00f3is, sob as chuvas, ao abandono durante longos e fartos anos de paz: e as cabanas repousavam entre os pomares, em seguran\u00e7a e fartura. Dos tetos, bem cobertos de colmo, seguros por lascas de lousa, subia o fumo lento e cheiroso das pinhas e agulhas ardendo com abund\u00e2ncia nas lareiras. Em todas as cortes grunhiam porcos. Pelas quelhas mais escuras, as raparigas passavam para os ser\u00f5es, sem temor, com a sua roca \u00e0 cintura. Por tr\u00e1s dos muros de adobe, morria o murm\u00fario dormente dos ter\u00e7os e das coroas realizadas em coro, nas contas. Raramente um rafeiro latia por tr\u00e1s da cancela ou das sebes. No adro, o forno senhorial ainda ardia, tanta era a fartura do p\u00e3o a cozer. E junto da fonte toldada pelas ramagens de um olmeiro, no banco de pedra onde aos domingos os velhos vinham julgar os pleitos de gados ou de \u00e1guas, os dois arqueiros do castelo, que todas as noites rondavam a aldeia, dormiam sem cuidados, como frades, com os seus arcos ca\u00eddos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Lentamente, ao rumor lento dos guizos, o bom lenhador e sua \u00e9gua passaram, ao fim do povoado, a alta taberna do Galo Preto, que estendia atrav\u00e9s da estrada a sua comprida vara enfeitada de louro. Dois romeiros, com vieiras na mur\u00e7a de burel, bebiam \u00e0 porta por grossos pich\u00e9is de estanho. Dentro um pobre menestrel, de longa guedelha ca\u00edda sobre o gib\u00e3o em farrapos, tangia a sua viola de tr\u00eas cordas: e um frade mendicante com a sacola entre os joelhos, um caldeireiro com os tachos de lat\u00e3o e a ferramenta pousada ao lado no ch\u00e3o de terra negra, jogavam dados sobre um banco, na penumbra das grossas pipas, que tinham todas uma cruz branca, para que os maus esp\u00edritos n\u00e3o azedassem o vinho.<\/p>\n<p>O bom lenhador apressava sua \u00e9gua: e bem depressa, do alto de um cerro coberto de azinheiras, avistou embaixo o rio, o largo rio escuro que corria, mudamente, sob os quatro arcos de uma velha ponte romana, que tinha ao meio uma capelinha nova, onde palidamente, na n\u00e9voa \u00famida, bruxuleava uma l\u00e2mpada. Para al\u00e9m, na outra margem, era uma longa colina suava, onde se erguia, acompanhado de arvoredos e cercado de muralhas como uma cidadela, um mosteiro rico de Dom\u00ednicos.<\/p>\n<p>Mas, descendo o cerro, o caminho estreito, por onde, sob a estrelada mudez da noite, iam tilintando os guizos da \u00e9gua, corria fundo e negro entre altos barrancos. E como a\u00ed, por vezes, de noite, aparecia um estranho pastor, de cabelos cor de fogo, e seguido por dois lobos familiares, o bom lenhador murmurou, voltado para o santo lugar onde nasce a estrelinha d\u2019alva, o nome do anjo Gabriel.<\/p>\n<p>Depois, sem temor, atravessou o pinheiral. J\u00e1 ent\u00e3o trilhava as terras do solar do seu Senhor. Vastos pastios de gado, campos onde se fizera a ceifa, desciam at\u00e9 o rio, que um choupal bordava, escuro e cheio e rouxin\u00f3is. E sobre um forte outeiro, logo o Castelo apareceu, negro, formid\u00e1vel, com altas muralhas, os grandes cata-ventos em forma de drag\u00f5es e de aves her\u00e1ldicas no cimo de cada torre, e, na mais alta, a chama clara do seu alto farol.<\/p>\n<p>Uma cal\u00e7ada de grossas lajes, orlada de faias, conduzia ao terreiro, para onde abria, sob a torre de menagem, a estreita porta chapeada de ferro e a ponte levadi\u00e7a, que sempre descida, naqueles doces anos de paz, tinha as cadeias de ferro enferrujadas. De um lado do terreiro havia um pequeno alpendre, coberto de rama, onde se vendia, \u00e0 vasilha, o bom vinho branco das vinhas senhoriais. Do outro lado, negrejavam os grossos barrotes das forcas patibulares. Um velho olmo assombreava o banco de pedra, onde, pelas tardes de ver\u00e3o, o Senhor vinha julgar os delitos, receber vassalagens, ou marcar as portagens devidas pelos mercadores que, com longas r\u00e9cuas de machos carregados, passavam por dentro das suas terras. Nenhuma claridade sa\u00eda das janelas das torres, mais esguias que fendas. As r\u00e3s coaxavam na \u00e1gua negra dos fossos.<\/p>\n<p>O bom lenhador costeou as compridas muralhas, onde por vezes uma mancha mais clara na pedra negra era como uma cicatriz de batalha numa face requeimada; e passando pela alta cancela de uma sebe, que ao longe se perdia nos prados escuros, penetrou por uma estreita poterna, aberta na muralha como uma fenda abobadada, e guardada por um c\u00e3o enorme, cuja corrente de ferro arrastava na lajes.<\/p>\n<p>Dentro, no vasto recinto murado, para al\u00e9m de um po\u00e7o de bordas baixas, encimado por um pombal, a casa senhorial erguia a sua fachada simples e severa, de onde sa\u00eda, atrav\u00e9s dos vidros mi\u00fados encaixilhados em chumbo, a claridade p\u00e1lida dos brand\u00f5es da sala, ao lado da luz mais vermelha das cozinhas. Um torre\u00e3o redondo, com balc\u00e3o, erguia a uma esquina o seu agudo teto de escamas de lousa, encimado por um vasto cata-vento em forma de bandeira desdobrada. Aos cantos da casa, esguios drag\u00f5es alados, voltavam para o p\u00e1tio as goelas escancaradas, por onde as chuvas se escoavam nos regueiros da cisterna. E a lanterna de um servo, que passava sobre o terra\u00e7o, alumiava grossas filas de ab\u00f3boras pousadas no parapeito, secando ao sol.<\/p>\n<p>O bom lenhador descarregou a \u00e9gua na tercena de lenha. Depois, tirando o seu barrete de pele de coelho, empurrou a grossa porta da cozinha, armada de puas de ferro. Sob a chamin\u00e9, enfeitada de r\u00e9stias de cebola e de ramos de louro seco, t\u00e3o vasta que abrigava, de cada lado da lareira, um longo banco de carvalho. Uma chama clara de troncos, ardendo sobre brasido, alumiava as paredes caiadas, onde pendiam de ganchos de ferro odres de vinho, caldeir\u00f5es reluzentes, e os sacos de especiarias. Com o seu longo avental de couro, um barrete de couro na cabe\u00e7a raspada, o mestre cortava sobre um cepo imenso de pau, um anho esfolado. Um servente, de bra\u00e7os nus, regava de molho, com uma longa colher de ferro, as grossas pe\u00e7as de carne que assavam nos espetos, mais longos que lan\u00e7as de guerra. Dois lebr\u00e9us brancos enroscados dormiam diante do lume. E rente do muro, sentados em tripe\u00e7as, j\u00e1 os mo\u00e7os das abegoarias, os pastores, os cordoeiros, esperavam a ceia, calados, com os seus gorros na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas um pajem, de longos cabelos encaracolados, e trazendo um jarro lavrado, ergueu ao fundo a grossa cortina de estamenha, que tapava uma imensa porta em arco, ornada com duas cabe\u00e7as de lobos. E o bom lenhador dobrou humildemente o joelho, entrevendo para al\u00e9m, j\u00e1 alumiada para a ceia, por tochas de cera, a sala senhorial: a vasta mesa atapetada de ervas frescas; as duas lan\u00e7as transversais por cima, suspensas do teto por correntes de ferro, carregadas de grossos p\u00e3es de s\u00eamea; a alta cadeira de espaldar, no topo, encimada por um alto bras\u00e3o, tendo ao lado um poleiro, onde dormiam dois falc\u00f5es; a imensa chamin\u00e9 de pedra, ao fundo, com figuras em relevo que agitavam armas. Todos os servos se tinham erguido. E quase imediatamente, arrastando os seus sapatos de pano amarelo, o despenseiro apareceu, calvo e gordo, com o seu molho de chaves. Era ele que distribu\u00eda a ra\u00e7\u00e3o aos pastores, aos cordoeiros, aos tosquiadores, aos forneiros, e aos outros servos do dom\u00ednio que n\u00e3o ceavam na cozinha do solar; e bem depressa o bom lenhador recebeu no seu saco de estopa o p\u00e3o de s\u00eamea, o pichel de vinho, e a posta de carne salgada, devida nos dias de grande corte.<\/p>\n<p>De novo o bom lenhador empurrou, sem ru\u00eddo e humildemente a porta da cozinha. Passou a poterna da muralha, que abria para os jardins e para o jogo da bola. Atravessou a rua de limoeiros que dividia os jardins e o pomar, onde docemente cantavam na sombra os repuxos e a \u00e1gua das regas; ladeou a casa do cabanal e a eira, alvejando, toda caiada de fresco, sob a claridade das estrelas; e passando entre abegoarias e a li\u00e7a dos pajens, que desenrolava entre mastros enfeitados de bandeirolas a sua pista areada de saibro, saiu por uma porta da alta estacada, que circundava a quinta senhorial. Para al\u00e9m eram vastos prados, pastagens descendo at\u00e9 ao rio, onde uma larga avenida de olmos abrigava a cordoaria do castelo. Um outro cerrado de sebe espinhosa cercava estas fartas depend\u00eancias rurais, defendidas ainda por armadilhas para os lobos, valas erri\u00e7adas de puas, e pequenas torres de adobe onde ardia uma lanterna.<\/p>\n<p>O bom lenhador passou esta sebe, e meteu pelas azinhagas, a caminho da sua cabana, aninhada entre pinheiros e faias \u00e0 orla da floresta, que, desde os coutos onde todo o dia trabalhava, vinha pelo interior das terras vestindo vale e monte. Por entre os troncos dos pinheiros mansos, o largo rio alvejava embaixo \u00e0 claridade das estrelas. Os pirilampos faiscavam na ponta das sebes. Um aroma de madressilva ado\u00e7ava o ar.<\/p>\n<p>O bom lenhador atravessou, sobre uma ponte feita de troncos, um riacho que saltava entre rochas, onde os pajens da castelania vinham pescar trutas. Um rouxinol cantava embaixo entre a ramaria dos choupos. Adiante havia uma cruz de pedra coberta de heras, que tinha um bra\u00e7o partido. Piedosamente o bom lenhador tirou o seu barrete de pele de coelho. O seu cora\u00e7\u00e3o simples, nessa noite, sentia como um contentamento desacostumado. Ouvindo o sino do mosteiro, que nas colinas al\u00e9m do rio tocava a V\u00e9speras, murmurou uma salve-rainha, com uma devo\u00e7\u00e3o maior, certo de que a Virgem o escutava, debru\u00e7ada do C\u00e9u, toucada de todas aquelas estrelas que rebrilhavam mais que o ouro. J\u00e1, a dist\u00e2ncia, sob o c\u00e9u p\u00e1lido, se arredondavam os cimos dos arvoredos, onde se escondia a sua cabana. A mulher, a boa companheira, esperava por ele fiando \u00e0 lareira. Estugou o passo e, subitamente, da sombra de um chor\u00e3o debru\u00e7ado \u00e0 beira do caminho, surgiu um mo\u00e7o de olhos brilhantes como lumes, coberto com uma t\u00fanica branca, encostado a uma vara branca, que parou diante dele, e disse sorrindo:<br \/>\n\u2014 Entra contente na tua morada, que teu filho h\u00e1 de ser um grande santo!<\/p>\n<p>E subitamente desapareceu. Um aroma vivo, como de incenso misturado a cravos, passou de leve no ar. E as relvas altas do prado, ondeavam, dobradas, como se as ro\u00e7asse um manto de seda fina.<\/p>\n<p>O bom lenhador ficara im\u00f3vel, tremendo, na sombra que se adensou, mais cerrada, sob as ramagens das faias. E mal compreendia a quem t\u00e3o docemente falara aquele mo\u00e7o, de olhos mais claros que lumes de altar. A sua boa companheira n\u00e3o lhe dera ainda um filho naqueles longos anos, t\u00e3o serenamente passados, desde a manh\u00e3 de Natal em que por sobre a neve dura brilhando ao sol, ao fino som da rabeca que o menestrel tangia, coroada de rosas, ele a trouxera \u00e0 cabana constru\u00edda por suas m\u00e3os, com as madeira por suas m\u00e3os rachada. Como poderia pois, no seu lar que nenhum riso de crian\u00e7a alegrava, crescer, para sua gl\u00f3ria, um grande santo?\u2026 Arrepiado, penetrou por sob a ramaria, espreitando, escutando, na esperan\u00e7a e no terror de surpreender ainda uma claridade, um rumor daquele mensageiro estranho, que vestia de branco como os anjos. Todo o bosque estava mudo e ermo. Ent\u00e3o entrou na sua alma simples um grande medo de todos os seres invis\u00edveis que, vindos de C\u00e9u, ou vindos do Inferno, de repente surgem nos caminhos escuros. Come\u00e7ou a correr por uma estreita azinhaga at\u00e9 aos castanheiros que abrigavam a sua cabana. Uma fenda de luz sa\u00eda da porta, entreaberta \u00e0 frescura doce da noite. O rafeiro que o aguardava, com sua coleira eri\u00e7ada de pregos, latiu alegremente. Entrou, limpando na face o suor que o alagava.<\/p>\n<p>Sentada \u00e0 lareira numa tripe\u00e7a, a sua boa companheira esperava fiando. A panela de ferro fervia, suspensa por uma corrente sobre o lume. A um canto da arca, as malgas vidradas, as canecas de estanho reluziam bem limpas; sobre a palho\u00e7a do catre, o len\u00e7ol de estopa era branco e fresco. Todo o dia a boa companheira lidara para o asseio do seu lar. O lenhador pendurou junto \u00e0 chamin\u00e9 o seu machado, e, nem \u00e0 ceia, nem deitado junto dela no catre, revelou \u00e0 mulher o encontro com aquele mo\u00e7o de olhos resplandecentes. Receava que ela, t\u00e3o s\u00e9ria e justa, repreendesse o seu orgulho. Por que mandaria Deus um anjo, com t\u00e3o maravilhoso recado, a um rude servo, de sai\u00e3o de estamenha? Decerto n\u00e3o fora a ele que o mo\u00e7o, brilhante de claridade, anunciava a santidade de um filho\u2026. Se Deus os tivesse escolhido para t\u00e3o grande ventura, n\u00e3o seria por ele, rude como os troncos da sua mata, mas pela sua boa companheira, t\u00e3o s\u00e9ria, diligente no trabalho, clara de alma, compassiva aos mais pobres, sempre alegre e t\u00e3o leal! Nela e n\u00e3o nele, estavam decerto os m\u00e9ritos divinos.<\/p>\n<p>E enquanto ela, direita, robusta, e corada como uma ma\u00e7\u00e3, enchia as malgas da ceia, o lenhador sentia abrir-se no seu cora\u00e7\u00e3o, como uma flor que sob o orvalho reflorescesse, uma ternura doce e melhor por aquela que, em tantos anos tornara a sua pobre cabana lugar mais apetec\u00edvel que a casa rica de um senescal ou o castelo do seu Senhor.<\/p>\n<p>II <\/p>\n<p>Era o tempo das vindimas nas vinhas da castelania. Uma manh\u00e3, cedo, ao cantar das calhandras, quando o bom lenhador prendia ao cinto seu machado, partindo para o castelo onde ia rachar a lenha mi\u00fada, a sua companheira, que se sentara na arca com os bra\u00e7os cruzados, disse de repente, toda s\u00e9ria e vermelha:<\/p>\n<p>\u2014 Meu homem, vamos ter um filho.<\/p>\n<p>Ele ficou diante dela, mudo, como no espanto de um milagre. Depois balbuciou, pediu uma certeza. Ela estava t\u00e3o segura, que j\u00e1 na v\u00e9spera, enquanto ele andava trabalhando no souto, fora ao Mosteiro comungar, para que a Santa H\u00f3stia fosse o primeiro alimento da criancinha que em si trazia, e que assim recebia logo o corpo e o sangue de Jesus. O bom lenhador tornou a emudecer, como deslumbrado, co\u00e7ando a barba rude. Ent\u00e3o a boa companheira, pensando que ele, assim silencioso, se amargurava na alma com aquele filho que vinha para ser, como eles, um servo, preso \u00e0quela terra de florestas como qualquer carvalho que s\u00f3 serve para render, e quando n\u00e3o rende se abate, lembrou quanto a vida servil era f\u00e1cil e branda nos dom\u00ednios do bom castel\u00e3o. J\u00e1 t\u00e3o velho, paternal, o bom Senhor amava os seus servos, e velava por eles como searas dos seus campos. Havia tantos anos que as masmorras estavam vazias, que o senescal perdera as chaves. Sempre que os homens eram chamados para compor os telhados ou limpar os fossos, voltavam contentes com bom sal\u00e1rio. Quando, montado na sua mula, percorria as terras, parava a aconselhar os trabalhadores, sem mesmo consentir, nos dias de vento, que eles tirassem os seus barretes. O pre\u00e7o da moagem, e o da fornada, no moinho e no forno senhoriais, fora por ele abaixado\u2026 E a boa menina, herdeira daquele dom\u00ednio, onde haveria outra t\u00e3o caridosa e suave? Era ela que ligava, com seus dedos mais brancos que os de uma Nossa Senhora, a feridas dos pegureiros. Se a ventania levantava o colmo de uma cabana, logo ela o mandava consertar. Nos grandes frios, distribu\u00eda pelos velhos vinho antigo e peles de carneiro\u2026 Se a vida era assim f\u00e1cil e branda na castelania, bem podiam eles estar contentes com o filhos que lhes nascia, para ser um servo contente sob aqueles bom senhores.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 verdade, meu homem?<\/p>\n<p>A face do lenhador resplandecia, como um ouro sem liga sob um raio de sol.<\/p>\n<p>\u2014 Bendito seja Deus por eu ter te conhecido, mulher!<\/p>\n<p>Apertou fortemente nos bra\u00e7os a companheira valente, e partiu para o trabalho. Pelo caminho que levava ao castelo, sorria, vaga e deslumbradamente, para o c\u00e9u e para as \u00e1rvores. E a cada instante lhe alvoro\u00e7ava a alma aquela promessa lan\u00e7ada, sob a escurid\u00e3o das faias, pelo mo\u00e7o de olhos resplandecentes. Era esse, pois, o filho anunciado que se devia tornar um grande santo? Quase assustado, n\u00e3o ousava crer num t\u00e3o maravilhoso favor de Deus. Um servo gerar um santo! Quando o seu Senhor, t\u00e3o poderoso, doador de capelas, acolhedor de peregrinos, que fora em mo\u00e7o libertar Jesus Cristo das maldades dos Turcos, n\u00e3o lograva o favor de um filho, para governar as suas terras, seria ele, servo rude, de sai\u00e3o de estamenha, rachador de madeira, o escolhido por Deus para dar \u00e0quelas gentes o dom maravilhoso de um santo, para as proteger, e chamar sobre elas a amizade dos C\u00e9us? Tal n\u00e3o podia ser, e mesmo em o pensar, em o esperar, ele sentia confusamente o perigo de um orgulho que ofenderia Jesus e os outros santos, e desde logo alhearia a sua prote\u00e7\u00e3o do menino que lhe ia nascer.<\/p>\n<p>Decidiu ent\u00e3o n\u00e3o pensar mais naquela promessa: mas quando ao recolher \u00e0 cabana, de noite, passava junto ao bosque de faias, os seus passos,  a seu pesar, se tornavam mais lentos, e parava, escutava, com o cora\u00e7\u00e3o a bater t\u00e3o fortemente, que as suas pancadas ansiosas eram como as que se d\u00e3o a uma porta fechada sobre um tesouro. E a mudez, a negrura impass\u00edvel do bosque davam uma indefinida, fugitiva tristeza ao seu cora\u00e7\u00e3o, como se uma \u00e1gua fresca, em hora de sede, se lhe secasse entre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Entrando, por\u00e9m, na cabana, todo ele sorria contente, vendo a sua companheira que fiava j\u00e1 a teia do enxoval. Ele tomava a um canto as madeiras que escolhera com carinho, as ferramentas que lhe emprestara o carpinteiro do castelo, e trabalhava no ber\u00e7o do menino: \u2013 porque em ambos todas as ocupa\u00e7\u00f5es, todos os pensamentos eram unicamente em servi\u00e7o daquele filho, que lhes parecia milagroso e raro como uma estrela que de repente brotasse, e come\u00e7asse a dardejar os seus raios na ponta de um galho seco. Ambos come\u00e7avam a ter ambi\u00e7\u00f5es: ela quereria ser, depois de criar o menino, a tecedeira do castelo; ele pensava no lugar do chefe-mateiro, que estava velho e pedira ao Senhor para repousar. Quando o inverno come\u00e7ou, consideravam mesmo quanto a sua cabana era desabrigada e rude; e o bom mateiro come\u00e7ou todas as manh\u00e3s, mal luzia a primeira claridade, a trabalhar nos reparos, pondo colmo novo no teto, tapando fendas, preparando um ch\u00e3o de tabuado, onde mais tarde os pezinhos nus do menino n\u00e3o sentissem a frialdade da terra negra. Depois limpou, areou a horta, que cercou de um silvado, defendendo, isolando mais o seu lar, que ia encerrar um tesouro.<\/p>\n<p>Por vezes a sua companheira queria ajud\u00e1-lo nestas tarefas piedosas. Ele n\u00e3o consentia, num receio constante que se fatigasse, viesse mal \u00e0quele corpo precioso, que a seu pesar, por vezes, imaginava escolhido por Deus, e que contemplava ent\u00e3o com pasmo como um relic\u00e1rio numa capela. Era sempre para ela a malga maior, a fatia mais larga de p\u00e3o, no desejo de a sentir forte, comunicando for\u00e7a ao seu filho. Procurava por toda a floresta mel silvestre, para misturar ao vinho que ela bebia aquecido \u00e0 lareira; e como a moleira do moinho senhorial, junto ao rio, assistia na hora dolorosa a todas as servas da castelania, o pobre mateiro n\u00e3o cessava de a servir, de lhe levar sacos de pinha, de lhe rachar a lenha,e  mesmo arrega\u00e7ando as mangas da estamenha, pretendia limpar as rodas da azenha. A boa comadre, cruzando os bra\u00e7os sobre o avental enfarinhado, dava os seus conselhos; e j\u00e1 por ordem dela, o bom mateiro todas as noites, com uma longa vara, batia as ramas do arvoredo que abrigava a sua cabana, para que n\u00e3o viesse nelas pousar alguma coruja, que, piando de noite, faria nascer a crian\u00e7a medrosa e com os olhos tortos. Mas o seu maior cuidado era queimar na lareira galhos de azinho, para que o leite da m\u00e3e fosse abundante e forte.<\/p>\n<p>O inverno no entanto viera, tormentoso e negro: e nos longos crep\u00fasculos, sentados na tripe\u00e7a, ao lume da lareira, estes dois servos simples pensavam somente no seu filho. Ele contava, recontava na mem\u00f3ria as pe\u00e7as de ouro poupadas naqueles longos anos e enterradas debaixo da arca, e noutras ainda que pouparia, para pagar o padre-mestre que ensinasse ao seu filho as letras e o latim\u2026 Por que n\u00e3o? Quantos filhos de servo tinham cantado missa nova! E a seu pesar, aterrado sob o orgulho incorrig\u00edvel, via o seu filho com uma mitra cravejada de ouro, em vestes recamadas de ouro, atravessar sob um p\u00e1lio os caminhos da aldeia, juncados de rosas e de erva-doce. A m\u00e3e, essa, calada, movendo o seu fuso, s\u00f3 via o seu filho pequenino, muito gordo, com a face cheia, lisa, e corada como uma manh\u00e3, rindo sobre o seu colo.<\/p>\n<p>Uma noite, que ela assim pensava, adormeceu, fatigada de ter lidado, j\u00e1 pesada, todo aquele dia de Abril, quente e longo. E quase imediatamente se viu sentada, no adro da capela, na aldeia, um domingo de festa, no primeiro dia de maio: em volta as raparigas dan\u00e7avam, ao som da rabeca que tocava um menestrel; os mo\u00e7os mais fortes lutavam sobre a relva; um servo do castelo vendia vinho de uma grande pipa enfeitada de louro; e um cavaleiro, todo armado, segurava um cavalo de grandes crinas, t\u00e3o bravo que ningu\u00e9m o podia montar\u2026 E eis que, de repente, o seu filho aparece com um gib\u00e3o de pano azul, um capuz escarlate como o filho de um mercador, e logo derruba na luta os mais fortes, amansa o corcel indom\u00e1vel, faz empalidecer de amor todas as raparigas s\u00f3 com volver os olhos radiantes, e, tomando a rabeca do menestrel, come\u00e7a t\u00e3o divinamente a tanger, que todos os p\u00e1ssaros sa\u00edam das ramarias, e vinham maravilhados, pousar nos seus ombros largos. Ela tremia, num infinito orgulho. E em roda todos, erguendo os barretes, gritavam:<\/p>\n<p>\u2014 Eis o mais belo, o mais destro, o mais forte! Seja ele o Rei de Maio!<\/p>\n<p>Acordou ao clamor triunfal. O seu homem areava o seu machado. E quando ela, ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo, porque os sonhos s\u00e3o como tape\u00e7arias que os anjos desenrolam e em que est\u00e3o bordados, em cores claras, os destinos que h\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Ambos acordavam de manh\u00e3, a um grande canto de p\u00e1ssaros t\u00e3o alegre e ruidoso como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas. Mas a mulher do lenhador n\u00e3o se podia erguer, num cansa\u00e7o que a tornava mais p\u00e1lida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu ao seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e h\u00e1bil, porque chegava a sua hora de gl\u00f3ria e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher come\u00e7ou logo a sua ora\u00e7\u00e3o a Santa Margarida.<\/p>\n<p>Atirando o machado que apertara ao cinto de couro, o bom lenhador correu atrav\u00e9s dos campos, ansiosamente, pisando sem dor os milhos novos, saltando as sebes em flor. A moleira carregava um saco cheio sobre o seu jumentinho branco. Descarregou logo o saco, saltou sobre o jumento, e atrav\u00e9s das azinhagas, a moleira galopando, o lenhador correndo, pararam \u00e0 porta da cabana, quando do seu beiral se erguia, tomando o v\u00f4o, um casal de pombas brancas. Era um feliz pren\u00fancio: \u2013 e enquanto o lenhador ia prender o jumentinho no eido, a moleira entrou na cabana depois de riscar no ch\u00e3o uma cruz com o p\u00e9, murmurando o nome de Santa Margarida. Mas voltou logo, trazendo nas m\u00e3os um largo cinto de couro, com que a boa fiandeira apertava as saias, e gritou pelo lenhador, para que ele corresse \u00e0 capela, atasse o cinto na corda do sino, e repicasse nove repiques, rezando nove ave-marias. Eis de novo o bom lenhador correndo, com o cinto apertado ao peito, preciosamente: desceu aos choupais, frescos e cheios de sombra; correu ao comprido do rio, todo reluzente de sol, que uma grossa barca, com armas de um D. Abade e toda carregada de pipas, subia lentamente \u00e0 sirga; galgou os lameiros, onde os gados pastavam, ao som das flautas dos pegureiros; abalou pela estrada, por diante da taberna do Galo Preto, de onde os carvoeiros da mata o chamavam, erguendo alegremente os pich\u00e9is de estanho\u2026 Ele, sem escutar, seguiu: mas teve de parar, de repente, porque dos lados da ponte, com um lampejar de armas e um brilho de sedas claras, desembocava um rica cavalgada, a caminho do castelo. Um clarim soava triunfalmente; guardas barbudos e graves traziam as lan\u00e7as erguidas, ao alto; uma bandeira, no ar, desdobrava o seu grande bras\u00e3o de cores estridentes; os pajens, empoeirados dos caminhos, conduziam \u00e0 r\u00e9dea az\u00eamolas carregadas de pesados cofres pintados a escarlate e ouro; \u2013 e um fidalgo, mo\u00e7o, de barba negra, com um falc\u00e3o no punho, ria de cima do seu alto corcel, coberto com um xairel de veludo azul, com um frade que cavalgava ao lado, numa mula toda branca. Galgos \u00e1geis corriam em roda; e um tro\u00e7o de lan\u00e7as seguia, erguendo grande poeira.<\/p>\n<p>Curvado, cosido contra a sebe espinhosa, com o seu barrete na m\u00e3o, o bom mateiro saudava humildemente, esperava com o cora\u00e7\u00e3o a bater de ansiedade. Ao seu lado, outros vil\u00f5es dobravam o joelho; e um velho alto murmurava que aquele era um bar\u00e3o de outras terras, que chegava para noivar com a filha do bom castel\u00e3o. Mas de repente alguns cavaleiros paravam: uma das az\u00eamolas, espantada, atirara ao ch\u00e3o os cofres de escarlate e ouro: e um senescal, correndo logo, reclamou todos os vil\u00f5es ali juntos para virem erguer os cofres, carregar novamente a az\u00eamola. E o bom mateiro l\u00e1 se adiantou, aflito, com os olhos quase enevoados de l\u00e1grimas, mal podendo atar as cordas que prendiam os cofres nas andilhas da az\u00eamola. Tr\u00eas vezes o senescal o injuriou. E a sua pobre companheira sofrendo por n\u00e3o repicarem os santos sinos que amansariam a sua dor!<\/p>\n<p>Mas o animal, carregado de novo, aquietou, levado \u00e0 r\u00e9dea pelos pajens; e os cavaleiros trotaram na poeira, que o sol dourava. Ent\u00e3o, livre, o lenhador correu desesperadamente \u00e0 capela que servos do senhor andavam caiando de fresco. Ajudado pelo sacrist\u00e3o, um velho corcunda a quem ele \u00e0s vezes rachava lenha, atou o cinto de couro \u00e0 corda grossa do sino: \u2013 e bem depressa, no azul cheio de sol, cantava alegremente os novos repiques devotos. Para maior seguran\u00e7a acendeu ainda, num altar duas velas a Santa Margarida. Depois, confiado na miseric\u00f3rdia do C\u00e9u, recolheu \u00e0 sua cabana.<\/p>\n<p>Os olhos quase se lhe enevoavam de l\u00e1grimas, quando, da azinhaga por onde ia arquejando, a avistou, sob as grandes \u00e1rvores. Mas n\u00e3o lhe pareceu neste instante t\u00e3o escura e humilde. O Sol, que  batia em redor nas ramagens, tinha um desacostumado esplendor. A cruz branca, que ele pintara na porta para afugentar os dem\u00f4nios, reluzia, como feita de uma luz clara. Das sebes, a seu lado, sa\u00eda um aroma mais doce que incenso. As grandes papoulas entre a erva, as flores silvestres, pareciam maiores, com grandes cores de festa. Regatos que n\u00e3o via, borbulhavam alto, com um som fresco do riso.<\/p>\n<p>Ele pasmava desta beleza, que nunca vira nestes caminhos familiares. E eis que subitamente, do lado do rio, rompem, num repique festivo, os grandes sinos do Mosteiro, e do lado do castelo a sineta da capela lan\u00e7a tamb\u00e9m pelo azul um repique argentino. Todo o c\u00e9u tinha um alegria de festa. E quando chegou \u00e0 porta da sua cabana, os pinheiros em redor, movendo as altas ramas, pareciam cantar.<\/p>\n<p>Entrou. Sobre o catre, a sua companheira jazia im\u00f3vel, branca como o len\u00e7ol, j\u00e1 composto e liso, que a cobria. E diante do lume que estalava, a moleira, abatida sobre uma tripe\u00e7a, sustentava no colo o menino, estendido num pano branco\u2026 Mas o pobre lenhador, que estendera os bra\u00e7as, como se ante ele se abrissem as portas do C\u00e9u \u2013 recuou espavorido. O seu filho era um monstro.<\/p>\n<p>Escuro, coberto de uma pela rugosa e \u00e1spera; com uma face vaga, informe, onde as fei\u00e7\u00f5es faziam como vagas protuber\u00e2ncias nodosas, as m\u00e3os enormes enclavinhadas sobre o ventre felpudo; torto das pernas que findavam em dois p\u00e9s agudos, como os de um fauno, todo ele parecia uma raiz sombria, raiz de \u00e1rvore estranha, ainda negra da terra de que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um ser vegetal!<\/p>\n<p>Duas l\u00e1grimas amargas e lentas rolaram pela barba do lenhador. Deu um passo para a beira do catre. Na face branca, e como morta, de sua companheira, duas l\u00e1grimas corriam tamb\u00e9m, como na amargura de um sonho desfeito.<\/p>\n<p>III <\/p>\n<p>Como aquele ser informe decerto ia morrer, o pr\u00f3prio pai, aterrado e chorando, o batizou e lhe deu o nome de Crist\u00f3v\u00e3o.biblio<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dia, durante tr\u00eas noites, Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o mamou, n\u00e3o gemeu, im\u00f3vel no ber\u00e7o, que o lenhador e sua companheira constantemente velavam, numa esperan\u00e7a teimosa. sentindo naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que ambos cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os len\u00e7\u00f3is do ber\u00e7o que rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho muito robusto. Crist\u00f3v\u00e3o descerrara as p\u00e1lpebras moles, e eles viram enfim os seus olhos de um azul-p\u00e1lido, como a flor da pervinca. A m\u00e3e, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abund\u00e2ncia de leite sufocava: \u2013 e em poucos sorvos, largos e fundos, Crist\u00f3v\u00e3o esvaziou um dos peitos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a viver  uma vida intensa e r\u00e1pida. Dormindo, a sua respira\u00e7\u00e3o era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar os seus gritos abalavam a cabana; e na sua voracidade, sem parar, secava o leite da m\u00e3e, chupava atrav\u00e9s de um pano largos peda\u00e7os de mel silvestre, e ficava trincando com impaci\u00eancia o dedo que, para o consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.<\/p>\n<p>E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele, perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de ma\u00e7\u00e3: a cabe\u00e7a emergia dos ombros como uma decis\u00e3o de come\u00e7ar a vida; e as pernas agora direitas, com dois grandes p\u00e9s chatos, eram t\u00e3o fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o ber\u00e7o.<\/p>\n<p>E bem depressa, com terror da m\u00e3e, n\u00e3o coube no ber\u00e7o. Como era no calor de maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto de um mant\u00e9u, um leito na horta, onde o deitavam sob uma mimosa em flor. Mas Crist\u00f3v\u00e3o rolava para fora do mant\u00e9u, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com del\u00edcia, como num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava j\u00e1 transparecer o brilho de um dente. Come\u00e7aram ent\u00e3o a aparecer, voando, por sobre os legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como o lenhador nunca vira. Uma roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o tronco mirrado, rebentou em grandes rosas que perfumavam todo o ar. Os melros que ali acudiam, fazendo um canto incessante e festivo, emudeciam quando a enorme crian\u00e7a dormia, com seus grossos punhos fechados. A mimosa, todas as \u00e1rvores em redor, vieram estendendo as suas ramarias, como toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mant\u00e9u. E um dia a m\u00e3e, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado, que por cima da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Crist\u00f3v\u00e3o, com a gravidade de um av\u00f4.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o t\u00e3o pesado que a boa mulher vergava, mal o podia transportar da porta para o ber\u00e7o. E todavia tinha s\u00f3 seis meses. A moleira que parava, com o seu jumentinho carregado de sacos, diante da cabana, para o ver, pasmava das suas cores vermelhas, da sua for\u00e7a, dos seus membros perfeitos e daquele sossego em que permanecia, todo um longo dia de ver\u00e3o, sentado, cravando na mesma pedra ou no mesmo ramo os seus olhos azulados, sem brilho e sem vida. E ela via nesta transforma\u00e7\u00e3o um milagre de Santa Ana.<\/p>\n<p>Muito antes do Natal, Crist\u00f3v\u00e3o come\u00e7ou a andar. J\u00e1 corria toda a horta, era quase da altura da sebe \u2013 e se, para se segurar, atirava a m\u00e3o a um ramo, o ramo rachava como sob o esfor\u00e7o de um homem forte. O pai vivia no encanto e deslumbramento desta for\u00e7a magn\u00edfica: \u2013 e seu prazer era contemplar a crian\u00e7a erguendo uma grossa panela de ferro, ou caminhar para a lareira abra\u00e7ado a duas imensas achas de lenha. N\u00e3o duvidava que ele viria a ser o homem mais valente de toda a castelania, e j\u00e1 o imaginava soldado, com uma pesada armadura, comandando os ter\u00e7os da castelania. No cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e havia uma surda, vaga tristeza, por aquele crescer maravilhoso de for\u00e7a e de formas. J\u00e1 o n\u00e3o podia trazer ao colo; Crist\u00f3v\u00e3o tinha apenas um ano, e j\u00e1 n\u00e3o era o seu menino, o seu pequenino. Os ternos cuidados da sua maternidade eram j\u00e1 para ele in\u00fateis. N\u00e3o necessitava amparar-lhe os passos, nem meter-lhe na boca a comida. Enorme, t\u00e3o forte como ela, Crist\u00f3v\u00e3o, quando tinha fome levantava a tampa da arca e partia ao meio as broas mais duras. O lenhador marcara na parede, com um tra\u00e7o branco, a altura do filho, pelo Natal: \u2013 e cada dia os riscos subiam mais alto, quase rente \u00e0 prateleira da lou\u00e7a. Aos dois anos a sua cabe\u00e7a pequenina, coberta de uma l\u00e3 espessa e loura, j\u00e1 dava pelo cinto do lenhador. Os saiozinhos de pano que ela cosera com tanto amor, jaziam in\u00fateis no fundo da arca, sem que ele tivesse jamais sido bastante pequenino para se mostrar, com eles, pela sua m\u00e3o, aos domingos, no adro da aldeia. E quando o via, ainda mudo e inocente como uma crian\u00e7a de peito, e j\u00e1 t\u00e3o grande, enchendo quase a porta da cabana, onde costumava estar horas, parado, a olhar monotonamente o ar e o sol, a pobre m\u00e3e, desconsolada, sentia uma l\u00e1grima umedecer-lhe a face.<\/p>\n<p>O que a consolava era senti-lo t\u00e3o manso e doce. Se ela, assustada, lhe tirava o machado do lenhador, que ele gostava de erguer, ou se o afastava do lume, que incessantemente o atra\u00eda, ele n\u00e3o mostrava nem resist\u00eancia nem impaci\u00eancia. N\u00e3o era mais inerte um fardo de l\u00e3. Permanecia longas horas na tripe\u00e7a em que o sentava, ou \u00e0 sombra , debaixo da cerejeira da horta. O seu encanto era ver fiar a m\u00e3e, atento profundamente ao rodar, ao cantar do fuso. E a cada instante lhe tomava a m\u00e3o, para nela pousar um beijo mudo, sem brilho, que n\u00e3o findava. Ela apertava-o ao seu cora\u00e7\u00e3o, murmurando, desolada:<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o \u00e9s tu mais pequenino?<\/p>\n<p>E, no entanto, j\u00e1 perto dos quatro anos, n\u00e3o falava. O \u00fanico som que sa\u00eda, cavo e grosso, dos seus l\u00e1bios cor de aurora, era: Han! Han! Se tinha sede apontava com o grande dedo, rosnava: Han! Han! Para sair mostrava a porta,e grunhia, com os olhos vagos, para a m\u00e3e: Han! Han! A pobre mulher j\u00e1 perdera a esperan\u00e7a de o ouvir chamar m\u00e3e e pai. J\u00e1 n\u00e3o duvidava de ter concebido um mudo, um imbecil. E na sua dor, num resto de orgulho, n\u00e3o permitia que Crist\u00f3v\u00e3o transpusesse a sebe da horta, descesse abaixo, aos caminhos, com receio que os trabalhadores da floresta, as vizinhas da aldeia, o encontrassem, descobrissem a sua monstruosidade, lamentassem a tristeza do seu lar.