{"id":571,"date":"2018-07-05T15:05:41","date_gmt":"2018-07-05T15:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=571"},"modified":"2018-07-05T15:09:37","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:37","slug":"um-poeta-lirico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/um-poeta-lirico","title":{"rendered":"Um Poeta L\u00edrico"},"content":{"rendered":"<p>Aqui est\u00e1, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a hist\u00f3ria triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas l\u00edricos de que tenho not\u00edcia, \u00e9 este, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de Dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha\u2026 Ah! que mar! E era s\u00f3 uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontr\u00f5es \u2014 parecia-me um tuf\u00e3o dos mares da China\u2026<\/p>\n<p>Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fog\u00e3o do peristilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate\u2026 E foi ent\u00e3o que vi aquela figura esguia e longa, j\u00e1 de casaca e gravata branca, que do outro lado da chamin\u00e9, de p\u00e9, com a taciturna tristeza duma cegonha que cisma, olhava tamb\u00e9m os carv\u00f5es ardentes, com um guardanapo no bra\u00e7o. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao bureau. A guarda-livros, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu croch\u00e9 ao lado da sua ch\u00e1vena de ch\u00e1, acariciou com um gesto doce os dois band\u00f3s louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria, \u2014 quando a figura magra e fatal se dobrou num \u00e2ngulo, e murmurou-me num ingl\u00eas silabado:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 est\u00e1 servido o almo\u00e7o das sete\u2026<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o queria o almo\u00e7o das sete. Fui dormir.<\/p>\n<p>Mas tarde, j\u00e1 repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o lunch, avistei logo, plantado melancolicamente ao p\u00e9 da larga janela, o indiv\u00edduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os fog\u00f5es flamejavam; e fora, no sil\u00eancio do domingo, nas ruas mudas, a neve ca\u00eda sem cessar dum c\u00e9u amarelento e ba\u00e7o. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma express\u00e3o t\u00e3o evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, ca\u00eddo sobre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensa\u00e7\u00e3o daquele sil\u00eancio l\u00edvido\u2026 Chamei-o. Quando ele se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na v\u00e9spera, impressionou-me: era um car\u00e3o longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma barba de Cristo em estampa rom\u00e2ntica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, fronte: era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecis\u00e3o de sonho nadando num fluido enternecido\u2026 E que magreza! quando andava, a cal\u00e7a curta torcia-se em torno da canela como pregas de bandeira em torno dum mastro: a casaca tinha dobras de t\u00fanica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgra\u00e7adamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almo\u00e7o, sem me olhar, num t\u00e9dio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o ma\u00eetre d\u2019h\u00f4tel lia a B\u00edblia, passou a m\u00e3o pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00famero 307. Duas costeletas. Ch\u00e1\u2026<\/p>\n<p>O ma\u00eetre d\u2019h\u00f4tel afastou a B\u00edblia, inscreveu o menu \u2014 e eu acomodei-me \u00e0 mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almo\u00e7ar comigo \u2014 porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem p\u00e3o fresco. Fora continuava a nevar sobre a cidade muda. A uma mesa distante, um velho cor de tijolo e todo branco de cabelo e de su\u00ed\u00e7as, que acabara de almo\u00e7ar, dormitava de m\u00e3os no ventre, boca aberta, e luneta na ponta do nariz. E o \u00fanico som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que \u00e0 esquina defronte garganteava um salmo\u2026 Um domingo de Londres.