<\/p>\n<p>Mas o que sobretudo a aterrava era a insensibilidade de Crist\u00f3v\u00e3o \u00e0 dor, como coisa diab\u00f3lica. Uma vespa mordera-o na face, e ele nem chorava, nem a pele lhe inchara. Sentava-se indiferentemente sobre musgo fresco, ou sobre as selvas espinhosas. E um dia mergulhara a m\u00e3o na \u00e1gua a ferver, e retirara-a, quieto, como se ela fosse de pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Ai! meu homem \u2013 murmurava a pobre m\u00e3e \u2013 que malogro o nosso!<\/p>\n<p>Ele suspirava, sombriamente. Toda a sua alegria, diante daquela robustez primeira do filho, t\u00e3o prometedora, se mudara em dor constante, perante a sua deformidade \u2013 porque Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o falava, tinha a simplicidade de um serzinho no ber\u00e7o, e j\u00e1 lhe dava pelo ombro, forte como ele, com grandes m\u00fasculos, m\u00e3os formid\u00e1veis que brandiam no ar a sua machada t\u00e3o facilmente como uma varinha de olmo. J\u00e1 n\u00e3o falava do seu filho aos outros servos da castelania, carvoeiros, serradores, companheiros da floresta. Se ao menos Crist\u00f3v\u00e3o falasse, tivesse naquela estatura de homem, os modos de um homem\u2026 Iria com ele para o trabalho, n\u00e3o revelaria a sua idade \u2013 e seria como um companheiro mo\u00e7o e robusto que habitava no seu lar. Mas, assim, imenso, com uma vasta face, os ombros de atleta, ele passava horas, esgaravatando a  terra, como uma criancinha, contemplando de rastos o caminhar das formigas, ou, quieto, chupando um dedo.<\/p>\n<p>J\u00e1 na aldeia, entre os servos do castelo. corria que o filho do lenhador era um monstro. Decerto fora algum feiticeiro, seu inimigo, que assim lhe lan\u00e7ara uma sorte temerosa. E alguns, mais afoitos, vieram rondar, espreitar em torno da cabana de Crist\u00f3v\u00e3o, para ver o enfeiti\u00e7ado. A pobre m\u00e3e, uma tarde, sentira grossas risadas, rente \u00e0 sebe da horta; adivinhara estas curiosidades que vinham escarnecer a dor do seu lar. Tinha agora sempre fechada aquela porta da sua cabana, t\u00e3o limpa, t\u00e3o honesta, e por onde at\u00e9 a\u00ed ela deixara passar os olhares de todos, t\u00e3o livremente como os raios do Sol. Quando alguma comadre da aldeia, alguma serva do castelo, a chamava de fora, ela antes de abrir, empurrava para fora, para o escuro das \u00e1rvores, o seu pobre monstro, que l\u00e1 ia movendo os p\u00e9s tardos, com a baba ao canto do queixo. O seu desejo seria erguer em torno de sua morada um muro, um alto cerrado de t\u00e1buas, que a isolasse de toda a terra. E juntamente sofria em ter assim enclausurado o seu pobre Crist\u00f3v\u00e3o, naqueles escassos palmos de cabana e de horta, em o trazer escondido como um fruto amaldi\u00e7oado, de que ela se envergonhava. Toda a sua alma simples e reta andava afogada em tristeza e sombra. E j\u00e1 n\u00e3o duvidava que a monstruosidade do seu filho, era o castigo que a Virgem Maria dera ao seu orgulho de m\u00e3e. T\u00e3o certa andara de que o seu Crist\u00f3v\u00e3o seria divinamente lindo como o Menino Jesus que S. Jos\u00e9 erguia nos bra\u00e7os, que a Virgem se escandalizara no fundo dos C\u00e9us. E bem justamente! Como poderia o fruto, de um ventre servil, ser igual em beleza ao fruto de um ventre divino?<\/p>\n<p>Uma tarde que assim pensava, movendo o seu fuso, sentiu na horta um rumor, e como pedras batendo a folhagem da cerejeira. Inquieta, abriu o loquete, e viu tr\u00eas pajens do castelo que por tr\u00e1s da sebe, joviais e cru\u00e9is, escarneciam o seu filho, e lhe atiravam, como a um bicho numa toca, pedras e torr\u00f5es secos. E Crist\u00f3v\u00e3o, mais forte que os pajens, mas sem compreender, apenas erguia a m\u00e3o ante a face, im\u00f3vel no meio da horta assoalhada. Ela arrebatou-o desesperadamente para dentro, atirou a porta, enquanto os pajens, ofendidos com a aud\u00e1cia da serva, apedrejavam os muros da cabana. Desde esse dia a pobre m\u00e3e come\u00e7ou a definhar. Era uma dor surda, um desconsolo de tudo, que a deixava longas tardes im\u00f3vel, com a roca esquecida na cinta, o fuso ca\u00eddo no ch\u00e3o, perdida, entorpecida numa melancolia sem fim e sem nome. Todo o trabalho lhe pesava como um fardo in\u00fatil. Quase lhe custava a vestir Crist\u00f3v\u00e3o, que nem o seu grosso gib\u00e3o de estamenha sabia enfiar, e que quase fazia corar a pobre m\u00e3e, com o seu enorme corpo nu, grande como o dela, e que lhe parecia a nudez de um estranho, de um homem, que invadira o seu lar. \u00c0 noite, silenciosa e p\u00e1lida, repelia a sua malga de caldo,que Crist\u00f3v\u00e3o logo devorava em sil\u00eancio. E n\u00e3o queria que o seu homem, assustado, chamasse o f\u00edsico do castelo. Para qu\u00ea? \u201cO meu mal, murmurava, h\u00e1 de crescer e crescer\u2026\u201d As tardes na cabana eram tristes como as de um hospital. T\u00e3o fraca que se n\u00e3o podia mover do catre, ela contemplava o seu homem, sentado ao lado, com um longo olhar de saudade, o olhar umedecido de quem vai partir. Ele, com as m\u00e3os dela entre as suas, s\u00f3 instava para que ela experimentasse alguns dos rem\u00e9dios, que aconselhava a moleira, contra aquela m\u00edngua de corpo: e para o contentar, ela acedeu a atar ao pesco\u00e7o um saco onde estava metida uma r\u00e3 e a comer um caldo de margaridas apanhadas \u00e0 lua cheia. Mas, sem dor, sem agonia, o seu pobre corpo ia como que desaparecendo, t\u00e3o magro e transparente que ela via a vermelhid\u00e3o da lareira atrav\u00e9s das m\u00e3os abertas.<\/p>\n<p>Desde que ela adoecera, Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o abandonara a beira do catre, pasmando para a m\u00e3e, ansiosamente, como no esfor\u00e7o de compreender porque ela ficava deitada e de olhos adormecidos, quando sol envolvia a cabana, e at\u00e9 as \u00e1rvores tinham acordado. Por vezes tocava-lhe o bra\u00e7o, o ombro, com um pequenino gemido triste. Ela murmurava, com toda a sua alma: \u201cMeu pobre filho! meu pobre filho!\u201d Mas voltava o rosto amargamente, se o via ir, com os seus passos lentos e balan\u00e7ados de urso dom\u00e9stico, erguer com uma s\u00f3 m\u00e3o a pesada bilha de \u00e1gua, esvazi\u00e1-la de um trago.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o o fim do outono. J\u00e1 o lenhador, ao recolher, sacudia o sai\u00e3o, todo molhado da umidade da floresta: e um grande vento por vezes gemia nos pinheirais. Toda a noite a candeia ficava acesa. Numa enxerga, ao lado da lareira, Crist\u00f3v\u00e3o dormia sob peles de cabra, fazendo um grande vulto na sombra, ressonando t\u00e3o fortemente como uma forja. E a pobre mulher, o homem ao lado, sentado na tripe\u00e7a, entorpecido de fadiga e de sono, n\u00e3o dormia, pensando no abandono e na tristeza em que ca\u00edra aquela pobre cabana, de que ela fizera um ninho t\u00e3o doce! Quem cozinharia a sopa do seu homem, quem trataria daquele pobre monstro, que nem sabia enfiar o seu gib\u00e3o? Um grande solu\u00e7o sacudia o seu peito magro: \u2013 e o lenhador despertando, estremunhado, arranjava a manta que cobria o catre, ou ia remexer nas brasas da lenha.<\/p>\n<p>Uma noite, em que havia um grande sil\u00eancio no arvoredo e no ar, porque ca\u00eda a neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e atrav\u00e9s do desmaio que a tomava, estendeu a m\u00e3o, apalpando para dizer para sempre adeus ao seu homem. E os seus olhos vagos e lentos encontraram ent\u00e3o os olhos do seu Crist\u00f3v\u00e3o, que se erguera, embrulhado numa pele de cabra, e estava aos p\u00e9s do catre, atento, e como esperando, num espanto. Moveu os l\u00e1bios para lhe pedir que se deitassem se agasalhasse, mas s\u00f3 p\u00f4de suspirar, desfalecida\u2026 E pareceu-lhe que, diante, o seu filho come\u00e7ava a crescer visivelmente; j\u00e1 os seus cabelos ruivos tocavam o teto da cabana; o colmo esgar\u00e7ou, e, atrav\u00e9s da abertura, Crist\u00f3v\u00e3o crescia para o c\u00e9u mais alto que os pinheiros, j\u00e1 com a face perdida entre os flocos de neve; e t\u00e3o feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo ar, como almas assustadas. Deu um grito. O pobre lenhador despertou, debru\u00e7ando logo sobre ela, a tremer. A sua companheira parecia adormecida. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o veio lentamente em torno do catre, e pondo as m\u00e3os, de leve, sobre os cabelos que um suor umedecia, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 m\u00e3ezinha, m\u00e3ezinha, n\u00e3o durmas!<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito contentamento subiu-lhe ao rosto macerado, que ficou im\u00f3vel, sorrindo: \u2013 e a boa fiandeira partiu desta terra para o al\u00e9m\u2026<\/p>\n<p>IV <\/p>\n<p>A cerejeira na horta estava coberta de cerejas: o lenhador outra vez trabalhava nos soutos, desde o cantar da calhandra: \u2013 e a vi\u00fava de um carvoeiro da mata vinha, todos os dias, cuidar da cabana e guardar Crist\u00f3v\u00e3o. Era uma velha muito magra e sombria, que surdia de entre os pinheiros, encostada a um bord\u00e3o, acompanhada por um gato negro. Nos primeiros dias, a cada passo, agachada sobre o lume, ou fiando \u00e0 porta, voltava para os membros imensos de Crist\u00f3v\u00e3o com inquieta\u00e7\u00e3o os seus olhinhos luzidios, que os grossos p\u00ealos das sobrancelhas cobriam. Aquele ser disforme, que o pai chamava \u201co menininho\u201d, e que ela vinha guardar, enchia-a de espanto, quando erguia at\u00e9 \u00e0 boca o enorme c\u00e2ntaro cheio de \u00e1gua, ou tapava toda a porta da horta, parado, a chupar o dedo, a olhar para o Sol. Debalde o bom lenhador lhe afian\u00e7ara a sua mansid\u00e3o a sua simplicidade: a velha serradeira temia aquela mansid\u00e3o muda, como uma toca escura e sem ru\u00eddo, de onde podia surtir uma fera. Mas quando, durante longos dias, ela o viu quieto sob a cerejeira, sorrindo \u00e0s formigas que lhe trepavam pelas pernas j\u00e1 peludas, ou, encruzado diante da horta, pasmar, chupando um teto, para o fuso que ela fiava \u2013 a velha reconheceu a sua simplicidade, e considerou que ele era como um animal caseiro, porco gordo ou borrego, que pertencesse \u00e0 choupana. Para n\u00e3o sentir mesmo pousados nela aqueles olhos azulados e sem brilho, e aquele corpo disforme atravancando a cabana, tapando a luz, empurrava-o para a horta, e l\u00e1 lhe levava, ao bater do meio dia, a sopa e a ra\u00e7\u00e3o de broa, numa grande malga, que pousava no ch\u00e3o: e Crist\u00f3v\u00e3o ali passava os seus dias, sentado, remexendo a terra com os dedos lentos e vagos, seguindo o ramalhar das folhas, ou, a passos lentos, rente da sebe, alongava para os campos, para os arvoredos de al\u00e9m, o olhar pasmado e sem brilho, com a quieta\u00e7\u00e3o do boi farto. A serradeira, no entanto, varria o ch\u00e3o, areava as ferragens do arm\u00e1rio, batia o colch\u00e3o do catre, ou sentada \u00e0 porta fiava at\u00e9 que, \u00e0s Trindades, soavam no caminho os guizos da \u00e9gua branca, que o bom lenhador trazia \u00e0 r\u00e9dea.<\/p>\n<p>Logo \u00e0 porta a velha, apertando as m\u00e3os, contava como Crist\u00f3v\u00e3o se conservava quieto, e t\u00e3o bom, brincando na horta ou atento \u00e0s hist\u00f3rias, que ela sabia, de fadas e de mouros. O lenhador, co\u00e7ava a barba, contente: \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o, diante da lareira, onde a lenha estalava, sorria, pasmadamente, sacudindo as m\u00e3os cheias de terra.<\/p>\n<p>Quando os frios vieram, a serradeira, \u00e0s vezes, ao lidar na cabana, gemia, esfregando os joelhos. Crist\u00f3v\u00e3o arregalava para ela os olhos compadecidos. E um dia que ela coxeava, gemia mais, saindo para a fonte, Crist\u00f3v\u00e3o timidamente tocou na asa do grosso c\u00e2ntaro de barro, murmurando, muito vermelho: \u201cEu vou\u201d. Espantada, ela deixou, ficou \u00e0 porta vendo Crist\u00f3v\u00e3o desaparecer entre os olmos e logo voltar, subindo a vereda, sob a chuva fria, com o c\u00e2ntaro que lhe pesava menos no bra\u00e7o estendido que uma malga ligeira. Todo ele sorria, com um contentamento profundo. A velha limpou-lhe os cabelos molhados \u2013 e, pela vez primeira, desde que guardava a cabana, tomando Crist\u00f3v\u00e3o como um ser humano, falou das dores dos seus pobres ossos, no seu homem que lhe deixara a velhice sem p\u00e3o, na morte que vinha perto com uma grande foice. Mas a face que Crist\u00f3v\u00e3o erguia para ela, agachado \u00e0 lareira, voltara \u00e0 imobilidade, sem alma e sem calor, de uma face feita de pedra. E foi para o seu velho gato, que tomara no rega\u00e7o, n\u00e3o para Crist\u00f3v\u00e3o, que a serradeira prolongou, no sil\u00eancio, os queixumes da sua velhice. Nessa tarde, por\u00e9m, Crist\u00f3v\u00e3o varreu a cabana com a vassoura que a velha, coxeando e gemendo, lhe metera nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>E, desde ent\u00e3o, ele come\u00e7ou a fazer pouco a pouco todos os trabalhos dom\u00e9sticos. Atrav\u00e9s do longo inverno a serradeira n\u00e3o se moveu mais do canto da lareira, fiando na sua roca, com o gato agachado aos p\u00e9s. Crist\u00f3v\u00e3o ia encher a bilha \u00e0 fonte, acendia a lareira, areava as panelas, polia as ferragens do arm\u00e1rio, batia os colch\u00f5es dos catres \u2013 e mesmo aos s\u00e1bados, numa dorna cheia de \u00e1gua quente e cinza, fazia a barrela da roupa. E, em todos estes servi\u00e7os, punha uma aplica\u00e7\u00e3o, um interesse profundo. Todo o seu imenso corpo se tornava mais \u00e1gil, mais pronto. J\u00e1 dos seus grossos l\u00e1bios, que s\u00f3 se alargavam num sorrir pasmado e morto, sa\u00edam murm\u00farios vivos: \u201cEst\u00e1 bem! Ficou bem\u2026 Crist\u00f3v\u00e3o limpou!\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 noite, \u00e0 ceia, esfarelando com lentid\u00e3o a broa no caldo, o lenhador contemplava com espanto o seu Crist\u00f3v\u00e3o, que lhe parecia diferente, mais atento, desentorpecido, conhecendo j\u00e1 que ele abatia \u00e1rvores numa floresta, que a \u00e9gua branca, e as terras, e os gados que pastavam, pertenciam a um Senhor, e que aos domingos se descansava para visitar Deus na sua casa, onde os sinos cantavam no ar. Mas o que encantava o bom lenhador era o cuidado novo de Crist\u00f3v\u00e3o em o servir \u2013 desejo que lhe nascera no cora\u00e7\u00e3o de repente, sem que ningu\u00e9m l\u00e1 o semeasse. Mal o sentia subindo das terras, ia, com o seu andar embalado e lento, tomas as r\u00e9deas da \u00e9gua, para a levar ao curral, onde a palha estava serrotada, e o balde cheio de \u00e1gua; na cabana, de joelhos, desapertava-lhe os cord\u00f5es das grossas botas de couro, que a lama cobria; e estendia diante do lume, com cuidado o seu surr\u00e3o de estamenha, trespassado das umidades da mata. O bom lenhador murmurava, radiante, como um bem-aventurado: \u201cFoi Deus que te mandou, filho meu!\u201d E nos olhos com que Crist\u00f3v\u00e3o lhe sorria, ele, apesar de rude e simples, percebia uma claridade, um brilho desacostumado. O seu inocente j\u00e1 pensava, j\u00e1 compreendia. P\u00e1lida e ainda hesitante, mas certa e de todo vis\u00edvel, uma almazinha despontava naquele corpo imenso, como uma pequena luz numa grande torre.<\/p>\n<p>Depois da ceia, aproveitando o resto do candil, o lenhador tinha j\u00e1 o contentamento inef\u00e1vel de conversar com o seu filho, como outrora com a sua boa companheira \u2013 contar o seu duro dia na mata, a \u00e1rvore que fora derrubada, as madeiras vendidas para as obras do Mosteiro, as queixas dos serradores contra o senhor senescal. O seu pobre lar perdia a frialdade e o sil\u00eancio, que at\u00e9 a\u00ed, engolido tristemente o caldo, o fazia estirar no catre vi\u00favo; t\u00e3o triste que at\u00e9 o ramalhar dos sobreiros lhe parecia como um gemer humano. Agora tinha um companheiro humano \u2013 e podia, com felicidade, come\u00e7ar a envelhecer.<\/p>\n<p>Teve ent\u00e3o orgulho do seu filho, desejou que aldeia o conhecessem. Crist\u00f3v\u00e3o crescia sempre \u2013 e era j\u00e1, antes dos dez anos, como um homem de grande corpo e de grande for\u00e7a, que conservasse, na face lisa e sem barba nem penugem, a candidez de uma crian\u00e7a, alta apenas como uma sebe. Um cabelo ruivo e encaracolado, que lhe nascia nas sobrancelhas cerradas, cobria-lhe a cabe\u00e7a pequenina, como um barrete muito justo de l\u00e3 de carneiro, at\u00e9 o pesco\u00e7o, onde os m\u00fasculos tinham a sali\u00eancia, a rijeza, a amplid\u00e3o dos de um touro. A boca larga constantemente se alargava mais num sorrir para tudo, de candidez e pasmo. E os seus olhinhos, pequeninos como contas azuis, tinham uma do\u00e7ura que se derramava, em redor, como uma car\u00edcia vagarosa e compassiva. Todos os seus vastos membros se moviam com uma lentid\u00e3o t\u00edmida: e, mesmo para descer \u00e0 fonte ou contornar a sebe da horta, se acostumara a trazer um bord\u00e3o, a que apoiava, quando parado, as duas m\u00e3os enormes, e por cima o queixo pesado, marcado com uma cova funda. De uma pe\u00e7a de camel\u00e3o azul, que o pai h\u00e1 muito guardava na arca, o alfaiate dos pajens do castelo talhara-lhe um capuz de romeira, e um gib\u00e3o direito como um saco que, franzido na cinta por uma tira de couro, ca\u00eda em pregas longas e grossas sobre as botas escarlates, com relevos cosidos de cordov\u00e3o amarelo. E, assim enroupado e limpo como um filho de mercador, o levava o pai todos os domingos, sorrindo de orgulho, pelos caminhos, \u00e0 missa na aldeia.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o penetrava na velha igreja, de muros severos como os de uma cidadela, com um enleio, um medo vago. Ele sabia que aquela alta casa de pedra, com l\u00e2mpadas que rebrilhavam, era de Deus Nosso Senhor, que tinha uma assim em cada aldeia, onde, nos dias quietos e silenciosos em que n\u00e3o se trabalhava, o povo, vestido de panos novos, o vinha visitar e louvar. E desde o domingo de Maio, em que ele descera da cabana, atrav\u00e9s dos campos verdes, entre as sebes de madressilvas, para ouvir a sua primeira missa, sempre aquela casa de Deus Nosso Senhor deixara, na sua alma simples, o terror de um lugar muito rico, muito triste, e todo cheio de mist\u00e9rio. Uma grande sombra fria ca\u00eda das ab\u00f3badas escuras. Todas as imagens, sobre os altares, l\u00edvidas, emaciadas, pareciam sofrer: \u2013 o mo\u00e7o nu que torcia o corpo amarrado a uma \u00e1rvore, e trespassado de flechas; a rainha, t\u00e3o triste, sob a sua coroa de ouro, e no seu manto de cetim, com o cora\u00e7\u00e3o varado por sete espadas; o monge, com um resplendor de prata, que mostrava as chagas das m\u00e3os abertas. Em tocheiros de ouro lavrado ardiam longos lumes de tristeza. Panos de veludo, de seda, com recamos rebrilhantes, tapavam recantos de onde por vezes sa\u00eda como o murm\u00fario de um gemido. Toda a multid\u00e3o dobrava para as lajes as faces cheias de um pensar triste. E a faixa de luz de uma fenda, aberta na muralha, alumiava a melancolia maior, o Homem pregado numa cruz com pregos, com sangue vivo nos joelhos, no peito, nos p\u00e9s, que erguia a face atormentada para o C\u00e9u e parecia chamar, num abandono. E assim, pois, era a casa do Senhor, cheia de ouros, de sangue que escorria, de veludos magn\u00edficos, de tristeza e de mudez!biblio<\/p>\n<p>Diante do altar maior, no entanto, um velho, todo calvo, coberto com uma capa resplandecente, alargava os bra\u00e7os, beijava a toalha bordada da ara, voltava as folhas de um grande livro, ofertava para as alturas um bolo de farinha muito alva, bebia por um copo onde j\u00f3ias faiscavam. Voltado para ele, ao lado do pai, Crist\u00f3v\u00e3o ajoelhava como o pai sobre as lajes, tra\u00e7ava uma cruz sobre a testa, martelava o peito com os seus punhos duros: \u2013 mas permanecia t\u00e3o insens\u00edvel e alheio \u00e0 adora\u00e7\u00e3o que ante ele se desenrolava, como o pilar de uma pedra escura, a que findava, por se encostar, fatigado daquela melancolia da casa de Deus. Os olhos ent\u00e3o embebiam-se numa grande pomba branca, que se conservava im\u00f3vel, com as asas abertas, por cima do sacr\u00e1rio, e que cada domingo o atra\u00eda mais, sempre ali, fiel, paciente, sem que uma das suas pe\u00e7as estremecesse: s\u00f3 ela era doce, alegre, natural, na sua brancura ador\u00e1vel, e macia \u00e0 vista: com um bico claro, patas rosadas, s\u00f3 ela n\u00e3o tinha, no seu corpo de pomba, nem ouro, nem sangue: natural, e igual \u00e0s outras pombas, s\u00f3 ela o n\u00e3o assustava, nem deslumbrava: \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o compreendia porque se conservava ali naquela sombra fria, entre granitos, ao lado de agonias e dores, e n\u00e3o vinha voar e arrulhar com as outras, sobre os castanheiros do adro.<\/p>\n<p>O seu incerto pensamento ia ent\u00e3o para os prados que atravessara, descendo das cabanas, para a verde frescura do choupal, para o sol que aquecia os lagartos dormindo nas pedras brancas. Teria decerto gostado de ficar l\u00e1, pelos campos, pela beira do rio, todo o longo domingo, sentindo a erva fresca entre os joelhos, ro\u00e7ando a m\u00e3o pela frescura das ramagens baixas. Mas nos domingos era necess\u00e1rio visitar, louvar a Deus Nosso Senhor. S\u00f3 assim, como lhe afirmava o pai, se subia depois ao C\u00e9u. Ele, decerto, iria uma dia para o C\u00e9u. E uma inquieta\u00e7\u00e3o passava na sua alma, porque o C\u00e9u, como a Igreja, se lhe afigurava escuro, pesado, com ouros, grandes panos de seda. Homens cobertos de sangue, Rainhas com o pobre cora\u00e7\u00e3o varado de espadas \u2013 um s\u00edtio, al\u00e9m, nas alturas, muito rico, e muito triste. Quanto melhor a horta em que vivia, com a cerejeira, a sebe de madressilva, e a salsa junto da dorna! Um rumor passava entre os pilares de pedra, todas as faces sorriam, mais claras. O senescal descia do seu banco, a missa findara. E um contentamento enchia o cora\u00e7\u00e3o de Crist\u00f3v\u00e3o, tornando a ver os castanheiros do adro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pouco a pouco, tomou mais familiaridade com florestas e prados. J\u00e1 corria a sua grossa m\u00e3o sobre a do\u00e7ura dos musgos; trepava aos troncos para espreitar para dentro da densid\u00e3o das folhagens; estirava-se no meio das relvas altas, rolando os seus cabelos crespos pela brancura das margaridas. E ao mesmo tempo descobria, dentro de toda esta natureza, uma vida m\u00faltipla, vasta, ativa e maravilhosa. A terra, que ele remexia com seus dedos grossos, estava toda mole dos vermes que a habitavam; cada hastezinha de relva abrigava um povo de insetos, mais numerosos que a gente da aldeia, aos domingos, sob os castanheiros do adro; cada folha cobria uma asa; nas espessuras, longos dorsos peludos ro\u00e7avam as suas pernas lentas; olhinhos brilhantes espreitavam de entre a negrura das tocas; o restolhar dos matos dizia a passagem das feras. Um confuso, obscuro amor por todos estes seres, crescia no seu cora\u00e7\u00e3o simples. Passava horas encantadas, estirado nas ervas \u00e0 beira de uma po\u00e7a clara, admirando os insetos de grandes patas que riscam a \u00e1gua lisa; chamava com as m\u00e3os, sorrindo, todos os veados que, \u00e0 orla das clareiras, subitamente mostravam a face majestosa e s\u00e9ria, entre os troncos dos castanheiros; e parava nos carreiros verdes de umidade e musgo para acariciar o dorso dos sapos.<\/p>\n<p>Assim a floresta se lhe tornava familiar e \u00edntima, e nela passava os dias, nos retiros mais densos, enterrado entre as verduras, agachado contra uma rocha, de bru\u00e7os sobre uma po\u00e7a de \u00e1gua, sem se mover, vegetando na do\u00e7ura infinita de sentir os seus longos cabelos emaranhados nas folhas, os ombros aquecidos pelo mesmo sol que batia nas pedras, as r\u00e3s saltando sobre os seus p\u00e9s como sobre troncos meio enterrados nas ervas \u00famidas. S\u00f3 a fome o fazia recolher \u00e0 cabana. Os seus passos desprendiam-se a custo, como se j\u00e1 tivesse ra\u00edzes: todo ele cheirava a torr\u00e3o e umidade, e era, na penumbra da tarde, como um tronco que se separava dos outros troncos. Crescera t\u00e3o prodigiosamente que se agachava para transpor a porta da cabana. Como nenhuma tripe\u00e7a sustentava o seu peso, sentava-se no ch\u00e3o diante da lareira aos p\u00e9s do pai, embebido no espanto, na admira\u00e7\u00e3o daquela for\u00e7a.<\/p>\n<p>O bom lenhador ent\u00e3o j\u00e1 lhe n\u00e3o dizia ao partir para a mata: \u201cCrist\u00f3v\u00e3o, n\u00e3o saias da nossa horta, que te pode vir mal\u201d. E pouco a pouco come\u00e7ou ent\u00e3o a percorrer, maravilhado, os prados, as bordas do rio, os densos arvoredos, para que tantas vezes da porta da cabana se tinham alongado os seus olhos pasmados e vagos. Lento e incerto, como uma r\u00eas tresmalhada, descia pelos caminhos abertos, orlados de sebes, parando a cada passo, ficando a pasmar para os trigais altos, para os longos prados, macios e doces \u00e0 vista como veludo verde, todos avivados de margaridas, papoulas e bot\u00f5es-de-ouro; cortando pelos choupais, ia admirar, durante longas e mudas horas, o correr e o brilhar do grande rio; ou penetrava sob os pinheirais, onde se esquecia at\u00e9 o entardecer, vago e pensativo, respirando com espanto e amor a frescura, o sil\u00eancio e o aroma das resinas. Depois recolhia \u00e0 cabana devagar, com os bra\u00e7os ca\u00eddos, a face no ar, risonha e contente.<\/p>\n<p>De noite sonhava com ramagens tenras que lhe acariciavam a face, com \u00e1guas claras e frias que fugiam, cantando, entre os seus p\u00e9s nus, enterrados na areia. E quando de manh\u00e3 outra vez, fechando o loquete de pau da cabana, descia para os campos, era em todo o seu cora\u00e7\u00e3o como um desejo de abra\u00e7ar, num abra\u00e7o inteiro, toda a terra que via, desde as flores silvestres dos caminhos at\u00e9 a vasta floresta que cobria as colinas, magn\u00edfica e sombria. Mas era nele como uma timidez, um pudor, que o retinha mesmo de tocar nas amoras\u2026 <\/p>\n<p>V <\/p>\n<p>Os pajens que pela tarde vinham \u00e0 fonte rir com as mo\u00e7as, tendo falado dele, nas veladas do castelo, o castel\u00e3o quis v\u00ea-lo. E uma manh\u00e3, seguido do pai que pusera os seus melhores trajes, subiu \u00e0 colina, que levava \u00e0 ponte levadi\u00e7a. Dois arqueiros, com sai\u00f5es de couro, guardavam a porta; e os molossos no p\u00e1tio puxavam furiosamente as correntes que os prendiam, ladrando, com as patas erguidas, contra o gigante que passava. A fachada do castelo erguia-se majestosamente, com um alto port\u00e3o ogival sobre os degraus de m\u00e1rmore, duas torres aos cantos com telhados agudos, cobertos de lousas em escamas; e a cada janela havia um vaso de barro amarelo, onde crescia uma craveiro.<\/p>\n<p>Um pajem levou-o pela escada, e tendo erguido uma tape\u00e7aria, deixou-o numa sala, em ab\u00f3bada, onde um tronco de \u00e1rvore ardia sob uma alta chamin\u00e9, e lan\u00e7as agudas brilhavam encostadas \u00e0s paredes nuas e frias. Um galgo branco entrou correndo e pulando, e logo atr\u00e1s o castel\u00e3o e uma dama apareceram, com pajens que os seguiam. e um padre que trazia nas m\u00e3os um brevi\u00e1rio. Uma t\u00fanica de veludo orlada de peles envolvia o corpo magro do Senhor, caindo sobre os sapatos pontiagudos, tamb\u00e9m orlado de peles. A barba ruiva avan\u00e7ava, dura e pontiaguda: o nariz era como o de um abutre: e sob o barrete de veludo, a grenha crespa, fugia para tr\u00e1s, como uma romeira hirta. O alto beguin da dama ro\u00e7ava quase o alto da porta; o seu vestido escuro arrastava nas lajes, e os olhos baixos pareciam contemplar as m\u00e3os ca\u00eddas e cruzadas, mais p\u00e1lidas que cera, de onde pendia um ros\u00e1rio. Um tru\u00e3o ao cada lado deles, an\u00e3o e corcunda, pousava com um orgulho burlesco a m\u00e3o nos grossos copos de uma espada de pau.<\/p>\n<p>O pai de Crist\u00f3v\u00e3o ca\u00edra de joelhos, e como Crist\u00f3v\u00e3o permanecia de p\u00e9, com o seu barrete de pele debaixo do bra\u00e7o, ele puxava-o pelo saio para que ajoelhasse tamb\u00e9m. Os seus joelhos por fim vergaram, ressoaram nas lajes. E diante do Senhor, puxando entre os dedos os p\u00ealos da barba dura, a dama com um sorriso t\u00edmido, e o capel\u00e3o de m\u00e3os cruzadas no ventre, contemplavam os grossos membros de Crist\u00f3v\u00e3o. A uma ordem do Senhor, ele ergueu-se, deu um passo. O senhor apalpou-lhe os m\u00fasculos, puxou-lhe mesmo a carapinha: \u2013 depois, a nova ordem sua, tr\u00eas homens trouxeram uma enorme espada de ferro, enferrujada, que parecia a clava de H\u00e9rcules. Com um movimento ligeiro, Crist\u00f3v\u00e3o brandiu-a no ar. Ent\u00e3o o tru\u00e3o, arrancando a sua espada de pau, avan\u00e7ou para Crist\u00f3v\u00e3o com os ademanes de um espadachim: os guizos do seu barrete tilintavam; a sua corcunda torcia-se grotescamente; e com uma vozinha esguia, gritava: \u201cPeravante! Deus o manda!\u201d Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o baixou a espada de ferro; a sua boca fendeu-se, mostrou uma cavidade imensa \u2013 e saiu ela uma risada enorme, troante, ressoante. que abalou os vidros nos seus caixilhos de chumbo. A dama tapou os ouvidos com as m\u00e3os p\u00e1lidas; os pajens por tr\u00e1s abafaram o riso; \u2013 e com um gesto de sua m\u00e3o cabeluda, o Senhor mandou que conduzissem Crist\u00f3v\u00e3o \u00e0s cozinhas.<\/p>\n<p>Embaixo, na cozinha, sob a alta chamin\u00e9, grandes pe\u00e7as de carne, em espetos, assavam diante de uma fogueira enorme que estalava \u2013 enquanto que, nas ca\u00e7arolas suspensas de correntes de ferro, a \u00e1gua fervia fazendo palpitar as tampas. Os  cozinheiros, com rolos de pau muito branco, enrolavam as massas; um jorro de \u00e1gua cantava numa bacia de pedra; e duas aias muito velhas, sentadas em escabelos, fiavam junto da janela, onde cresciam manjeric\u00f5es. Um servo trouxe uma malga enorme, onde uma enorme colher de pau vinha espetada na espessura dos legumes e das febras de carne. Com a cabe\u00e7a baixa, Crist\u00f3v\u00e3o devorava: \u2013 mas, junto da porta escura, subiam, vindos de baixo, gemidos de homens como no esfor\u00e7o de carregar um fardo muito pesado: Crist\u00f3v\u00e3o deixou a colher, limpou a boca com as costas da m\u00e3o, e desapareceu sob o arco escuro: e da\u00ed a momentos subia trazendo \u00e0s costas uma vasta pipa de arcos de ferro: atr\u00e1s vinham dois homens, limpando ainda o suor, a arquejar. Para recompensar Crist\u00f3v\u00e3o, o cozinheiro ofereceu-lhe uma terrina cheia de vinho: ele bebia lentamente, segurando-a nas duas m\u00e3os, com os olhos cerrados.<\/p>\n<p>Depois, apanhando o seu barrete de pele de coelho, saiu. As aias corriam \u00e0s janelas para o ver. De sobre as ameias os homens de armas debru\u00e7avam-se: ele caminhava, confuso, co\u00e7ando devagar a grenha.<\/p>\n<p>No entanto o Inverno sobreveio. Os caminhos estavam brancos de neve. E sobre os ramos descarnados e nus, os p\u00e1ssaros ca\u00edam mortos. Uma tarde o pai de Crist\u00f3v\u00e3o voltou p\u00e1lido da floresta, e sentou-se \u00e0 porta a olhar o Sol que descia ao fundo do vale. Crist\u00f3v\u00e3o estava adiante, sentado, encabando toscamente uma l\u00e2mina de foice. Quando o Sol se sumiu sentiu por tr\u00e1s um gemido: voltou-se: \u2013 o pai estava com a cabe\u00e7a ca\u00edda contra a parede da casa, a m\u00e3o sobre o cora\u00e7\u00e3o. De noite, os gritos de Crist\u00f3v\u00e3o atroavam na aldeia. Vieram homens com forquilhas, mulheres encolhidas nos mant\u00e9us, erguendo, diante da face, uma lanterna. O cad\u00e1ver estava estirado no ch\u00e3o sob um len\u00e7ol. E \u00e0 porta, que enchia com seu vasto corpo, Crist\u00f3v\u00e3o chorava estridentemente.<\/p>\n<p>Dois dias, duas noites, Crist\u00f3v\u00e3o ficou estendido \u00e0 porta com a face contra o ch\u00e3o: por vezes um solu\u00e7o sacudia-o todo; depois a sua imensa forma era t\u00e3o im\u00f3vel como os roncos em redor, derrubados e r\u00edgidos. O Inverno e a fome tinham espalhado pelos caminhos gente sinistra, que assaltava os casebres. Um bando veio sutilmente numa dessas noites: e, penetrando pela janela aberta, roubou tudo dentro, os vestidos, as ferramentas, o gr\u00e3o da arca, as roupas do catre \u2013 enquanto prostrado, Crist\u00f3v\u00e3o ressonava lentamente, como o ru\u00eddo de um rio na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, vendo o casebre vazio, Crist\u00f3v\u00e3o desarraigou um choupo novo, limpou-o de todos os ramos, e apoiando-se ao vasto tronco subiu pelo monte, desapareceu.<\/p>\n<p>VI <\/p>\n<p>Durante um ano viveu na serra. E pouco a pouco, naquela solid\u00e3o, longe de toda a vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um peda\u00e7o da montanha que o cercava. Sentado durante dias, im\u00f3vel, os seus grossos membros broncos n\u00e3o se distinguiam das rochas: o mesmo vendaval esguedelhava-lhe os cabelos e as ramarias das \u00e1rvores: e a sua voz, quando se erguia, confundia-se com rugir das torrentes. As feras n\u00e3o tinham medo dele; as aves pousavam sobre os seus bra\u00e7os como sobre os troncos dobrados. A serra era solit\u00e1ria. Outrora vivera l\u00e1 um ermita, mas as penit\u00eancia tinham-no extenuado. Um anjo descera a busc\u00e1-lo, e a cabana que ele habitava desfizera-se, prancha a prancha, sob os chuveiros de Inverno. Durante um ano Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o vira um olhar humano pousar-se nele, nem uma voz humana tinha alegrado o seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase esquecera os homens: e no seu esp\u00edrito simples apenas muito confusamente restava a mem\u00f3ria dos casais, dos lugares e das crian\u00e7as rindo atr\u00e1s da sebe. Os seus dias passava-os im\u00f3vel, olhando: por vezes movia um bra\u00e7o com a lentid\u00e3o de um ramo sacudido da aragem: e quando os trov\u00f5es estalavam, erguia um instante a face para o c\u00e9u; depois, reca\u00eda na sua imobilidade.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, sentiu tilintar guizos, e vozes que falavam. E por tr\u00e1s de umas rochas surgiu uma fileira de mulas carregadas que homens armados conduziam. Como a noite descia, os homens pararam numa clareira: da\u00ed a pouco ardia um fogo claro, tapetes juncavam o ch\u00e3o, e os homens sentados em roda, passavam de m\u00e3o em m\u00e3o um pichel de vinho. Crist\u00f3v\u00e3o toda a noite, de entre a floresta, os espreitou: \u2013 e uma curiosidade infinita tomava-o de ouvir de perto as suas falas, beber do pichel, aquecer-se do fogo claro. Se eles quisessem , ele conduziria alguns dos fardos.<\/p>\n<p>Um estranho, singular impulso o levara a querer bem \u00e0queles homens \u2013 e toda a noite rondou para que as feras n\u00e3o atacassem o rancho.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, eles enrolaram os tapetes: a longa fila de machos desceu a encosta, e os guizos que tilintavam perderam-se pelas quebradas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, um frio estranho, um frio que ele n\u00e3o compreendia, que n\u00e3o vinha do vento, nem da neve, arrefeceu Crist\u00f3v\u00e3o at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o. E, atrav\u00e9s da sua simplicidade, sentia que n\u00e3o teria tanto frio, se ouvisse outras vezes vozes humanas, e os passos de animais conduzindo fardos, e uma fogueira acesa por m\u00e3os de homens.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a percorrer a serra, os desfiladeiros, os barrancos, os vales, os bosques, as rochas que conhecia. E de cada vez aquela sensa\u00e7\u00e3o de frio o mordia tanto, e tanto, que subitamente se sentiu como exausto: a cabe\u00e7a pendeu-lhe entre as m\u00e3os e grandes l\u00e1grimas rolaram-lhe pela face. A tarde ca\u00eda; a noite veio, cheia de estrelas. E Crist\u00f3v\u00e3o, im\u00f3vel, sentia, atrav\u00e9s das l\u00e1grimas, surgirem-lhe como vis\u00f5es de coisas desvanecidas, uma velha carregada de lenha, e arquejando sob o fardo; crian\u00e7as que n\u00e3o podiam passar um rio; uma junta de bois que n\u00e3o podia puxar um carro carregado e pedras. E um desejo imenso vinha-lhe de sacudir aquele frio, trabalhando, carregando o fardo da velha, ajudando a junta de bois. Tomou o seu cajado e come\u00e7ou a descer a serra.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Uma tarde, na fonte, as mulheres viram como uma torre que avan\u00e7ava: as mais novas fugiram de medo, mas outras mais velhas erguiam as m\u00e3os e diziam: \u201c\u00c9 Crist\u00f3v\u00e3o! \u00c9 Crist\u00f3v\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>O seu vasto corpo crescera ainda, e a sua grenha ruiva ia mais alta que a mais alta das \u00e1rvores; lento nos movimentos, cada um dos seus passos parecia despregar-se do ch\u00e3o, com dificuldade; todo ele cheirava a torr\u00e3o e a arvoredo; uma barba ruiva, como um capim queimado, cobria-lhe a face: e os seus olhos azuis conservavam, como os de uma crian\u00e7a, um espanto perp\u00e9tuo.<\/p>\n<p>Ao chegar junto da fonte baixou a cabe\u00e7a, bebeu com lentid\u00e3o; depois, limpando os bei\u00e7os, olhava, com um bom sorriso, as mulheres, que j\u00e1 sem medo, reconhecendo o filho do lenhador, se juntavam em torno dele, tocando-lhe com as toucas altas pelo joelho, e erguendo os olhos pasmados para as alturas de sua face.<\/p>\n<p>Obtuso de esp\u00edrito, ele n\u00e3o reconhecia ningu\u00e9m \u2013 mas sorria sempre. Pouco a pouco, por\u00e9m, na grande penumbra do seu esp\u00edrito, decerto surgiram certas mem\u00f3rias dos tempos, que, ainda, pequeno, era o servo da aldeia, e os seus enormes bra\u00e7os moveram-se com lentid\u00e3o como procurando de novo fardos a levantar, fraquezas a socorrer. E quase imediatamente, vendo uma velha que passava, vergada sob o molho de lenha, tirou-lho e meteu-o, como uma simples acha, sob o bra\u00e7o; depois como um carro de pedra passava, t\u00e3o pesado que os bois n\u00e3o o podiam puxar, desatrelou o gado, tomou o tim\u00e3o. Mas avistando ainda o moleiro, que picava o seu velho burro carregado de sacos de farinha, com os seus cinco enormes dedos ergueu os fardos do jumento; atirou ainda para os ombros um pobre velho, manco, que mal se arrastava \u2013 e assim, com o molho de lenha debaixo do bra\u00e7o, o velho pendurado do pesco\u00e7o, os sacos pendentes da m\u00e3o, o pesado carro de pedra preso pelo outro bra\u00e7o, come\u00e7ou a caminhar para a aldeia, seguido das mulheres, que acenavam para o lado, para as portas dos casais, e gritavam\u201d \u201c\u00c9 Crist\u00f3v\u00e3o! \u00c9 Crist\u00f3v\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Despojado dos fardos, foi-se sentar no cruzeiro \u2013 e a sua cabe\u00e7a chegava ao seios de Jesus crucificado, e parecia repousar sobre ele. No entanto, de toda a aldeia, gente corria a ver Crist\u00f3v\u00e3o. Os homens vinham da taberna, limpando \u00e0 pressa os bei\u00e7os; as mulheres vinham fiando, outras trazendo ainda na m\u00e3o as hortali\u00e7as dos caldos. As crian\u00e7as, ao princ\u00edpio assustadas, vendo que ele lhes estendia a m\u00e3o, com um bom riso, saltavam-lhe para cima da palma, e ficavam de l\u00e1 rindo e acenando com os barretes, como do alto de um eirado. O regedor das terras veio por fim diante de Crist\u00f3v\u00e3o rolando os olhos redondos, co\u00e7ando o queixo, e falando baixo ao arqueiro que o seguia, desconfiado decerto daqueles fortes m\u00fasculos, que podiam arrasar a aldeia, tudo roubar, e vencer os arqueiros; mas decerto todas as suas algemas n\u00e3o eram bastante fortes para algemar aqueles enormes pulsos, por onde as crian\u00e7as trepavam, como por troncos de olmeiros: e afastou-se com dignidade, co\u00e7ando sempre o queixo agudo. Mas duas mulas zurravam, por tr\u00e1s do caminho \u2013 e apareceram dois guardi\u00f5es do convento, que, decerto avisados, desviavam-se do caminho para ver o enorme gigante. Todas as mulheres dobraram os joelhos, e os homens, com os barretes na m\u00e3o, baixavam os olhos: \u2013 e ent\u00e3o o mais velho espica\u00e7ou a mula com os calcanhares at\u00e9 a fazer parar junto de Crist\u00f3v\u00e3o. Para experimentar, com receio que em t\u00e3o grande corpo habitasse Satan\u00e1s, fez o sinal da cruz, murmurou tr\u00eas vezes o nome de Jesus. Crist\u00f3v\u00e3o fez tamb\u00e9m uma cruz sobre a testa. Ent\u00e3o, tranq\u00fcilo, o guardi\u00e3o come\u00e7ou a andar em volta dele, batendo os calcanhares nos ilhais da mula, para o, examinar, como um monumento. E a cada grosso m\u00fasculo, a cada detalhe de for\u00e7a, uma id\u00e9ia surgia nele: e falava baixo ao outro, que aprovava, com um sorriso reverente. Por fim o guardi\u00e3o gritou: \u201cCrist\u00f3v\u00e3o, se queres ganhar o teu p\u00e3o, vai amanh\u00e3, a matinas, \u00e0 portaria do convento.\u201d<\/p>\n<p>Os dois frades picaram as mulas, pouco a pouco a gente recolhera \u00e0s casas, de onde sa\u00eda o fumo das lareiras acesas. Uma a uma, as estrelas brilhavam. E Crist\u00f3v\u00e3o s\u00f3, cansado, estirou-se junto ao cruzeiro, onde o sacrist\u00e3o veio acender uma l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>Estirado de costas, Crist\u00f3v\u00e3o olhava as estrelas. Eram as mesmas que ele tantas vezes contemplava na serra: \u2013 mas pareciam-lhe mais brilhantes, mais pr\u00f3ximas, e derramando um calor como l\u00e2mpadas que alumiam uma morada humana. E ele mesmo, enfim, sentia vir daqueles casebres que em volta se acendiam e mandavam o seu fumo para o c\u00e9u, um calor que o penetrava at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o. Adormeceu sorrindo.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, chegou do outro lado do vale, em frente do mosteiro. Uma muralha envolvia-o como a um castelo: \u2013 e por tr\u00e1s da porta, de grossa pregaria, os c\u00e3es inquietos agitavam as cadeias de ferro. No p\u00e1tio enorme uma faia abrigava a roldana de um po\u00e7o. Altas fachadas com reixas nas janelas, erguiam-se em redor: \u2013 e ao fundo, junto \u00e0 entrada da capela, havia um banco de pedra onde um guardi\u00e3o lia o brevi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ao ver Crist\u00f3v\u00e3o, fechou o brevi\u00e1rio \u2013 e examinou-lhe outra vez, com satisfa\u00e7\u00e3o, os grandes membros servi\u00e7ais. Depois, por um corredor, alto e fresco, levou-o a um claustro que cercava um jardim; ruas areadas contornavam os canteiros de flores; ao meio cantava um repuxo; e um espa\u00e7o, entre paredes que a hera revestia, estava lajeado, como ch\u00e3o de igreja. A\u00ed quatro frades, de h\u00e1bitos arrega\u00e7ados, jogavam a bola; outros, mais longe, conversavam ao sol; e sob um caramanch\u00e3o o abade dormitava, com as m\u00e3os cruzadas no ventre.<\/p>\n<p>Mas quando Crist\u00f3v\u00e3o apareceu, tudo se interrompeu, todos ergueram as faces, um rumor correu de espanto: \u2013 e o guardi\u00e3o diante de Crist\u00f3v\u00e3o, que hesitava, com o seu barrete na m\u00e3o, fazia-lhe sinais para o levar at\u00e9 ao abade.<\/p>\n<p>Sua Senhoria deu um salto na cadeira ao encarar com o monstro. Depois ergueu as m\u00e3os ao C\u00e9u, com olhos de piedade. Para mostrar a for\u00e7a de Crist\u00f3v\u00e3o, o guardi\u00e3o mandou-lhe erguer uma pilastra partida que jazia no ch\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o brandiu a pilastra, como um simples cajado: e todos os frades recuaram com grandes ahs maravilhados.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o fora trazido para servir no convento, fazendo o trabalho de muitos serventes. O rancheiro, por\u00e9m, perguntava se era na realidade uma economia \u2013 porque ele igualmente comeria a ra\u00e7\u00e3o de muitos homens. Os frades argumentavam com gravidade. O abade, por\u00e9m, decidiu. Al\u00e9m da economia, o convento ganhava a gl\u00f3ria de possuir o mais forte de todos os homens. E imediatamente Crist\u00f3v\u00e3o foi levado \u00e0s cavalari\u00e7as para as limpar.<\/p>\n<p>Foi o servo da comunidade \u2013 e sobre ele recaiu todo o servi\u00e7o do convento, onde havia oitenta frades, trinta novi\u00e7os, e depend\u00eancias inumer\u00e1veis. Varria os p\u00e1tios, limpava as mulas, cavava as hortas, caiava os muros, carregava os sacos de farinha, acarretava os feixes de lenha \u2013 e era ele que trazia das pedreira as grandes pedras para as obras da lavanderia. Durante longos meses os seus fortes ossos rangeram sob o trabalho violento. Substitu\u00eda as cavalgaduras, puxando os carros pesados, com eixos de ferro. Todo o dia, dentro do convento, na cerca, sob o sol ou sob a chuva, a sua forte figura se movia no trabalho cont\u00ednuo: s\u00f3 por vezes descansava, para tirar do po\u00e7o um balde de \u00e1gua, que punha \u00e0 boca, e secava de um trago. \u00c0 noite, estendido sobre as lajes do p\u00e1tio, dormia de um sono de animal, entre os c\u00e3es soltos, que lhe punham as patas sobre o peito, como sobre um rebordo de muralhas, para ladrar contra os ru\u00eddos da noite.<\/p>\n<p>Todos os anos, na v\u00e9spera da Candel\u00e1ria, o padre-mestre reunia os serventes, e interrogava-os sobre a doutrina. Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de responder, nem sequer enfiar o padre-nosso. N\u00e3o sabia quem criara o Mundo \u2013 e eram-lhe desconhecidos os casos do Para\u00edso. Aterrado com t\u00e3o negra ignor\u00e2ncia, o abade ordenou que Crist\u00f3v\u00e3o assistisse \u00e0 aula de Hist\u00f3ria Sagrada. O seu imenso corpo n\u00e3o cabia nos bancos da escola: \u2013 e o padre-mestre disp\u00f4s que Crist\u00f3v\u00e3o, encostando-se ao muro do p\u00e1tio, aplicasse a cabe\u00e7a \u00e0 janela aberta da aula.<\/p>\n<p>Quando a sineta de estudo tocava, Crist\u00f3v\u00e3o chegava ao muro: \u2013 e a sua imensa grenha surgia no parapeito da janela. Todos os disc\u00edpulos riam \u2013 e os mais inquietos atiravam-lhe aos olhos caro\u00e7os de frutos ou vibravam-lhe, como pequenas lan\u00e7as, penas de pato que se lhe enterravam na grenha. Ele sorria com paciente respeito.<\/p>\n<p>Sentado no estrado o mestre ensinava \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o, como atrav\u00e9s de um n\u00e9voa, entrevia as coisas maravilhosas do come\u00e7o do Mundo. Um Deus enorme, grande como ele, alargando os seus bra\u00e7os potentes, separava o Sol e a Lua; a sua voz era o trov\u00e3o que rolava; e o seu sopro ora fazia curvar as florestas, ora encapelava as vagas. Mas os homens come\u00e7avam a povoar a terra, e Deus entrava logo em grandes c\u00f3leras. Ao seu capricho as cidades tombavam, sepultando sob as ru\u00ednas as criancinhas que sorriam nos ber\u00e7os; vastos prados secavam, e os gados balavam lamentavelmente de fome; um grande terror tomava a terra: \u2013 e os homens viviam no terror daquela m\u00e3o imensa, que s\u00f3 sa\u00eda das nuvens para os devastar.<\/p>\n<p>De noite, o doce sono fugia de Crist\u00f3v\u00e3o. E encolhido, voltava para o C\u00e9u os olhos desconfiados. Se Deus reparando nele, de repente, fizesse sobre ele cair o fogo que queimara Gomorra? Todo o barulho o inquietava: e numa noite de trovoada os seus gritos acordaram todo o convento.<\/p>\n<p>Mas o padre-mestre bem depressa come\u00e7ou a explicar os dogmas. E foi como se toda a Terra e C\u00e9u perdessem a sua realidade, ficando apenas deles baixas n\u00e9voas que flutuavam. Nas alturas j\u00e1 n\u00e3o governava um homem forte e velho, de longas barbas: \u2013 mas uma trindade, que era de tr\u00eas, mas que formava um s\u00f3, e era um Pai, um Filho, e um Esp\u00edrito que tinha asas. O pecado n\u00e3o era fazer mal, mas nascer, e a \u00e1gua, escorrendo de uma concha, lavava-o como um linho sujo. Crist\u00f3v\u00e3o arregalava os olhos desmedidamente \u2013 e as pr\u00e9dicas do padre-mestre eram como n\u00e9voas que flutuavam intang\u00edveis, logo, esva\u00eddas apenas formadas. Sentia como uma tristeza diante daquelas coisas inacess\u00edveis: e o suspiro que lhe fugia do peito fazia voltar os novi\u00e7os, que, \u00e0s escondidas do padre, lhe faziam visagens como de dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Um s\u00f3 parecia simpatizar com Crist\u00f3v\u00e3o. Era um mo\u00e7o franzino, que tinha a sua banca junto da janela, sobre a qual ca\u00edam os carac\u00f3is dos seus cabelos louros. As suas m\u00e3os p\u00e1lidas folheavam de leve um in-f\u00f3lio: \u2013 e havia em todo ele como a gravidade de um letrado e a do\u00e7ura de uma virgem.<\/p>\n<p>Todos os dias Crist\u00f3v\u00e3o o via chegar da aldeia com o seu tinteiro metido no cinto, o rolo de papel sob o bra\u00e7o: e todas as tardes o seguia com os olhos quando ele, finda a aula, regressava \u00e0 aldeia, folheando ainda pelo caminho algum livro onde havia cores brilhantes. Por vezes via-o parar, colher as flores silvestres do caminho. Ou alegremente, deitando os seus longos cabelos para tr\u00e1s, cantava sob a do\u00e7ura da tarde.<\/p>\n<p>Sempre que passava junto de Crist\u00f3v\u00e3o, dizia-lhe: \u201cDeus te salve!\u201d E Crist\u00f3v\u00e3o sentia como uma car\u00edcia na alma. Muitas vezes pensava nele \u2013 e voltava-lhe \u00e0 lembran\u00e7a o que ouvira ao padre-mestre, dos anjos que desciam \u00e0 Terra, se misturavam \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es humanas. Ia ent\u00e3o colocar-se no caminho em que ele passava. E um dia que os caminhos estavam alagados pela chuva, Crist\u00f3v\u00e3o ofereceu-se para o passar ao colo. Desde ent\u00e3o procurava maneiras de o servir. Nos dias de calor, tinha para ele a bilha de \u00e1gua mais fresca; e nos dias de frios, fazia depressa no p\u00e1tio um fogo de rama, para ele aquecer os p\u00e9s \u00famidos antes e subir aos claustros. Por fim, como o Inverno se avizinhasse, com os crep\u00fasculos mais escuros, Crist\u00f3v\u00e3o seguia-o na sua volta \u00e0 aldeia, para o proteger dos lobisomens, ou dos maus encontros: e quando vieram as chuvas, ofereceu-se para o levar \u00e0s costas, como um macho, at\u00e9 a porta da sua morada. Ent\u00e3o pelo caminho conversavam baixo: Crist\u00f3v\u00e3o contava os seus trabalhos no convento, o mo\u00e7o dizia os seus desejos de ser militar, conhecer o mundo, percorrer as cidades. Seu pai era o regedor  das terras e destinava-o para padre; mas ele queria casar com uma prima chamada Etelvina, que morava ao p\u00e9 do castelo, para al\u00e9m do Pego das Dunas. E um dia que assim conversava, o mo\u00e7o contou a Crist\u00f3v\u00e3o que \u00e0s vezes ia encontrar essa rapariga, longe, \u00e0 orla de um bosque; mas temia que a surpreendessem os arqueiros do pai, que rondavam os campos, ou o servos do castelo mandados pelo pai de Etelvina. Se Crist\u00f3v\u00e3o quisesse, podia ficar \u00e0 orla, vigiando os caminhos, como uma torre, e se viesse algu\u00e9m chegando, avis\u00e1-los com um grito. Crist\u00f3v\u00e3o disse: \u201cIrei para onde me mandares\u201d.<\/p>\n<p>VIII <\/p>\n<p>O s\u00edtio onde se encontravam era num claro de \u00e1rvores derrubadas, \u00e0 orla do bosque. Havia ali uma torre outrora erguida pelo conde da Ocit\u00e2nia. O Diabo um dia derrubara-a; e ainda se distinguiam nas pedras tisnadas os vest\u00edgios das garras do Tentador. Um terror afastava dali os passos humanos mas a abund\u00e2ncia das flores silvestres, a do\u00e7ura dos musgos, oferecia, aos audazes que l\u00e1 chegavam, um asilo fresco de paz silvana. Era ali que se encontravam Alfredo e Etelvina. Para chegarem mais depressa, Crist\u00f3v\u00e3o tomava Alfredo aos ombros, e com passadas de c\u00f4vados, saltando as ribanceiras, transpondo os lameiros, chegava l\u00e1 primeiro, ao cair fresco da tarde. Por um caminho que contornava a colina, viam descer Etelvina, que levantava o seu vestido cinzento, por causa dos espinhos das sebes. Como voltava da igreja, trazia um livro na m\u00e3o. As suas duas tran\u00e7as louras ca\u00edam-lhe pelos ombros. As longas pestanas, dos seus olhos baixos, faziam-lhe uma sombra na face da cor e do\u00e7ura de uma rosa branca. E junto da sua escarcela soavam as tesouras, as chaves, o dedal, pendentes da cinta por correntes de prata. O bom estudante dobrava diante dela o joelho: e tomando-a pela m\u00e3o delicada, caminhava com ela pelo bosque, parando para lhe tirar, da orla do vestido, as silvas que se lhe prendiam. Ela tinha sempre para Crist\u00f3v\u00e3o um sorriso, a que se misturava o brilho dos seus olhos: e ele de p\u00e9, vigiando o caminho, ficava pensando naqueles olhos que lhe pareciam estrelas. No arvoredo em torno cantavam as aves: um aroma de verduras, de pinheiros, de madressilvas, flutuava no ar: e por vezes os passos de uma cor\u00e7a ro\u00e7avam por entre a espessura das faias tenras. E Crist\u00f3v\u00e3o, apoiado a um forte cajado, lan\u00e7ava os olhos em redor, pelo vale. Mas ningu\u00e9m se aproximava da torre derrocada. E ele, pouco a pouco invadido pela do\u00e7ura da tarde, pensava em do\u00e7uras que recebera \u2013 na car\u00edcia das m\u00e3os de sua m\u00e3e sobre a grenha crespa, nas festas das crian\u00e7as que por vezes sem medo lhe trepavam aos joelhos. Uma melancolia tomava-lhe o peito. E, na sua vaga ternura, desejava apertar contra si todo aquele vale, e as nuvens dos c\u00e9us, e a \u00e1gua que fugia cantando.<\/p>\n<p>No entanto Alfredo e sua bem amada vinham repousar, sentados numa pedra. Ele olhava a f\u00edmbria do seu vestido, ou segurava os seus dedos delicados, que arrancavam uma a uma as folhas dos malmequeres. Por vezes ele colhia um ramo; ou apanhando o livro dela, que ca\u00edra a seus p\u00e9s, voltava as folhas; ela debru\u00e7ava-se, e os fios soltos dos seus cabelos ro\u00e7avam os ombros de Alfredo; e muitas vezes assim se esqueciam, com os olhos postos na mesma p\u00e1gina que n\u00e3o voltavam, corados, com o peito a arfar.<\/p>\n<p>Mas um dia que ambos passeavam longe, ao fundo dos pinheirais, com os ombros juntos, Crist\u00f3v\u00e3o ousou tocar o livro, esquecido sobre uma pedra, e com os seus grossos dedos voltar as folhas. Eram linhas negras que n\u00e3o compreendia; mas uma emo\u00e7\u00e3o tomou-o diante das imagens cheias de cor. Parecia ser uma hist\u00f3ria \u2013 e come\u00e7ava por uma criancinha, que num curral, entre uma vaca e uma jumenta, sorria, toucada de estrelas, nos joelhos de uma mulher p\u00e1lida. Depois a mesma crian\u00e7a, j\u00e1 maior, e sempre coroada de estrelas, falava diante de um grupo de velhos barbudos, que espalmavam as m\u00e3os com espanto. Quem era esse, pois, que, t\u00e3o novo, assombrava a velhice sapiente? Mais longe os dedos de Crist\u00f3v\u00e3o, virando as folhas duras, encontravam o mesmo ser, que ele reconhecia por seu aro de estrelas, j\u00e1 homem, envolto numa t\u00fanica, passeando \u00e0 beira de um lago: e n\u00e3o cessava mais de aparecer, pondo a suas m\u00e3os sobre os entrevados, estendendo os bra\u00e7os para as crian\u00e7as, desatando as ligaduras dos mortos, consolando as multid\u00f5es. Montado num burro, penetrava as portas de uma cidade, entre o povo que o aclamava movendo folhas de palma; sentado sob um sic\u00f4moro, ouvia duas mulheres, que fiavam a seus p\u00e9s; de joelhos, entre oliveiras, orava sobre um monte; preso em meio de soldados, com tochas, comparecia ante um juiz que erguia o dedo, pensando.<\/p>\n<p>E Crist\u00f3v\u00e3o sentia uma ansiedade de compreender, quando viu diante de si os dois noivos com os bra\u00e7os enla\u00e7ados, que sorriam. Surpreendido, Crist\u00f3v\u00e3o fechou o livro. E como Etelvina, vendo a sua larga face perturbada e cheia de piedade, lhe perguntava se ele amava o Senhor, Crist\u00f3v\u00e3o moveu a cabe\u00e7a, sem compreender. Pois qu\u00ea? Ele n\u00e3o conhecia o Senhor e n\u00e3o amava a sua do\u00e7ura? T\u00e3o grande escurid\u00e3o naquela alma encheu-a de piedade: e um escr\u00fapulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto ela se ocupava de amar, algu\u00e9m, ao p\u00e9 dela, vivia sem conhecer o Senhor. E ent\u00e3o, para que bem merecessem Jesus, e para recompensar a prote\u00e7\u00e3o de Crist\u00f3v\u00e3o, ela pediu a Alfredo que lessem o santo livro \u00e0quele homem simples, que o ignorava.<\/p>\n<p>Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. J\u00e1 as \u00e1rvores se desfolhavam; mais tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o c\u00e9u. Para ouvir melhor, Crist\u00f3v\u00e3o sentara-se sobre um alto monte de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepava ao seu vasto joelho \u2013 e Etelvina sentou-se no outro joelho, t\u00e3o simplesmente como se fora um rocha ou um c\u00f4moro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os de um anjo: as suas m\u00e3os pousavam castamente no rega\u00e7o. Defronte, Alfredo abrira o livro: \u2013 e com a vasta face de Crist\u00f3v\u00e3o entre eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e duros de uma enorme est\u00e1tua de pedra.<\/p>\n<p>E toda a tarde, no sil\u00eancio do arvoredo. Alfredo leu a vida do Senhor. Disse a estrela brilhando sobre o seu ber\u00e7o, e os pastores de longe vindos para ele, misturados aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros chegavam com alfanjes: e o Menino sorria adormecido no colo da m\u00e3e, enquanto a burrinha, toque, toque, os levava para o Egito. L\u00e1 repousavam sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do deserto: e o menino, rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um ramo de a\u00e7ucena. Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse a ler o Menino: seu pai sorria por tr\u00e1s na sua grande barba: S. Jo\u00e3ozinho, ao lado, escutava com a m\u00e3ozinha apoiada \u00e0 face; e dois anjos no alto erguem a m\u00e3o, param os ventos, para que nenhum ru\u00eddo perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino aprendeu, porque eis que os velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do seu saber\u2026<\/p>\n<p>Cansado de ler, Alfredo parava, com o dedo entre as folhas do livro. E na face simples de Crist\u00f3v\u00e3o havia tanto espanto, como nas dos doutores:  o seu grosso l\u00e1bio tremia. E murmurou humildemente, e j\u00e1 cheio de amor:<\/p>\n<p>\u2014 Mas que fez o Menino?<\/p>\n<p>Quem sabe? Um doce sil\u00eancio ca\u00eda sobre a terra. Em Nazar\u00e9 o carpinteiro aplaina a sua t\u00e1bua, e S. Jo\u00e3o com os cabelos ao vento partia para o deserto. Mas j\u00e1 ao longe brilham as claras \u00e1guas de um lago, com barcos amarrados na areia: Jesus fala devagar, erguendo o bra\u00e7o; e os pescadores deixam as suas redes, os semeadores esquecem a sementeira, os publicanos deixam os seus postos, os pobres saem dos cotovelos das estradas, e Jesus, seguido de todos, come\u00e7a a caminhar pela Jud\u00e9ia. Uma incompar\u00e1vel do\u00e7ura enche a vida dos homens. Jesus est\u00e1 entre eles. Os que n\u00e3o podiam ver, aclamam o esplendor da luz; os que n\u00e3o andavam, galgam, cantando, as colinas; todos os dem\u00f4nios se somem; os mortos desatam as suas ligaduras; n\u00e3o h\u00e1 dor que n\u00e3o espere consola\u00e7\u00e3o; as crian\u00e7as t\u00eam um amigo, e as multid\u00f5es, nas aldeias, v\u00eaem o p\u00e3o nascer do p\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que vai ele a Jerusal\u00e9m, terra dura, onde os homens, com as barbas agudas, gritam uns contra os outros, brandindo rolos da Lei? Mas, que importa! Ele vai para tornar os homens melhores, e o povo vai com ele, cantando. \u00c9 ent\u00e3o que o c\u00e9u se come\u00e7a a tornar escuro. Os fariseus tramam baixo sob as arcadas do templo. E uma ansiedade pesa na terra\u2026<\/p>\n<p>E uma ansiedade enche tamb\u00e9m a face de Crist\u00f3v\u00e3o. Porque n\u00e3o permanecera ele sempre Menino, sobre os joelhos da m\u00e3e, quando a Estrela luzia, e ele estendia a m\u00e3ozinha para o focinho da vaca? Ou, se devia ser homem, porque deixou ele a beira do lago, e os caminhos verdes, onde a cada um dos seus passos a terra se tornava melhor, e melhor a alma dos homens?<\/p>\n<p>\u2014 Tens pena, Crist\u00f3v\u00e3o?<\/p>\n<p>Era Etelvina que assim murmurava com os olhos apiedados.<\/p>\n<p>Ele moveu a cabe\u00e7a, em sil\u00eancio. O seu vasto peito arfava, e um terror invadia-o de o ver a ele, t\u00e3o bom, naquela cidade onde os homens eram t\u00e3o duros.<\/p>\n<p>\u2014 E depois?<\/p>\n<p>Alfredo disse ent\u00e3o os dias derradeiros. Tristemente, Jesus, sozinho, sobe, ao cair da tarde, para o vergel de Bet\u00e2nia. A\u00ed s\u00e3o as melancolias de uma felicidade que finda. Madalena, desgrenhada, lava os seus p\u00e9s cansados. Marta fia, com um fiar t\u00e3o lento como se fiasse um sud\u00e1rio. Mas j\u00e1 Jesus se senta para  a \u00faltima ceia. S. Jo\u00e3o inclina a cabe\u00e7a sobre o seio do Mestre. Judas aperta, sob a t\u00fanica, a sua negra bolsa. Jesus diz: \u201cEm breve n\u00e3o estarei mais entre v\u00f3s\u201d. A noite \u00e9 escura; Jesus sobe devagar o monte, onde h\u00e1 oliveiras; e um anjo, todo coberto de negro, marcha ao seu lado. Um vento passa no ramo das oliveiras. Um rumor de armas vem com o vento que passa\u2026<\/p>\n<p>Nos olhos de Crist\u00f3v\u00e3o borbulhavam grossas l\u00e1grimas. E Alfredo dizia as tochas surgindo na escurid\u00e3o das ramagens, os soldados brutais, e a pris\u00e3o do Senhor. Por que o prendiam assim, e levavam ele, mais doce do que o anho? Ei-lo que passa! E os seus p\u00e9s, que encontravam o caminho do bem, sangram sobre as lajes duras, da casa de Pilatos \u00e0 casa de Caif\u00e1s. Traz sangue na face, as m\u00e3os arroxeadas pelas cordas, os ombros riscados pelas vergas: \u2013 e a sua do\u00e7ura \u00e9 t\u00e3o grande que diz: \u201cPor que me bateis?\u201d A cruz que lhe d\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pesada, que cai uma vez, outra vez, ferindo os joelhos nas pedras, com grandes bagas de suor na face\u2026 Mas eis que em tropel todos sobem a colina: cravam com grandes pregos as suas m\u00e3os sobre o madeiro; cravam no madeiro os seus p\u00e9s com grandes pregos\u2026 E da \u00e1gua com que ele secava a sede das multid\u00f5es pede, sem que ningu\u00e9m o escute, um trago que mate a sua sede. Os homens maus atiravam pedras \u00e0 sua cruz. E todo o mal era feito \u00c0quele que n\u00e3o fizera sen\u00e3o bem!<\/p>\n<p>E ent\u00e3o um grande suspiro abalou o vasto peito de Crist\u00f3v\u00e3o, e, na solid\u00e3o do bosque, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Por que n\u00e3o estava eu l\u00e1 com os meus bra\u00e7os!<\/p>\n<p>Os dois bem-amados estavam de p\u00e9 diante dele, e o homem enorme chorava. Chorava pela morte d\u2019Aquele que conhecera t\u00e3o tarde. Chorava por todos os que, morto ele, perdiam o amigo melhor dos homens. \u2013 Mas por que o mataram? por que o mataram? E Crist\u00f3v\u00e3o, deixando os dois desceu a colina, chorando.<\/p>\n<p>A noite ca\u00eda no vale. Um vento triste vergava os canaviais. E Crist\u00f3v\u00e3o seguia e chorava. Os seus vastos p\u00e9s empurravam as rochas como seixos. O seu ombro, ao passar, quebrava os ramos tenros. Oh! se ele estivesse ent\u00e3o no monte escuro onde o prenderam! O seu bra\u00e7o sacudiria, como ervas secas, as espadas reluzentes. Tomaria sobre o seu ombro o Mestre ador\u00e1vel. Fugiria com ele para a paz dos campos; e como um c\u00e3o fiel, junto aos seus passos, defenderia dos soldados, dos padres, aquele corpo que era de Deus, e espalhava Deus entre os homens.<\/p>\n<p>A noite ca\u00edra, Crist\u00f3v\u00e3o parou. E sentado sobre uma rocha, com grandes l\u00e1grimas sobre a face, olhava as estrelas que, uma a uma, marcavam os pontos do c\u00e9u. Era ali, naquela altura, que ele habitava. Oh! se ele pudesse subir l\u00e1, e ver como era a sua face, e sentir a do\u00e7ura da suas m\u00e3os! Por que n\u00e3o voltaria ele mais para consolar os pobres, secar as l\u00e1grimas, agasalhar as criancinhas, e nutrir as multid\u00f5es? Agora, que todos o amavam, ningu\u00e9m o prenderia: o caminho que ele seguisse seria juncado de rosas; os bispos, nas suas capas de ouro, cantando e balan\u00e7ando os incensadores, viriam ao seu encontro. E para o defender, os bar\u00f5es correriam, cobertos de ferro e com lan\u00e7as nos seus grandes corc\u00e9is! Por que n\u00e3o voltava? Ele seguiria pelo mundo os seus passos ligeiros: a cada instante afastaria as silvas, que o n\u00e3o magoassem; com grandes brados espantaria os c\u00e3es, que ladram \u00e0s portas dos castelos: fardos que houvesse, com alegria ele os levaria; s\u00f3 ele, e mais ningu\u00e9m, colheria os frutos para o Senhor, ou iria buscar a \u00e1gua \u00e0s nascentes melhores. De noite, faria com rama uma cabana para o abrigar do vento mau: \u2013 e estenderia o seu bra\u00e7o, para que nele repousasse a sua cabe\u00e7a cansada. E assim, pensando, um imenso amor erguia-lhe o peito: \u2013 e, de p\u00e9 numa rocha, os seus bra\u00e7os estendiam-se para o c\u00e9u, para neles estreitar Aquele que, para o salvar, fora pregado na cruz. E tr\u00eas vezes chamou: \u201cJesus, Jesus, Jesus.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, perto dele, ouviu como um pranto que cortava o sil\u00eancio da noite. Vinha de longe, de onde brilhava uma luz de cabana. Os seus passos foram para l\u00e1, esmagando a terra fresca. E mais perto reconheceu o solu\u00e7ar de uma mulher que chorava. Decerto, algu\u00e9m sofria muito. Havia ali orfandade ou viuvez, uma mis\u00e9ria que erguia os bra\u00e7os para o c\u00e9u. Por que n\u00e3o vinha o Senhor? Se ele habitasse a Terra, para aquele casebre iriam os seus passos. Ele iria atr\u00e1s humildemente, seguindo-o. Mas Jesus estava al\u00e9m, por tr\u00e1s daquelas estrelas. Por que n\u00e3o iria ele, como se seguisse o Senhor? Mais vivo e triste, o pranto cortou a noite. E Crist\u00f3v\u00e3o, devagar, e com medo, bateu \u00e0 porta do casebre,<\/p>\n<p>IX <\/p>\n<p>Longos dias s\u00e3o passados, e Crist\u00f3v\u00e3o, na aldeia, \u00e9 o servo de todos. As portas do convento nunca mais as transp\u00f4s: porque l\u00e1 habitam a paz e a abund\u00e2ncia, o celeiro est\u00e1 cheio de trigo, a adega est\u00e1 cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho reinam nos cora\u00e7\u00f5es \u2013 e para l\u00e1 n\u00e3o iriam decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu Senhor. Mas na aldeia h\u00e1 os velhos, os mendigos, os tristes, os \u00f3rf\u00e3os, as vi\u00favas; e a for\u00e7a dos seus bra\u00e7os pertence a esses, como o amor do seu cora\u00e7\u00e3o, porque assim mandava o seu Senhor.<\/p>\n<p>Simples e t\u00edmido, Crist\u00f3v\u00e3o imp\u00f5e os seus servi\u00e7os: mas toda a fraqueza, que recorre \u00e0 sua for\u00e7a, ganha a gratid\u00e3o da sua alma. E pouco a pouco, sentindo nele um amparo, todos os fracos vieram a ele \u2013 de sorte que, desde que nasce a estrela de alva at\u00e9 que a noite cobre o vale, Crist\u00f3v\u00e3o trabalha com tanta alegria, que o pesar dos maiores fardos lhe parece uma car\u00edcia, e nas feridas piores de curar sente um perfume inef\u00e1vel. Ele lavra a terra dos velhos; desbasta as florestas a grandes golpes de machado; seca os p\u00e2ntanos, com grossas pipas que carrega \u00e0s costas; puxa os carros para que os bois n\u00e3o se esfalfem; transporta aos ombros os coxos; guia os passos dos que n\u00e3o v\u00eaem; vai ao longe mendigar o p\u00e3o e a lenha dos pobres; embala os ber\u00e7os; cava a sepultura dos mortos: \u2013 e quando n\u00e3o h\u00e1 vento, ele, retesando os bra\u00e7os, faz girar a m\u00f3 dos moinhos. Constantemente o seu nome \u00e9 gritado por cima da sebe dos casais. Este tem o burro doente, e \u00e9 Crist\u00f3v\u00e3o quem transporta os fardos; aquele precisa de um ceifeiro, e Crist\u00f3v\u00e3o parte com a foice; aquele teto precisa de colmo, e Crist\u00f3v\u00e3o tr\u00e1-lo \u00e0s bra\u00e7adas; para fazer o casebre da vi\u00fava n\u00e3o h\u00e1 pedra, e Crist\u00f3v\u00e3o chega de remota pedreira, gemendo sob os blocos da rocha. \u00c9 Crist\u00f3v\u00e3o quem sopra o fogo do ferreiro; \u00e9 Crist\u00f3v\u00e3o quem sacode, a matinas, a corda do sino; \u00e9 ele que, sozinho, abre nos lameiros a cal\u00e7ada nova; \u00e9 ele quem escava os po\u00e7os nos p\u00e1tios dos casais. \u00c0 noite estava prostrado. Quando os grandes invernos alagavam a aldeia, abrigava-se num vasto alpendre que mal o cobria de todo: de Ver\u00e3o estendia-se junto ao cruzeiro, e os primeiros p\u00e1ssaros, chalrando de madrugada, pousavam sobre os seus ombros, como sobre colinas escuras.<\/p>\n<p>Aos domingos repousava, e esse era o seu dia melhor, porque as crian\u00e7as brincavam com ele. Sentindo-o doce e paciente, todas corriam para ele como para um grande bicho que os divertia: e trepando por ele, era como o vivo prazer de trepar a \u00e1rvores e a torres. Por vezes, com as m\u00e3os pousadas na terra, ele oferecia o seu vasto dorso, em que cavalgavam, presos pela cinta, uma longa fileira de corpinhos \u00e1geis e vivos: e dando corcovos, imitava, entre as risadas alegres, o urro do le\u00e3o ou o her\u00f3ico relinchar de um corcel. Al\u00e9m disso sabia fazer, com as suas m\u00e3os cabeludas e cheias de terra, todas as sortes de brinquedos \u2013 flechas de ca\u00e7a, pequenos carros que rodavam no p\u00f3, barcos com velas para vogar no pego. Para tudo as crian\u00e7as o tinham pronto \u2013 e s\u00f3 se recusava quando eles tentavam estragar a fruta verde, ou fazer mal aos melros.<\/p>\n<p>Mas, de todas as crian\u00e7as da aldeia, uma governava superiormente o seu cora\u00e7\u00e3o. Era a filha de uma vi\u00fava \u2013 daquela que Crist\u00f3v\u00e3o ouvira chorar, e \u00e0 porta de quem batera, como mandado por Jesus, seu amo. O pai morrera nesta noite \u2013 e \u00e0 pobre mulher n\u00e3o restava ningu\u00e9m no mundo para tratar as terras, cuidar das ovelhas. Mas, desde essa noite, uma grande for\u00e7a \u00fatil entrara no casebre. Crist\u00f3v\u00e3o foi o servo fiel: \u2013 e nenhuma horta na aldeia andou mais bem regada, nenhum gado apascentado em prados melhores, nenhum torr\u00e3o mais fundamente arado. Um riso da crian\u00e7a (que se chamava Joana), o seu jeito de lhe puxar as barbas, recompensava-o de todo o trabalho. Mesmo brincando com as outras, era em Joana que pensava. De  noite rondava a porta do casebre, a escutar se ela chorava no seu ber\u00e7o. Cedo, de manh\u00e3, ia postar-se na horta entre os limoeiros, \u00e0 espera que ela corresse de dentro com o seus bracinhos abertos: e todo o dia ficava sentindo nos cabelos, nas barbas, a do\u00e7ura das suas m\u00e3ozinhas, que o arrepelavam. Ele amava-a por toda a sua pessoa \u2013 a covinha da face quando ria, a gra\u00e7a da sua voz hesitante, os seus p\u00e9s mal seguros sobre a terra lavrada. Amava-a sobretudo pela sua fraqueza \u2013 e n\u00e3o antevia vida melhor do que passar eternamente a servi-la, e a ser alegremente arrepelado. O seu prazer maior era traz\u00ea-la escarranchada aos ombros; ela ria, agarrada aos seus longos cabelos; e ele caminhava grave e vaidoso, como se conduzisse a sagrada h\u00f3stia.<\/p>\n<p>Por vezes comparava-o ao Menino, ao Menino divino, que ria no seu curral, e aprendia a ler no grande livro de Santa Ana. Os seus olhos claros e largos deviam ser como os de Joana. E o seu pesar era n\u00e3o saber ler, para abrir sobre os joelhos um livro, onde o seu dedinho espetado fosse seguindo as letras grossas. Decerto, Jesus, se conhecesse, Joana, a devia amar. Ela era inocentinha como uma flor do valado: e o seu anjo da guarda esperava quieto, quando ela parava no caminho, a remexer na terra, \u00e0 procura de bichos. Por mais longe que andasse trabalhando, sentia a voz de Joana se ela o chamava, como se a voz viesse de cima, do C\u00e9u \u2013 e apressava ent\u00e3o a obra, \u00e0 for\u00e7a dos bra\u00e7os, para correr ao seu encontro, n\u00e3o se esquecendo de trazer as amoras que ela gostava, ou medronhos, menos corados que a sua facezinha. Durante horas ent\u00e3o acamaradavam \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o era t\u00e3o simples que, para a entreter, s\u00f3 sabia repetir a voz dos bichos, dan\u00e7ar pesadamente como um urso. A m\u00e3e dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Crist\u00f3v\u00e3o, Crist\u00f3v\u00e3o, muito tempo gastas com a menina\u2026 Olha a lenha\u2026 Olha o gado\u2026<\/p>\n<p>Ele baixava a cabe\u00e7a, abria a cancela: e ainda se voltava, j\u00e1 longe, para sorrir, com a sua vasta face iluminada.