<\/p>\n<p>Foi o magro que me trouxe o almo\u00e7o \u2014 e apenas ele se aproximou, com o servi\u00e7o do ch\u00e1, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas m\u00e3os o tinha interessado e impressionado; foi um olhar r\u00e1pido, gulosamente fixado na p\u00e1gina aberta, um estremecimento quase impercept\u00edvel, \u2014 emo\u00e7\u00e3o fugitiva, decerto, porque depois de ter pousado o servi\u00e7o, rodou sobre os calcanhares e foi plantar-se, melancolicamente, \u00e0 janela, de olho triste e posto na neve triste. Eu atribu\u00ed aquele movimento curioso ao esplendor da encaderna\u00e7\u00e3o do volume, que eram os Id\u00edlios de El-Rei, em marroquim negro, com o escudo de armas de Lan\u00e7arote do Lago \u2014 o pelicano de ouro sobre um mar de sinopla.<\/p>\n<p>Nessa noite parti no expresso para a Esc\u00f3cia, e ainda n\u00e3o tinha passado Iorque, adormecida na sua gravidade episcopal, j\u00e1 me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi s\u00f3 da\u00ed a um m\u00eas, ao voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de rosbife numa das m\u00e3os e na outra um pudim de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era j\u00e1 tarde e eu voltava do Covent-Garden, quando no peristilo do hotel encontrei, majestoso e pr\u00f3spero, o meu amigo Bracolletti.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecem Bracolletti? A sua presen\u00e7a \u00e9 formid\u00e1vel; tem amplid\u00e3o pan\u00e7uda, o negro cerrado da barba, a lentid\u00e3o, o cerimonial dum pax\u00e1 gordo; mas esta ponderosa gravidade turca \u00e9 temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da S\u00edria: \u00e9 o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das ra\u00e7as que d\u00e3o os Messias\u2026 Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti \u00e9 a mais completa, a mais perfeita, a mais rica das express\u00f5es humanas; h\u00e1 finura, inoc\u00eancia, bonomia, abandono, ironia doce, persuas\u00e3o, naqueles dois l\u00e1bios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem!\u2026 Ah! mas tamb\u00e9m este sorriso \u00e9 a fortuna de Bracolletti.<\/p>\n<p>Moralmente, Bracolletti \u00e9 um h\u00e1bil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; \u00e9 tudo o que ele revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom grego rola um momento a cabe\u00e7a de ombro a ombro, esconde sob as p\u00e1lpebras cerradas com bonomia o seu olho maometano, desabrocha o sorriso duma do\u00e7ura de tentar abelhas e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:<\/p>\n<p>\u2014 Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!\u2026<\/p>\n<p>Nada mais. Parece, por\u00e9m, que viajou, \u2014 porque conhece o Peru, a Crimeia, o Cabo da Boa Esperan\u00e7a, os pa\u00edses ex\u00f3ticos \u2014 t\u00e3o bem como Regent-Street: mas \u00e9 evidente para todos que a sua exist\u00eancia n\u00e3o foi tecida, como a dos vulgares aventureiros do Levante, de ouro e estopa, de esplendores e pelintrices: \u00e9 um gordo e, portanto, um prudente: o seu magn\u00edfico solit\u00e1rio nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jamais o surpreendeu sem uma peli\u00e7a de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no Fraternal Clube, de que \u00e9 um membro querido, dez libras ao whist. \u00c9 um forte.<\/p>\n<p>Mas tem uma debilidade. \u00c9 singularmente guloso de rapariguinhas de doze a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o h\u00e1bito de praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com m\u00e9todo. Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola metendo-lhe a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os xelins da algibeira, gozando o desenvolvimento dos v\u00edcios naquelas flores da lama de Londres, pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem; \u2014 e quando alguma, excitada, de \u00e1lcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuria, o arrepela, baba obscenidades, \u2014 o bom Bracolletti encruzado no sof\u00e1, de m\u00e3os beatamente cruzadas na pan\u00e7a, o olhar afogado em \u00eaxtase, murmura no seu italiano da costa s\u00edria:<\/p>\n<p>\u2014 Piccolina! Gentilleta!<\/p>\n<p>Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite, em Charing-Cross: e como nos n\u00e3o v\u00edamos h\u00e1 muito, fomos cear juntos ao restaurante. O criado triste l\u00e1 estava no seu comptoir, curvado sobre o Journal des D\u00e9bats. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade de obeso, o homen estendeu-lhe silenciosamente a m\u00e3o; foi um shake-hands solene, enternecido e sincero.<\/p>\n<p>Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguid\u00e3o. Quis primeiro o nome do homem.<\/p>\n<p>\u2014 Chame-se Korriscosso \u2014 disse-me Bracolletti, grave.<\/p>\n<p>Quis depois a sua hist\u00f3ria. Mas Bracolletti como os deuses da \u00c1tica que, nos seus embara\u00e7os no mundo, se recolhiam \u00e0 sua nuvem. Bracolletti refugiou-se na sua vaga retic\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Eh! mon Dieu!\u2026 Eh! mon Dieu!\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, Bracolletti. Vejamos. Quero-lhe a hist\u00f3ria\u2026 Aquela face fatal e byroniana deve ter uma hist\u00f3ria\u2026<\/p>\n<p>Bracolletti ent\u00e3o tomou todo o ar c\u00e2ndido que lhe permitem a sua pan\u00e7a e as suas barbas \u2014 e confessou-me, deixando cair as frases \u00e0s gotas,que tinham viajado ambos na Bulg\u00e1ria e no Montenegro\u2026 korriscosso foi seu secret\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>Boa letra\u2026 Tempos dif\u00edceis\u2026 Eh! mon Dieu!\u2026<\/p>\n<p>\u2014 De onde \u00e9 ele ?<\/p>\n<p>Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz, com gesto repassado de desconsidera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um negro de Atenas.<\/p>\n<p>O meu interesse sumiu-se com a \u00e1gua que a areia absorve. Quando se tem viajado no oriente e nas escalas do Levante, adquiri-se facilmente o h\u00e1bito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se v\u00eaem, sobre tudo tendo uma educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e cl\u00e1ssica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcib\u00edades e em Plat\u00e3o, nas gl\u00f3rias duma ra\u00e7a est\u00e9tica e livre, e perfilam-se na imagina\u00e7\u00e3o as linhas augustas do P\u00e1rtenon. Mas, depois de os ter freq\u00fcentado, \u00e0s mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que eles t\u00eam deixado desde Esmirna at\u00e9 Tunes, os outros que se v\u00eaem provocam, apenas, estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco, cruzar fortemente os bra\u00e7os sobre a cadeia do rel\u00f3gio, e agu\u00e7ar o intelecto para recha\u00e7ar a escroquerie. A causa desta reputa\u00e7\u00e3o funesta \u00e9 que a gente grega, que emigra para as escalas do Levante, \u00e9 uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade \u00e9 que apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha \u00faltima estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de presa que cravara nele Korriscosso\u2026 Era um bandido!<\/p>\n<p>E durante a ceia n\u00e3o falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, rubro, honesto e s\u00e3o. O l\u00fagubre Korriscosso n\u00e3o se afastou do comptoir, abismado no Journal des D\u00e9bats.<\/p>\n<p>Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi\u2026 O hotel esta atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa complica\u00e7\u00e3o de corredores, escadas, recantos, \u00e2ngulos, onde \u00e9 quase necess\u00e1rio roteiro e b\u00fassola.<\/p>\n<p>De casti\u00e7al na m\u00e3o, penetrei num passadi\u00e7o onde corria um bafo morno de viela mal arejada. As portas a\u00ed n\u00e3o tinham n\u00fameros, mas pequenos cart\u00f5es colados onde estavam inscritos nomes: John, Smith, Charlie, Willie\u2026Enfim, eram evidentemente as habita\u00e7\u00f5es dos criados. De uma porta aberta sa\u00eda a claridade de um bico de g\u00e1s; adiantei-me, e vi logo Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de pap\u00e9is, de testa pendida sobre a m\u00e3o, escrevendo.<\/p>\n<p>\u2014 Pode-me indicar o caminho para o n\u00famero 508? \u2014 balbuciei.