<\/p>\n<p>Ora no meio desta felicidade, come\u00e7ou um murmurar na aldeia. O guardi\u00e3o do convento n\u00e3o perdoara a Crist\u00f3v\u00e3o por ter ele abandonado os seus servi\u00e7os \u00e0 ordem: e os frades que passavam, ou que vinham pregar \u00e0 tarde no adro, diziam depois que, segundos os livros, todos os gigantes tinham pactos com o Satan\u00e1s. Decerto, este era doce e servi\u00e7al, mas assim eram as artes do Dem\u00f4nio, que durante um tempo se faziam doces e af\u00e1veis, para melhor se apoderarem das almas. As mulheres, ouvindo isto, ficavam pensativas. Era ent\u00e3o em Maio: j\u00e1 as macieiras tinham flor, e as primeiras espigas dos trigos sa\u00edram da terra, e os prados enverdeciam. Mas eis que, uma noite, grandes rel\u00e2mpagos luzem sobre o vale, um trov\u00e3o rola sobre as serras \u2013 e subitamente, com o estalido de lan\u00e7as entrechocando-se, caiu o granizo. Longo tempo caiu, arrasando o colmo dos casebres, matando os rebentos novos, esmagando as frutas, devastando o gado nos apriscos. De manh\u00e3 toda a aldeia estava pobre: \u2013 e os homens corriam pelos campos, a olhar os destro\u00e7os, enquanto as mulheres, juntas no adro, carpiam como num funeral. Um padre veio logo do convento, e estendendo a m\u00e3o, demonstrou que, por causa do endurecimento das almas viera aquela visita\u00e7\u00e3o. Por que persistiam eles em acamaradar com um servo do Dem\u00f4nio? Crist\u00f3v\u00e3o, como todos os gigantes, era um emiss\u00e1rio de Belzebu: \u2013 via-se-lhe o Inferno nos olhos, nas barbas que o fogo crestara, e na sua fingida humildade. Mas eles continuavam a dar-lhe o p\u00e3o e o sal, e a\u00ed estava que o Senhor lhes devastara as sementeiras. Toda a tarde assim falou \u2013 enquanto Crist\u00f3v\u00e3o andava no campo, atando os ramos ca\u00eddos, secando os charcos, compondo os tetos dos casebres.<\/p>\n<p>Os homens, no entanto, tomavam os seus cajados. O balio, chamado, tocou a trompa para reunir os seus arqueiros. As mulheres escondiam as crian\u00e7as: outras plantavam cruzes \u00e0 porta da casa. O abade mandara tocar o sino. E era como quando na aldeia aparecia um bando de lobos.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o devia vir por uma azinhaga, onde se postaram os homens com os cajados, os arqueiros com os seus arcos retesados, e o padre, atr\u00e1s, al\u00e7ando a cruz com m\u00e3o tr\u00eamula. E um bando de mulheres da aldeia, at\u00e9 as velhas tr\u00f4pegas, esperavam para ver o feiticeiro espancado e expulso. Todos eles tinham recebido os servi\u00e7os de Crist\u00f3v\u00e3o; a todos ele cavara a terra, transportara os carretos, rachara a lenha, tosquiara o gado. Mas, em cada um desses servi\u00e7os, cada um via agora como um ardil de Satan\u00e1s. Mil coisas lembravam, que o condenavam. Uma noite aparecera um velho desenterrado. Quem o desenterrara sen\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o? \u00c0s vezes, de noite, luziam na treva da aldeia dois grandes olhos vermelhos. De quem seriam sen\u00e3o de Satan\u00e1s, que vinha alta noite conversar com Crist\u00f3v\u00e3o? Por que n\u00e3o rezava ele nunca no adro? Outros acudiam, afirmando que ele tinha, nas costas, pintada uma caveira. Era decerto o sinete da Morte. E alguns, que duvidavam, lembrando-se da sua do\u00e7ura, da sua bondade, receavam defend\u00ea-lo para que n\u00e3o parecessem diante do frade, ter inclina\u00e7\u00e3o pelo Inimigo.<\/p>\n<p>Assim o esperavam, quando, pelo caminho que descia da serra, ele apareceu, vergado sob o imenso molho de troncos. O padre imediatamente ergueu alto o crucifixo, e os arqueiros retesaram o arco \u2013 e do bando um clamor s\u00fabito, enquanto se abaixavam a apanhar as grossas pedras.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o parara espantado: \u2013 e t\u00e3o certo estava do amor de todos, que se virou para tr\u00e1s, para ver que inimigo ruim ou homem de temer subia o caminho e despertava assim a c\u00f3lera da aldeia. Mas o caminho estava vazio, j\u00e1 escuro. E era contra ele que o frade erguia a cruz, os besteiros apontavam os dardos, e os punhos tremiam de c\u00f3lera no ar!<\/p>\n<p>\u2014 Vade retro! Vade retro! \u2013 gritava o frade.<\/p>\n<p>\u2014 Aos corvos! Aos corvos, o malfazejo! \u2013 exclamava a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixando escorregar dos ombros o molho de troncos, que tombou esmigalhando a sebe, Crist\u00f3v\u00e3o ergueu a face, alargou os bra\u00e7os: \u2013 e durante um momento o espanto fez t\u00e3o feia a sua face, que o bando recuou, as mulheres fugiram al\u00e7ando os bra\u00e7os. Mas o frade, com o crucifixo tr\u00eamulo no ar, acumulava os exorcismos; o balio, com a vara, acirrava a multid\u00e3o \u2013 e as pedras partiram, arremessadas com tanto medo, que todas se perderam no mato, em redor. Ent\u00e3o, sem temor, Crist\u00f3v\u00e3o deu um passo lento. Os seus olhos esbugalhados sondavam a turba ruidosa: viu ali, gritando contra ele, todos os que auxiliara: o moleiro, a quem servira de alim\u00e1ria, e carregara os fardos, brandia contra ele um cajado; a vi\u00fava do ferreiro, a quem soprara a forja, tinha duas pedras nas m\u00e3os; \u2013 e as crian\u00e7as, que ele acariciara no adro, gritavam: \u201cAos corvos! Aos corvos!\u201d Ent\u00e3o uma grande dor varou o seu cora\u00e7\u00e3o simples. A aldeia n\u00e3o o queria mais. Como um bicho malfazejo, como um lobo, ele era escorra\u00e7ado. Duas l\u00e1grimas enevoavam as suas vastas pupilas, que reluziam: e baixando a cabe\u00e7a, com humildade, Crist\u00f3v\u00e3o desceu o caminho. Ent\u00e3o a multid\u00e3o ganhou \u00e2nimo. As pedras, voando, bateram nas suas esp\u00e1duas, cansadas de todos os fardos; uma seta entranhou-se na sua guedelha hirsuta. Crist\u00f3v\u00e3o desapareceu.<\/p>\n<p>Diante dele estava a serra: para a serra subiu lentamente. E uma s\u00f3 d\u00favida tumultuava seu cora\u00e7\u00e3o: \u2013 por que o tinham perseguido? que fizera ele? Amava a todos, servia a todos. Era o que o seu trabalho n\u00e3o parecia bastante \u00fatil? Ele n\u00e3o podia tirar mais for\u00e7a dos seus m\u00fasculos, nem fazer que, para a labuta\u00e7\u00e3o, os dias fossem maiores. Por que o apedrejavam ent\u00e3o? E uma recorda\u00e7\u00e3o entrou na sua alma, a mem\u00f3ria de Jesus, que s\u00f3 fizera o bem, e que os homens tinham flagelado contra uma coluna de pedra. Ele era, pois, como o Senhor, um perseguido. E um amor maior crescia na sua alma por Jesus, sentindo confusamente que houvera entre os seus destinos uma igualdade de sofrimento\u2026 Os seus bra\u00e7os erguiam-se para a Lua que subia. Ali, nas alturas, estava o Senhor. E mesmo vendo a Lua t\u00e3o brilhante e triste, ele pensava se n\u00e3o seria essa a face do Senhor!<\/p>\n<p>Assim pensava, sentado numa rocha. Os olhos de um lobo luziram entre o mato. Ele pensou que talvez, esfomeado,o lobo descesse \u00e0 aldeia. E erguido, deu um bardo, espantou a fera para os altos, para longe dos caminhos que desciam \u00e0 aldeia. Ele via-os, esses caminhos, por entre os pinheiros. E, em baixo, as luzes morti\u00e7as, mais longe o Pego da Dona, brilhando como um disco de prata. A\u00ed era o casebre onde, a essa hora, Joana dormia. Nunca mais ele a veria deitada na sua canastra, coberta com o mant\u00e9u negro da m\u00e3e. Nunca mais as suas m\u00e3ozinhas lhe arrepelariam as barbas. E uma tristeza imensa tomava-o, uma vontade de se deitar para sempre na serra, e ficar ali at\u00e9 que os seus ossos brancos se n\u00e3o distinguissem mais das rochas brancas. Mas quem faria rir Joana, como ele, quando a erguia nos bra\u00e7os at\u00e9 a rama dos mais altos pinheiros? E quem lavraria o campo da vi\u00fava? Essa, decerto, lamentava a sua sa\u00edda da aldeia. Nela sempre encontrara do\u00e7ura, e um rosto que sorria na sua tristeza. Se ela o visse, decerto diria: \u201cCrist\u00f3v\u00e3o, olha o gado: Crist\u00f3v\u00e3o olha a lenha!\u2026\u201d Se os outros o perseguiam, ela ao menos o acolheria. E agora Crist\u00f3v\u00e3o esperava a madrugada para descer ao casebre de Joana.<\/p>\n<p>T\u00eanue e fresca, a madrugada nasceu por fim na serra. Rastejando entre os arvoredos, agachado para que a sua cabe\u00e7a n\u00e3o fosse vista acima das \u00e1rvores, rodeou a terra, veio ao casebre da vi\u00fava. A cancela estava fechada. O galo cacarejava, sobre o monte de mato. J\u00e1 decerto o lume se acendera dentro, porque da telha v\u00e3 sa\u00eda fumo: e as cotovias cantavam muito alto no c\u00e9u claro. Crist\u00f3v\u00e3o apareceu por tr\u00e1s, defronte da porta do aido. Um grito assustado cortou o ar. A vi\u00fava vira Crist\u00f3v\u00e3o, e arrebatando Joana, que brincava no ch\u00e3o, fugiu para dentro do casebre, gritando como o padre: Abrenuntio!<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o ficou im\u00f3vel. Tamb\u00e9m ela, pois, o temia, n\u00e3o o queria mais! N\u00e3o havia em toda a aldeia j\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o que lembrasse. As crian\u00e7as fugiam dele. Por qu\u00ea? Lentamente afastou os passos, t\u00e3o triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar. Ao lado o pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debru\u00e7ado sobre ele, olhou a sua face. Ent\u00e3o, pela primeira vez, sentiu a sua fealdade. Decerto o repeliam por ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado com o peso da sua fealdade, Crist\u00f3v\u00e3o para sempre deixou os lugares onde nascera.<\/p>\n<p>X <\/p>\n<p>Longos dias caminhou. O pa\u00eds era deserto, com rochas; grandes despenhadeiros. A sede levou-o a um regato, que cantava entre as pedras. Bebeu, e foi seguindo aquela \u00e1gua clara que fugia. Ao fim de longas marchas encontrou um rio. Colinas suaves, onde branquejavam casas, erguiam-se dos dois lados da corrente serena e muda, orlada de salgueiros. Uma ponte antiga ligava as duas margens \u2013 e tendo-a passado avistou, erguidos, recortados na manh\u00e3 clara, os muros de uma cidade. Quase de repente duas portas, sob uma torre que encimava a muralha, rodaram: \u2013 e delas irrompeu uma multid\u00e3o que fugia. Era gente que trazia \u00e0s costas as enxergas, as bilhas de \u00e1gua. As crian\u00e7as, chorando, agarravam-se \u00e0s saias das m\u00e3es; os velhos erguiam os bra\u00e7os, para que esperassem por eles \u2013 e por vezes todos se afastavam de algum cavaleiro, que, embu\u00e7ado no manto, a pluma do chap\u00e9u ao vento, se escapava ao galope de um ginete magro. Um fumo, como de fogueiras, subia por tr\u00e1s das muralhas; as ameias n\u00e3o tinham sentinelas; e todo o ar estava cheio do dobrar de finados, badalado nas torres.<\/p>\n<p>A turba que fugia, vendo Crist\u00f3v\u00e3o, corria mais espantada, trope\u00e7ando, caindo sob o peso dos fardos; ele estendia os bra\u00e7os para amparar os velhos; o terror crescia: \u2013 e em torno de suas pernas, como em volta de torres, a multid\u00e3o debandava gritando.<\/p>\n<p>Chegou por fim \u00e0 entrada da cidade. Dois soldados at\u00f4nitos fecharam as portas. Crist\u00f3v\u00e3o galgou o fosso, transp\u00f4s as muralhas. Diante dele abria-se uma rua, com trapos ca\u00eddos nos enxurros, e todas as portas fechadas sob as tabuletas, que rangiam na haste de ferro ao vento agreste. Um f\u00e9tido terr\u00edvel tornava o ar pesado: e dois frades, erguendo o h\u00e1bito, fugiam de um homem que se espojava no ch\u00e3o, com a face toda verde, a boca escancarada, gritando por \u00e1gua! Crist\u00f3v\u00e3o correu para ele, ergueu-o nos bra\u00e7os, levou-o a um chafariz, onde a \u00e1gua jorrava de carrancas. O homem bebeu a largos tragos \u2013 as suas pernas inteiri\u00e7avam-se, e ficou nos joelhos de Crist\u00f3v\u00e3o morto, j\u00e1 quase decomposto. Mas, de uma casa pr\u00f3xima, gritos soavam; e, erguendo a face, viu uma velha esguedelhada, que da esguia janela, onde restava um p\u00e9 de flor seca num vaso, chamava por socorro, torcendo os bra\u00e7os. Das janelas vizinhas faces p\u00e1lidas espreitavam. Mais longe, prantos novos se ergueram; Crist\u00f3v\u00e3o, tendo posto o cad\u00e1ver no ch\u00e3o, olhava espantado sem compreender a dor que parecia pesar na cidade. De uma taberna. subitamente, sa\u00edram soldados b\u00eabados, cambaleando, cantando, com as faces l\u00edvidas de uma noite de vinho e orgia. Crist\u00f3v\u00e3o ia interrog\u00e1-los \u2013 quando um de repente caiu, torcendo-se num agonia. Os outros, subitamente desembriagados, fugiram. E Crist\u00f3v\u00e3o acudia ao agonizante, quando ele ficou hirto, morto. Ao fundo da rua passava uma prociss\u00e3o em que um padre, de t\u00fanica branca, erguia um relic\u00e1rio que reluzia, enquanto mulheres, atr\u00e1s, descal\u00e7as, desgrenhadas, torciam os bra\u00e7os, clamando para o C\u00e9u miseric\u00f3rdia. Os sinos n\u00e3o cessavam o seu dobre a finados: e homens trazendo barricas de breu, acendiam \u00e0s esquinas fogueiras que subiam ao ar, fazendo estalar o vidro das gelosias.<\/p>\n<p>Um padeiro, mais p\u00e1lido que uma tocha, abria a uma esquina as t\u00e1buas da sua loja. Crist\u00f3v\u00e3o dirigiu-se a ele, e curvando-se, com as m\u00e3os os joelhos, perguntou-lhe que mal corria na cidade, e por que soavam tantos prantos. O homem recuara inquieto, perguntando por seu turno se ele viera com saltimbancos para se mostrar. Crist\u00f3v\u00e3o disse que n\u00e3o, e com um gesto mostrou o horizonte distante de onde vinha. Ent\u00e3o o homem aconselhou-lhe que fugisse, porque a cidade morria da peste negra.<\/p>\n<p>Quando assim falavam, um ru\u00eddo de correntes arrastadas ressoou no lajedo. E dois homens, com cadeias de ferro presas aos p\u00e9s, apareceram, trazendo um morto numa padiola. Atr\u00e1s outros homens, de faces sinistras, com correntes aos p\u00e9s, traziam outros mortos\u2026 Eram os for\u00e7ados das gal\u00e9s, que iam enterrar os mortos, guardados por soldados, que faziam estalar no ar compridos l\u00e1tegos de couro. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o tomou aos ombros os dois mortos que jaziam junto \u00e0 fonte, e come\u00e7ou a seguir os for\u00e7ados. Assim sa\u00edram das portas, at\u00e9 chegar a um olival, onde estava plantada uma cruz. Uma vala irregular e tortuosa atravessava sob a ramaria p\u00e1lida. \u00c0 pressa, os for\u00e7ados atiraram os mortos para dentro, e com as enxadas lan\u00e7aram sobre eles uma ligeira camada de terra. Ao ru\u00eddo, bandos de corvos, que pousavam nas oliveiras, bateram o v\u00f4o, grasnando furiosamente.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o sacudiu as m\u00e3os da terra, e sem atender aos brados dos soldados que o chamavam, recolheu \u00e0 cidade, ao acaso, por outra porta, que estava toda tomada por outro funeral, onde havia frades, escudeiros com c\u00edrios em torno de um caix\u00e3o, cujo pano de veludo tinha um bras\u00e3o bordado. Ent\u00e3o, todo o dia percorreu as ruas, socorrendo os que ca\u00edam, desviando os mortos do meio das cal\u00e7adas \u2013 e ao escurecer j\u00e1 se tornara t\u00e3o familiar, que das gelosias gritavam: \u201cEh homem!\u201d Ele vinha, carregava os mortos para a vala, limpava a imund\u00edcie dos p\u00e1tios, corria a encher as bilhas de \u00e1gua \u2013 e mesmo alimentava as crian\u00e7as que estavam sozinhas nos casebres.<\/p>\n<p>Como em todas as casas havia um morto, e se receava o cont\u00e1gio, a multid\u00e3o errava pelas ruas, entregue ao terror e ao del\u00edrio. As mulheres, os velhos, corriam \u00e0s igrejas, a implorar \u00e0s rel\u00edquias, saltavam por cima dos cad\u00e1veres que atulhavam os adros. Estes, julgando que o mundo ia findar, corriam \u00e0s tabernas, arrombavam as pipas, e as blasf\u00eamias dos \u00e9brios juntavam-se ao pranto das mulheres. A cada esquina havia rixas \u2013 e por vezes, numa rua deserta, onde todos os moradores tinham morrido, Crist\u00f3v\u00e3o tinha que expulsar os porcos, que ro\u00edam ossos humanos. De resto os animais, abandonados, percorriam as rua, e por vezes um cavalo espantado, um touro fugido do matadouro, corriam, esmagavam a gente, e era Crist\u00f3v\u00e3o que os segurava com os seus punhos enormes.<\/p>\n<p>A cada instante os gritos dos doentes abandonados o detinham. De rastos, ele introduzia o seu vasto corpo pelas escadas estreitas, e ia dar de beber aos doentes, limpar-lhes as imund\u00edcies, oferecer-lhes o seu vasto peito para eles morrerem sobre o calor de um cora\u00e7\u00e3o humano. Por vezes um moribundo queria a extrema-un\u00e7\u00e3o; mas os padres tinham fugido, os raros que ainda haviam n\u00e3o bastavam para tantos moribundos; e Crist\u00f3v\u00e3o, tomando um crucifixo, de joelhos, bradava junto do leito f\u00e9tido: \u201cJesus, meu Senhor, s\u00ea com este infeliz!\u201d<\/p>\n<p>Todas as noites havia grandes penit\u00eancias. Bandos de homens, de mulheres seminuas, corriam as ruas, rasgando as carnes, cobrindo a face de lama, cantando c\u00e2nticos ferozes em que as invoca\u00e7\u00f5es ao Senhor se confundiam com apelos ao Dem\u00f4nio. Por vezes, de repente, uma voz gritava: \u201c\u00c9 culpa dos judeus!\u201d E a multid\u00e3o, tomando chu\u00e7os, agarrando fachos, corria \u00e0s casas dos judeus, que apareciam oferecendo sacos de ouro, e ca\u00edam sob os golpes, ou ficavam com as barbas queimadas.<\/p>\n<p>Nas ruas ricas os pal\u00e1cios estavam fechados: e atrav\u00e9s das janelas sentiam-se m\u00fasicas e o tinir das baixelas de prata, porque alguns pensavam que se devia esperar a morte no seio do prazer. Outros, por\u00e9m, iam de casa em casa, em festas seguidas: \u2013 e viam-se cavaleiros, sem manto, com gotas de vinho nas barbas agudas, caminharem na rua, entre tocadores de bandolim e de flauta, trope\u00e7ando com os seus imensos sapatos bicudos nos cad\u00e1veres abandonados: e, para os ver passar, surgiam aos balc\u00f5es mulheres p\u00e1lidas, com o seio descoberto, peles de arminho na orla do vestido, e a cabe\u00e7a coberta de uma mitra aguda de onde pendiam molhos de longas fitas, que o vento fazia ondear como fl\u00e2mulas de mastros.<\/p>\n<p>Toda a noite Crist\u00f3v\u00e3o trabalhara. Como os guardas n\u00e3o fechavam as portas, por vezes os lobos, atra\u00eddos pelo cheiro da podrid\u00e3o, apareciam nas ruas escuras. E Crist\u00f3v\u00e3o, que juntava os cad\u00e1veres, corria contra eles bradando, com uma tocha na m\u00e3o. Os mortos, que assim juntava, ia-os de manh\u00e3 sepultar nos campos de oliveiras. Depois ia colher \u00e0 serra ervas arom\u00e1ticas, que salvam da infec\u00e7\u00e3o, e pondo-se \u00e0s esquinas oferecia-as \u00e0 gente que sa\u00eda das suas moradas e que, tomando um milho, se afastava respirando-o com confian\u00e7a. Como os ladr\u00f5es abundavam, Crist\u00f3v\u00e3o vigiava a casa dos cambiadores da moeda, dos joalheiros: e se surpreendia uns homens correndo, com alguma coisa escondida sob o sai\u00e3o, tirava-lha e ia deposit\u00e1-la numa igreja. Era ele quem distribu\u00eda a \u00e1gua, varria as imund\u00edcies, acendia as fogueiras para depurar o ar. E pouco a pouco, era t\u00e3o conhecido, que as mulheres, vendo a sua sombra passar rente das gelosias, chamavam sobre ele a ben\u00e7\u00e3o do Senhor. Os ricos atiravam-lhe bolsas com que ele ia comprar p\u00e3o \u00e0s vi\u00favas. Os seus passos eram por vezes embara\u00e7ado pelas crian\u00e7as, que se prendiam \u00e0s suas pernas como a colunas. Os mercadores confiavam-lhe as suas tendas. Quando ele se ajoelhava \u00e0 porta de uma igreja, dentro as ora\u00e7\u00f5es eram mais ardentes. E como ele acarretava as lenhas dos soldados, polia as suas armas, rondava por eles as portas \u2013 os soldados gritavam na rua: \u201cViva Crist\u00f3v\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Uma t\u00e3o grande popularidade inquietou o sobrinho do pr\u00edncipe, que, tendo o seu tio fugido da peste, com o seus tesouros e concubinas, governava a cidade, e  queria, por ambi\u00e7\u00e3o do poder, ganhar as simpatias do povo. Mas a sua face l\u00edvida e dura, sobre um corpo enfezado e corcunda, desagradava \u00e0s mulheres por sua fealdade, aos soldados por sua fraqueza. Um dia em que ele seguia uma prociss\u00e3o, com as rel\u00edquias de S. Te\u00f3dulo, o povo, \u00e0 sua passagem, permaneceu com o joelho apenas dobrado. Logo atr\u00e1s, por\u00e9m, entre o povo, vinha Crist\u00f3v\u00e3o, como uma torre entre casebres. Um mercador rico dera-lhe vinte varas de pano de Flandres, para um saio: e todo ele sorria na sua simplicidade, agitando duas palmas verdes que as confrarias dos Irm\u00e3os Hospitaleiros lhe tinham dado, como emblema da sua caridade. Ao v\u00ea-lo, o povo, que se apertava contra as portas fechadas, rompeu a gritar seu nome entre b\u00ean\u00e7\u00e3os: \u201cBom Crist\u00f3v\u00e3o! Crist\u00f3v\u00e3o grato ao Senhor!\u201d Uma dama atirou-lhe a flor que tinha no seio. Os velhos baixavam a cabe\u00e7a como na passagem de um justo.<\/p>\n<p>O conde, adiante, tornara-se mais p\u00e1lido. E nessa noite dizia, sentado \u00e0 lareira, desapertando o gib\u00e3o: \u201cQuem me livrar\u00e1 daquele monstro que transvia o povo!\u201d Os guardas, tendo combinado baixo a um canto, vieram, cercando a sua alta cadeira de espaldar, animar por adula\u00e7\u00e3o o seu secreto pensamento. N\u00e3o era conveniente, na verdade, que um ser disforme, dos que se mostram nas feiras, ganhasse assim ra\u00edzes no cora\u00e7\u00e3o do povo\u2026 De resto, a sua for\u00e7a seria depressa domada com fortes correntes de ferro. E n\u00e3o havia, fora da cidade, um despenhadeiro, onde se poderia lan\u00e7ar o corpo do imenso bruto? E quando, na manh\u00e3 seguinte, Crist\u00f3v\u00e3o come\u00e7ava o seu almo\u00e7o junto da catedral, um pajem veio, sorrindo, e convidou-o a ir \u00e0 presen\u00e7a do pr\u00edncipe, que lhe queria dar ouro, e vestidos que conviessem a um homem t\u00e3o servi\u00e7al. Pensando que os vestidos serviriam a cobrir os presos, que a mis\u00e9ria trazia nus, Crist\u00f3v\u00e3o sacudira as m\u00e3os, onde a broa se esfarelara, e obedeceu ao pajem, que corria para lhe seguir as passadas.<\/p>\n<p>Apenas Crist\u00f3v\u00e3o entrara no pal\u00e1cio, as grossas portas, eri\u00e7adas de ferros, foram fechadas. O conde, que estava num balc\u00e3o, gritou agitando o povo emplumado: \u201cEh Crist\u00f3v\u00e3o!\u201d E como ele movia um passo, sorrindo, com a face erguida para o balc\u00e3o, de onde pendia um veludo franjado de ouro \u2013 dois soldados meteram-lhe bruscamente entre as pernas uma trave, e Crist\u00f3v\u00e3o tombou no lajedo. Logo, de todas as portas, romperam homens inumer\u00e1veis, que cobriram o imenso corpo deitado, como as formigas cobrem um tronco. Num momento foi amarrado com grossas correntes e ferro: e para que nenhum grito dele sa\u00edsse, uma morda\u00e7a tapou-lhe a boca. Depois todos, recuando vivamente, contemplaram em sil\u00eancio o gigante vencido. O pr\u00edncipe desceu para ver, com damas, cujas caudas eram como longas tiras de tapete sobre o p\u00e1tio. E os pajens cuspiam sobre a sua face barbuda. Ele pensava no Senhor que fora flagelado \u2013 e mais nos pobres que ele servia, e que decerto nesse dia sentiriam a sua falta. Todo o dia ficou assim cercado de lacaios, de cozinheiros, que deixavam o servi\u00e7o para o vir ver. E no cora\u00e7\u00e3o de alguns havia compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>A noite desceu, escura, sem uma estrela. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o abriu os olhos. Os c\u00e3es de fila, soltos, rondavam o p\u00e1tio. A sentinela dormia, \u00e0 porta, encostada \u00e0 lan\u00e7a: e das altas ogivas do pal\u00e1cio vinha um clar\u00e3o, e um rumor de violinos. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o retesou os m\u00fasculos \u2013 e com grande ru\u00eddo todas as correntes estalaram. Diante da grande forma erguida, os molossos fugiram, latindo. A sentinela, largando a lan\u00e7a, fugiu. E Crist\u00f3v\u00e3o, de um s\u00f3 golpe de ombros fazendo estalar a porta, saltou o fosso, entrou nas ruas desertas. Mas de repente parou, pensando que se revelasse a trai\u00e7\u00e3o do conde, o povo, os soldados, que o n\u00e3o amavam, lhe fariam mal, e, se a calasse, o conde, decerto o faria matar. Assim se ficasse, ou o seu sangue correria, ou correria o sangue dele por sua causa. E ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o dirigiu-se \u00e0 grande porta da cidade. \u00c0 luz de um ret\u00e1bulo da Virgem os soldados jogavam os dados. E vendo Crist\u00f3v\u00e3o, perguntaram-lhe se o pr\u00edncipe lhe dera uma bolsa, ou panos para um vestido. Crist\u00f3v\u00e3o murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 O pr\u00edncipe deu mais que eu esperava.<\/p>\n<p>E passou, penetrou nos caminhos, deixando para sempre a cidade onde fora bom aos aflitos.<\/p>\n<p>XI <\/p>\n<p>Longos dias Crist\u00f3v\u00e3o errou pelos caminhos \u2013 at\u00e9 que uma tarde chegou ao sop\u00e9 de uma montanha, cujas rochas o Sol poente cobria de cor-de-rosa. Um homem, com um h\u00e1bito de frade, um longo capuz de onde sa\u00eda uma braba branca, subia lentamente os c\u00f3rregos alcantilados, gemendo, sob um molho de lenha. Crist\u00f3v\u00e3o pedira ao velho para carregar ele a lenha. O frade, receando um dem\u00f4nio, tra\u00e7ou no ar uma cruz, e como Crist\u00f3v\u00e3o repetisse sobre o peito as linhas santas, o frade consentiu que ele tirasse o molho dos ombros. E limpando o suor com a manga esfarrapada do h\u00e1bito enquanto caminhava ao lado de Crist\u00f3v\u00e3o, perguntou-lhe se ele fugira dos homens que o mostravam numa feira: e como Crist\u00f3v\u00e3o dissesse que vinha da cidade, de al\u00e9m, o frade compreendeu que ele vinha decerto atra\u00eddo pela santidade daquela montanha povoada de ermitas. E pensava: \u201cAqui est\u00e1 um homem, decerto simples, e de for\u00e7a imensa, que poderia aliviar dos seus trabalhos os santos var\u00f5es que ali habitam, deixando-lhes mais tempo para aperfei\u00e7oar a alma, e dar batalha segura ao Tentador\u2026\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi guiando Crist\u00f3v\u00e3o at\u00e9 que chegaram a uma choupana feita de ramos, ente pedras alcantiladas. \u00c0 porta da cabana, cravada entre duas paredes, erguia-se uma cruz tosca, e ao p\u00e9, sob uma caveira, pousava, aberto, um grande in-f\u00f3lio. Dentro da cabana havia s\u00f3 um leito de folhas secas, e uma bilha com a asa quebrada.<\/p>\n<p>O ermita, tendo indicado a Crist\u00f3v\u00e3o o s\u00edtio onde devia deixar o molho de lenha, tomou de uma buzina pendurada \u00e0 porta da cabana, e afastando os longos pelos do bigode branco, lan\u00e7ou tr\u00eas sons roucos, que ecoaram nas quebradas. Crist\u00f3v\u00e3o, t\u00edmido, considerava cada movimento do ermita como uma a\u00e7\u00e3o de santidade. Ent\u00e3o, das sendas v\u00e1rias do monte come\u00e7aram a aparecer, caminhando devagar, uns apoiados em bord\u00f5es, outros com as m\u00e3os escondidas nas mangas, ermitas, a quem um longo capuz escondia a face. O primeiro que chegou, dando com Crist\u00f3v\u00e3o, fez o sinal da cruz, e depois, com um gesto, chamou os outros, que, assim apressados, sa\u00edram de rocha em rocha. Quase todos tinham longas barbas, grisalhas e incultas, as t\u00fanicas esfarrapadas, e o lodo dos caminhos seco em crosta nas pernas. Com um gesto lento co\u00e7avam pelo corpo a v\u00e9rmina que os cobria: e, se as pernas ou os bra\u00e7os se lhes tinham chagado, erguiam as t\u00fanicas como tirando contentamento daquelas mis\u00e9rias da carne. Alguns, por\u00e9m, eram novos, ainda robustos, mas t\u00e3o p\u00e1lidos j\u00e1, que as faces sob o capuz eram como uma cera na sombra. Todos se curvavam diante do monge que guiara Crist\u00f3v\u00e3o; e depois ficavam mais calados e mudos que imagens sobre um t\u00famulo. Mas ent\u00e3o o ermita, que parecia ter a autoridade de um prior, explicou que, ao sop\u00e9 da montanha, voltando de recolher a lenha, encontrara aquele homem de corpo imenso e de imensa for\u00e7a, mas t\u00e3o simples que n\u00e3o sabia de onde viera, nem em que terra nascera. E logo lhe acudira, como inspira\u00e7\u00e3o de cima, a id\u00e9ia de o recolher, e de o ocupar no servi\u00e7o dos santos irm\u00e3os que habitavam a serra, \u00e0 maneira do que praticara Santo Ant\u00e3o no Egito, que, para que os seus irm\u00e3os do ermo, e ele pr\u00f3prio, se absorvessem melhor na ora\u00e7\u00e3o, e mais livres ficassem para dar combate ao Dem\u00f4nio, tomara um negro de muita for\u00e7a, que conduzia a \u00e1gua, rachara a lenha, segurava nas mulas dos peregrinos, transportava as coifas das provis\u00f5es. Assim, de ora em diante, tendo quem os servisse, nas suas almas n\u00e3o haveria mais cuidados do que a conquista do C\u00e9u. Tendo findado, e baixando a face sob o capuz, como recolhido em ora\u00e7\u00e3o \u2013 os ermitas, sem quebrar a sua mudez, retomaram os caminhos da serra, e um a um foram-se sumindo entre as rochas e os robles.<\/p>\n<p>S\u00f3 com Crist\u00f3v\u00e3o, o ermita, voltando \u00e0 cabana, trouxe um peda\u00e7o grosso de broa, de que deu uma parte a Crist\u00f3v\u00e3o. Ambos beberam da bilha: \u2013 e tendo ordenado a Crist\u00f3v\u00e3o que fosse com a lenha \u00e0s costas, atrav\u00e9s da serra, para a distribuir pelas ermidas esparsas, estendeu-se em frente \u00e0 cruz, e, pousando a cabe\u00e7a sobre uma pedra, ficou mergulhado em ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o partiu. Cada ermita lhe ensinava, sem falar, com um mover lento da m\u00e3o, a ermida mais vizinha. Em todas, a mesma caveira alvejava ao p\u00e9 da mesma cruz. E \u00e0quela hora da tarde todos estavam \u00e0 porta da ermida partindo o seu p\u00e3o, e tendo ao lado, interrompido, ou o livro que liam, ou o grande ros\u00e1rio que desfiavam, ou algum cesto que encanastravam, ou as estrelas que teciam. \u00c0 porta de cada cabana pendia uma buzina e um molho de disciplinas, com pontas de ferro. Quando Crist\u00f3v\u00e3o chegava, todos al\u00e7avam o olhar baixo: nalguns o olhar era sereno, de uma serenidade morta; noutros refulgia com um vago clar\u00e3o de terror, ou uma viva luz, que parecia alongar-se numa curiosidade sem fim. Humildemente, Crist\u00f3v\u00e3o depunha o molho de lenha com respeito, como junto de um altar: e os monges, tendo seguido o seu movimento, baixavam e novo a face sob o capuz. Quando Crist\u00f3v\u00e3o voltou \u00e0 ermida do prior \u2013 ainda o encontrou estendido, com a cabe\u00e7a pousada na pedra, dando por vezes um suspiro. Ent\u00e3o, calado, foi sentar-se a dist\u00e2ncia numa pedra.<\/p>\n<p>O Sol descia ao longe, vermelho como uma amora. Nenhum rumor cortava a placidez do ar. Os homens pareciam estar muito longe: \u2013 e depois daqueles dias passados na cidade empestada, Crist\u00f3v\u00e3o sentiu toda aquela serenidade entrar-lhe na alma como uma car\u00edcia sem fim. Mas lembrava todos aqueles que deixara, e mesmo lhe parecia ver certos detalhes \u2013 a casa da esquina onde ele ia levar p\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as abandonadas, o velho a quem ia chegar a bilha da \u00e1gua. Decerto sentia a falta desses seres que socorria: \u2013 mas naqueles ermitas havia tanta fraqueza, tanta necessidade, que decerto seria doce ocupar-se desse servi\u00e7o. O sol desaparecera. Todo o vale de rochas estava negro. Por vezes um grande p\u00e1ssaro escuro esvoa\u00e7ava. Uma estrela pequenina luzia, depois outra. O santo prior orava, com a face sobre a terra fria. E Crist\u00f3v\u00e3o, cansado, estendeu o imenso corpo na terra, adormeceu.<\/p>\n<p>Alta noite acordou: \u2013 um som lento, desolado, de buzina, ca\u00eda de rocha em rocha pelo sil\u00eancio da serra. Era como o apelo de uma cora\u00e7\u00e3o aflito: \u2013 e imediatamente o prior, correndo de dentro da cabana, se atirou de joelhos diante da cruz, rezando, com furor tumultuoso. De certo, longe, algum irm\u00e3o estava sofrendo uma tenta\u00e7\u00e3o do Inimigo, e j\u00e1 meio vencido, soprava a buzina avisando a todos os ermitas para que o ajudassem com as suas ora\u00e7\u00f5es a recha\u00e7ar Belzebu. Sentado no seu rochedo, Crist\u00f3v\u00e3o olhava, cheio de simplicidade, sem compreender, com as m\u00e3os pousadas sobre os joelhos \u2013 quando de outro lado da serra, l\u00e1 no cimo, outra buzina soou, chamando socorro para outra alma atacada. Mais tumultuosas se precipitaram as ora\u00e7\u00f5es do ermit\u00e3o. Mas a buzina ressoava mais aflita! E ent\u00e3o o santo homem, desesperado, gritou a Crist\u00f3v\u00e3o que acendesse uma fogueira perto da cruz, para que ela, destacando em negro sobre o vermelho do lume, fosse vista pelos dem\u00f4nios, que nessa noite pareciam dar um ataque terr\u00edvel \u00e0 santa montanha.<\/p>\n<p>Ferindo lume com duas pedras, Crist\u00f3v\u00e3o, rapidamente, fez uma fogueira, soprando com as faces inchadas: a lenha nova estalou, uma chama subiu, outros lumes em breve apareceram na negrura da serra: \u2013 e os sons das buzinas decresciam como as \u00e2nsias de um cora\u00e7\u00e3o que sossega. Um sil\u00eancio pesou ent\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o cerrara as p\u00e1lpebras. E o prior, um momento, aqueceu \u00e0 chama as suas m\u00e3os tr\u00eamulas.<\/p>\n<p>Mas os seus olhos fixavam-se na chama, com uma atra\u00e7\u00e3o crescente: um clar\u00e3o de cobi\u00e7a iluminava-lhe a face, e a sua l\u00edngua apareceu \u00e0 beira da boca seca, como adiantando-se para uma grande pe\u00e7a de carne tenra, vermelha, chiando ainda no largo prato onde fora assada\u2026 Chegou mesmo a estender a m\u00e3o aberta. Mas deu um grito. Onde tinha ele os esp\u00edritos que n\u00e3o reconhecera uma ilus\u00e3o do Inimigo, que o vinha tentar pela gula?! Furioso, ordenou a Crist\u00f3v\u00e3o que apagasse a fogueira.<\/p>\n<p>Com os bra\u00e7os em cruz, passeou ent\u00e3o no estreito terra\u00e7o bordado de pedras. A sua boca seca mascava com um ru\u00eddo cont\u00ednuo: \u2013 e ia balbuciando ora\u00e7\u00f5es. Os olhos de Crist\u00f3v\u00e3o, fixos no brasido vermelho que restava do fogo, iam-se cerrando. Toda a montanha se calara. E como insensivelmente atra\u00eddo, o ermita voltou a olhar o brasido, que vermelhava numa brasa viva. O que ele agora via eram mont\u00f5es de dinheiro, ducados de ouro, montes de rubis escarlates que se esboroavam, numa infinita rutila\u00e7\u00e3o de tesouros. Bastava baixar a m\u00e3o, e teria tesouros para comprar um condado, erguer catedrais, assalariar mercen\u00e1rios, comprar j\u00f3ias \u00e0s rainhas, ter todas as satisfa\u00e7\u00f5es do poder, e do amor, e do orgulho eclesi\u00e1stico. E todavia o ermita sorria, sacudia a barba branca, murmurando: \u201cBem vejo a tua ilus\u00e3o, oh Maldito, que me julgavas desprevenido! Mas a minha alma est\u00e1 forte, e nela, como o arqueiro na torre, a ora\u00e7\u00e3o vigia, cheia de for\u00e7a!\u2026\u201d E com o p\u00e9 espalhou os carv\u00f5es ardentes. E Crist\u00f3v\u00e3o pensava na sua simplicidade: \u201cQuantas coisas v\u00ea este homem, que eu n\u00e3o vejo! Decerto \u00e9 por causa da sua sabedoria ou da sua santidade\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, o ermita recolhera \u00e0 sua cabana: mas, apenas entrara, soltou um grito, e saiu recuando, com os bra\u00e7os abertos, que pareciam sacudir uma vis\u00e3o. Era uma mulher, de espl\u00eandida brancura e toda nua, que ele encontrara deitada de costas sobre o seu catre de folhas, com bra\u00e7os abertos que o esperavam e o chamavam. E durante um momento, as suas m\u00e3os, como impelidas por for\u00e7a oculta, tinham-se estendido para ela irresistivelmente: mas nos p\u00e9s, t\u00e3o brancos, reconhecera um p\u00e9 de cabra \u2013 e tendo-se benzido freneticamente, a mulher evaporara-se, como um fumo negro, atrav\u00e9s dos ramos da cabana. Mas quase cedera \u00e0 temerosa ilus\u00e3o \u2013 e se no momento em que lhe estendia os bra\u00e7os tivesse morrido, era o Inferno, a dana\u00e7\u00e3o completa! Ent\u00e3o agarrou violentamente as disciplinas,e  arrancando a t\u00fanica, gritou: \u201c\u00c0 obra, \u00e0 obra santa!\u201d As duas correias de couro de boi, armadas de unhas de ferro, cingiam-lhe a cinta, rasgavam-lhe a pele do dorso. A cada golpe, dava um gemido rouco: mas, pouco e pouco, de duros e aflitos os gemidos tornaram-se lentos e l\u00e2nguidos:  \u2013 e o pobre ermita, a cada vergastada, murmurava: \u201cSocorro, meu Senhor, socorro, que estes golpes que dou em mim come\u00e7am a ser com um contato delicioso!\u2026 Faz que eu sofra, Senhor! D\u00e1 ardor infinito aos verg\u00f5es que sulcam a minha carne! Sopra para dentro das feridas a tua c\u00f3lera! Que ela me queime e arda, como um pez inflamado!\u2026\u201d E, de repente, caiu como morto, com os bra\u00e7os estendidos.<\/p>\n<p>Cheio de piedade, Crist\u00f3v\u00e3o ergueu-o do ch\u00e3o, e empurrou-o como um corpo morto para dentro da cabana, e onde ele ficou estirado, com algum lento gemido que por vezes o sacudia.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 clareava. Crist\u00f3v\u00e3o adormeceu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7ou, desde esse dia, o seu servi\u00e7o entre os ermitas. Todas as manh\u00e3s ia buscar um tonel \u00e0 fonte, que brotava em cima, de entre rochas, e ia enchendo de ermida em ermida, as bilhas de barro. Depois cortava a lenha, amassava o p\u00e3o, que se cozia num forno de tijolo, junto de uma capela onde os santos homens ouviam missa e comungavam. Era ele quem tocava o sino, punha giesta sobre o altar \u2013 e , por ordem do prior, espalhava seixos sobre o ch\u00e3o da capela, para que os joelhos dos ermitas se macerassem. Pela tarde, tendo reunido as esteiras, as alpercatas, os cestos, que os ermitas fabricavam, descia a uma povoa\u00e7\u00e3o do outro lado da serra, onde trocava aquelas obras das santas m\u00e3os pela farinha, por ervas, e pelo vinho das galhetas. Todos estes servi\u00e7os eram f\u00e1ceis e doces. Mas, pouco a pouco, Crist\u00f3v\u00e3o sentia como uma melancolia e um desejo das cidades e da vida dos homens. A montanha era triste e sem verdura; \u2013 mas a sua tristeza vinha sobretudo do sil\u00eancio, da amargura, da desola\u00e7\u00e3o dos santos que a povoavam. Todo o dia era por eles consumido a gemer, mesmo quando trabalhavam \u2013 e o seu esfor\u00e7o constante era a martiriza\u00e7\u00e3o dos corpos, onde se instalava o Inimigo. Mesmo im\u00f3veis, quietos, se estavam mortificando: uns traziam um cinto de pregos, que lhes rasgava a carne; outros introduziam debaixo do h\u00e1bito formigas ou vespas que os picavam; outros suspendiam do pesco\u00e7o uma pedra enorme, e caminhavam arquejando e trope\u00e7ando. Toda a do\u00e7ura humana lhes era alheia. Ao p\u00e3o que coziam misturavam terra; a \u00e1gua, s\u00f3 a queriam j\u00e1 envelhecida e p\u00fatrida. Por vezes alguns permaneciam, dias e dias, im\u00f3veis, de p\u00e9 sobre uma pedra, com as m\u00e3os espalmadas, sob a chuva, e, quando o sono ou a fome os iam a vencer, enterravam uma espinha aguda no peito; outros dormiam com a cabe\u00e7a sobre uma pedra, outra pedra sobre o est\u00f4mago, outra sobre as pernas juntas, e eram como cad\u00e1veres de justos lapidados. Por vezes, Crist\u00f3v\u00e3o oferecia-se para lavar as chagas, tirar os espinhos  dos p\u00e9s, curar com cinzas e \u00e1gua a mordedura dos insetos. Mas todos o repeliam, e para tornar as feridas mais irrit\u00e1veis expunham-nas ao sol ardente, ou deitavam-lhes areia fina. Um imenso sofrimento cobria a montanha; e sobre ela o Sol parecia uma l\u00e2mpada triste, atrav\u00e9s dela o vento um gemido angustiado.<\/p>\n<p>Era, por\u00e9m, de noite, que ela se tornava terr\u00edvel. Animados pela escurid\u00e3o, os dem\u00f4nios subiam por cada caminho, para atacar os santos homens. Em cada cabana era uma luta temerosa. Os santos tinham a ora\u00e7\u00e3o, as suas longas disciplinas armadas de unhas de ferro; mas os dem\u00f4nios, por seu lado, tinham as coisas deliciosas a que as almas sucumbem. Aos ermitas que vinham esfomeados, os diabos ofereciam longas mesas, cobertas de flores, onde os pav\u00f5es assados arqueavam as penas entre os montes de frutas e os blocos de gelo; aos que tinham sido cavaleiros, mostravam montes de ouro, armas invenc\u00edveis, longos ex\u00e9rcitos para ir conquistar reinos e saquear cidades ricas; aos velhos faziam ofertas de mitras, que lhes dariam entre os homens a suprema autoridade das coisas santas; \u2013 e a todos a tenta\u00e7\u00e3o suprema, a Beleza, a Mulher, ora magn\u00edfica, desenrolando as tran\u00e7as, erguendo uma t\u00fanica de gaze, ora delicada, escondendo com os bra\u00e7os o peito nu, e sorrindo fragilmente.<\/p>\n<p>Mas quando as sedu\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastavam, os dem\u00f4nios, furiosos, tentavam o terror. Ent\u00e3o eram serpentes pavorosas, surgindo de entre as rochas; vastas asas moles e f\u00e9tidas que, com um golpe, derrubavam; figuras colossais, listradas de branco e negro, que brandiam forquilhas, vertendo uma baba de fogo. Os gritos dos ermitas atroavam a serra; as buzinas ressoavam; uma furiosa rajada de ora\u00e7\u00f5es subia para as nuvens; as correias das disciplinas voavam no ar, com gotas de sangue: \u2013 e, espantados pela grandeza da penit\u00eancia, os dem\u00f4nios cediam, abalavam, limpando o suor, esfalfados.<\/p>\n<p>Uma grande piedade enchia ent\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o de Crist\u00f3v\u00e3o. Por que sofriam assim aqueles homens bons, que encanastravam as vergas, caminhavam com a face baixa, n\u00e3o faziam nenhuma ofensa e s\u00f3 pertenciam ao C\u00e9u? O seu desejo era ajud\u00e1-los, recha\u00e7ar ele s\u00f3, com a sua grande for\u00e7a, as turbas negras do Inferno. Ent\u00e3o, ao menor apelo da buzina, corria para o lado do ermita atacado. Arquejando, com os imensos punhos fechados de santa c\u00f3lera, avan\u00e7ava na escurid\u00e3o. Mas onde estava o Dem\u00f4nio? Ele via o santo ermita recuar com pavor, via o escuro lugar para onde ele estendia a cruz, como uma lan\u00e7a\u2026 Mas se se arremessava para l\u00e1, os seus bra\u00e7os vingadores s\u00f3 encontravam a noite negra. Quantas vezes ele encontrava o ermita, que tremia todo, e murmurava: \u201cOh, como \u00e9 branca, e doce \u00e0 vista, e cheia nas suas formas!\u2026\u201d Crist\u00f3v\u00e3o compreendia: era decerto uma mulher, a temida Mulher, que arqueava os bra\u00e7os, descobria o peito\u2026 Para a empolgar, a esganar, ele quase rastejava no ch\u00e3o, colhendo o h\u00e1bito. Mas as suas m\u00e3os indignadas s\u00f3 agarravam o tojo, os musgos de uma pedra fria. Ent\u00e3o ele pr\u00f3prio clamava para os dem\u00f4nios: \u201cVinde para mim, vinde para mim!\u201d E, arrancando um tronco, atirava tremendos golpes, ou arrancando uma imensa lasca \u00e0s penedias, arremessava-a atrav\u00e9s da noite. Os troncos batiam contra os troncos; as rochas, com estridor, quebravam sobre as rochas. E diante dele, nada havia, sen\u00e3o a montanha; Pois era imposs\u00edvel que ele nunca ferisse um dos dem\u00f4nios inumer\u00e1veis, que ali vinham de noite? Ia ent\u00e3o, mal clareava a madrugada, procurar, com a cabe\u00e7a baixa, as pegadas dos diabos fugidos, algum chifre que lhes tivesse partido, ou sobre a terra chamuscada alguma gota do sangue maldito. Encontrava apenas as violetas lustrosas de orvalho. E ent\u00e3o recolhia \u00e0 sombra dos seus robles, bocejando com lentid\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelas festas do ano, o povo da aldeia subia \u00e0 montanha, vinha visitar os ermitas. Uns, doentes, aflitos com males, amparados pelos parentes, vinham implorar a sa\u00fade \u00e0queles amigos do Senhor. Outros pediam a sua interven\u00e7\u00e3o para obter uma colheita abundante, ou a heran\u00e7a perdida. As mulheres traziam os filhos para que eles, tocando-os na cabe\u00e7a, lhes dessem vida forte e pr\u00f3spera: \u2013 e as que eram est\u00e9reis vinham implorar as do\u00e7uras da maternidade. A montanha era como um arraial de peregrinos. As crian\u00e7as, correndo, trope\u00e7avam nas muletas dos coxos. As raparigas, com uma flor metida na orelha, formavam dan\u00e7as no adro da capela. Os que tinham feito promessas arrastavam-se de joelhos sete vezes em torno das cruzes, ou penduravam no altar p\u00e9s de cera, la\u00e7os de fita e cestos de frutas. Como voltariam tarde para a aldeia, quase todos traziam provis\u00f5es, e, dependurando os mant\u00e9us nos troncos da \u00e1rvores, faziam grande c\u00edrculo em torno das melancias abertas, bebendo dos pich\u00e9is de vinho.<\/p>\n<p>Os ermitas iam por entre a turba, e por vezes, mal podiam mover os passos lentos, envolvidos, suplicados pelos feridos que, fartos de ung\u00fcentos, pediam que lhes tocassem nas chagas com o ros\u00e1rio, pelos mendigos que queriam que lhes sarassem a sarna, pelas velhas hidr\u00f3picas que descobriam o ventre, esperando um rem\u00e9dio do C\u00e9u. Outros queriam apenas a ben\u00e7\u00e3o. Havia faces inquietas que pediam uma profecia sobre as vindimas. Outros estendiam os ros\u00e1rios para eles os benzerem. E os ermitas tocavam as feridas, prometiam boas colheitas, sossegavam as m\u00e3es dos endemoninhados.<\/p>\n<p>Depois o prior subia ao p\u00falpito r\u00fastico, feito de pedras, e enumerava as obras gloriosas da montanha. Onde houvera, mesmo na Tebalda, no tempo sublime dos Ant\u00e3os, dos Pac\u00f3mios, uma penit\u00eancia mais alta? E mostrava as suas faces emagrecidas pelos jejuns, as suas carnes rasgadas pelas flagela\u00e7\u00f5es. Uma imensa admira\u00e7\u00e3o arrebatava as turbas piedosas. E todos queriam ver nos corpos dos santos a evid\u00eancia da sua santidade. E s\u00f3 havia ent\u00e3o ermitas mostrando as chagas que eles tinham assanhado, as pisaduras que lhes deixavam as pedras onde dormiam, os dentes estragados pelo p\u00e3o azedo a que misturavam cinza. As mulheres erguiam as m\u00e3os, chorando. As mais ardentes arrancavam peda\u00e7os da t\u00fanica dos ermitas, que guardavam o seio como rel\u00edquias. Os velhos beijavam a terra onde eles tinham pousado os p\u00e9s. Diante das cabanas havia multid\u00f5es a admirar a dureza dos leitos, a bilha quebrada, o grande in-f\u00f3lio. Alguns julgavam ver as pegadas dos anjos que visitavam os ermitas. Outros queriam provar o p\u00e3o, ou, cheios de respeito, tocavam com o dedo nas disciplinas. Crist\u00f3v\u00e3o era invejado por viver entre eles. Muitos queriam abandonar os casais, para servir os santos: \u2013 e havia sempre algum que, para ficar na montanha, se escondia entre as rochas, e que era necess\u00e1rio expulsar quando o Sol descia, e a hora chegava da solid\u00e3o e da prece.<\/p>\n<p>Mas nessas noites, depois dos arraiais, as ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram t\u00e3o profundas, nem as penit\u00eancias t\u00e3o altas. Cansados, sentados \u00e0 porta da suas cabanas, os ermitas saboreavam, no sil\u00eancio do seu cora\u00e7\u00e3o, a sua imensa santidade. Cada um se sentia famoso, falado nas lareiras do vale. Decerto a fama da sua santidade chegaria aos castelos. Os bispos falariam deles nos conc\u00edlios. E mais tarde talvez suas imagens se ostentariam sobre os altares. E Crist\u00f3v\u00e3o ent\u00e3o via-os olhar complacentemente, acariciar as feridas da penit\u00eancia, escolherem uma pedra maior para encostar \u00e0 noite a cabe\u00e7a. O prior vinha ent\u00e3o congratular os seus irm\u00e3os. A sua face resplandecia. E era ele que relembrava os movimentos da multid\u00e3o, e como a suas chagas tinham sido beijadas. E j\u00e1 certo do poder da sua voz, falava em descer \u00e0 plan\u00edcie, pregar contra a relaxa\u00e7\u00e3o dos Beneditinos. A sua estatura cada vez se erguia mais. Um dia mesmo mostrou em triunfo uma carta do conde de Ocit\u00e2nia, que o consultava sobre os d\u00edzimos. E Crist\u00f3v\u00e3o entristecia, era como uma saudade de outros homens mais humanos, e do riso das crian\u00e7as. Era sobretudo como uma impaci\u00eancia de toda aquela inutilidade dos ermit\u00e9rios, os longos e ocos sil\u00eancios, as horas passadas  com a fronte sobre uma pedra, aquela imobilidade contempladora de onde n\u00e3o sa\u00eda nenhum bem, nada que aquecesse o cora\u00e7\u00e3o. Povoada por toda aquela in\u00e9rcia, a montanha ainda lhe parecia mais inerte. E vinha-lhe como um desejo de sacudir aquela imobilidade dos homens e das coisas, e com as suas m\u00e3os arremessar conjuntamente os ermitas e os robles, as caveiras e as rochas. e empurr\u00e1-los para alguma a\u00e7\u00e3o \u00fatil, mand\u00e1-los de rold\u00e3o, pela montanha abaixo, a ser \u00fateis aos homens!<\/p>\n<p>O seu cora\u00e7\u00e3o pouco a pouco se destacava daqueles amores. J\u00e1 n\u00e3o corria t\u00e3o alegremente a encher as bilhas; tanta cruz envolta por tantos bra\u00e7os, n\u00e3o lhe causava do\u00e7ura na alma; e aborrecia as caveiras, com seu riso im\u00f3vel, oferecendo ao Sol a sua frialdade branca. Quando de noite as buzinas soavam, implorando o aux\u00edlio de ora\u00e7\u00f5es irm\u00e3s, n\u00e3o se erguia em sobressalto apiedado. Toda a flagela\u00e7\u00e3o o impacientava. E nos dias de festa embrenhava-se nos altos da serra, para n\u00e3o presenciar o orgulhos dos ermitas, mostrando as feridas das disciplinas.<\/p>\n<p>Um dia o prior mandou-lhe construir, com um madeiro, uma cruz da altura de um homem. Tr\u00eas dias Crist\u00f3v\u00e3o trabalhou. E quando, enfim, cravou a cruz num ponto evidente da serra, onde n\u00e3o havia arvoredos, o prior chamou os seus irm\u00e3os de ermit\u00e9rio. Um por um, desceram, rezando baixo. O prior encostara-se \u00e0 cruz, com o corpo colado ao madeiro, e abriu os bra\u00e7os ao longo da cruz \u2013 cruz humana, colada \u00e0 cruz da lenha. depois ordenou um c\u00e2ntico. Quando ele cessou:<\/p>\n<p>\u2014 Agora \u2013 disse o prior \u2013 vou ficar aqui, sem comer, sem dormir, durante tr\u00eas dias, pelas tr\u00eas pessoas da Sant\u00edssima Trindade. Esta obra \u00e9 gloriosa!<\/p>\n<p>Todos ergueram as m\u00e3os ao C\u00e9u, edificados. Crist\u00f3v\u00e3o, nessa tarde, desceu o c\u00f3rrego at\u00e9 vale, e sem sequer volver os olhos, abandonou para sempre a montanha.<\/p>\n<p>XII <\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o tomou o caminho do lado oposto aos povoados \u2013 e come\u00e7ou a caminhar, ao acaso, pela longa ravina que contornava a serra. Era como leito de antiga torrente, que seguia funda entre rochas, seca e triste infinitamente. Toda a noite caminhou \u00e0 luz de uma grande Lua cheia. De madrugada dormiu \u00e0 boca de uma caverna. A solid\u00e3o era como a de um mundo deserto, onde s\u00f3 ele habitasse. Crist\u00f3v\u00e3o sonhou com prados e regatos muito frios, muito l\u00edmpidos, que corriam entre aloendros em flor. Quando acordou teve sede, e em roda s\u00f3 havia um torr\u00e3o t\u00e3o est\u00e9ril, que nem nele crescia o tojo.<\/p>\n<p>Todo o dia, marchando sempre, Crist\u00f3v\u00e3o padeceu sede. Ao p\u00f4r do Sol, julgou ver longe uma \u00e1gua que rebrilhava. Eram largas lajes de pedra como restos de um terra\u00e7o, ou do lajedo de um solar. Deitado, esperou ali a manh\u00e3: e, atrav\u00e9s de um sono incerto, julgava ver como olhos luzidios de lobos, que passavam, se sumiam para al\u00e9m de um barranco. De manh\u00e3 dirigiu os passos para esse barranco, e a\u00ed ao fundo havia como uma \u00e1gua lodosa e p\u00fatrida, que ele bebeu como del\u00edcia.<\/p>\n<p>Durante dois dias mais caminhou; e o deserto n\u00e3o cessava, com vales est\u00e9reis, penedias alcantiladas, e um solo pedregoso, negro, gretado, que escaldava sob o sol de Agosto. Sentado por vezes contra uma rocha, Crist\u00f3v\u00e3o cerrava os olhos sob a fadiga, o ardor da estiagem, e parecia-lhe ver grandes peda\u00e7os de p\u00e3o, e frutos que ca\u00edam de maduros ao passar de um vento fresco. Estendia a m\u00e3o, e s\u00f3 encontrava as pedras quentes. Retomava a marcha, e, marchando sempre, padecia fome.<\/p>\n<p>Mas uma tarde que caminhava, j\u00e1 t\u00e3o fraco que os seus p\u00e9s trope\u00e7avam a cada instante, encontrou-se de repente numa encosta, onde uma floresta sombria verdejava. Crist\u00f3v\u00e3o mergulhou na espessura. Bem cedo sentiu um murm\u00fario de \u00e1gua. Mais longe, uma carvalheira estava carregada de bolota. Crist\u00f3v\u00e3o ficou ali dois dias, consolando com lentid\u00e3o a fome e a sede. Depois, quando emergiu da floresta, avistou diante de si uma regi\u00e3o com \u00e1rvores, um riacho que fugia, muros, e uma tranq\u00fcilidade habitada. Um fumo lento subia, a dist\u00e2ncia, para o claro c\u00e9u. Crist\u00f3v\u00e3o alongou para l\u00e1 os passos. O fumo subia de um casebre queimado; ao lado havia barricas arrombadas; o cad\u00e1ver de uma vaca, meio seco, desaparecia sob o zumbido das moscas; o pomar estava arrancado e devastado; e em redor todo o solo, a erva, estavam espezinhados, como por um tropel de cavaleiros em marcha.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o seguiu, caminhando \u00e0 beira do regato. Grandes prados verdejavam, cobertos de bot\u00f5es-de-ouro. As ramas dos salgueiros mergulhavam na \u00e1gua fugidia e clara. Os p\u00e1ssaros chalravam na frescura; E no meio desta paz, um moinho com a porta arrombada, e pendente dos gonzos, os grandes paus das velas partidos, as paredes chamuscadas do lume, jazia com a tristeza de um cad\u00e1ver num prado de Primavera. Crist\u00f3v\u00e3o dirigiu-se para o moinho. De uma \u00e1rvore meio partida, que se erguia por tr\u00e1s, junto \u00e0s escadas, pendia um velho enforcado, com uma pedra amarrada aos p\u00e9s. Ao lado negrejavam os ti\u00e7\u00f5es apagados de uma fogueira, e junto dela uma lan\u00e7a esquecida.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o foi seguindo. Por todo o caminho havia as confusas pegadas de cavaleiros em marcha; todas as sebes estavam rotas; uma ponte r\u00fastica fora partida a machadadas; outros casebres apareciam devastados, nus, com o colmo queimado: \u2013 e nem uma criatura se via, entre aquelas ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Ao fim de um longo dia, por\u00e9m, tendo-se sentado junto de um casebre em ru\u00ednas, sentiu um ru\u00eddo entre as \u00e1rvores: \u2013 e um homem apareceu em farrapos, l\u00edvido, escaveirado, e logo se sumiu entre a espessura das \u00e1rvores. Para o deixar livre de medo, Crist\u00f3v\u00e3o ergueu-se e foi mais adiante, onde havia uma colina com rochas. Um grande roble crescia \u00e0 boca de uma caverna. E ao ru\u00eddo dos seus passos, uma cabe\u00e7a de velha apareceu \u00e0 boca da caverna, e logo se sumiu assustada. Crist\u00f3v\u00e3o pensava com dor por que se esconderiam esses homens. Por que seria aquela terra povoada por gente que se escondia nos bosques, nas tocas dos bichos, debaixo das penedias?\u2026 Por qu\u00ea? Uma grande piedade j\u00e1 o ia tomando. Se ouvia um rugir de ramagens afastadas, gritava: Paz! Paz! para tranq\u00fcilizar aqueles cora\u00e7\u00f5es aterrados, mas logo as ramagens se fechavam e tudo ficava mudo.<\/p>\n<p>Ia caminhando. Bebia nos regatos, comia a bolota das \u00e1rvores e as ervas dos prados. Um dia avistou uma aldeia e casebres de colmo juntos em torno de uma igreja, cuja torre estava em obras. Um caminho seguia entre filas de pl\u00e1tanos. Ao penetrar nele, uma mulher que, agachada com uma crian\u00e7a, procurava ervas, fugiu t\u00e3o tontamente que deixou a crian\u00e7a no ch\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o apanhou a crian\u00e7a, t\u00e3o magrinha que se palpavam os seus pobres ossinhos, sob a pele cheia de feridas: e nem chorava, com a m\u00e3ozinha sobre a testa, onde as chagas eram maiores. Todo o cora\u00e7\u00e3o de Crist\u00f3v\u00e3o se enchia de dor. Lan\u00e7ou um grande brado pela mulher. Ningu\u00e9m respondeu. Ent\u00e3o, tomando a crian\u00e7a ao colo, seguiu sob os pl\u00e1tanos mas sentia, atrav\u00e9s das folhagens, algu\u00e9m que o seguia. Pousou no ch\u00e3o a crian\u00e7a, afastou os passos. E voltando-se bruscamente, viu a mulher que saltava entre o tojo, arrebatava a crian\u00e7a e de novo sumia no mato.<\/p>\n<p>Ao fim do caminho era a aldeia. As primeiras casas, junto de uma pali\u00e7ada de estaca, estavam desertas, nuas por dentro, como saqueadas. Num uma r\u00eas de gado se via nos aidos. Nem uma foice pendia sobre a lareira. A uma porta, uma velha, mais magra que um esqueleto, olhava com os olhos fixos cavados no vago, e como deslumbrados de espanto. Um cad\u00e1ver abandonado, que ningu\u00e9m enterrara, tinha as m\u00e3os decepadas. Por vezes uma figura passava correndo, com os cabelos ao vento. Uma figura de mulher, de bru\u00e7os, com os cabelos soltos, estava agarrada a um ber\u00e7o vazio.<\/p>\n<p>Mas ao fim da aldeia, junto de um calv\u00e1rio, viu correr gente em magote. Um frade meio descal\u00e7o, sem capuz, de olhos ardentes, erguia uma cruz, chamava a justi\u00e7a de Deus. Como podiam os homens sofrer mais sobre a terra? Os senhores andavam em guerra, e da\u00ed vinha o mal dos pobres. Os bar\u00f5es corriam as suas terras, e tudo saqueavam. tudo roubavam para adestrar soldados, ter hostes brilhantes. Se outros, mais fortes, os faziam prisioneiros, de novo voltavam nos seus grandes corc\u00e9is, a saquear, roubar, tirar ao pobre a \u00faltima acha, a \u00faltima m\u00e3o-cheia de favas, para reunir o pre\u00e7o do resgate. Se ficavam vencedores, eis que voltavam a saquear os restos, a arrancar a seara ainda mal madura, para celebrar festas, e erguer solares ricos. Depois, atr\u00e1s passavam ainda as companhias de mercen\u00e1rios, que, nada encontrando, queimavam os muros, destru\u00edam os arvoredos, e matavam as crian\u00e7as nos ber\u00e7os. Quanto tempo mais consentiria o Senhor este mal que ia na terra? Por toda a parte ele andara, s\u00f3 vira a fome. As mulheres comiam os cad\u00e1veres dos filhos. Os homens em breve seriam como feras. E a\u00ed dos que se encontrassem no caminhos da turba esfaimada!<\/p>\n<p>A sua m\u00e3o tremia no ar cheia de amea\u00e7as. E em torno dele os mo\u00e7os l\u00edvidos apertavam os punhos, com olhares que procuram uma arma. Mas outros baixavam a cabe\u00e7a. Que podia o pobre, s\u00f3, na sua terra est\u00e9ril? A justi\u00e7a devia vir de Deus. Uma mulher gritou: \u201cOu antes do Dem\u00f4nio!\u2026\u201d Um murm\u00fario e terror passou entre a gente.<\/p>\n<p>biblioCrist\u00f3v\u00e3o saiu da aldeia com o cora\u00e7\u00e3o esmagado. Os seus olhos erguiam-se para o C\u00e9u. Ali, por tr\u00e1s do azul, estava o Senhor! Decerto ele via tantos sofrimentos, as guerras, as fomes, as pestes.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o descia do seu trono de ouro? Uma car\u00edcia da sua m\u00e3o direita daria aos pobres a abund\u00e2ncia, os frutos, as tulhas cheias de p\u00e3o; e os bandos negros dos senhores cru\u00e9is desapareceriam como nuvens que o Sol desfaz, ao mover sua m\u00e3o esquerda\u2026 Por que n\u00e3o vinha o Senhor?<\/p>\n<p>As terras que Crist\u00f3v\u00e3o atravessava estavam desoladas, at\u00e9 que, penetrando numa regi\u00e3o mais am\u00e1vel e f\u00e9rtil, com pradarias, aldeias, viu ao longe longos fumos esguios que se elevavam para o c\u00e9u. Um grupo de soldados derrubava \u00e1rvores. E bem depressa viu as barracas de um acampamento. Era uma companhia de tunos. As tendas estavam alinhadas sem ordem, ao acaso. todos procurando a maior proximidade do rio. E como era \u00e0 hora do rancho, viam-se os soldados, de bru\u00e7os, mergulharem nas \u00e1guas as grossas panelas de ferro. Por toda a parte, sobre as fogueiras acesas, suspensos de varas de ferro ensarilhadas, ferviam os caldeir\u00f5es: \u2013 e junto aos carros, onde vinham as barricas de vinho roubadas nos casais e nos mosteiros, os homens juntavam-se com os seus pich\u00e9is na m\u00e3o. Dois carniceiros esfolavam um boi estirado no ch\u00e3o: \u2013 e o trabalho era feito num rumor incessante de pragas e cantos.<\/p>\n<p>Todos os homens, de barbas incultas, grandes cicatrizes nos rostos, imundos, tinham um curto saio de malha de ferro: e como estavam num pa\u00eds vencido, sem receio de surpresas, os morri\u00f5es e os broqu\u00e9is pendiam \u00e0 entrada das tendas rotas, umas de lona, outras de peles de carneiro; sobre um c\u00f4moro era a dos chefes, com bandeiras flutuando. Por todo o acampamento circulavam mulheres, que seguiam os soldados, umas roubadas nos assaltos das aldeias, outras que acompanhavam, por deboche, o bando dos homens; todas tinham o ar cansado dos grandes furores que suportavam. Aqui e al\u00e9m, um monge descal\u00e7o, com uma adaga na corda do h\u00e1bito, o olhar ardente, ia de tenda em tenda. Alguns homens jogavam os dados. Outros limpavam as armas. Os falc\u00f5es gritavam sobre os seus poleiros, feitos de lan\u00e7as.<\/p>\n<p>Serenamente, na sua simplicidade, Crist\u00f3v\u00e3o atravessou o acampamento.<\/p>\n<p>Como os bandos cada dia recrutavam novos tunos, ou aprisionavam servos, ningu\u00e9m estranhava a sua presen\u00e7a. \u201cA quem pertences?\u201d perguntavam-lhe. Ele atirava um gesto vago para as tendas. E julgando-o idiota, como todos os gigantes, deixavam-no ir, ou aproveitavam a sua for\u00e7a para mover os pipos, rachar lenhas, descarregar dos machos os grandes fardos amarrados com cordas. Tendo trabalhado, Crist\u00f3v\u00e3o comeu e bebeu. A noite caiu: as estrelas luziram. Por toda a parte se acenderam fogos. Em torno deles os homens bebiam, jogavam os dados, ou escutavam um monge contando hist\u00f3rias do Diabo. Por vezes um grito de mulher espancada cortava o ar. As can\u00e7\u00f5es imundas abafavam o grito das sentinelas. E da colina, onde acampavam os chefes, vinha uma m\u00fasica doce de p\u00edfanos e atabales.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, no entanto, ia atrav\u00e9s das tendas. Se via um tuno ferido que punha pano nas chagas agachava-se para ajudar. Aos cavalos presos,que relinchavam voltando o focinho para \u00e1gua, ia buscar uma dorna cheia. E aliviava as mulheres dos fardos de lenha que os homens as obrigavam a acarretar. Mas aquela gente era m\u00e1, queimava as aldeias, arrombava os sacr\u00e1rios, espancava duramente os animais, deixava as crian\u00e7as morrendo \u00e0 mingua nos silvados do caminho \u2013  e Crist\u00f3v\u00e3o, alta noite, saiu do acampamento, pensando na sua simplicidade, que Jesus, seu amor, n\u00e3o o quereria entre aqueles cora\u00e7\u00f5es duros.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias e tr\u00eas noites caminhou, e penetrou por fim numa regi\u00e3o de grande pen\u00faria. A terra seca, gretada, abandonada, nem produzia cardos. Toda a flor secara nas \u00e1rvores. A cada instante, ossos de animais branquejavam nos caminhos. As gentes dos campos, que ele encontrava, n\u00e3o tinham mais que ossos sob os trapos que os cobriam, e os seus olhos brilhavam como os das feras. Por vezes, \u00e0 beira de um riacho, viam-se mulheres, crian\u00e7as maceradas, arrastando-se, devorando as ra\u00edzes das \u00e1rvores. Nas terras mais nuas, era a terra mesma que eles comiam \u00e0s m\u00e3os cheias, entre l\u00e1grimas que lhes ca\u00edam nos dedos. Uma noite, passando junto de um cemit\u00e9rio, viu figuras sombrias, que, tendo desenterrado um morto, o talhavam em postas junto de uma fogueira. Depois foi um mendigo que lhe pediu para o proteger, porque a gente daqueles s\u00edtios atacavam os pobres mais fracos, para ter carne humana. Todo um dia Crist\u00f3v\u00e3o caminhou com o mendigo \u00e0s costas. E, batendo os dentes de horror, o mendigo contava de pais que comiam os filhos pequenos, de outros que atra\u00edam os viajantes para os matar. Ao fim do dia, tendo posto o pobre coxo no ch\u00e3o para descansar, viu-o suspirar e morrer. De noite, por toda a parte luziam os olhos dos lobos, esfaimados tamb\u00e9m, correndo a roer os cad\u00e1veres. Negros bandos de abutres torneavam o ar.<\/p>\n<p>E a dor de Crist\u00f3v\u00e3o era t\u00e3o grande que erguia os bra\u00e7os ao C\u00e9u, e gritava pelo Senhor. Ele decerto n\u00e3o escutava; \u00c0 porta das ermidas, debalde o povo se apinhava, implorando miseric\u00f3rdia: os santos n\u00e3o desciam dos seus altares; as rel\u00edquias dos m\u00e1rtires pareciam ter perdido a for\u00e7a; e, desiludida do C\u00e9u, essa gente apedrejava os sacr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quem salvaria os homens? E Crist\u00f3v\u00e3o caminhava cheio de dor, por n\u00e3o os poder salvar. De que lhe servia a for\u00e7a dos seus grande bra\u00e7os, toda a vontade do seu cora\u00e7\u00e3o!? Alargando os passos, atirando os olhos ao longe, ele s\u00f3 procurava um meio de servir aos homens \u2013 e mesmo por vezes lhe vinha a id\u00e9ia de reunir alguns miser\u00e1veis, e dar-lhes a sua pr\u00f3pria carne a comer.<\/p>\n<p>Um dia que assim pensava, chegou a uma terra onde viu homens cavando o torr\u00e3o, outros arando, outros semeando. Um tro\u00e7o de besteiros vigiava aqueles homens, que a fome emagrecera: \u2013 e um, monge, com um tinteiro metido no cinto de corda, lia um rol de nomes. Eram os abades dos mosteiros, os bispos em conc\u00edlio, que assim arregimentavam os mais fortes das aldeias, e por uma ra\u00e7\u00e3o de p\u00e3o os obrigavam a trabalhar, para que as terras n\u00e3o ficassem incultas e n\u00e3o fosse maior o tormento da fome. As mulheres, os filhos, vinham com eles para partilhar da magra ra\u00e7\u00e3o de p\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o pediu uma enxada; e tendo admirado a for\u00e7a dos seus bra\u00e7os, o monge indicou-lhe um campo a limpar do pedregulho e do tojo. Com que paix\u00e3o ele se lan\u00e7ou ao trabalho! Era como se j\u00e1 estivesse saciando todas as fomes futuras. O tojo arrancado fazia montes junto aos seus grossos p\u00e9s nus: \u2013 e ainda por vezes acudia a ajudar os mais fracos, que trope\u00e7avam sob um carreto de pedras, ou, exaustos, deixavam fugir a enxada das m\u00e3os. Em torno as mulheres, sentadas, im\u00f3veis, com os filhos em redor, esperavam que os homens trouxessem ao fim da tarde a ra\u00e7\u00e3o de p\u00e3o, junta num cesto que os besteiros guardavam: mas a sua fome era tanta, que se precipitavam sobre os semeadores, quando, mergulhando a m\u00e3o na sacola, atiravam, com um gesto lento, um punhado de gr\u00e3os. Os besteiros tinham de correr, repelir as crian\u00e7as que gritavam.<\/p>\n<p>Os olhos de Crist\u00f3v\u00e3o estavam cheios de l\u00e1grimas. Por vezes, cavando a terra, dizia baixo: \u201cOh terra, d\u00e1 depressa o p\u00e3o! Oh terra, tem piedade!\u201d E ent\u00e3o os seus golpes de enxada tornavam-se mais doces, quase t\u00edmidos, como se receasse magoar aquela que implorava. Quando se distribu\u00eda o p\u00e3o, ele tomava apenas uma c\u00f4dea, e fazia partes iguais que dava \u00e0s escondidas \u00e0s crian\u00e7as. Todos os olhos das m\u00e3es se voltavam para ele. Os homens murmuravam pensativamente: \u201cTu \u00e9s o melhor\u2026\u201d De noite ele seguia o bando dos cavadores, que iam dormir em largos alpendres, \u00e0 orla da floresta. Mas raros eram os que se atiravam para cima dos molhos de palha. Uma grande velha, descarnada e esguedelhada, cujos olhos rebrilhavam como brasas, vinha rondar em torno dos casebres apoiada a uma forte vassoura. Ao encarar a sua sombra negra passando no luar, os homens soltavam um suspiro, outros murmuravam: \u201c\u00c9 a sina!\u201d As mulheres, \u00e0 pressa, adormentavam as crian\u00e7as, procuravam entre a palha vassouras, ou pequenas caba\u00e7as, ou um peda\u00e7o de v\u00e9u branco. E todos, uns depois dos outros, em sil\u00eancio, desapareciam sob o arvoredo. Uma noite uma forte criatura, de olhos ardentes, disse a Crist\u00f3v\u00e3o: \u201cVem\u201d. E ele, na sua simplicidade, tomou o bord\u00e3o e partiu. Por toda a floresta, por baixo de toda a folha, se sentia o ro\u00e7ar de gente que caminhava em sil\u00eancio. Por vezes um grito prolongado cortava o grande sil\u00eancio. E, mais r\u00e1pidas, as formas perpassavam sob a folhagem que rumorejava. Assim, Crist\u00f3v\u00e3o chegou a uma clareira, cercada de velhos e altos carvalhos, onde a Lua mal penetrava. Uma multid\u00e3o j\u00e1 a atulhava, trazendo candeias, ou alguma tocha fumarenta que bailava entre os ramos. Uma vasta mesa de pedra alvejava no meio, e um raio de luar, caindo em cima, alumiava um alguidar de ferro, junto com uma tripe\u00e7a, coberta por uma pele de chibo. Uma impaci\u00eancia parecia agitar toda aquela negra turba, onde por vezes um olhar reluzia, como o de uma fera na espessura. Uma voz, ao longe, gania: \u201cVoa, voa!\u201d E, umas ap\u00f3s outras, vozes lamentosas e dolentes murmuravam: \u201cVoa!\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a grande velha descarnada avan\u00e7ou, escarranchada sobre a vassoura. Outra correu atr\u00e1s dela, com os grossos cabelos ao vento; e outra ainda \u2013 at\u00e9 que uma longa cauda de mulheres esguedelhadas, com o peito nu, grande cendal branco voando ao vento, come\u00e7ou a girar em torno da mesa, lament\u00e1vel com um mover de bra\u00e7os abertos semelhantes a um bater de asas cansadas. Deram assim uma volta lenta \u2013 at\u00e9 que, parando diante da tripe\u00e7a vazia, a grande velha estacou, e erguendo os bra\u00e7os lan\u00e7ou uma invoca\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>S. Marcos te amarque,<\/p>\n<p>S. Man\u00e7os te amanse,<\/p>\n<p>A Gra\u00e7a te fique,<\/p>\n<p>A H\u00f3stia te pique!<\/p>\n<p>Sempre que me vires<\/p>\n<p>Em mim te remires,<\/p>\n<p>E quanto me n\u00e3o vires<\/p>\n<p>Contra mim suspires!<\/p>\n<p>E soturnamente toda a turba gemeu, com a cad\u00eancia de um martelo que cai na bigorna:<\/p>\n<p>S. Marcos te amarque,<\/p>\n<p>S. Man\u00e7os te amanse!<\/p>\n<p>Subitamente a grande fila de mulheres largou numa correria, onde os cabelos se misturavam, as saias meio rotas se espeda\u00e7avam, clamando, uivando. desesperadamente:<\/p>\n<p>Sempre que me vires<\/p>\n<p>Em mim te remires,<\/p>\n<p>Quando me n\u00e3o vires<\/p>\n<p>Contra mim suspires.<\/p>\n<p>Cada vez mais r\u00e1pida girava a grande ronda, com pulos enormes, que atiravam as fraldas brancas pela cabe\u00e7a, misturavam as grenhas, faziam entrechocar no ar as vassouras e rocas. J\u00e1 de entre a turba, que olhava em volta, partiam grandes brados. Aqui e al\u00e9m um bra\u00e7o erguia-se, sacudindo furiosamente uma tocha. Pulos furiosos mostravam uma saia esvoa\u00e7ando no ar. Havia uivos de lobisomens. E entre as pernas de Crist\u00f3v\u00e3o, aterrado, grandes figuras, como c\u00e3es, fugiam com as m\u00e3os galopando na terra. Mas mais alta que todos os clamores, uma buzina de corno ressoou. Ent\u00e3o houve um sil\u00eancio t\u00e3o grande, que se sentia as folhas mover-se ao vento lento da noite.<\/p>\n<p>De novo a grande velha estava diante da tripe\u00e7a, agitando a sua grande vassoura. E, lentamente, baixo, numa s\u00faplica humilde, come\u00e7ou:<\/p>\n<p>Eu te encanto e recanto<\/p>\n<p>E ainda te sobrecanto,<\/p>\n<p>E por um sino-saim\u00e3o<\/p>\n<p>Metido num cora\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>E por fel d\u2019excomungado,<\/p>\n<p>E por bode pintado,<\/p>\n<p>E pela asa do  morcego,<\/p>\n<p>E pelo seixo do rego<\/p>\n<p>E pelo sangue do drago,<\/p>\n<p>E por tudo o que te trago,<\/p>\n<p>Vem!<\/p>\n<p>Um imenso apelo ressoou: \u201cVem!\u201d Todos os bra\u00e7os se erguiam desesperadamente para a tripe\u00e7a vazia. E a velha, como possu\u00edda do del\u00edrio, bradava em apelos agudos que varavam o ar:<\/p>\n<p>\u2014 Vem contra o Senhor! Vem contra o Bispo! Vem contra o Letrado! Vem contra o Rico!<\/p>\n<p>E cada vez a turba clamava mais ansiosamente: \u201cVem! Vem!\u201d<\/p>\n<p>Uma grande restolhada cortou a espessura \u2013 e soprou sobre a mesa, escarranchado, apareceu um homem enorme, de longa barba preta, todo coberto de p\u00ealo preto, que o assemelhava a um bode. Uma aclama\u00e7\u00e3o soou, um del\u00edrio arrebatou a todos. As mulheres pulavam, os homens sacudiam os barretes \u2013 enquanto a criatura negra, im\u00f3vel, dardejava em sil\u00eancio os seus olhos coruscantes. Depois, quando se fez de novo um sil\u00eancio, a criatura, estendendo o p\u00e9, gritou numa voz rouca:<\/p>\n<p>\u2014 Adorai!<\/p>\n<p>Todos lhe beijaram o p\u00e9, que desaparecia sob os felpos longos do p\u00ealo.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o um homem, envolto num grande len\u00e7ol branco arranjado como uma dalm\u00e1tica de bispo, e com uma mitra negra na cabe\u00e7a, veio caminhando a coxear para o altar, a ler um livro que segurava nas m\u00e3os. Crist\u00f3v\u00e3o conhecia-o. Era o coxo que trabalhava ao lado dele, rosnando palavras inintelig\u00edveis.<\/p>\n<p>Tendo o posto o livro sobre o altar, o homem abriu os bra\u00e7os, e come\u00e7ou a celebra\u00e7\u00e3o de um rito, que, com horror, parecia a Crist\u00f3v\u00e3o, semelhante \u00e0 missa de sua aldeia. Curvado sobre o livro, com a m\u00e3os postas, ele resmungava uma leitura; erguendo os bra\u00e7os, saudava a criatura felpuda; e quando, voltando-se para a turba, lan\u00e7ava uma ben\u00e7\u00e3o, todos se curvavam, e risos bestiais estalavam com amargura. Im\u00f3vel, a criatura, com as m\u00e3os pousadas nos joelhos, recebia o culto, Um ac\u00f3lito, lindo como um pajem, misturava um l\u00edquido negro num vaso. E dos grandes carvalhos em redor ca\u00eda uma sombra negra, que a Lua, aqui e ali, cortava de manchas l\u00edvidas.