<\/p>\n<p>Ele ergueu para mim um olhar estremunhado e enevoado; parecia ressurgir de muito longe, de um outro universo; batia as p\u00e1lpebras, repetindo:<\/p>\n<p>\u2014 508? 508?\u2026<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que eu avistei, sobre a mesa, entre pap\u00e9is, colarinhos sujos e um ros\u00e1rio \u2014 o meu volume de Tennyson! Ele viu o meu olhar, o bandido! E acusou-se todo numa vermelhid\u00e3o que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento foi n\u00e3o reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo \u00e0 moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Provid\u00eancia irritada, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o meu Tennyson\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que resposta ele tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tamb\u00e9m pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, acrescentei num tom repassado de perd\u00e3o e de justifica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Grande poeta, n\u00e3o \u00e9 verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou\u2026<\/p>\n<p>Korriscosso corou mais: Mas n\u00e3o era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua intelig\u00eancia, o seu gosto po\u00e9tico adivinhados \u2014 e de ter no corpo a casaca co\u00e7ada de criado de restaurante. N\u00e3o respondeu. Mas as p\u00e1ginas do volume, que eu abri, responderam por ele; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rede de coment\u00e1rios a l\u00e1pis : Sublime! Grandioso! Divino!<\/p>\n<p>\u2014 Palavras lan\u00e7adas numa letra convulsiva, num tremor de m\u00e3o, agitada por uma sensibilidade vibrante\u2026<\/p>\n<p>No entanto Korriscosso permanecia de p\u00e9, respeitoso, culpado, de cabe\u00e7a baixa, com o la\u00e7o da gravata branca fugindo para o cacha\u00e7o. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas tristezas de depend\u00eancia\u2026 Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante, como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as m\u00e3os num movimento \u00e0 Talma, e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m sou poeta!\u2026<\/p>\n<p>Esta frase extraordin\u00e1ria pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte; o levantino viu logo nela a expans\u00e3o de uma alma irm\u00e3. Porque, n\u00e3o lhes disse? O que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: era uma ode.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua hist\u00f3ria \u00af ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. \u00c9 t\u00e3o triste, que a condenso. De resto, havia na sua narra\u00e7\u00e3o lacunas de anos; \u00af e eu n\u00e3o posso reconstituir com l\u00f3gica e sequ\u00eancia a hist\u00f3ria deste sentimental. Tudo \u00e9 vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos, Korriscosso servia de criado a um m\u00e9dico, e nos intervalos do servi\u00e7o frequentava a Universidade de Atenas; estas coisas s\u00e3o frequentes l\u00e0-bas, como ele dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos dif\u00edceis, a ser um int\u00e9rprete de hotel. Desse tempo datam as suas primeiras elegias num seman\u00e1rio l\u00edrico, intitulado Ecos da \u00c1tica. A literatura levou-o directamente \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es parlamentares. Uma paix\u00e3o, uma crise pat\u00e9tica, um marido brutal, amea\u00e7as de morte, for\u00e7am-no a expatriar-se. Viajou na Bulg\u00e1ria, foi em Salonica empregado numa sucursal do Banco Otomano, remeteu endechas dolorosas a um jornal da prov\u00edncia \u00af a Trombeta da Arg\u00f3lida. Aqui h\u00e1 uma dessas lacunas, um buraco negro na sua hist\u00f3ria. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e deputado.<\/p>\n<p>Este per\u00edodo de gl\u00f3ria foi breve, mas suficiente para o por em evid\u00eancia; a sua palavra colorida, po\u00e9tica, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como ele dizia, os terrenos mais \u00e1ridos; duma discuss\u00e3o de imposto ou de via\u00e7\u00e3o fazia saltar \u00e9clogas de Te\u00f3crito. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administra\u00e7\u00e3o do Estado: o minist\u00e9rio, por\u00e9m, e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, ca\u00edram, sumiram-se, sem l\u00f3gica constitucional, num destes s\u00fabitos desabamentos pol\u00edticos t\u00e3o comuns na Gr\u00e9cia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas \u2014 sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades\u2026 Tudo tende para o p\u00f3 num solo de ru\u00ednas\u2026<\/p>\n<p>Nova lacuna, novo mergulho obscuro na hist\u00f3ria de Korriscosso\u2026<\/p>\n<p>Volta \u00e0 superf\u00edcie, membro de um clube republicano de Atenas, pede num jornal a emancipa\u00e7\u00e3o da Pol\u00f3nia, e a Gr\u00e9cia governada por um conc\u00edlio de g\u00e9nios. Publica ent\u00e3o os seus Suspiros da Tr\u00e1cia. Tem outro romance de cora\u00e7\u00e3o\u2026 E enfim \u2014 e isto disse-mo, sem explica\u00e7\u00f5es, \u2014 \u00e9 obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es, coloca-se no restaurante de Charing-Cross.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um porto de abrigo \u00af disse-lhe eu, apertando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele sorriu com amargura. Era decerto um porto de abrigo, e vantajoso. \u00c9 bem alimentado; as gorjetas s\u00e3o razo\u00e1veis; tem um velho colch\u00e3o de molas, \u00af mas as delicadezas da sua alma s\u00e3o, a todo o momento, dolorosamente feridas\u2026<\/p>\n<p>Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta l\u00edrico, for\u00e7ado a distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glut\u00f5es, costeletas e copos de cerveja! N\u00e3o \u00e9 a depend\u00eancia que o aflige; a sua alma de grego n\u00e3o \u00e9 partucilarmente \u00e1vida de liberdade, basta-lhe que o patr\u00e3o seja cort\u00eas. E, como ele me disse, \u00e9-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please; e quando saem, ao passar por ele, levam dois dedos \u00e0 aba do chap\u00e9u: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.<\/p>\n<p>Mas o que o tortura \u00e9 o contacto constante com o alimento. Se ele fosse um guarda-livros dum banqueiro, primeiro caixeiro dum armaz\u00e9m de sedas\u2026 Nisso h\u00e1 uma sombra de poesia \u2014 os milh\u00f5es que se revolvem, as frotas mercante, a brutal for\u00e7a do ouro, ou ent\u00e3o dispor ricamente os estofos, os cortes de seda, fazer correr a luz nas ondula\u00e7\u00f5es dos moir\u00e9s, dar ao veludo as molezas da linha e da prega\u2026. Mas num restaurante como se pode exercer o gosto, a originalidade art\u00edstica, o instinto da cor, do efeito, do drama \u00af a partir nacos de rosbife ou de presunto de Iorque?!\u2026 Depois, como ele disse, dar a comer, fornecer alimento, \u00e9 servir exclusivamente a pan\u00e7a, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre \u00e9 Deus: a alma fica fora, com o chap\u00e9u que se pendura no cabide ou com o rolo de jornais que se deixou no bolso do palet\u00f3.<\/p>\n<p>E as conviv\u00eancias, e a falta de conversa\u00e7\u00e3o! Nunca se voltarem para ele sen\u00e3o para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus l\u00e1bios, de onde pendia o parlamento de Atenas, sen\u00e3o para perguntar: \u00af Mais p\u00e3o? Mais bife? \u2014 Esta priva\u00e7\u00e3o de eloqu\u00eancia \u00e9-lhe dolorosa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso o servi\u00e7o impede-lhe o trabalho. Korriscosso comp\u00f5e de mem\u00f3ria; quatro passeios pelo quarto, um repel\u00e3o ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e doce\u2026 Mas a interrup\u00e7\u00e3o glutona da voz do fregu\u00eas, pedindo nutri\u00e7\u00e3o, \u00e9 fatal a esta maneira de trabalhar. \u00c0s vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no bra\u00e7o, Korriscosso est\u00e1 fazendo uma elegia: s\u00e3o tudo luares, roupagens alvas de virgens p\u00e1lidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida\u2026\u00c9 feliz; est\u00e1 remontado aos c\u00e9us po\u00e9ticos, nas plan\u00edcies azuladas onde os sonhos acampam, galopando de estrela em estrela\u2026. De repente, uma grossa voz faminta berra de um canto:<\/p>\n<p>\u2014 Bife e batatas!