<\/p>\n<p>Como na missa, uma campainha ressoou. O homem mitrado encheu o vaso, fez uma invoca\u00e7\u00e3o, derramou um gota sobre os p\u00e9s juntos da criatura negra, bebeu o resto \u2013 e tendo limpado os bei\u00e7os \u00e0 ponta de sua dalm\u00e1tica, subiu a uma tripe\u00e7a, e ficou recolhido, como um pregador  que vai lan\u00e7ar o seu texto. Um sil\u00eancio caiu, t\u00e3o fundo, que se sentia o rumor das folhas. Um raio de Lua batia a face barbuda do coxo, que come\u00e7ou a pregar.<\/p>\n<p>Erguendo os bra\u00e7os, perguntou onde se encontraria a felicidade para o pobre? A terra era para ele um lugar de desola\u00e7\u00e3o. E desde que nascia at\u00e9 que o levavam para a vala, ele n\u00e3o fazia mais que gemer na escravid\u00e3o. Da alvorada \u00e0 noite, trabalhava. E para quem ia todo o fruto do seu trabalho? Para o Senhor, para o Bispo, para o Intendente que vinha com os arqueiros. Para que o Senhor tivesse armas, ele n\u00e3o tinha lume, e tremia de frio. Para que o Bispo tivesse banquete, ele n\u00e3o tinha p\u00e3o, e empalidecia de fome. Para que o Intendente vivesse em casas cobertas, ele vivia em tocas que as suas m\u00e3os cavavam na terra.<\/p>\n<p>E era s\u00f3 necessidades que sofria? N\u00e3o. Era espancado, arremessado para o fundo das pris\u00f5es, morria ente os tormentos\u2026 Se a sua mulher era bela, vinham homens de armas que a levavam. Se a sua cabra dava bom leite, vinha o senescal do convento que a confiscava. Tinha que pagar para nascer, tinha de pagar para morrer. Nos homens, para ele, n\u00e3o havia piedade. E havia-a porventura no C\u00e9u? O C\u00e9u mandava as fomes, mandava as pestes. Quem salvaria o pobre?\u2026 Amo forte, que o protegesse, s\u00f3 lhe restava Aquele que vive debaixo da terra e que tem todos os poderes. Ele reunia os seus filhos, ali, onde eram livres e onde n\u00e3o chegava a lan\u00e7a do Senhor, nem o b\u00e1culo do Abade. Ele ensinava os rem\u00e9dios que livram a peste. Ele fazia achar os tesouros. Ele fazia reflorir a terra. Ele dava do seu corpo o comer aos que t\u00eam fome, do seu sangue a beber aos que t\u00eam sede. Gl\u00f3ria a ele nas trevas!<\/p>\n<p>E a multid\u00e3o gritava: \u201cGl\u00f3ria a ele nas trevas!\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, saltando da tripe\u00e7a, o coxo gritou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a hora! Vinde comer e beber, amai a quem vos ame, e sede homens livres no fundo da noite livre!\u2026<\/p>\n<p>Subitamente, dois homens apareceram, trazendo um grande carneiro assado que, com facas, come\u00e7aram a retalhar. Outros colocaram na mesa de pedra uma pipa de vinho. Com um clamor bestial, toda a turba se arremessou para o feiticeiro. A criatura negra bradava; \u201cComei do meu corpo, bebei do meu sangue!\u201d Os peda\u00e7os sangrentos da r\u00eas desapareciam nas bocas vorazes. Em malgas de lou\u00e7a, em vasos de buxo, o vinho negro espumava. Alguns fugiam com sua ra\u00e7\u00e3o para a devorar em sil\u00eancio. Outros lutavam entre si, como c\u00e3es disputando um osso. As mulheres empinavam as malgas de vinho, que lhes escorria nos peitos. Havia outros que, na alegria do comer, dan\u00e7avam, brandindo um osso esburgado. Sob a mesa, havia bra\u00e7os descarnados lutando pelos restos. J\u00e1 uma embriaguez aquecia as almas. Gritos roucos partiam das bocas das mulheres. E de p\u00e9, o grande bruxo, intimava a Lua a que se escondesse, para que os homens fossem mais livres, no fundo da noite livre. Crist\u00f3v\u00e3o, im\u00f3vel, olhava, encostado a um tronco, a cabe\u00e7a escondida na ramagem ligeira. Por vezes, um pastor, agarrando uma das mulheres, arrebatava-a para a escurid\u00e3o. Gemidos de pecado contente soavam na negra espessura. As feiticeiras rasgavam os \u00faltimos trapos, e nuas, hediondas, galopavam escarranchadas sobre as vassouras. A grande mulher trigueira arrebatou e enla\u00e7ou Crist\u00f3v\u00e3o, com olhos que o devoravam, murmurando: \u201cVem!\u201d<\/p>\n<p>Ele suavemente empurrou a criatura \u2013 e s\u00f3, triste, de uma tristeza infinita, come\u00e7ou a caminhar atrav\u00e9s do mato espesso. O seu cora\u00e7\u00e3o sangrava. Aquela gente clamorosa n\u00e3o era amiga do Senhor. Perdidas estavam as suas almas. Mas por que sofriam eles tanto? O coxo dissera a verdade. Para o pobre s\u00f3 havia a mis\u00e9ria. O Senhor vinha com sua grande lan\u00e7a, depois o Bispo com o seu duro b\u00e1culo. E quando nada restava ao pobre, uma mulher branca surgia, encostada a uma vara branca \u2013 que era a Peste. Pobres homens! Pobres criaturas! Por que n\u00e3o vinha o Senhor?<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Assim pensando, caminhava Crist\u00f3v\u00e3o. Todo o dia caminhou. Desde a v\u00e9spera n\u00e3o tivera p\u00e3o, nem \u00e1gua: \u2013 e ao fim do dia, sentado numa pedra \u00e0 beira do caminho, ele pensava onde encontraria o p\u00e3o dessa ceia. O s\u00edtio em torno era deserto e triste. Nenhum caminho conduzia a moradas humanas. Ao lado, estendia-se uma grande lagoa dourada. Altos canaviais erguiam as suas ma\u00e7arocas negras. E  a \u00e1gua parecia dourada, tocada do sol que descia. Um bando de patos bravos voava no alto. E o sil\u00eancio era triste e profundo.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o ia seguir, marchar, quando o rumor de uma cavalgada ressoou ao longe, e uma comitiva apareceu, caminhando com lentid\u00e3o. Dois besteiros a p\u00e9, marchavam na frente. Um servo trazia molhos de archotes, para a primeira escurid\u00e3o da noite. E logo atr\u00e1s caminhava uma vasta liteira, com cortinas de couro vermelho e topes de plumas aos cantos. Duas damas, ao lado, montavam mulas brancas. Em roda vinham cavaleiros com lan\u00e7as. E as arcas das bagagens carregavam duas fortes mulas, emplumadas de vermelho.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, logo de p\u00e9, tirou humildemente o seu barrete. E vendo aquela forma enorme, esguedelhada, negra, na claridade da tarde, os dois arqueiros, estacando, retesavam o arco, uma das damas deu um grito. A liteira parara, e de entre as cortinas uma dama muito velha, envolta em peles, espreitou, pondo ante os olhos a m\u00e3o, coberta com um guante de ca\u00e7a. Mas Crist\u00f3v\u00e3o, humildemente, ca\u00edra de joelhos. Ent\u00e3o a dama deu uma ordem: \u2013 e um escudeiro, rudemente, mandou aproximar o homem enorme. Ele veio por entre os cavaleiros, cujas altas lan\u00e7as direitas, nas selas, n\u00e3o lhe chegavam aos ombros largos. E pelas cortinas da liteira, descerradas, a velha dama, outra mais nova e p\u00e1lida, e uma crian\u00e7a loura como um anjo, olhavam com espanto. Crist\u00f3v\u00e3o caiu de joelhos junto da liteira. E como lhe perguntassem a que terra senhorial pertencia, e porque andava s\u00f3 nos caminhos, Crist\u00f3v\u00e3o, na sua simplicidade, s\u00f3 pode murmurar que vinha de al\u00e9m e tinha fome. A dama mais nova palpou a sua escarcela \u2013 e a crian\u00e7a gritou: \u201c\u00c9 o gigante que servia Rold\u00e3o!\u201d Em roda os cavaleiros riram com respeito. E subitamente o pequeno fidalgo, sentado sobre os joelhos da velha, pediu, com um lindo mimo, para ter ele tamb\u00e9m um gigante, que o seguisse, com uma clava. A velha sorria. E, sem hesitar, deu ordem aos cavaleiros para que trouxessem Crist\u00f3v\u00e3o. Com um gesto foi mandado marchar ao lado das bagagens. E de novo os guizos dos machos tilintaram, e a comitiva seguia lentamente. O Sol descera. Os escudeiros acenderam os archotes. E a cada instante, de entre as cortinas da liteira, aparecia a cabe\u00e7a loura da crian\u00e7a que espreitava, queria ver se vinha o seu gigante. E Crist\u00f3v\u00e3o soube, pelos estribeiros, que aqueles eram os senhores do castelo de Riba Dona, que ficava para al\u00e9m das lagoas.<\/p>\n<p>Bem depressa, no alto de uma colina, entre os grandes bosques que desciam para o vale, surgiram as altas torres. Na mais alta ardia uma chama, que se torcia ao vento. Longas buzinas soaram. E \u00e0 entrada da ponte levadi\u00e7a, apareceram tochas inumer\u00e1veis, que os escudeiros erguiam alto.<\/p>\n<p>O intendente, o senescal, dois frades com h\u00e1bito, outros cavaleiros esperavam no p\u00e1tio. Nas janelas ogivais brilhavam claridades. E o sino da capela repicava alegremente. Um escudeiro, cuja barba branca ca\u00eda sobre um corpete de couro branco, recebeu nos bra\u00e7os a crian\u00e7a loura, que as damas cortejavam, mergulhando nas suas longas saias de cauda, orladas de peles. Um tapete fora desenrolado sobre a vasta escadaria. Os c\u00e3es latiam alegremente. E sob a grande porta, que sustentava um escudo de armas, uma camareira esperava, com um jarro de prata na m\u00e3o, enquanto outras ao lado tinham uma bacia que rebrilhava, e uma branca toalha fina. A cauda enorme da velha que levava a crian\u00e7a pela m\u00e3o, desapareceu sob o alto port\u00e3o. Os estribeiros levavam os cavalos \u00e0 r\u00e9dea, outros recolhiam as lan\u00e7as. E os cavaleiros, cujas esporas retiniam sobre os lajedos do p\u00e1tio, contavam ao intendente e ao padre como a jornada fora boa, com a ajuda do Senhor, sem encontro de touros, nem de lobisomens.<\/p>\n<p>Mas, no entanto, todos os criados cercaram Crist\u00f3v\u00e3o, com espanto. Ele torcia o seu barrete nas m\u00e3os, humildemente. Os pajens riam da sua grenha hirsuta, da imensidade dos seus p\u00e9s cheios de terra. Os mesmos cozinheiros tinham corrido, para o admirar. Os c\u00e3es, assustados, latiam.<\/p>\n<p>Mas um pajem veio correndo chamar Crist\u00f3v\u00e3o \u00e0 sala de armas: \u2013 e atrav\u00e9s de um corredor abobadado, por onde ele tinha de caminhar todo vergado, e de portas de carvalho que mal podia passar, levou-o a uma sala que era grande como a nave de uma igreja. Pelas paredes estavam encostados molhos de lan\u00e7as. Das traves do teto pendiam bandeiras, e ao fundo, numa vasta chamin\u00e9, ardiam troncos de \u00e1rvores, a que os cavaleiros, de p\u00e9, aqueciam as m\u00e3os. Uma cortina ergueu-se e as duas damas apareceram com a crian\u00e7a no meio delas, e seguidas dos pajens, que traziam tochas de cera.<\/p>\n<p>O pequeno Senhor do castelo (porque seu pai morrera, havia dois anos, na guerra do rei da Ocit\u00e2nia) tinha feito seis anos pelo Natal, e era t\u00e3o delicado e louro, que pareceu a Crist\u00f3v\u00e3o o Menino Jesus que havia no altar da capela. Mas, desde crian\u00e7a, fora educado para ser um cavaleiro forte: todas as manh\u00e3s lhe esfregavam os l\u00e1bios com um peda\u00e7o de ouro bento, para que suas falas fossem honestas e brilhantes; a sua roupa era secada ao lume sobre o fio de uma grande espada, para que crescesse forte e amigo das armas; e trazia ao pesco\u00e7o uma peda\u00e7o do Santo Lenho, para que o seu cora\u00e7\u00e3o se enchesse de amor do C\u00e9u. O seu encanto fora sempre ouvir as hist\u00f3rias dos Paladinos. De noite sonhava com Rold\u00e3o, e estendia os bra\u00e7os para empunhar a grande trompa que soara em Roncesvales. E desejava libertar damas presas em torres, domar drag\u00f5es e ser servido por um gigante armado de uma clava.<\/p>\n<p>E ali o tinha, o seu gigante, maior de que todos aqueles de que ouvira falar, nos ser\u00f5es de Inverno, aos trovadores de passavam esmolando, ou aos peregrinos que tinham visto as maravilhas da Terra Santa. Direito, a m\u00e3ozinha assente na cinta, o olhar rebrilhante, estava diante de Crist\u00f3v\u00e3o \u2013 que sorria, com a vasta face barbuda toda pendida e enternecida para ele. Ent\u00e3o, erguendo o dedo para o alto, onde estava o ombro de Crist\u00f3v\u00e3o, disse muito s\u00e9rio:<\/p>\n<p>\u2014 Quero subir l\u00e1 cima.<\/p>\n<p>O seu aio ergueu-o nos bra\u00e7os, mas n\u00e3o chegava \u00e0quela altura. As damas riam; os cavaleiros tamb\u00e9m, metendo os dedos entre os fios das barbas. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o agarrou delicadamente na crian\u00e7a, e pousou-a no seu grande ombro. L\u00e1 no alto, a crian\u00e7a sorria, vendo todos embaixo, t\u00e3o pequenos, junto dos joelhos do gigante. Espica\u00e7ou o ombro de Crist\u00f3v\u00e3o, gritou: \u201cCaminha!\u201d E Crist\u00f3v\u00e3o marchou, atrav\u00e9s da sala. Para passar, a crian\u00e7a afastava as bandeiras que pendiam. Os seus olhos, cheios de orgulho, reluziam como estrelas, mas a m\u00e3e inquieta erguia as m\u00e3os, chamava: \u201cRuperto! Ruperto!\u201d \u2013 E o aio, todo erguido na ponta dos p\u00e9s, estendia os bra\u00e7os para as alturas de Crist\u00f3v\u00e3o, para receber Ruperto que se atirara de l\u00e1, rindo e sem medo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a dama velha deu suas ordens ao senescal. Crist\u00f3v\u00e3o foi levado \u00e0s cozinhas \u2013 onde os pajens, os criados, correram para ver Crist\u00f3v\u00e3o, sentado no ch\u00e3o, com uma bacia de barro nos joelhos, cheia de vinho, esfarelar dentro grandes broas, que um criadito lhe trazia, ajoujado.<\/p>\n<p>Deitado, nessa noite, numa velha cavalari\u00e7a abandonada, Crist\u00f3v\u00e3o sentiu uma grande paz, e como um calor que o envolvia, vindo menos da palha fresca em que jazia do que do sentimento vago de que algu\u00e9m o estimava, o queria, necessitava dele. Era aquela crian\u00e7a t\u00e3o linda, t\u00e3o nobre, com os seus longos cabelos de ouro. E toda a noite sonhou que uma crian\u00e7a assim, cujos cabelos louros caindo sobre a camisa branca o envolviam num brilho de ouro, vinha desde a ponta dos seus p\u00e9s, caminhava ao comprido do seu corpo, como por uma estrada desigual que galga montes e vales: os seus pezinhos mal pousavam; e chegada junto da sua face, a crian\u00e7a parava, e debru\u00e7ada sobre os seus grandes olhos, parecia contemplar dois lagos tranq\u00fcilos e claros como espelhos. Depois no mesmo sil\u00eancio, e caminhando sobre o seu corpo, recuava at\u00e9 a ponta dos seus p\u00e9s, de onde se elevava para o ar, resvalando num raio obl\u00edquo da Lua, que entrava por uma fenda.<\/p>\n<p>Ao primeiro alvor da madrugada, antes que a buzina das sentinelas anunciasse o dia, Crist\u00f3v\u00e3o, saindo por uma porta aberta, foi rondar em torno do castelo. Nunca ele vira constru\u00e7\u00f5es t\u00e3o magn\u00edficas. Uma longa muralha envolvia toda a colina. Os nen\u00fafares cresciam na \u00e1gua dos fossos. E para al\u00e9m eram arvoredos, terras de cultura, por onde um rio, coberto \u00e0quela hora de n\u00e9voa, serpeava por entre grandes choupos.<\/p>\n<p>Desde tanto tempo havia paz naqueles feudos senhoriais, que a erva crescia nas fendas da ponte levadi\u00e7a. A forca patibular, sob a clem\u00eancia da damas que governavam, tinha as vigas apodrecidas e verdes de musgo. E sobre o torre\u00e3o erguia-se uma lan\u00e7a, com um morri\u00e3o espetado, e uma caba\u00e7a. significando que ali se dava hospitalidade a cavaleiros e peregrinos. As torres, de telhados agudos, eram inumer\u00e1veis, tendo todas bandeiras ou fl\u00e2mulas, vermelhas e verdes, que esvoa\u00e7avam na brisa. Drag\u00f5es, debru\u00e7ados das ameias, vomitavam a \u00e1gua das chuvas. E em cada janela ogival, com bras\u00f5es nas vidra\u00e7as, havia um vaso escarlate, onde crescia uma a\u00e7ucena.<\/p>\n<p>Dentro das muralhas, tudo era magn\u00edfico. Os lajedos dos p\u00e1tios, polidos como os de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde cresciam roseiras. O po\u00e7o era encimado por um pombal que terminava por uma imagem de S. Marcos, onde as pombas vinham pousar, beijando-se sobre o seu grande livro aberto. Por tr\u00e1s da negra torre isolada, que servia de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados a um coberto para o jogo da bola, uma al\u00e9ia para o jogo da lan\u00e7a.<\/p>\n<p>E na tranq\u00fcilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra, respeitadas nas longas l\u00e9guas dos arredores, as sentinelas, sobre as ameias, jogavam os dados, ou dormiam como frades repletos.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou \u00e0 presen\u00e7a de um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa vasta cadeira de carvalho lavrado, diante de uma mesa coberta de rolos de pergaminhos, de in-f\u00f3lios com armas estampadas, o intendente marcou a Crist\u00f3v\u00e3o as suas obriga\u00e7\u00f5es, que consistiriam em acompanhar o Senhor sempre que ele sa\u00edsse, a p\u00e9, ao lado do seu ginete, e armado de um clava. Depois um homem, um corcunda entrou, e trepando vivamente a uma cadeira mediu Crist\u00f3v\u00e3o com um c\u00f4vado de madeira, desde a cabe\u00e7a aos p\u00e9s, e saiu, recuando e saudando, com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo \u00e0 cinta.<\/p>\n<p>Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Crist\u00f3v\u00e3o recebeu ordem para talhar uma ma\u00e7a um tronco de \u00e1rvore, e, vestido, acompanhar o Senhor, que ia visitar as suas florestas: e enquanto o esperava, na clara manh\u00e3 de Agosto, Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o cessava de se mirar na \u00e1gua clara da cisterna, pasmado das bragas de pano \u00e0s listas azuis e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gib\u00e3o vermelho e azul, que lhe cobria o peito, tendo bordadas as armas da senhoria.<\/p>\n<p>Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas na gorra, sob a qual ca\u00edam os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado, levava o falc\u00e3o no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lan\u00e7a alta. Vendo Crist\u00f3v\u00e3o, o menino gritou de alegria: e tr\u00eas vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Crist\u00f3v\u00e3o im\u00f3vel, com a sua ma\u00e7a no ombro. Depois, atravessando a ponte levadi\u00e7a, correu pelo caminho largo, voltando-se na sela, airoso e vivo, para ver Crist\u00f3v\u00e3o, que trotava com as suas vastas passadas, a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os vil\u00f5es do castelo ajoelhavam \u00e0 passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de cobre, da sua escarcela; depois, em grupo, com os bra\u00e7os estendidos, ficavam a olhar o gigante que corria atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o menino n\u00e3o quis montar no potro, mas voltar ao castelo, cavalgando Crist\u00f3v\u00e3o. Debalde o aio, com um joelho em terra, o potro pelas r\u00e9deas, lhe pediu para montar. Com o olhar vivo, ele disse s\u00f3: \u201cMas quero!\u201d E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar at\u00e9 ao pesco\u00e7o de Crist\u00f3v\u00e3o, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no peito de couro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de uma torre que caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores dos medronheiros, que atirava ao ch\u00e3o; ora queria espreitar os ninhos; ora, espica\u00e7ando o peito de Crist\u00f3v\u00e3o, corria agarrado aos seus cabelos, como as r\u00e9deas de um ginete. E assim voltou ao castelo, onde a m\u00e3e e a av\u00f3, na grande varanda de pedra, apertavam as m\u00e3os, entre inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o gigante, como nos contos dos menestr\u00e9is.<\/p>\n<p>E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Crist\u00f3v\u00e3o. Eram ent\u00e3o grandes correrias em torno \u00e0s muralhas, ou em volta dos fossos, por vezes mais longe, at\u00e9 a floresta, Crist\u00f3v\u00e3o sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a pouco o menino se afei\u00e7oara a Crist\u00f3v\u00e3o, como um cavalo que o compreendia, o fazia rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os de um vasto dromed\u00e1rio. Crist\u00f3v\u00e3o tamb\u00e9m, pouco a pouco, se dera de todo o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a. Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente que lhes puxasse os cabelos, s\u00f3 sentia a car\u00edcia das suas m\u00e3os. Para o fazer rir, relinchava como um corcel de guerra; ou fingia medo, n\u00e3o queria avan\u00e7ar, e as esporas do menino rasgavam o couro do seu tabardo. Nos dias em que chovia e o menino n\u00e3o sa\u00eda do castelo, todo o dia Crist\u00f3v\u00e3o rondava tristemente pelos p\u00e1tios, com a melancolia da sua ociosidade: e de noite n\u00e3o recolhia \u00e0 sua estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a luz que alumiava o menino.<\/p>\n<p>Por vezes, por\u00e9m, o menino queria que Crist\u00f3v\u00e3o viesse assistir ao seu jantar: \u2013  e ent\u00e3o dois pajens abriam mais largos os grandes reposteiros de tape\u00e7aria para que Crist\u00f3v\u00e3o penetrasse na vasta sala, onde o teto era pintado de azul, e salpicado de flores que brilhavam como recortadas em ouro. Im\u00f3vel a um canto, ele contemplava o menino, que se sentava ao lado da av\u00f3, numa cadeira de alto espaldar como a dela. Por tr\u00e1s, o seu aio tomava os pratos da m\u00e3o do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho fino, retiniam os copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande fogueira bailava na chamin\u00e9, onde estava representado o cerco de Antioquia: \u2013 e sobre os poleiros de ferro polido, os falc\u00f5es afiavam o bico.<\/p>\n<p>Mas, por vezes, o menino queria Crist\u00f3v\u00e3o mais perto. Ent\u00e3o a m\u00e3e, resignada, fazia um gesto seco: \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o, muito humilde, assustado dos esplendores senhoriais, vinha, vergando os ombros, com o seu barrete na m\u00e3o. O menino queria-o de joelhos, com as m\u00e3os no ch\u00e3o, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe peda\u00e7os de carne, que ele comia com ru\u00eddo para o divertir mais.<\/p>\n<p>Outras vezes, \u00e0 noite, um pajem vinha buscar Crist\u00f3v\u00e3o \u00e0s cozinhas, e entrava na grande sala, onde ardia uma fogueira na chamin\u00e9. Sentada na sua cadeira, a av\u00f3 tinha um livro de horas aberto nos joelhos, com o menino ao lado. Defronte a m\u00e3e fazia tape\u00e7aria. E um trovador, ao p\u00e9, sentado num escabelo, contava um longo romance de cavalaria e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada nalguma alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino exclamava:<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m eu tenho um gigante!<\/p>\n<p>E fazia ent\u00e3o erguer Crist\u00f3v\u00e3o, que parecia monstruoso, com os grossos joelhos vivamente alumiados pela chama dos trocos ardendo, a cabe\u00e7a quase perdida na sombra das altas vigas. O frade erguia as p\u00e1lpebras dormentes; a dama ficava com a longa agulha suspensa sobre a tape\u00e7aria; e todos, olhando Crist\u00f3v\u00e3o, sentiam mais real e viva a longa hist\u00f3ria de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros serviam bolos secos, e as grandes canecas do hipocraz.<\/p>\n<p>biblioAssim os dias tranq\u00fcilos passavam no castelo tranq\u00fcilo. O vigia, invariavelmente, ao anunciar, com um longo toque de buzina, o nascer do Sol, i\u00e7ava no mastro da torre de menagem a grande bandeira de seda com as armas do Senhor. As janelas do castelo abriam-se; o sacrist\u00e3o varria a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus c\u00e2ntaros de leite; e os pajens, cantando como p\u00e1ssaros que acordam, desciam correndo para o jogo de bola, ou para a li\u00e7a coberta, onde o mestre de armas j\u00e1 experimentava as espadas, vergando as l\u00e2minas, ou examinava os ferros das lan\u00e7as.<\/p>\n<p>Se o tempo era claro, as damas e os meninos davam um passeio pelos altos terra\u00e7os. O menino, por vezes, debru\u00e7ando-se, gritava por Crist\u00f3v\u00e3o, enquanto as damas respiravam o ar fresco, ou seguiam o v\u00f4o dos falc\u00f5es novos, que os falcoeiros adestravam.<\/p>\n<p>Ao meio dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao port\u00e3o do castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, pare receberem depois nos sal\u00f5es estendidos o resto dos p\u00e3es, ou a carca\u00e7a das aves.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava a chegada de uma companhia de menestr\u00e9is e jograis: um deles, com o barrete na m\u00e3o, pedia permiss\u00e3o para dar uma representa\u00e7\u00e3o no p\u00e1tio. As damas vinham ao balc\u00e3o; todos os pajens corriam, o arquivista deitava a cabe\u00e7a fora da janela da torre, os cozinheiros espreitavam de entre as reixas de feno: \u2013 e no p\u00e1tio os jograis, atirando bolas, dan\u00e7ando na corda, erguendo pesos, ou representando farsas, levantavam grandes ah!, ah! lentos e maravilhados. Quando sa\u00edam, sempre algum deles chamava Crist\u00f3v\u00e3o com um gesto discreto \u2013 e fora da ponte levadi\u00e7a, persuadiam-no a vir com eles, na vida livre e alegre, a percorrer castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar dinheiro para a velhice. Ele recusava, com um mover lento da cabe\u00e7a. E eles seguiam voltando-se ainda para o ver, calculando os ganhos que teriam com a exibi\u00e7\u00e3o daquele gigante.<\/p>\n<p>Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O p\u00e1tio estava todo sonoro com o relinchar dos corc\u00e9is. Os pajens corriam azafamados. Nas janelas batiam-se as alcatifas: \u2013 e nas cozinhas, o mestre, mais afogueado e vermelho que um piment\u00e3o, preparava grandes empad\u00f5es, de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o menino tinha orgulho em mostrar o seu gigante: e diante dos cavaleiros pasmados, Crist\u00f3v\u00e3o corria em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capel\u00e3o dos h\u00f3spedes tomava sempre as medidas de Crist\u00f3v\u00e3o, para relatar nas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Outras vezes, j\u00e1 por noite escura, ressoava \u00e0s portas do castelo um trombeta de guerra. E um cavaleiro entrava, silencioso, coberto de ferro, seguido por seu escudeiro. Uma camareira corria com o gomil de \u00e1gua perfumada para lhe derramar nas m\u00e3os; um pajem desembara\u00e7ava-o de sua lan\u00e7a; outro marchava adiante, com uma tocha de cera; \u2013 e o cavaleiro, com o seu elmo na m\u00e3o, sacudindo os cabelos, lan\u00e7ava um nome sonoro de paladino, famoso j\u00e1 naquelas terras. Ou ent\u00e3o era um peregrino, que os escudeiros levavam primeiro \u00e0 cozinha, onde ele alargava o seu manto diante do lume, para o secar da umidade dos caminhos. Crist\u00f3v\u00e3o segurava com respeito o seu bord\u00e3o, de onde pendia uma caba\u00e7a. Em breve um capel\u00e3o o conduzia \u00e0s damas, a quem ele contava as suas jornadas, as maravilhas do Santo Sepulcro: \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o esperava, para lhe beijar a orla da sua esclavina, que tocara no t\u00famulo do Senhor.<\/p>\n<p>Assim os anos passavam. O menino crescia \u2013 e agora come\u00e7ava a ser ensinado em tudo o que respeita \u00e0s coisas da ca\u00e7a e \u00e0s coisas da guerra. Todos os dias o monteador trazia c\u00e3es, para completar a matilha do Senhor: e chegavam, \u00e0s costas das mulas, caixas contendo armas tauxiadas, para o menino lhes aprender o manejo. Mas, por desejo da av\u00f3, que era dada \u00e0s coisas do alegre saber, o menino passava longas horas com o capel\u00e3o, que lhe ensinava a conhecer as letras, os n\u00fameros, a tra\u00e7ar o seu nome num pergaminho. Pouco a pouco, o menino perdera a sua curiosidade por Crist\u00f3v\u00e3o.  E j\u00e1 por vezes passava diante dele sem lhe sorrir, ou lhe acenar com a m\u00e3o, j\u00e1 cal\u00e7adas com o guantezinho de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o vivia ocioso. Os pajens davam-lhe as armas para limpar. O sacrist\u00e3o, velho e tr\u00f4pego, pedia-lhe para varrer a capela \u2013 e mesmo era ele quem acendia os fornos da cozinha, ou lavava a baixela suja. Depois, um dia, a av\u00f3, lendo uma hist\u00f3ria em que um gigante guardava um tesouro, quis que Crist\u00f3v\u00e3o guardasse a torre onde estavam os arquivos e as arcas de dinheiro. A torre, ent\u00e3o, foi o seu cuidado: constantemente vigiava para a limpar dos musgos ou das ervas. Todas as manh\u00e3s e todas as tardes batia as  reixas das janelas esguias, para que nenhum ferro estivesse frouxo ou dessoldado. Era ele que levava o jantar, a ceia, ao arquivista, sempre debru\u00e7ado sobre os seus pergaminhos. E agora dormia \u00e0 porta da torre, com a grande chave de ferro toda fechada na m\u00e3o. Todavia o menino, \u00e0s vezes, ainda queria ser seguido por Crist\u00f3v\u00e3o. Eram esses os seus dias alegres. Como um c\u00e3o meio abandonado, os seus olhos simples e bons imploravam uma car\u00edcia. Mas em breve, o menino, com um gesto, o despedia: agora s\u00f3 se interessava por armas, por falc\u00f5es, por ginetes de guerra. E Crist\u00f3v\u00e3o, suspirando, com o cora\u00e7\u00e3o pesado, ia estirar-se junto da torre, com a sua grossa chave sobre os joelhos.<\/p>\n<p>Depois, um dia, um parente chegou ao castelo, trazendo de presente ao menino um an\u00e3o disforme, pouco mais alto que uma seta, com uma cabe\u00e7a enorme de olhos maus, e um longa barbicha rala, que lhe fazia como o queixo de um bode. O menino teve ent\u00e3o a paix\u00e3o do seu an\u00e3o. E nunca mais reparou em Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>A dor de Crist\u00f3v\u00e3o foi imensa. E o castelo tornou-se-lhe subitamente t\u00e3o frio e deserto, como um cerro que as nortadas bate. Todo o dia seus olhos espreitavam os terra\u00e7os onde o menino passeava, a porta por onde sa\u00eda, a li\u00e7a onde ele vinha jogar a seta. E quando ele aparecia, Crist\u00f3v\u00e3o escondia-se por entre os \u00e2ngulos das torres \u2013 n\u00e3o se querendo mostrar por sentir que n\u00e3o era desejado, ou pelo receio de ver que n\u00e3o era chamado com o riso alegre de outrora. E na sua simplicidade pensava: \u201cQue lhe fiz eu? Por que me n\u00e3o quer?\u201d Todas as noites sonhava com ele. Era sempre a mesma crian\u00e7a, com os cabelos louros sobre uma camisa muito branca, que caminhava sobre o seu corpo, mas, em lugar de vir espreitar a sua face, s\u00f3 vinha para lhe enterrar a ponta da sua seta, no s\u00edtio onde sentia bater o cora\u00e7\u00e3o, com um jeito que era seco e cruel.<\/p>\n<p>Sentado \u00e0 porta da torre, pensando naquela ingratid\u00e3o, soltava grandes suspiros: e o arquivista debru\u00e7ava a cabe\u00e7a calva pelo postigo, aos ru\u00eddos daquela dor. Para ao menos estar misturado \u00e0s coisas do menino, era ele quem limpava o seu potro favorito: mesmo por vezes lhe beijava o focinho; e a sela em que o menino montava, as r\u00e9deas cobertas de veludo, os seus estribos de prata, eram como coisas sagradas, em que tocava com devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por esse tempo, uma manh\u00e3, houve um grande rumor no castelo. O menino estava doente. Bem depressa dois pajens partiram galopando \u2013 e n\u00e3o tardou a chegar, montado na sua mula, o F\u00edsico, com a sua caixa de drogas. Foram ent\u00e3o dias de inquieta\u00e7\u00e3o. A capela estava todo o dia acesa, e as aias rezando. De um convento vizinho vieram as rel\u00edquias de S. Te\u00f3dulo. Os pajens, sem jogar, sem lutar, cochichavam com medo pelos cantos: \u2013 e outros iam procurar pelos caminhos peregrinos, ou mercadores ambulantes, que trouxessem de longe alguma receita nova e ignorada. Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o dormia. Toda a noite, os seus olhos estavam cravados na janela dos aposentos do menino. Interrogava, tremendo, as camareiras. Ia pelos casais de colmo, dos servos, perguntando por ervas. Foi muito longe consultar um pastor feiticeiro. E para que nenhum rumor inquietasse o menino, ia de noite, com uma grande vara, bater a \u00e1gua dos fossos, para fazer calar as r\u00e3s.biblio<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, o menino apareceu no terra\u00e7o do castelo, apoiado \u00e0s duas senhoras, p\u00e1lido ainda, sorrindo ao sol de Inverno. Todos os criados, os servos, correram, saudando-o de longe com os barretes. A sineta da capela repicava alegremente. E Crist\u00f3v\u00e3o, com as m\u00e3os postas, esperava ansiosamente que os olhos do menino se pousassem nele. O menino acercou-se da beira do terra\u00e7o \u2013 e os seus olhos, ainda vagos e tristes, pareceram nem reparar no seu gigante. Crist\u00f3v\u00e3o foi recolher \u00e0 sua torre, com duas grossas l\u00e1grimas rolando-lhe por entre as barbas.<\/p>\n<p>XIV <\/p>\n<p>O castelo perdeu ent\u00e3o para ele todo o seu encanto: \u2013 e como que sufocado entre os seus altos muros, voltava os seus pensamentos para os campos e para as moradas dos servos, entre quem nascera. Como a paz era t\u00e3o grande, nenhum dos servi\u00e7os de guarda era feito com exatid\u00e3o: as sentinelas dormiam nos torre\u00f5es, como frades no locut\u00f3rio; os porteiros deixavam os molhos de chaves pendentes das argolas de ferro; e a torre dos arquivos n\u00e3o precisava ser guardada. Logo pois que a varria, Crist\u00f3v\u00e3o, tomando o bord\u00e3o, ia pelas terras do feudo, pelos casebres dos colonos e servos.<\/p>\n<p>Todos o conheciam. Havia sempre para ele um pichel de vinho:- e Crist\u00f3v\u00e3o brincava com as crian\u00e7as ou ajudava a tosquiar os anhos. Pouco a pouco, tornou-se o servi\u00e7al de todos, e, como outrora na sua aldeia, era ele que acarretava os fardos, rachava a lenha, compunha os telhados, lavrava os ch\u00e3os mais duros. Mesmo por vezes ia pastorear os rebanhos, ou guardava os moinhos. \u00c0 noite ficava entre aquela pobre gente, sem pena do bom calor das cozinhas do castelo, do p\u00e3o fresco, e da sua larga por\u00e7\u00e3o de carne salgada. Reunidos \u00e0 lareira, num dos casebres, eles passavam o fim da  tarde j\u00e1 escuro, olhando o lume, onde as raparigas assavam castanhas na cinza. E Crist\u00f3v\u00e3o, no meio deles, escutava o seu falar lento e grave. Os mais velhos contavam hist\u00f3rias do velho conde, homem cruel, que nos campos impelia o seu corcel contra os lavradores, ou talava os verg\u00e9is. Diz-se que tinha pacto com o Dem\u00f4nio:- e muitos o tinham visto ca\u00e7ar de noite, \u00e0 luz de tochas, guiado por um ca\u00e7ador todo escarlate , que tocava uma trompa de onde sa\u00edam chispas de lume. Outros tempos mais doces tinham vindo com o outro conde, o que morrera nas guerras, e com as damas, t\u00e3o clementes, que as forcas patibulares estavam apodrecendo. Mas quanto lhes pesava ainda aquele alto castelo, de bras\u00f5es e de fl\u00e2mulas! Que dura era ainda a vida, sempre sujeita, toda de duro trabalho! E cada um contava a sua mis\u00e9ria, o labutar incessante, o p\u00e3o escasso, os filhos rotos pelos grandes frios, a fome por vezes vindo com os seus dentes de loba\u2026 As vozes iam-se tornando mais tristes. O vento entrava pelas frestas dos casais. As m\u00e3es, com um suspiro, embalavam os ber\u00e7os, onde dormiam inocentes, votados \u00e0 mesma servid\u00e3o e \u00e0 mesma mis\u00e9ria. Crist\u00f3v\u00e3o sentiu o seu cora\u00e7\u00e3o doer, com uma compaix\u00e3o infinita.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes um frade mendicante batia ao port\u00e3o, e entrando, deitando as b\u00ean\u00e7\u00e3os, arrumando a um canto o seu alforje, ia aquecer \u00e0s lareiras os p\u00e9s doridos dos caminhos, lacerados pelas urzes, e o h\u00e1bito de burel que fumegava. Filho de vil\u00f5es, tendo nascido nas lavouras, conhecia as mis\u00e9rias da servid\u00e3o: e, frade pobre, sofria da opress\u00e3o, do orgulho dos prelados ricos, com castelos e ter\u00e7os armados. Ent\u00e3o sentado na melhor tripe\u00e7a, com o seu ros\u00e1rio ca\u00eddo entre os joelhos, ele falava tamb\u00e9m da mis\u00e9ria dos tempos. Certamente Nosso Senhor, cansado de tanta maldade dos grandes, n\u00e3o tardaria a voltar \u00e0 terra, distribuir melhor o p\u00e3o, reformar as ordens, abater o orgulho dos rico-homens. E quem sabe? Incompreens\u00edveis s\u00e3o os caminhos da provid\u00eancia! Talvez, para castigar os castelos, Deus revoltasse as cabanas. Um chu\u00e7o fura melhor a armadura, quando \u00e9 a m\u00e3o de S. Miguel Arcanjo que o impele. Talvez na Terra se repetisse em breve a batalha do Arcanjo e do Dem\u00f4nio. J\u00e1 um fogo andara no c\u00e9u, para o lado do oriente. E sobre o mar tinham-se visto, erguidas e entrechocando-se, uma foice e uma lan\u00e7a. E ent\u00e3o, baixando a voz, contava como nos condados que atravessava, os homens se juntavam de noite numa floresta e tramavam o fim da servid\u00e3o.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o recolhia ao castelo pensativo. E todas aquelas torres, aquelas muralhas lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre. Por que n\u00e3o haveria para todos a mesma lareira, o mesmo p\u00e3o? Aqueles tesouros, que ele guardava na torre, seriam a abund\u00e2ncia para criancinhas sobre toda a terra. Para que eram tantas armas? Os homens n\u00e3o se deviam combater, mas somente abra\u00e7ar, em conc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Um dia que ele assim pensava, sentado \u00e0 beira dos fossos, um velho veio a passar, um dos servos do castelo, picando o seu burro carregado de erva. Parecia ter pressa, e no seu olhar havia como uma inquieta\u00e7\u00e3o. Ao ver Crist\u00f3v\u00e3o, parou dizendo: \u201cNovas m\u00e1s, novas m\u00e1s!\u201d E como Crist\u00f3v\u00e3o arregalava os olhos simples, o servo contou que no mercado, de onde viera, corria entre a gente que um bando de servos se levantara, num dom\u00ednio, al\u00e9m, para tr\u00e1s das colinas, tendo por brado: \u201cMorte aos castelos!\u201d Outros servos se tinham juntado, com chu\u00e7os. Toda a terra parecia em revolta. E j\u00e1 dois castelos tinham sido atacados, as damas mortas, as crian\u00e7as mortas, e agora as duas torres ardiam sobre a colina. E, sem outra palavra, picou o seu burro carregado de erva. Mas imediatamente Crist\u00f3v\u00e3o se ergueu e o come\u00e7ou a seguir. Quando chegou, atr\u00e1s dele, \u00e0 aldeia, j\u00e1 havia grupos no adro, j\u00e1 se falava baixo \u00e0 porta dos casais. A nova viera no vento, e a todos espantava. Nas faces dos homens mo\u00e7os havia como uma emo\u00e7\u00e3o, uma d\u00favida, se n\u00e3o seria o dever de todos os homens tomar as foices, as enxadas, fazer armas com o ferro dos arados, ir juntar-se aos irm\u00e3os de servid\u00e3o, vingar os pobres. Os velhos abanavam a cabe\u00e7a, numa grande prud\u00eancia. De que serviria? Sempre os bar\u00f5es venceriam, descendo dos seus grandes corc\u00e9is. E as mulheres, inquietas, lembravam a bondade das donas do castelo, as suas esmolas, os peda\u00e7os de anho que pelo Natal mandavam a todas os casais. Que seria se o bando viesse atacar o castelo? N\u00e3o havia soldados para o defender, nem armas. Pobres senhoras, t\u00e3o s\u00f3s e fracas. Pobre condezinho, t\u00e3o fraco e s\u00f3!<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o escutara em sil\u00eancio. E em sil\u00eancio, tamb\u00e9m, recolheu ao castelo. Toda essa tarde rondou as muralhas, como para lhes estudar a solidez e a resist\u00eancia. Depois, com os seus punhos fortes, palpou as portas. E como nesse momento o intendente passava, seguido do seu grande c\u00e3o, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Que fazes, Crist\u00f3v\u00e3o?<\/p>\n<p>Ele respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Anda gente m\u00e1 pelos campos: \u00e9 necess\u00e1rio levantar a ponte.<\/p>\n<p>O intendente sorriu, encolheu os ombros \u2013 e nessa noite fez rir as damas, contando os terrores do gigante. Crist\u00f3v\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o dormia. No alto da torre da almenara, toda a noite espreitou as terras em redor. Ao longe, sobre uma colina, havia como fogos de um acampamento, mas nenhum rumor se ouvia, sen\u00e3o o cantar dos sapos na plan\u00edcie. Quando a alvorada veio, Crist\u00f3v\u00e3o desceu: \u2013 e indo \u00e0s abegoarias, escolheu duas trancas enormes de ferro, que serviam para trancar as portas, agora desusadas. Depois a sineta tocou \u00e0 missa no ar fino. O arquivista veio sentar-se entre os in-f\u00f3lios, e as damas distribu\u00edam o trabalho \u00e0s fiandeiras e \u00e0s servas. E todo o castelo repousava na santa paz do domingo \u2013 quando um pajem, que nas ameias fazia uma armadilha aos p\u00e1ssaros, soltou um grito que acordou os arqueiros, adormecidos na sua guarita de pedra. Logo um som de buzina, um grande apelo de alarme ressoou. Todos os pajens correram \u00e0s ameias. As damas apareceram por tr\u00e1s das vidra\u00e7as do balc\u00e3o. E os cozinheiros sa\u00edam aos p\u00e1tios, com as suas ca\u00e7arolas na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Bem depressa correu o grito que um bando armado avan\u00e7ava sobre o castelo. Os pajens correram, em confus\u00e3o, \u00e0 sala de armas, a tomar espadas, lan\u00e7as. Os guardas trancavam as portas, desesperadamente. E o intendente, com os cabelos ao vento, gritava que se aquecesse o pez, o alcatr\u00e3o, para despejar sobre o bando se ele quisesse escalar as muralhas, Mas ningu\u00e9m escutava, na desordem. A longa paz desabituara os habitantes do castelo da disciplina, da prontid\u00e3o. N\u00e3o havia um cavaleiro para comandar. E as mulheres, correndo para a capela, e chorando, amoleciam os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Subitamente um grande alarido ressoou sob os muros. Crist\u00f3v\u00e3o subiu \u00e0s ameias: \u2013 viu um bando imenso e homens, servos em farrapos, brandindo foices, chu\u00e7os, tochas, amontoando-se na ponte levadi\u00e7a, que ningu\u00e9m se lembrara de erguer, enquanto outros em redor, a grandes machadadas, abatiam as forcas patibulares e o banco de pedra a justi\u00e7a, que o musgo cobria, sob o olmo senhorial. J\u00e1 golpes de machado ressoavam contra a porta, fazendo saltar fa\u00edscas. Um tronco enorme, que m\u00e3os inumer\u00e1veis sustentavam, foi trazido, arremessado, como um ar\u00edete, contra a porta, em que ele marrava como um carneiro. De cima, os arqueiros despediam flechas com m\u00e3o mal segura. Cada grito de ferido mais excitava a turba, as machadadas redobravam \u2013 e a velha porta bem depressa foi aberta em lascas. Ent\u00e3o os arqueiros, os pajens, desceram para se refugiar na torre \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o, tomando nas m\u00e3os as trancas de ferro, correu para o torre senhorial. Dentro, na grande sala abobadada, estavam as damas p\u00e1lidas, uma junto da outra, com o condezinho entre elas, quase escondido nos seus vestidos. O velho senescal rezava de joelhos. E, em torno, amontoavam-se os in-f\u00f3lios, os arquivos da casa, as grandes \u00e1rvores geneal\u00f3gicas, tudo o que fazia o orgulho daquela fam\u00edlia. Era como uma cidadela do feudalismo, onde tudo se achava resumido, a esperan\u00e7a de uma casa, os seus t\u00edtulos, os seus tesouros, todo o seu orgulho. E tudo aquilo era amea\u00e7ado por uma plebe revolta!<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o fora humildemente postar-se ao funda da sala abobadada. E t\u00e3o grande era o seu terror, t\u00e3o arraigado o desd\u00e9m pelos servos que n\u00e3o era nele que os Senhores pensavam, nem no poderoso socorro de sua for\u00e7a indom\u00e1vel, mas nas espadas dos pajens, a quem elas gritavam que defendessem a porta.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dos p\u00e1tios, no entanto, j\u00e1 os gritos dos feridos ressoavam por entre o clamor da turba de Jacques, que vinha como uma onda que arrebentou os diques. E mal a porta da torre fora fechada, que sobre ela ca\u00edram enormes machadadas, entre uivos de furor, o ru\u00eddo dos vidros que se partiam, os gritos dos servos assassinados. Dentro ningu\u00e9m falava, todos com olhos cravados naquela porta atacada \u2013 velhas pranchas de carvalho e ferrugentas chapas de ferro, que eram a \u00fanica defesa contra a morte. Os pajens, mas p\u00e1lidos que a cera, amolecidos pelos anos de paz, sem educa\u00e7\u00e3o guerreira, faziam diante das mulheres uma sebe de espadas \u2013 espadas cujas pontas tremiam. O capel\u00e3o rezava de bru\u00e7os. E o arquivista estendia os bra\u00e7os por cima dos seus in-f\u00f3lios, como para os proteger, com os olhos cravados na porta, e estremecendo a cada machadada. S\u00f3 a av\u00f3 parecia serena, sustentada pelo seu orgulho, com o peito direito, preparado para a morte, enquanto a nora sucumbia agarrada ao filho, banhando-o de l\u00e1grimas. E pela escada de caracol, que subia ao pavimento superior, apinhava-se a criadagem, as aias \u2013 algumas ainda com a sua roca na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob os golpes desesperados a porta cedia! Pelas fendas da muralha entrava o fumo das fogueiras, que os Jacques acendiam no p\u00e1tio para pegar o fogo ao castelo, com os m\u00f3veis que arrastavam das salas, cadeiras brasonadas, arcas cheias de estofos. J\u00e1 ningu\u00e9m contava com a vida. Duas aias velhas, de ros\u00e1rio na m\u00e3o, pediam a absolvi\u00e7\u00e3o, ao padre, que as n\u00e3o escutava, de joelhos, batendo os queixos, entre os gritos de misereres.<\/p>\n<p>De repente a porta cedeu, tombou sob os seus grandes gonzos estalados \u2013 e pontas de chu\u00e7os, de foices, faces l\u00edvidas, bra\u00e7os descarnados. irromperam numa f\u00faria de matan\u00e7a. As damas tinham fugido. J\u00e1 um grande velho, em farrapos, pulava por sobre a porta, com uma foice em cada m\u00e3o \u2013 quando, do fundo da ab\u00f3bada, Crist\u00f3v\u00e3o surgiu, enorme, com a face ardente, uma barra de ferro em cada m\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi como uma apari\u00e7\u00e3o \u2013 e a turba furiosa recuou com terror. Era como se surgisse ante ela, vis\u00edvel, real, esse gigante monstruoso, guardador de torres, de que eles tinham ouvido falar, p\u00e1lidos de espanto, nas hist\u00f3rias contadas \u00e0 lareira. E nesse momento de espanto, Crist\u00f3v\u00e3o, com um grande brado, carregou sobre a turba, que recuou em tropel, recolhendo os chu\u00e7os e as foices. Baixando a cabe\u00e7a, Crist\u00f3v\u00e3o rompeu da porta como uma grande torre, e no grande  ar do p\u00e1tio a sua figura escura, coberta de uma pele de lobo, com duas chamas brilhando sob a hirsuta sebe das sobrancelhas, pareceu sa\u00edda do Inferno, e como cheia de for\u00e7a invenc\u00edvel. Os seus brados faziam tremer os muros: \u2013 e as duas barras de ferro furiosamente cortavam o ar, silvando. A cada um dos seus largos passos, a turba recuava, com um rouco murm\u00fario de terror. Alguns tinham fugido por entre as fogueiras, onde ardiam os grandes m\u00f3veis de carvalho lavrado. As mulheres do bando gritavam que era o Dem\u00f4nio: \u2013 e um ou outro chu\u00e7o que se erguia, voava em lascas sob os golpes da barra de ferro.<\/p>\n<p>Para tr\u00e1s, para tr\u00e1s, sempre para tr\u00e1s, ia a turba, reatravessando os p\u00e1tios, trope\u00e7ando nos servos que matara, caindo por sobre os lumes que acendera. J\u00e1 estavam contra a muralha. J\u00e1 as costas se voltavam para fugir. Ent\u00e3o, com um \u00faltimo urro, que atroou toda a colina. carregou sobre a turba \u2013 que, num s\u00fabito pavor, varou a porta aberta, galgou a ponte levadi\u00e7a. desceu de rold\u00e3o a colina, at\u00e9 parar no vale, onde os carros esperavam. E Crist\u00f3v\u00e3o, passando tamb\u00e9m a ponte, ficou no meio da colina im\u00f3vel, grande como uma torre, apoiado \u00e0 sua barra de ferro e limpando o suor. Mas ent\u00e3o, de entre a multid\u00e3o que embaixo se agitava, um velho avan\u00e7ou, sem armas, com um ramo de oliveira na m\u00e3o \u2013 e caminhou para Crist\u00f3v\u00e3o. A meio da colina parou, e erguendo os bra\u00e7os perguntou a Crist\u00f3v\u00e3o, porque os atacava ele, servo, que decerto sofria da servid\u00e3o, a eles, servos tamb\u00e9m, que no fim de tantos tempos de sofrimento, s\u00f3 queriam partilhar de algumas do\u00e7uras da terra? N\u00e3o era s\u00f3 pelo mal de destruir que eles atacavam os castelos. \u00c9 que ali, entre as suas muralhas, estava a gente orgulhosa que os escravizava, causava a fome dos seus filhos, o frio das suas moradas, as fadigas sem nome \u2013 e eles vinham simplesmente matar o mal da terra. Ele, velho, que lhe falava, trabalhara cinq\u00fcenta anos a gleba, tivera o corpo vincado pelos azorragues, vira a sua choupana queimada pelo Senhor: em torno dele, longos tempos seus filhos tinham gritado de fome, tremendo de frio \u2013 e, escorra\u00e7ado, esmagado, pisado, espremido pela for\u00e7a com um trapo vil, tomara uma faca, e partira a fazer justi\u00e7a no mundo. De todos os seus, s\u00f3 lhe restava um neto, um neto pequenino, de seis anos, inocente e simples como um anho. E porque ele tirara uma ma\u00e7\u00e3 das macieiras do pomar do castelo, onde era servo, o Senhor fizera-o dependurar pelas m\u00e3os de uma \u00e1rvore, acirrara contra ele os c\u00e3es, e toda uma noite de inverno o deixara nuzinho sob a neve. Quando o despregaram da \u00e1rvore estava moribundo. E a voz do velho tremia. Crist\u00f3v\u00e3o deixara cair a barra de ferro, e com as m\u00e3os vazias e vagas, e abertas no ar, a cabe\u00e7a ca\u00edda, parecia pensar, no fundo da sua simplicidade. E o velho, avan\u00e7ando, perguntava-lhe por que n\u00e3o viria com eles abater os monstros que matam crian\u00e7as nos seus negros castelos, acabar com os amos cru\u00e9is, para que sob o c\u00e9u, um momento, os humildes respirem e limpem as l\u00e1grimas. E o velho limpava as suas l\u00e1grimas, com as suas pobres m\u00e3os que tremiam. Ent\u00e3o, lentamente, Crist\u00f3v\u00e3o apanhou a sua barra. Pouco a pouco desceu a colina. E o velho adiante gritava agitando o ramo, trope\u00e7ando nos pedregulhos.<\/p>\n<p>\u2014 Este \u00e9 o grande gigante que nos vem libertar!<\/p>\n<p>Os Jacques mal compreendiam. Alguns, vendo descer Crist\u00f3v\u00e3o, fugiam saltando os valados. Outros, furiosos, enristavam os chu\u00e7os. Mas Crist\u00f3v\u00e3o, brandindo a barra, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Vinde!<\/p>\n<p>E num impulso irresist\u00edvel, todo o bando o seguiu numa aclama\u00e7\u00e3o \u2013 enquanto das muralhas do castelo o intendente, entre os homens de armas, de p\u00e9 nas ameias, estendia o bra\u00e7o, mostrando Crist\u00f3v\u00e3o, que se bandeava com os Jacques, e partia atrav\u00e9s das campinas.<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s marchavam atrav\u00e9s de terras, duramente. Era o velho que os guiava \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o, em sil\u00eancio, caminhava ao seu lado, com a sua barra de ferro ao ombro. Atr\u00e1s era a longa fila dos maltrapilhos em farrapos, com velhas cotas de armas, cuja malha se desfazia, morri\u00f5es amolgados, onde alguns tinham espetado plumas, as pernas nuas, as m\u00e3os erguendo foices, chu\u00e7os, fueiros. As mulheres vinham depois, umas com filhos magros pendurados das saias, outras trazendo os mais pequeninos ao colo, e as mais velhas vergando sob fardos, onde se tinha reunido o que restava nas arcas, algum escasso alqueire de p\u00e3o, uma almotolia de azeite, um peda\u00e7o de carne salgada; e atr\u00e1s ainda era outra fila de homens, velhos, pastores com o seu cajado e o seu molosso, ceifeiros erguendo ao alto a foice, servos fugidos, mendigos, longas filas de miser\u00e1veis que de esfomeados n\u00e3o podiam marchar depressa, e deixavam uma longa nuvem de poeira, que ficava suspensa no ar.<\/p>\n<p>Pelo come\u00e7o da tarde, guiados pelo velho, acharam-se subitamente, depois de terem costeado um pinheiral, diante de um castelo que duas torres flanqueavam: e nesse momento, vinha saindo da ponte levadi\u00e7a, a cavalo, um Senhor de longas brabas brancas, sem armas; ao seu lado, montada numa hacan\u00e9ia branca, uma aia sustentava no colo uma menina, e atr\u00e1s seguiam quatro escudeiros armados de lan\u00e7as. Ao ver subitamente aquela turba que avan\u00e7ava, o Senhor estacou, um dos escudeiros tocou desesperadamente a buzina, enquanto outros toques respondiam sobre as ameias. E, voltando a \u00e9gua, a aia galopou para dentro do castelo. J\u00e1 as muralhas se cobriam de soldados. Mas o Senhor, desarmado, fixara, sem se mover, os seus olhos de \u00e1guia sobre a turba imensa de maltrapilhos, que numa fila, sobre o caminho tortuoso, soltava grandes gritos de ataque, brandindo os ferros. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, com um grande gesto de sua barra de ferro deteve a turba que parou. E, arrojando a barra, avan\u00e7ou s\u00f3 com os bra\u00e7os abertos para o Senhor, im\u00f3vel no seu grande corcel. Toda a muralha em cima estava coberta de arqueiros, de homens de armas. Todo o caminho embaixo estava negro da multid\u00e3o dos maltrapilhos. E na ponte levadi\u00e7a, o cavaleiro e o gigante ficaram s\u00f3s, face a face.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, arrancando uma grande voz do peito, Crist\u00f3v\u00e3o gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Vimos em paz. Trazemos as mulheres e as crian\u00e7as. Nada temos contra ti\u2026 Mas todos os que me seguem t\u00eam fome. Detr\u00e1s das tuas muralhas, h\u00e1 tesouros, arcas cheias de p\u00e3o, grandes pe\u00e7as de carne diante da lareira\u2026 Estes, que v\u00eam comigo, n\u00e3o t\u00eam uma moeda de cobre, trabalham toda a vida, sofrem da fome, v\u00eaem as criancinhas devorar as ra\u00edzes, morrem pelos cantos dos bosques como um lobo, e a vida toda para eles \u00e9 um tormento\u2026 D\u00e1 uma esmola da tua abund\u00e2ncia a toda essa pobreza que passa. Se queres, vem, n\u00e3o receies, passa atrav\u00e9s dessa multid\u00e3o, olha para esses corpos magros, v\u00ea as criancinhas chorando com fome, as velhas trope\u00e7ando sob os fardos, toda uma mis\u00e9ria que j\u00e1 n\u00e3o pode sofrer mais\u2026 Tem piedade!<\/p>\n<p>E tendo assim falado, Crist\u00f3v\u00e3o recaiu na sua simplicidade, ficou mudo, est\u00fapido, com os seus grandes olhos de boi de trabalho pregados nos castelo. Devagar, o Senhor voltou as r\u00e9deas, e a passo, com a cabe\u00e7a baixa e pensativa, sumiu-se sob a porta do castelo. Mas as portas n\u00e3o se fecharam \u2013 e dentro em pouco, um servo saiu arrastando uma vaca; outros trouxeram carneiros; outros fortes gigos com p\u00e3o, sacos de fava; outros uma arca, que vinha cheia de dinheiro; e tendo juntado tudo num monte diante da ponte levadi\u00e7a, uma dos servos gritou, retirando:<\/p>\n<p>\u2014 Este \u00e9 o dom do meu Senhor aos pobres que passam!<\/p>\n<p>E a ponte levadi\u00e7a subiu com um forte ranger de correntes de ferro.<\/p>\n<p>Comandada pelo velho, sem desordem, os Jacques carregaram \u00e0s costas, nos carros, o dom do Senhor, e de novo se meteram ao caminho, levando na frente Crist\u00f3v\u00e3o, que parecia mudo e como espantado, com sua grande barra de ferro.<\/p>\n<p>Um regato corria, na falda da colina. E a\u00ed ficaram os Jacques, para passar a noite. Em breve se acenderam fogos. O velho p\u00f4s sentinelas em todos os cantos. E nessa noite as crian\u00e7as n\u00e3o choraram com fome, e houve uma gratid\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o dos homens. Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o quis mais que um peda\u00e7o de p\u00e3o. Bebeu da \u00e1gua pura do regato \u2013 e toda a noite, sentado numa pedra, enquanto estirados no ch\u00e3o, sob as \u00e1rvores, os Jacques dormiam, ele olhou as estrelas, e pensou em Jesus, que estava por tr\u00e1s, e \u00e0quela claridade das suas l\u00e2mpadas, o via talvez entre esses desgra\u00e7ados, como um pai entre os seus filhos.<\/p>\n<p>De madrugada, os Jacques levantaram o campo, e guiados sempre pelo velho e pelo frade, partiram ao longo do regato, at\u00e9 que chegando aos primeiros carvalhos de um grande bosque, sentiram um cheiro nauseabundo, e viram um homem, um servo, enforcado num ramo de \u00e1rvore, e j\u00e1 meio ro\u00eddo pelos corvos. Uma indigna\u00e7\u00e3o correu entre os Jacques, quando alguns que se tinham adiantado descobriram outros corpos pendentes das \u00e1rvores. Ao rumor da turba, os corvos fugiam de entre as ramagens: e sob os p\u00e9s dos mortos, suspenso no alto, o ch\u00e3o estava todo espezinhado das patas dos lobos. L\u00e1 em cima, numa colina, negras na luz clara, apareciam as torres de um castelo. E aquilo era decerto a justi\u00e7a do Senhor!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um clamor de c\u00f3lera correu entre os Jacques. Uns queriam lan\u00e7ar fogo \u00e0 floresta, para envolver o castelo. Outros falavam em abater as \u00e1rvores, para fazer ar\u00edetes com que bater as muralhas. E Crist\u00f3v\u00e3o, impelido pela multid\u00e3o, que atr\u00e1s dele brandia as foices e os chu\u00e7os, come\u00e7ou a subir um caminho que levava ao castelo, entre as rochas que o musgo cobria.<\/p>\n<p>Avistaram, por fim, ladeando uma torre de menagem, altas muralhas negras e sombrias, com grandes manchas brancas de pedra nova, que eram como cicatrizes de ass\u00e9dios. A ponte levadi\u00e7a estava fechada, o gradil de ferro descido. E uma estacada de vigas cercava o fosso, de \u00e1gua esverdeada. Nem um rumor sa\u00eda das muralhas. Tudo parecia abandonado. De um dos lados, grandes rochas  rolavam em desordem, para um precip\u00edcio. Uma \u00e1guia voava nas alturas.<\/p>\n<p>Uma inquieta\u00e7\u00e3o deteve os Jacques ante aquele sil\u00eancio sinistro. Alguns, pensando o castelo abandonado, gritavam que se seguisse. Outros falavam de o escalar. E Crist\u00f3v\u00e3o, ao acaso, caminhou para a ponte levadi\u00e7a. Mas, subitamente, as correntes rangeram,  a ponte abateu, e das portas que se escancararam, um tro\u00e7o de cavaleiros saiu, de viseira baixa, a lan\u00e7a em riste, num grande galope e estridor de armaduras. Os Jacques recuaram em massa. Crist\u00f3v\u00e3o estava s\u00f3 no planalto.<\/p>\n<p>\u00c0 frente dos cavaleiros, um, de grandes plumas brancas no elmo, a lan\u00e7a enristada, correu sobre ele. Crist\u00f3v\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tinha a sua barra de ferro.<\/p>\n<p>Mas correu a um pinheiro, agarrou-o \u00e0s m\u00e3os ambas, arrancou-o da terra, e tomando-o como uma monstruosa vassoura, atirou-o num gesto de servo que varre, contra o cavaleiro e o cavalo, que rolaram, com um estampido de armas, embrulhados na rama densa. Num pulo Crist\u00f3v\u00e3o empolgou o cavaleiro, e segurando-o entre os joelhos como uma crian\u00e7a d\u00e9bil, partiu-lhe as fivelas do elmo, descobriu uma cabe\u00e7a l\u00edvida, uma espessa barba ruiva. Depois, erguendo-o ao ar como um broquel contra os outros cavaleiros, que tinham estacado num espanto mudo, gritou desesperadamente: \u201cresgate, resgate!\u201d Os Jacques cercavam Crist\u00f3v\u00e3o, querendo despeda\u00e7ar o Senhor prisioneiro. E ele erguia mais alto o miser\u00e1vel, que nem se movia, seguro nas m\u00e3os de ferro, e gritava: \u201cResgate, resgate!\u201d<\/p>\n<p>Os outros cavaleiros, num furor s\u00fabito, correram sobre ele. Mas Crist\u00f3v\u00e3o, saltando para a beira do precip\u00edcio, debru\u00e7ou sobre ele o prisioneiro, como se fosse despenhar na corrente e nas penedias, gritando sempre: \u201cResgate!\u201d Ent\u00e3o os cavaleiros pararam, e rapidamente consultaram-se, com grandes gestos dos seus guantes de ferro at\u00e9 que um, avan\u00e7ando, bradou: \u201cEst\u00e1 resgatado!\u201d<\/p>\n<p>O velho avan\u00e7ou tamb\u00e9m, e exp\u00f4s o resgate. Queria dinheiro, vinte sacos de p\u00e3o, vacas, vinho, para sustentar a sua gente, um juramento sobre a cruz que n\u00e3o seriam perseguidos, e dois carros para levar os mantimentos. O cavaleiro estendeu a m\u00e3o sobre a cruz do frade, e jurou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os Jacques, abaixando as armas, esperaram \u2013 enquanto Crist\u00f3v\u00e3o, sentado na rocha, tinha o cavaleiro atravessado sobre os joelhos, com a m\u00e3o direita agarrando-lhe as pernas, com a esquerda a garganta. Pouco a pouco os servos sa\u00edram da castelo trazendo o resgate \u2013 e os Jacques desceram o caminho, rodeando os animais e os dois carros com os sacos, o ouro e os odres de vinho; Crist\u00f3v\u00e3o ficara s\u00f3 com o cavaleiro. Quando o \u00faltimo homem desapareceu para al\u00e9m da colina, ele pousou o cavaleiro no ch\u00e3o com cuidado, e murmurou simplesmente: \u201cVai\u201d.<\/p>\n<p>E, sem se voltar, passo a passo, foi-se juntar aos Jacques.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7ou, de castelo em castelo, atrav\u00e9s das prov\u00edncias, a marcha dos Jacques. Das aldeias por onde eles passavam corriam a juntar-se-lhes miser\u00e1veis, servos revoltados, mendigos. Agora era uma multid\u00e3o imensa que enchia os caminhos. Mas n\u00e3o havia neles nem viol\u00eancia, nem c\u00f3lera. Iam mostrando, atrav\u00e9s das baronias ricas, a sua mis\u00e9ria de servos, e sem viol\u00eancia pediam esmolas. Crist\u00f3v\u00e3o era como um grande pai, que mendigava junto com os seus filhos, pelos caminhos. Ao chegar diante dos castelos, mostravam os seus andrajos, as faces maceradas, as cicatrizes da servid\u00e3o, e gritavam por p\u00e3o. As portas abriam-se com fragor, e uns por piedade, outros por temor, davam dos seus cofres e dos seus celeiros. Dia e noite, Crist\u00f3v\u00e3o mantinha a ordem na turba imensa. N\u00e3o permitiam que despojassem as \u00e1rvores dos frutos, que se tomasse o gado nas pastagens. S\u00f3 era aceite o que a caridade dava. Se encontrava mendigos, histri\u00f5es famintos, gritava com um grande gesto: \u201cVinde tamb\u00e9m\u201d. O seu cora\u00e7\u00e3o queria abrigar toda a mis\u00e9ria humana, lev\u00e1-la a esmolar pelas estradas do mundo. Do dinheiro recebido, repartia com as aldeias pobres. As crian\u00e7as corriam, estendendo os saios, que ele \u00e0s m\u00e3os-cheias enchia de gr\u00e3o, de fava. Uma do\u00e7ura ia tomando aqueles cora\u00e7\u00f5es da turba miser\u00e1vel. Alguns tinham arrojado a foice. Outros, ao passar pelas ermidas ou pelos cruzeiros, ca\u00edam de joelhos chorando.<\/p>\n<p>E sempre adiante, Crist\u00f3v\u00e3o ia como uma torre que marchava. Uma adora\u00e7\u00e3o subia para ele. \u201cSanto \u00e9 o nosso gigante\u201d \u2013 diziam. E, na sua confian\u00e7a, julgavam que a vida seria assim, eternamente, uma marcha pelos caminhos, recolhendo os bens que os nobres repartiam com os pobres. Decerto Jesus voltara \u00e0 Terra. Em breve todos os castelos se abririam, e partilhadas as riquezas, quebradas as armas, n\u00e3o haveria fomes nem guerras, e apenas, na paz dos campos doces, irm\u00e3os abastados. O acampamento, quando paravam, era como aldeia em festa, onde a carne abunda no espeto, e todas as m\u00e3os t\u00eam uma fatia de p\u00e3o. J\u00e1 a marcha se abrandava, e por vezes ficavam num vale, ou \u00e0 beira de um ribeiro, num repouso feliz, esquecidos de todas as mis\u00e9rias . Dos filhos, das mulheres que tinham ficado nas aldeias, ningu\u00e9m se inquietava \u2013 porque, cada dia, partiam mensageiros a levar aos casebres dinheiro e provis\u00f5es. Mas alguns, tendo feito o seu pec\u00falio, recolhiam \u00e0s suas moradas distantes, sem receio, tanta era a confian\u00e7a em Jesus.<\/p>\n<p>E Crist\u00f3v\u00e3o sentia uma alegria imensa. De dia e de noite vigiava a turba enorme, para que nela nada houvesse de violento ou de brutal. As quest\u00f5es que surgissem, aplacava-as estendendo os bra\u00e7os. Se algu\u00e9m roubava as frutas dos caminhos, expulsava-o da turba. A todos distribu\u00eda a sua justi\u00e7a. A todos dava a sua caridade. E era ele, n\u00e3o outro, que tirava os espinhos dos p\u00e9s feridos, ou amparava os velhos fatigados das marchas.<\/p>\n<p>Assim vagueavam, quando uma tarde, chegando a uma grande lagoa, que, orlada de canaviais, brilhava ao sol do Outono, viram do outro lado um longo tro\u00e7o de cavaleiros, cujos pend\u00f5es tremulavam no ar. Costeando a lagoa, decerto se encontrariam: e os Jacques e os cavaleiros pararam, um momento surpresos.<\/p>\n<p>Uma grande plan\u00edcie estendia-se entre eles, toda cheia e coberta da erva amarelada do Outono, desenrolando-se at\u00e9 a uma fileira de colinas, que grandes pinheirais vestiam. O sol brilhava sobre as \u00e1guas das lagoa \u2013 e havia um vasto sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u00c0 frente dos Jacques inquietos, Crist\u00f3v\u00e3o ficara pensativo, um instante: \u2013 e ia marchar para os cavaleiros, pedir a caridade para os seus pobres, quando por tr\u00e1s a turba gritou: \u201cPara! para!\u201d Os homens de armas, desenrolando uma longa linha de batalha, galopavam com as lan\u00e7as enristadas contra a turba miser\u00e1vel. Com um brado, o velho mandou-os erguer os chu\u00e7os, as foices, as lan\u00e7as, fazendo uma sebe de ferro contra aquela pesada cavalaria, toda negra e de ferro, que fazia tremer o ch\u00e3o. J\u00e1 chegavam, j\u00e1 Crist\u00f3v\u00e3o sentia o arquejar dos cavalos \u2013 quando um grande, imenso clamor soou, e a confusa massa de ferro abateu sobre os Jacques, com um grande ru\u00eddo de armas, furiosos golpes de montantes, cavando, com o peitoral em espor\u00e3o dos cavalos, grandes sulcos entre os Jacques, que tombavam varados pelas lan\u00e7as, decepados pelos espad\u00f5es vibrados \u00e0s duas m\u00e3os. A legi\u00e3o dos Jacques ficou separada em dois peda\u00e7os \u2013 com uma grande fenda no meio, toda cheia de cad\u00e1veres , espezinhados pelas patas dos grandes corc\u00e9is. E j\u00e1 esses dois peda\u00e7os corriam sobre o tro\u00e7o dos cavaleiros, quando este se separou em dois, fazendo face \u00e0s duas alas dos Jacques e enchendo a plan\u00edcie com o clamor de duas batalhas. Pe\u00f5es, cavaleiros, misturados, faziam duas massas clamorosas, onde os chu\u00e7os dos Jacques se quebravam contra as armaduras, a as longas clavas com puas dos cavaleiros esmagavam cr\u00e2nios, que apenas algum velho morri\u00e3o de ferro protegia. Os clarins dos cavaleiros tocavam furiosamente. Um relampejar de ferro enchia o ar, por entre o esvoa\u00e7ar dos grandes penachos.<\/p>\n<p>Os Jacques, tendo bem depressa quebrado o seu pobre armamento, arremessavam-se sobre os pesco\u00e7os e garupas dos cavalos e derrubavam a bra\u00e7o o cavaleiro que, tombando com um grande ru\u00eddo de armas, desaparecia, sob os bra\u00e7os armados de facas. Outros, com foices, abriam o ventre aos cavalos. Alguns cavaleiros combatiam a p\u00e9, fazendo largos c\u00edrculos com as espadas: \u2013 e as pedras, que os Jacques lhes arremessavam, soavam furiosamente sobre o metal das coura\u00e7as. Quatro grandes ceifeiros, caminhando a passo como num milharal maduro, iam, com um movimento regular, lan\u00e7ando as suas foices, que apanhavam os jarretes dos cavalos, levavam bra\u00e7os de onde se tinham desprendido as braceiras de ferro, apanhavam pelas gorjas guerreiros sem capacete. E no meio do combate, sem armas, como n\u00e3o querendo derrubar sangue, Crist\u00f3v\u00e3o, esguedelhado, enorme, ia com os seus bra\u00e7os enormes arrancando cavaleiros das selas e atirando-os para o ch\u00e3o como fardos de ferragens. O sangue j\u00e1 lhe escorria, da face, do peito, atrav\u00e9s do seu sai\u00e3o de couro, retalhado em longas fendas. Os seus imensos brados faziam empinar os cavalos. Lan\u00e7ando m\u00e3o aos montantes, quebrava-os como palha. As puas e os broqu\u00e9is que arrancava iam pelos ares, como folhas que uma rajada leva. Por vezes, correndo, com os dois bra\u00e7os e os punhos fechados, mais grossos que cabe\u00e7as de carneiros, atirava por terra, com um baque seco, os cavalos e os seus cavaleiros. Tendo dado com o p\u00e9 num mont\u00e3o de cordas, apanhou-o, e quando agarrava algum passava-lhe um n\u00f3 nas pernas e assim o deixava deitado no ch\u00e3o, como uma r\u00eas num mercado. Pouco a pouco, todos os guerreiros se tinham voltado contra ele. E sem armas, tendo apanhado pelos p\u00e9s um cad\u00e1ver coberto de armadura, que usava como uma ma\u00e7a, ele ia recuando, at\u00e9 a alta colina coberta de pinheiros. Sobre ele ca\u00edam as flechas, sobre ele ressoavam as pedras dos fundeiros. O gigante recuava mais \u2013 e subitamente, correndo contra os assaltantes, derribava um, prostrava outro, com grandes pancadas do cad\u00e1ver, que j\u00e1 perdera o capacete. O c\u00edrculo dos cavaleiros crescia todavia sobre ele, gritando-lhe inj\u00farias, arremessando-lhe de longe as ma\u00e7as. E cada vez mais esse c\u00edrculo era mais estreito, e todo eri\u00e7ado de ferros que rebrilhavam. Ele, sereno, fazia girar em torno o cad\u00e1ver, cuja armadura se quebrara pouco a pouco, n\u00e3o tendo mais que os coxotes das pernas por onde o segurava Crist\u00f3v\u00e3o, e mostrando j\u00e1 a carne branca, os cabelos duros do peito. Mas de tanto bater, por fim, foi pouco a pouco perdendo a for\u00e7a da ossatura, tinha o cr\u00e2nio quebrado, os bra\u00e7os moles como trapos, a arca do peito esmigalhada \u2013 e aquela arma terr\u00edvel n\u00e3o era j\u00e1 nas m\u00e3os de  Crist\u00f3v\u00e3o, mais que uma tira de carne mole. Mas chegara \u00e0 colina. A\u00ed, em cada pinheiro tinha uma arma. E j\u00e1 se voltara, atirava as m\u00e3os a um tronco enorme para o desarraigar, quando uma flecha, varando-lhe o joelho, o abateu um momento, fazendo-o escorregar no declive \u00famido da colina. Ent\u00e3o, num instante, um grande corcel negro veio sobre ele, uma lan\u00e7a faiscou \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o ficou prostrado, im\u00f3vel, com uma espuma de sangue na boca.<\/p>\n<p>Todos se tinham precipitado sobre ele, quando um clamor surgiu por tr\u00e1s. Eram os Jacques que se tinham reunido, e, guiados pelo frade, vinham contra aquele grupo de cavaleiros, entalados contra a colina, nas terras moles onde os p\u00e9s dos cavalos se enterravam. Ent\u00e3o os homens de lan\u00e7a voltaram r\u00e9deas, e fugiram entre a colina e os Jacques, de novo diretos \u00e0 plan\u00edcie, juncada de mortos. Os Jacques bradavam vendo fugir os cavaleiros, e come\u00e7aram a correr atr\u00e1s deles, atirando as \u00faltimas flechas \u2013 arremessando mesmo por esc\u00e1rnios grossos torr\u00f5es de terra lamacenta. Mas, vendo os pe\u00f5es assim expostos na plan\u00edcie, os cavaleiros deram um volta brusca, e abaterem-se contra os miser\u00e1veis. Foi uma grande matan\u00e7a, o frade ca\u00edra logo com o cr\u00e2nio aberto, a sua cruz apertada na m\u00e3o. E os que fugiam eram perseguidos por toda a parte, at\u00e9 que, atirando-se para a lagoa, as grandes lan\u00e7as por tr\u00e1s os faziam arremessar \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<p>Agora, na vasta plan\u00edcie, s\u00f3 havia homens de armas. Os Jacques juncavam a terra em negras po\u00e7as de sangue. Lentamente, trotando, os cavaleiros acabavam os feridos, que gritavam de sede. Outros, parados, tirando os  morri\u00f5es, limpavam as grossas gotas de suor. Os f\u00edsicos amarravam os bra\u00e7os feridos. E os pajens passavam com grandes pich\u00e9is de vinho. O sol desaparecia, e toda a lagoa era como de ouro, por tr\u00e1s dos seus grandes canaviais negros. Uma revoada de patos passou no c\u00e9u, j\u00e1 p\u00e1lido. E ao toque de clarim os Senhores, ainda esparsos, vieram-se juntando, retomando a fila. Os feridos foram postos sobre as carretas. E, a passo, o tro\u00e7o dos cavaleiros retomou o caminho em torno \u00e0 lagoa, onde o brilho de ouro se apagara, deixando-a agora negra e triste.<\/p>\n<p>Na vasta plan\u00edcie, jazem os Jacques mortos. Findou a grande marcha, que levava aos castelos e abadias a vis\u00e3o estranha das grandes mis\u00e9rias da terra. Nenhum mais voltar\u00e1 \u00e0s cabanas da aldeia, onde os filhos esperam at\u00e9 tarde na lareira apagada. Os Jacques est\u00e3o mortos, a terra limpa dos seus andrajos.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o jaz estendido na colina, entre os pinheiros. Um vento passa, frio e triste. Ele abre os olhos, e a custo, erguendo-se sobre a m\u00e3o, olha a plan\u00edcie. E em toda a sua extens\u00e3o, v\u00ea mont\u00f5es de corpos mortos, entre os quais reluzem j\u00e1 os olhos dos lobos. A grande lagoa est\u00e1 im\u00f3vel. Por cima passa a lua cheia. Uma dor imensa arrefece o seu cora\u00e7\u00e3o. De novo os seus olhos se fecharam \u2013 e caiu inanimado.