<\/p>\n<p>Ai! As aladas fantasias batem o voo como pombas espavoridas! E a\u00ed vem o infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas da casaca baloi\u00e7ando, perguntar com o sorriso l\u00edvido:<\/p>\n<p>\u2014 Passado ou meio cru?<\/p>\n<p>Ah! \u00e9 um amargo destino!<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u2014 perguntei-lhe eu \u2014 por que n\u00e3o deixa este covil, este templo do ventre?<\/p>\n<p>Ele deixou pender a sua bela cabe\u00e7a de poeta. E disse-me a raz\u00e3o que o prende: disse-ma, quase chorando nos seus bra\u00e7os, com n\u00f3 da gravata branca no cacha\u00e7o: Korriscosso ama.<\/p>\n<p>Ama uma Fanny, criada de todo o servi\u00e7o em Charing-Cross. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra, com os bra\u00e7os roli\u00e7os nus, e os cabelos louros, os fatais cabelos louros, deste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de ouro-mate, torcendo-se numa tran\u00e7a de deusa. E depois a carna\u00e7\u00e3o, uma carna\u00e7\u00e3o de inglesa de Yorkshire \u2014 leite e rosas\u2026<\/p>\n<p>E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala- a em odes \u2014 que passa a limpo ao Domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a paix\u00e3o pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada arremessados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do c\u00e9u frio! \u00c9 que Korriscosso tem ci\u00fames. A desgra\u00e7ada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um policeman. Ama um policeman, um colosso, um alcides, uma montanha de carne eri\u00e7ada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um coura\u00e7ado, com pernas como fortalezas normandas. Este Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordin\u00e0riamente, servi\u00e7o no Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreit\u00e1-lo de um postigo, dos altos do hotel.<\/p>\n<p>Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin, de brandy, de genebra, que \u00e0 noite lhe leva em copinhos debaixo do avental; mant\u00e9m-no fiel pelo \u00e1lcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe em sil\u00eancio o copo, atira-o de um golpe \u00e0s fauces tenebrosas, arrota cavamente, passa a m\u00e3o cabeluda pela barba de h\u00e9rcules, e segue taciturnamente, sem um obrigado, sem um amo-te, batendo o lajedo com a vastid\u00e3o das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa\u2026 E talvez nesse momento, \u00e0 outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no nevoeiro um esguio relevo de poste telegr\u00e1fico, soluce com a face magra entre as m\u00e3os transparentes.<\/p>\n<p>Pobre Korriscosso! Se ele ao menos a pudesse comover\u2026 Mas qu\u00ea! Ela despreza-lhe o corpo de t\u00edsico triste; e a alma n\u00e3o lha compreende\u2026N\u00e3o que Fanny seja inacess\u00edvel a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso s\u00f3 pode escrever as suas elegias na sua l\u00edngua materna\u2026E Fanny n\u00e3o compreende grego\u2026 E Korriscosso \u00e9 s\u00f3 um grande homem \u2014 em grego\u2026<\/p>\n<p>Quando desci ao meu quarto, deixei-o solu\u00e7ando sobre o catre. Tenho-o visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Est\u00e1 mais magro, mais fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do rosbife, mais exaltado no seu lirismo\u2026 Sempre que ele me serve dou-lhe um selim de gorjeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a m\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui est\u00e1, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a hist\u00f3ria triste do poeta Korriscosso. 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Conheci-o em Londres, no hotel de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-571","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=571"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":573,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/571\/revisions\/573"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}