<\/p>\n<p>Toda a noite, no entanto, ele reviu a batalha. De mont\u00f5es de Jacques mortos outros Jacques se levantavam com outros trajes, outras armas, impelidos \u00e0 revolta pela mesma mis\u00e9ria que os oprimia. E sempre do fundo do horizonte, dos altos montes, dos cimos, desciam cavaleiros, que tinham armas diversas, gritos de guerra diversos, que carregavam, esmagavam os Jacques, os deixavam mortos, sob a grande lua cheia. mas desses, pouco a pouco, mais p\u00e1lidos, outros se erguiam, brandindo picaretas de mineiros, ferramentas de oficina, mostrando os seus andrajos, os filhos esfaimados, clamando justi\u00e7a. E logo, a um brado do alto, fortes esquadr\u00f5es desciam, trazendo \u00e0 frente magistrados, togados, homens carregados de sacos de ouro, e essa massa, caindo sobre os Jacques, de novo os prostrava, os deixava num mont\u00e3o, que a Lua, mais p\u00e1lida e mais desmaiada, cobria de alvura e sil\u00eancio. E assim, indefinidamente, os Jacques renasciam, dos ossos dos Jacques mortos, cada vez mais numerosos, at\u00e9 que a plan\u00edcie toda era uma sar\u00e7a de bra\u00e7os magros, clamando, pedindo igualdade. E imediatamente outros esquadr\u00f5es desciam, mais diminu\u00eddos, com um arranque menos vivo, hesitando, lan\u00e7ando golpes mais frouxos. At\u00e9 que. por fim, os Jacques eram t\u00e3o inumer\u00e1veis, que da plan\u00edcie se estendiam aos montes, e a Lua, que j\u00e1 desmaiara de todo, alumiava multid\u00f5es disciplinadas, armadas, conscientes, que avan\u00e7avam com ordem e ritmo. Os esquadr\u00f5es, mandados contra estas coortes, fundiam-se como cera numa chama; Os Jacques ocupavam a terra. Um \u00faltimo cavaleiro veio ainda, e, derrubado, largou as armas, desapareceu. E sobre a terra s\u00f3 ficavam Jacques, que cantavam em triunfo na frescura da manh\u00e3 clara.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sentindo na face esta frescura, Crist\u00f3v\u00e3o entreabriu os olhos, ainda vago, meio dormente, como num sonho. A luz fria e pura da manh\u00e3 penetrava sob as ramagens que o cobriam. As aves cantavam finamente nos ninhos, com frufrus de asas, de ramo em ramo. Um doce cheiro de rosmaninho e verduras novas perfumava o ar. E na relva toda \u00famida, lustrosa de orvalho, havia em redor flores silvestres, bot\u00f5es de ouro, papoulas frescas, um fio de \u00e1gua cantava friamente de pedra em pedra.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o pareceu a Crist\u00f3v\u00e3o que via um mo\u00e7o, de longos cabelos louros, com uma t\u00fanica branca, onde se cruzavam as pregas de um manto branco, surgir entre as ramas dos pinheiros, ao longe, vir para ele encostado a uma vara branca. Os seus passos eram t\u00e3o leves, t\u00e3o leve decerto o linho do seu vestido, que  as papoulas n\u00e3o se dobravam, quando ele sobre elas passava, ligeiro e branco. E na penumbra dos arvoredos, um sulco branco ficava, por onde ele passava, com um aroma t\u00e3o doce como se desabrochassem naquela terra flores que n\u00e3o s\u00e3o da terra. Pouco a pouco se aproximou: \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o podia ver os seus olhos pousados sobre ele, como duas estrelas da tarde. Docemente ajoelhou ao lado de Crist\u00f3v\u00e3o, pousando o seu bast\u00e3o t\u00e3o levemente que nem vergou as pontas finas das ervas. Com os dedos mais macios que veludo, percorreu as feridas de Crist\u00f3v\u00e3o, que sentia as dores desaparecerem e como uma for\u00e7a nova que lhe voltava. Depois rasgou uma tira do seu manto, pousou-a sobre as feridas,a  da perna, a do peito; e aquela tira de linho parecia a Crist\u00f3v\u00e3o leve como o ar e perfumada como um jasmim. Depois, apanhando os eu bast\u00e3o branco, em sil\u00eancio, partiu, penetrou no bosque, e pouco a pouco se perdeu entre os troncos negros, que um momento conservaram como a claridade daquela passagem branca. Os p\u00e1ssaros recome\u00e7aram a cantar. De novo as ramagens se moveram brandamente. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o moveu os bra\u00e7os \u2013 depois ergueu o seu imenso corpo. Todas as suas feridas estavam fechadas. E sentindo uma for\u00e7a nova, aquele bom gigante cortou atrav\u00e9s do pinheiral, e recome\u00e7ou a correr mundo.<\/p>\n<p>XVI <\/p>\n<p>Percorreu ent\u00e3o longas terras. E por cidades e campos s\u00f3 buscou na simplicidade do seu cora\u00e7\u00e3o ser \u00fatil e bom. Batia \u00e0 porta das cabanas, perguntava se eram necess\u00e1rios ali dois bra\u00e7os fortes, para todos os trabalhos. N\u00e3o pedia sal\u00e1rio. A c\u00f4dea menor de p\u00e3o era a que lhe bastava. E a \u00e1gua tinha-a nos regatos mais frescos. Nenhum servi\u00e7o por mais forte, ou vil, lhe custava. Limpava todas as imund\u00edcies, com um cuidado piedoso: e pedia sempre para si o maior fardo. Tirava a machada das m\u00e3os dos lenhadores, para abater as florestas. Puxava os barcos \u00e0 sirga. Atrelava-se aos varais dos carros. E se um campon\u00eas queria mandar o seu burro \u00e0 igreja, para ser benzido e liberado de todo o mal, ele carregava o burro \u00e0s costas, com tanto cuidado como se fosse uma donzela. Se o injuriavam, baixava a face humildemente. Se o espancavam, ficava im\u00f3vel e quieto sob os golpes. Se o despediam, apanhava o seu bord\u00e3o e sa\u00eda suspirando.<\/p>\n<p>Nos caminhos, sentava-se nas encruzilhadas para guiar os peregrinos ou histri\u00f5es. Se havia algum grande lama\u00e7al, ficava \u00e0 beira dele para passar aos ombros os homens e os animais. Era ele que partia as rochas, para se constru\u00edrem caminhos. E nas florestas onde sabia que deviam passar caravanas de mercadores, acendia grandes fogueiras para afugentar os javalis.<\/p>\n<p>Por vezes aceitava servir s\u00f3 um amo. Foi assim o servo de um curandeiro e puxava, como um macho, a grande carriola, onde tilintavam os boi\u00f5es das ervas simples e dos ung\u00fcentos, e que parava nos adros das igrejas \u00e0 tarde, depois das missas. Mas sentindo que o f\u00edsico era interesseiro e duro \u2013 deixou o servi\u00e7o. Foi depois o escudeiro de um cavaleiro errante, que encontrou banhando a ferida de uma perna \u00e0 beira de uma fonte. Crist\u00f3v\u00e3o sarou-lhe a ferida, e come\u00e7ou a segu\u00ed-lo nas suas aventuras, caminhando, atr\u00e1s do seu corcel, com uma ma\u00e7a feita de um pinheiro. Com o cavaleiro fez grandes proezas. Libertou servos que um Senhor duro levara a enforcar por eles n\u00e3o lhe terem tirado o barrete na estrada; desbaratou salteadores que infestavam os bosques; restituiu a um \u00f3rf\u00e3o o condado que lhe haviam roubado parentes avaros: \u2013 mas, como o cavaleiro tivesse ajudado a salvar uma dama, veio a casar com ela, teve um solar, abandonou os caminhos, e Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o querendo ficar naquela ociosidade, deixou o bom cavaleiro, levando, como paga, uma bolsa farta de ouro, bons vestidos quentes, que ele logo distribuiu aos pobres.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, seguindo o exemplo do cavaleiro, passou a socorrer os oprimidos. De noite, ao passar pelos castelos, derrubava as forcas patibulares. Se sabia de um campo que fora roubado, for\u00e7ava o ladr\u00e3o \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o. Salvou os bandos de mercadores que os Senhores, com grandes lan\u00e7as, assaltavam nos caminhos para os roubar. Onde soubesse que o Senhor tinha imposto um trabalho excessivo aos servos, ia ele, n\u00e3o outro, fazer o trabalho. Nunca diante dele deixava castigar uma crian\u00e7a. Se, passando num casal, ouvia uma mulher chorar, e rumor de pancadas, quebrava a porta, tirava o pau das m\u00e3os do marido. Quando soldados deviam passar numa aldeia, ele ficava de guarda, para impedir as crueldades da tropa. E ningu\u00e9m ousava afront\u00e1-lo. J\u00e1 ia, ent\u00e3o, envelhecendo. Os seus cabelos tinham se tornado mais crespos, hirsutos: trazia sobre o corpo farrapos, e a barba era rude e forte como um mato. Sob a barba, e sob as sobrancelhas ficava invis\u00edvel a do\u00e7ura incompar\u00e1vel do seu olhar, do seu sorrir \u2013 e para os que o viam, na verdade o seu aspecto era horrendo e temeroso.<\/p>\n<p>Quando entrava nas cidades, as crian\u00e7as fugiam, todas as portas se fechavam \u2013 e os homens de guarda acudiam a saber de onde viera, a que baronia pertencia, e se tinha licen\u00e7a de vaguear nos caminhos. Ele respondia que s\u00f3 queria trabalhar: e t\u00e3o humilde e quieto ficava,  junto de uma fonte ou ao canto de uma pra\u00e7a, que bem depressa as portas se abriam, e, j\u00e1 sorrindo, as crian\u00e7as voltavam. Todas faziam lembrar a Crist\u00f3v\u00e3o a Joana da sua aldeia. A essa hora ela devia ser mulher, e talvez, por seu turno, trouxesse pendurada das saias uma crian\u00e7a loura e graciosa como ela fora. Chamava algumas das crian\u00e7as espantadas, fazia-as saltar sobre os joelhos. Das gelosias as m\u00e3es sorriam. J\u00e1 ningu\u00e9m receava o gigante \u2013 e ele sentido-se aceite, come\u00e7ava logo a ajudar as trolhas que erguiam uma casa, ou a um empurrar um carro atolado nas lamas. Bem depressa, todos queriam os servi\u00e7os daquela for\u00e7a imensa. E era ele que limpava os mercados, caiava as torres de fresco, transportava os fardos, apanhava a neve dos rios no Inverno, regava o p\u00f3 das ruas no Ver\u00e3o, consertava os telhados, apagava os inc\u00eandios \u2013 e, sentado \u00e0 porta dos hospitais, ia enterrar os mortos pobres. Colando a face \u00e0s altas grades das pris\u00f5es, consolava os presos, ajudava nos seus trabalhos os for\u00e7ados, e tendo reunido o seu sal\u00e1rio em p\u00e3o ou em dinheiro, sentava-se num adro, e distribu\u00eda-o  pelos mendigos.<\/p>\n<p>Ora um dia, saindo de uma cidade, encontrou no caminho um pobre histri\u00e3o, com uma perna de pau, e acompanhado pela mulher doente, que amamentava o filhinho. Eram t\u00e3o miser\u00e1veis e tristes, ele com uma espada debaixo do bra\u00e7o, ela suspendendo aos ombros um saco de bolas e peloticas, que Crist\u00f3v\u00e3o come\u00e7ou a caminhar ao seu lado. Assim soube que outrora percorriam os caminhos e as feiras, ganhando amplamente a sua vida, e (desde que ele, numa queda, perdera a perna) mostrando c\u00e3es s\u00e1bios e um macaco, que faziam sortes maravilhosas. Havia dias, por\u00e9m, estando numa taberna, numa estrada, a repousar, tinham chegado os escudeiros e homens de armas de um Senhor, que, embriagados, e numa rixa, lhe tinham, a grandes cutiladas, morto o macaco e os pobres c\u00e3es. Com eles se fora a sua fortuna. Trabalhar n\u00e3o podia, assim manco. E agora s\u00f3 lhes restava mendigarem, at\u00e9 que o frio, a fome, os prostrassem uma noite, a eles e \u00e0 crian\u00e7a, mortos \u00e0 beira de um caminho. E o saltimbanco acrescentava: \u201cBem feliz \u00e9s tu, que te fez Deus t\u00e3o grande, e te podes mostrar nas feiras ganhando mais que um letrado a escrever!\u201d \u2013 Decerto, o saltimbanco o tomava a ele, Crist\u00f3v\u00e3o por um desses gigantes que se mostram nas feiras. E apenas assim pensara, Crist\u00f3v\u00e3o, com simplicidade, prop\u00f4s ao saltimbanco que a troco do p\u00e3o, e da metade do ganho, o levasse a uma feira, para o mostrar numa barraca. O pobre saltimbanco quase chorou de alegria \u2013 e logo dali partiram para uma grande feira, que todos os anos, pelo S. Miguel, se fazia junto de uma grande cidade murada.<\/p>\n<p>Chegaram l\u00e1 de noite, e tendo obtido licen\u00e7a dos guardas para entrar, o saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu emprestado o que era necess\u00e1rio para construir uma barraca, erguer os estrados, lonas vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante. O judeu, tendo examinado Crist\u00f3v\u00e3o e certo que era um monstro de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez pe\u00e7as de prata na palma do saltimbanco: \u2013 e tendo assinado o papel diante do corregedor da feira, o saltimbanco partiu com Crist\u00f3v\u00e3o, a construir a barraca. Toda a noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher do palha\u00e7o cosia \u00e0 pressa uma t\u00fanica escarlate para Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande pe\u00e7a de paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de Navarra e dos Mundos. Crist\u00f3v\u00e3o, sentado numa vasta caixa que um tapete recobria, esperava, enquanto fora o saltimbanco, tocando o tambor, anunciava a maravilha, e a mulher, com cequins de metal nas tran\u00e7as ca\u00eddas, como uma moura, esperava diante de um prato de cobre, onde deviam cair as entradas.<\/p>\n<p>A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade. As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em grandes ruas. No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais, mulheres com plumas nas cabe\u00e7as, outras com trajes de na\u00e7\u00f5es estranhas, conservavam-se por tr\u00e1s dos balc\u00f5es, onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos, reluziam j\u00f3ias em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de ess\u00eancias, se amontoavam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona, havia cozinhas, grandes barricas de cerveja ou e vinho. E os saltimbancos ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta, por toda a vasta plan\u00edcie, era uma confus\u00e3o de carros descarregados, de pilhas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves\u2026<\/p>\n<p>Apenas as portas da cidade se abriram, a multid\u00e3o come\u00e7ou a encher as ruas da feira, onde a erva desaparecera sob os p\u00e9s. E bem depressa come\u00e7ou o vozear dos preg\u00f5es, os brados dos que chamavam fregueses, os atabales tocando \u00e0 porta das tabernas, as sinetas repicando.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m fazia maior barulho que o saltimbanco coxo, rufando desesperadamente o tambor, diante da tenda onde aquele bom gigante esperava, pensativo. Bem depressa, homens do burgo, mulheres com crian\u00e7as pela m\u00e3o, os feirantes, come\u00e7aram a entrar, deixando cair uma moeda de prata no vasto prato de cobre. E apenas se levantava a cortina, era em todos os l\u00e1bios um longo ah! lento e maravilhado. A barraca era alta, em forma de torre: \u2013 e, vestido com uma longa t\u00fanica escarlate, bordada a lantejoulas e ourop\u00e9is, com um turbante onde ondeavam enormes plumas verdes, um colossal alfanje de pau passado na cinta amarela, Crist\u00f3v\u00e3o era, na verdade, um assombro, e como um ogro disforme dos contos de fadas. Cheio de timidez, n\u00e3o movia os bra\u00e7os: e um grande rubor invadia-o todo diante daquelas faces at\u00f4nitas, onde havia terror da sua for\u00e7a, e como uma piedade da sua deformidade. As crian\u00e7as escondiam-se nas saias das m\u00e3es: \u2013 e os homens espantados, queriam apalpar a rijeza dos seus m\u00fasculos. Cada grupo que sa\u00eda ia contar nas tabernas, espalhar por toda a feira a maravilha daquele gigante. J\u00e1 uma lenda circulava \u2013 e era ele, n\u00e3o outro, que derrotara o imperador da Ocit\u00e2nia, matara um grande drag\u00e3o que infestara os Algarves, e, s\u00f3 com a empurra, derrubara a torre constru\u00edda pelo Diabo para o Roberto de Normandia. Todo dia uma grande fila esperou \u00e0 porta da barraca \u2013 e \u00e0 noite sobre o prato de cobre havia um monte de dinheiro esboroado.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, Crist\u00f3v\u00e3o habituara-se \u00e0 multid\u00e3o \u2013 e mesmo, para fazer rir as crian\u00e7as, fazia esgares, ou agarrava um homem pelas pernas e erguia-o como uma palha ligeira. Depois levantou com dois dedos uma barrica cheia de pedras, torceu com os dentes grossas barras de ferro, e de uma s\u00f3 pancada, com o punho fechado, fendeu uma m\u00f3 de moinho.<\/p>\n<p>\u00c0 noite estava coberto de suor: \u2013 e enquanto o saltimbanco e a mulher, com a face radiante, faziam as pilhas do dinheiro, ele tomava ao colo e embalava a criancinha, que nos seus bra\u00e7os tinha um sono mais doce.<\/p>\n<p>A sua fama correra no burgo \u2013 e o pr\u00f3prio pr\u00edncipe que ali reinava, e o bispo, vieram em grande comitiva, com cavaleiros e pajens, ver o gigante. Foi grande neles a maravilha. E o pr\u00edncipe, homem de grandes m\u00fasculos, queria media as for\u00e7as com Crist\u00f3v\u00e3o, jogando a qual deles vergaria a m\u00e3o do outro. E diante daqueles cavaleiros, por humildade, Crist\u00f3v\u00e3o cedeu, e deixou que a m\u00e3o cabeluda do pr\u00edncipe vergasse a sua. Os cavaleiros aclamavam o Senhor. E o pr\u00edncipe, radiante, despejou a sua bolsa cheia de ouro nas m\u00e3os de Crist\u00f3v\u00e3o, isentou a barraca do saltimbanco de todos os impostos ao corregedor, e mandou, de noite, mo\u00e7os da cozinha com tochas, trazer uma perna de veado e empad\u00f5es de sua mesa.<\/p>\n<p>Toda a noite, os saltimbancos, partindo o dinheiro, dava a sua metade a Crist\u00f3v\u00e3o \u2013 que ele guardava numa cova, a um canto da barraca, coberto com uma m\u00f3 de moinho. Depois ia pela feira solit\u00e1rio, e todo o servi\u00e7o era ele que o fazia. Carregava as barricas de vinho, descarregava os fardos, limpava o ch\u00e3o das barracas, e, \u00e0 porta das cozinhas, fazia a lavagem dos pratos de estanho.<\/p>\n<p>Mas o fim da feira chegara, e uma noite, em que sentia o barulho das barracas que se desmanchavam, o saltimbanco contou os seus ganhos \u2013 e as l\u00e1grimas bailaram-lhe na face, porque para sempre estava ao abrigo da mis\u00e9ria. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o desenterrou o seu tesouro e, em sil\u00eancio, veio junt\u00e1-lo ao dinheiro do saltimbanco, murmurando: \u201c\u00c9 para a crian\u00e7a\u201d. Duas moedas de cobre tinham rolado no ch\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o apanhou-as, beijou-as como uma esmola que lhe atirassem, beijou a crian\u00e7a, saiu da barraca. E, tendo comprado uma broa e um pichel de vinho, deixou a feira que se desmanchava.<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>De novo Crist\u00f3v\u00e3o correu o mundo, servindo os homens. Pelos descampados e pelos povoados, por longos Invernos, por longas Primaveras, correu o mundo, oferecendo os seus bra\u00e7os. Os anos tinham passado, e Crist\u00f3v\u00e3o era mais velho que os mais velhos carvalhos. Os seus longos cabelos tinham embranquecido, e a sua for\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o forte. Mas cada dia o seu cora\u00e7\u00e3o se enchia de uma ternura maior e mais vaga. Por vezes, sentado numa pedra, \u00e0 beira de um caminho, olhava as \u00e1rvores, os campos, os montes, e as simples flores silvestres, e sentia ent\u00e3o como o desejo de apertar toda a terra contra o seu peito. Depois pensava que sobre ela viviam tantos miser\u00e1veis, tantos humildes, tantos enfermos \u2013 e era um desejo de sondar at\u00e9 aos \u00faltimos recantos aquele mundo, e de curar cada dor, matar cada fome, tornar o mundo alegre, s\u00e3o, perfeito. Partia ent\u00e3o \u2013 e atrav\u00e9s das estradas mendigava para dar aos mendigos. Colocava-se \u00e0 entrada das pontes, como um socorro sempre pronto \u2013 a ajudar um velho ou a carregar um fardo. O seu desejo seria sofrer ele s\u00f3 todas as opress\u00f5es, carregar ele s\u00f3 todos os fardos humanos. E por vezes parava, olhava em redor, como procurando, nos vastos horizontes, servi\u00e7os a prestar, fraquezas a socorrer. Depois pensava que eles, inumer\u00e1veis decerto se apresentariam cedo aos seus olhos; e partia, ficando triste, quando durante o da\u00ed os seus bra\u00e7os tinham permanecido ociosos. Para que lhos dera ent\u00e3o Jesus t\u00e3o grosso e fortes?  Ia ent\u00e3o sentar-se \u00e0 entrada das pontes, onde a passagem era maior, como uma for\u00e7a pronta a trabalhar, pronta a socorrer. Se era um cavaleiro que passava, corria a buscar \u00e1gua para dar ao cavalo. Se era um carreteiro, ajudava as mulas a empurrar o carro. Se era um mendigo, mendigava para ele.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a sua bondade ocupou-se dos animais. Tamb\u00e9m eles sofriam e tinham sobre a Terra o seu quinh\u00e3o de mis\u00e9ria e de dor. Quando via ent\u00e3o um animal carregado, tomava sobre os seus ombros o fardo. Recolhia ossos, pelas esquinas dos mercados, para distribuir aos c\u00e3es famintos. era o enfermeiro dos animais feridos, a quem lavava as chagas, onde as moscas se prendiam. Um passarinho, voando, enchia-lhe o peito de ternura. E penetrava nas florestas, na esperan\u00e7a de cuidar dos velhos lobos doentes, ou dos veados que morrem de fome pelos tempos de neve.<\/p>\n<p>Depois, pouco a pouco, na sua alma densa e simples veio a nascer lentamente a id\u00e9ia de que as \u00e1rvores tamb\u00e9m sofriam, bem como as florinhas dos campos. E desde ent\u00e3o nunca mais cortou um tronco, para dele fazer um cajado. Todo o ramo, partido e seco no ch\u00e3o, o compadecia. Arredava-se para n\u00e3o pisar a erva. E pelos tempos de seca fazia longas caminhadas ao rio para trazer \u00e1gua, e dar de beber \u00e0s plantas sufocadas pelo p\u00f3 dos caminhos. Nas pedras mesmo, veio por fim a suspeitar que havia algum sofrimento. A picareta que as cortava, as duras rodas que as vincavam, o sol que as escaldava, a neve que as cobria, n\u00e3o lhes fariam uma dor, que elas guardavam na profundidade da sua mudez? E muitas vezes, com o seu vasto corpo, fez sombra \u00e0s rochas: com as suas m\u00e3os, \u00e0 maneira de longas p\u00e1s, livrava as pedras da frialdade do gelo.<\/p>\n<p>A sua ternura abrangia o Universo. Por vezes, de noite, olhando o c\u00e9u, vinha-lhe como um grande amor pelas estrelas. Elas eram claras e puras. Um momento brilhavam, depois partiam. E a Lua que chegava ent\u00e3o era t\u00e3o triste, que um suspiro, sem som, levantava o cora\u00e7\u00e3o de Crist\u00f3v\u00e3o. Para onde iam assim todos aqueles astros, correndo, correndo? E viera a pensar que seriam almas subindo, subindo nos espa\u00e7os, mais altas \u00e0 medida que eram mais puras, ganhando uma l\u00e9gua por cada bondade que realizavam, e tendendo assim \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, at\u00e9 se tornaram dignas de se abismar no seio sublime de Jesus.<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que caminhava por uma colina ente rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia vir do fundo do despenhadeiro. Desceu, agarrando-se \u00e0 ponta das rochas. E viu um largo rio, negro e tumultuoso, que corria espumando sobre as rochas que o cortavam, com um mugido sombrio. \u00c0 beira dele, estava um grupo de mercadores com os seus machos carregados. E do outro lado, eram rochas, a pique, um monte que se elevava, coroado de negros pinheiros.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o desceu, apareceu diante dos homens. Todos se juntaram, tirando facalh\u00f5es do cinto, no terror daquela for\u00e7a e daquela deformidade. Depois, como ele de longe lhes falou com humildade, todos, pouco a pouco, o cercaram, perguntando o que acontecera \u00e0 ponte que ali havia. Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o sabia. E ent\u00e3o disseram-lhe que aquele era um caminho curto e f\u00e1cil que havia naquelas terras. Mas tinha aquela passagem l\u00e1, o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma ponte de barcas amarradas com correntes. Mas o rio quebrara as correntes, levara as barcas, como palhas secas. Depois tinham lan\u00e7ado uma ponte de madeira e o rio outra vez levara a ponte. No entanto o Senhor daquelas terra morrera, e tendo elas passado a um outro que vivia nas cidades, ningu\u00e9m mais se ocupara de fazer uma ponte aos viandantes. E agora ali estavam eles, sem poderem passar, e as mulheres e os filhos esperavam-nos, debalde, nas suas moradas para al\u00e9m dos montes.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, no entanto, olhava a \u00e1guia. E em sil\u00eancio mergulhou no rio, e come\u00e7ou a atravess\u00e1-lo. A \u00e1gua cobriu seus joelhos, subiu at\u00e9 a \u00e0 cintura, por fim bateu furiosamente sobre o seu peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Crist\u00f3v\u00e3o caminhava. Depois a cinta de Crist\u00f3v\u00e3o saiu da \u00e1gua, depois apareceram os seus joelhos, e a escorrer, ele p\u00f4s p\u00e9, enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um caminho \u00edngreme subia entre as fragas. Crist\u00f3v\u00e3o passara o rio.<\/p>\n<p>Voltou, e abrindo os bra\u00e7os para os mercadores espantados, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Quem quer passar?<\/p>\n<p>Um mais novo logo se ofereceu. Crist\u00f3v\u00e3o tomou-o sobre os seus largos ombros, em cada bra\u00e7o carregou um fardo, enquanto os outros ansiosos, rezavam \u00e0 Virgem. Crist\u00f3v\u00e3o passou \u2013 e do outro lado, o mercador radiante, fazia grandes gestos aos companheiros, gritava que o gigante era seguro. Ent\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o passou os homens, depois os fardos. E por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas, conduziu para o lado de l\u00e1 toda a caravana, sem que um p\u00ealo dos animais, ou uma corda dos fardos, ou um sapato dos homens se tivesse molhado. Tendo combinado baixo, os homens puseram-lhe na m\u00e3o um punhado de dinheiro, deram-lhe um rolo de cordas, e deixaram-lhe p\u00e3o para uma semana.<\/p>\n<p>Logo nesta tarde Crist\u00f3v\u00e3o, examinando aquele lugar agreste, recolheu troncos quebrados, ramarias secas, e calando a madeira na fenda das rochas, arranjou com a corda um longo, estreito telheiro, onde o seu corpo se abrigasse das chuvas e das neves. Depois, tendo desembara\u00e7ado dos pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande solid\u00e3o, que aparecessem viandantes. N\u00e3o tardaram a aparecer na outra margem um grupo de frades, que viajavam com o abade, montado numa mula. Apenas os viu, Crist\u00f3v\u00e3o atravessou \u2013 enquanto os frades aterrados, lhe faziam acenos, para que se n\u00e3o arriscasse naquelas \u00e1guas da torrente. Mas quando o viram chegar, enorme, a escorrer \u00e1gua, e com os bra\u00e7os abertos para os receber, hesitam, pensando ser uma cilada do Dem\u00f4nio. A cruz que o abade tra\u00e7ou no ar, e que Crist\u00f3v\u00e3o repetiu sobre peito, logo os tranq\u00fcilizou \u2013 murmurando entre si que ent\u00e3o, certamente, era um aux\u00edlio do Senhor. Um por um, arrega\u00e7ando o h\u00e1bito, cavalgaram Crist\u00f3v\u00e3o, e no meio do rio, sentindo a \u00e1gua furiosa bater a cinta do gigante, gritavam o nome da Virgem, estrela dos N\u00e1ufragos. Depois, quando Crist\u00f3v\u00e3o os pousava na outra margem, enxutos, era um espanto, e baixando os h\u00e1bitos, reapertando as sand\u00e1lias, riam daquela ponte viva que trabalhava nas \u00e1guas. O abade passou, passou a sua mula. E os frades deixaram a sua ben\u00e7\u00e3o ao gigante e um ramo de buxo benzido.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o para Crist\u00f3v\u00e3o uma vida est\u00e1vel, quieta, junto daquele rio. Nas horas em que n\u00e3o havia gente, esperava sentado numa pedra, olhando correr a \u00e1gua, ou ent\u00e3o alargava o caminho e constru\u00eda \u00e0 beira da \u00e1gua, com pedras, como um cais onde a gente lhe subia para as costas. A cada instante, por\u00e9m, havia algu\u00e9m a passar \u2013 e como Crist\u00f3v\u00e3o era j\u00e1 conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: \u201cEh gigante!\u201d Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em inj\u00farias. Outros, que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e humilde, fendia as \u00e1guas. Por vezes era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e rindo o espica\u00e7ava com os acicates. Outras vezes era uma dama que se horrorizava com a fealdade de Crist\u00f3v\u00e3o, tapava a face, e apenas passada para a outra margem lhe fugia das m\u00e3os, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de guerra, furiosos, mordiam-lhe os bra\u00e7os. E os galgos, latindo, queriam saltar para o rio, entre a indigna\u00e7\u00e3o dos fidalgos, que atiravam pedras a Crist\u00f3v\u00e3o. Nenhum esfor\u00e7o custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho. pedras enormes para a constru\u00e7\u00e3o das abadias. Passou touros, que iam para um curro de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe deixavam sobre a pele o pus das duas f\u00edstulas.<\/p>\n<p>Se lhe n\u00e3o pagavam, baixava a cabe\u00e7a, saudando com humildade. Se lhe pagavam, beijava a escassa moeda de cobre: \u2013 e guardava debaixo de uma pedra esse dinheiro, para o repartir com os mendigos.<\/p>\n<p>Assim vivia desde longos anos. A sua cabe\u00e7a j\u00e1 se vergava, os seus bra\u00e7os j\u00e1 n\u00e3o eram t\u00e3o fortes. Por vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros estavam como troncos nodosos, inchados pela umidade constante. De todo ele sa\u00eda um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na \u00e1gua, tinham um tom verde, como as estacas de uma levada.<\/p>\n<p>O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam, era com um gemido que se erguia. J\u00e1 lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente \u2013 e por isto eram constante as inj\u00farias que recebia. Para se apoiar na \u00e1gua, sentindo que suas for\u00e7as diminu\u00edam, teve de fazer um grande bast\u00e3o agu\u00e7ado, com um tronco. E cada Inverno pensava, com inquieta\u00e7\u00e3o, se a for\u00e7a lhe sobraria para fender a corrente furiosa do rio mais cheio.<\/p>\n<p>Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir, por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites mais duras, como um cordial que o amparasse. Oh! muito pouco, um pichel somente\u2026 Ele, cautelosamente, o pouparia.<\/p>\n<p>Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio mugia furiosamente, Crist\u00f3v\u00e3o, j\u00e1 muito velho, tr\u00f4pego, com feridas nas pernas, dormia no seu ch\u00e3o molhado \u2013 quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou: \u201cCrist\u00f3v\u00e3o! Crist\u00f3v\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua cho\u00e7a. E viu diante de si uma criancinha, pisando descal\u00e7a a relva, com os cabelos a esvoa\u00e7ar no vento e na chuva, e apertando sobre o peito, com as m\u00e3ozinhas, a camisa muito branca que o cobria. Espantado, com l\u00e1grimas, Crist\u00f3v\u00e3o abriu os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Oh meu menino, quem te trouxe?<\/p>\n<p>E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Crist\u00f3v\u00e3o, Crist\u00f3v\u00e3o, estou sozinho e perdido, e por quem \u00e9s te pe\u00e7o que me leves para a casa do meu pai!<\/p>\n<p>J\u00e1 Crist\u00f3v\u00e3o arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.<\/p>\n<p>\u2014 Oh meu menino, onde \u00e9 a casa do teu pai?<\/p>\n<p>A criancinha estendeu o bra\u00e7o para o outro lado, onde os montes negros se erguiam. E murmurou muito baixo:<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m, para al\u00e9m, muito longe\u2026<\/p>\n<p>Mas um espanto tomava Crist\u00f3v\u00e3o. Porque debaixo da pele negra de cabra, de novo a camisinha da crian\u00e7a aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho. Muito humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:<\/p>\n<p>\u2014 Oh meu menino, vem que eu te levo ao colo.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a estendeu os bra\u00e7os pequeninos. Crist\u00f3v\u00e3o com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o esmagava, Ah! quanto pesava o menino! Com custo, se firmou nas suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu bast\u00e3o, o caminho escorregadio, mergulhou na \u00e1gua os p\u00e9s \u2013 e logo a corrente mugiu furiosamente em redor, atirando a espuma at\u00e9 os p\u00e9s da crian\u00e7a. Arquejando, Crist\u00f3v\u00e3o rompeu a \u00e1gua. O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a umidade embaciava, os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: \u201cAh! meu menino, meu menino!\u201d A cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe fugia sob os p\u00e9s. Todo ele tremia, firmado no bord\u00e3o. E a \u00e1gua, toda branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na densa escurid\u00e3o, nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de granizo de repente ca\u00edram, e o menino, arrepiado, todo se aconchegava \u00e0 sua face. J\u00e1 a \u00e1gua temerosa lhe chegava ao peito. Trope\u00e7ou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu a \u00e1gua, furiosa, gelada, correndo a ro\u00e7ar-lhe as barbas. Arrojou o bord\u00e3o, e com as m\u00e3os ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas j\u00e1 lhe batiam a face. Arquejando, parava para respirar fora da \u00e1gua, e bebia a espuma turva e amarga. Grossas traves que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus p\u00e9s rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esfor\u00e7o enorme, os bra\u00e7os esticados ao alto e todo a tremer, sustentando o menino, arrojava o peito para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a for\u00e7a da torrente; duas vezes, com esfor\u00e7o sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino. A \u00e1gua j\u00e1 lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas umedecia-lhe os olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as m\u00e3os a tremer todas do peso imenso do menino. Mas os seus p\u00e9s encontraram uma rocha firme, e a \u00e1gua desceu outra vez at\u00e9 ao peito. Na rocha resvaladi\u00e7a, por\u00e9m, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um esfor\u00e7o da alma, que se empinava arquejando. Mas ia saindo do rio. A \u00e1gua j\u00e1 lhe descera \u00e0 cintura. E o fragor da corrente parecia abrandado e como remoto. Grandes pedras emergiam da \u00e1gua. J\u00e1 apenas tinha mergulhado os p\u00e9s, que ele sentia dilacerados. Um esfor\u00e7o mais, e estava na margem, salvo, apertando contra o peito o menino.<\/p>\n<p>Mas, naquele esfor\u00e7o supremo toda sua vida se fora. N\u00e3o podia mais. E j\u00e1 se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que n\u00e3o parasse, que marchasse ainda, o conduzisse \u00e0 casa de seu pai. E Crist\u00f3v\u00e3o, arquejando, come\u00e7ou a trepar o \u00edngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar \u2013 e Crist\u00f3v\u00e3o tiritava, com o seu pobre sai\u00e3o de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: \u201cAh! meu menino! meu menino!\u201d<\/p>\n<p>Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Crist\u00f3v\u00e3o todo curvado, com os seus cabelos ca\u00eddos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais at\u00e9 a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o cora\u00e7\u00e3o, no terror de cair sem for\u00e7a, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a m\u00e3o a uma rocha, desfalecido, de se pender \u00e0 ramagem de um abeto. E a claridade crescia; j\u00e1, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.<\/p>\n<p>\u2014 Oh meu menino, onde \u00e9 a casa de teu pai?<\/p>\n<p>\u2014 Mais longe, Crist\u00f3v\u00e3o, mais longe\u2026<\/p>\n<p>E aquele bom gigante, agasalhando os p\u00e9s do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infind\u00e1vel, que mais apertava entre rochas, eri\u00e7adas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os bra\u00e7os, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! J\u00e1 das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, j\u00e1 subia por tr\u00e1s das linhas dos cerros.<\/p>\n<p>Mas Crist\u00f3v\u00e3o parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos bra\u00e7os, ficou encostado a uma pedra, arquejando.<\/p>\n<p>\u2014 Onde \u00e9 a casa de teu pai?<\/p>\n<p>\u2014 Muito longe, Crist\u00f3v\u00e3o, mais longe\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o bom gigante fez um prodigiosos esfor\u00e7o, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lan\u00e7ando a m\u00e3o para se arrimar, trope\u00e7ando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus p\u00e9s iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. J\u00e1 se sentia t\u00e3o fraco como a crian\u00e7a que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Crist\u00f3v\u00e3o pousou o menino no ch\u00e3o, e caiu ao lado, estendendo as m\u00e3os. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas m\u00e3os presas nas do menino \u2013 e a terra faltou-lhe debaixo dos p\u00e9s. Ent\u00e3o entreabriu os olhos, e no esplendor incompar\u00e1vel reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, atrav\u00e9s da manh\u00e3 clara, o ia levando para o C\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sob as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surr\u00e3o de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=569"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":572,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569\/revisions\/572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}