{"id":574,"date":"2018-07-05T15:06:34","date_gmt":"2018-07-05T15:06:34","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=574"},"modified":"2018-07-05T15:09:37","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:37","slug":"o-milhafre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-milhafre","title":{"rendered":"O Milhafre"},"content":{"rendered":"<p>Um dia um homem entrou numa casa arruinada. No portal havia um nicho com um santo de pedra, que lia uma B\u00edblia, tamb\u00e9m de pedra, Em redor, na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia ervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre as suas p\u00e1lpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa dos regimentos, e o santo lia atentamente o seu livro de pedra.<\/p>\n<p>Vinham defronte dan\u00e7ar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de pedra sobre as p\u00e1ginas inertes. As devotas, lentas e desfalecidas, beijavam-lhe os p\u00e9s nus, os homens severos saudavam-no, as crian\u00e7as olhavam-no com os seus grandes olhos inanimados, os c\u00e3es ladravam-lhe \u00e0 calva: o santo, curvado, seguia o esp\u00edrito de Deus por entre as letras do livro.<\/p>\n<p>Passavam os fardos, os mercadores crestados pela ind\u00fastria, os poetas l\u00e2nguidos que desfalecem nas can\u00e7onetas, os histri\u00f5es que cantam nos tablados, mulheres mais preciosas que o \u00e2mbar, os s\u00e1bios, os mendigos, as virtuosas e as melodram\u00e1ticas: \u2014 e o santo lia o seu livro prof\u00e9tico.<\/p>\n<p>Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os ciprestes \u2014 ais de folhagem \u2014 os homens, perguntavam entre si: \u2014 \u201cQue l\u00ea t\u00e3o atentamente aquele santo, que nem sequer nos olha?\u201d E os enxurros, que passam rosnando, diziam: \u2014 \u201cQue l\u00ea t\u00e3o devotamente aquele santo, que nem sequer nos escuta?\u201d<\/p>\n<p>Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras caem de sono, quando os homens est\u00e3o cheios de comida e de in\u00e9rcia \u2014 a Lua, que ao nascer \u00e9 material e met\u00e1lica como uma moeda de ouro nova, depois, na suavidade do azul, \u00e9 t\u00e3o pura, t\u00e3o imaculada, t\u00e3o consoladora, como uma chaga de Cristo por onde se lhe visse a alma. A essas horas, uma crian\u00e7a, t\u00e3o pobre e t\u00e3o esfarrapada como o antigo pastor S. Jo\u00e3o, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E ent\u00e3o, o santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a grande luz dos seus olhos, aquela crian\u00e7a miser\u00e1vel, adormecida sobre as lajes.<\/p>\n<p>Depois os planetas, a Lua, a noite seguiam a sua viagem imensa para o oeste, e a leste come\u00e7ava uma claridade: eram as hesita\u00e7\u00f5es da luz do dia, medrosa por ter de descer \u00e0s mis\u00e9rias dos homens.<\/p>\n<p>As bandeiras ainda estavam desfalecidas, sonhavam as \u00e1rvores, a cidade dormia como outrora Sodoma. Acordavam ent\u00e3o as. andorinhas. Esvoa\u00e7avam gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, pousar no nicho.<\/p>\n<p>As andorinhas estavam nas intimidades e nas confid\u00eancias do santo.<\/p>\n<p>Ora o vento, que passava pelos campos e pelas eiras, vem cheio de gr\u00e3os e de sementes: a chuva cai l\u00facida e fresca. O santo aparava a chuva nas pregas da capa, e os gr\u00e3os nas p\u00e1ginas do livro. E as andorinhas, quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a B\u00edblia de Deus. E, enquanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as asas nas barbas do santo, beijavam-se na sua boca, aninhavam-se-lhe entre os bra\u00e7os, cobriam-no todo; e o sol, quando chegava, ficava maravilhado de ver aquele pobre santo de pedra, que ele n\u00e3o conhecia do Para\u00edso, com os p\u00e9s entre as ervas verdes, rindo, sereno, sob a luz imensa, e todo vestido de asas!<\/p>\n<p>O homem entrou na casa arruinada e foi, atrav\u00e9s de pedras esverdeadas, de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, de muralhas leprosas de musgo, de escadarias miser\u00e1veis, at\u00e9 uma sala enorme, escura e tr\u00e1gica, e t\u00e3o alta, que involuntariamente o olhar procurava as constela\u00e7\u00f5es naquela sombra.<\/p>\n<p>No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabe\u00e7a macerada do Cristo, as traves podres do tecto abriam uma larga fenda. Por ali vinha a chuva escorrer-lhe nos cabelos como o antigo suor do Jardim das Oliveiras, vinham os granizos mago\u00e1-lo como as pedras da paix\u00e3o, vinha o Sol alumi\u00e1-lo como a tocha de Judas, e a Lua vinha, tamb\u00e9m, torn\u00e1-lo mais l\u00edvido, como naquela noite em que ele, depois de ter visto a gente solu\u00e7ante descer para Jerusal\u00e9m, sentiu pousar na sua cruz um rouxinol, que toda a noite cantou.<\/p>\n<p>Sobre a cabe\u00e7a e sobre os bra\u00e7os do Cristo, havia teias de aranha; em baixo os ratos ro\u00edam-lhe a cruz.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca donde saiu a revela\u00e7\u00e3o do amor, do perd\u00e3o, e da alma, tinham o p\u00f3, a podrid\u00e3o, a cali\u00e7a e os bichos; e que, se um dia Cristo, vendo o homem aflito e miser\u00e1vel, lhe tinha arrancado da alma o mal, n\u00e3o era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado, profanado e ro\u00eddo, lhe limpasse da cabe\u00e7a as aranhas. Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da m\u00e3o pregada, um milhafre enorme. O homem, com as m\u00e3os, quis arredar o milhafre.<\/p>\n<p>E a ave, ent\u00e3o, com a antiga voz dos animais da B\u00edblia, do Apocalipse e dos livros dos profetas, disse surdamente: \u201cHomem, deixa a cruz sossegada!\u201d<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as asas, dizia:<\/p>\n<p>\u201cDeixa a cruz, deixa! N\u00e3o tenhas medo que apodre\u00e7a. L\u00e1 em cima luzem agora estrelas, s\u00f3is, planetas, cintila\u00e7\u00f5es, carb\u00fanculos. \u00c9 o p\u00f3 dos Deuses mortos. Todos se finaram, histri\u00f5es ensanguentados, e a sua farsa acabou em desterros.<\/p>\n<p>\u201cMorreram velhos, expulsos, esfomeados e nus.<\/p>\n<p>\u201cEste ficou, solit\u00e1rio, alumiando. Ele perdoou enquanto os outros lutaram, ele amou enquanto os outros choraram: por isso fica enquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que \u00e9 de madeira, vale tanto como as que l\u00e1 em cima fazem os raios dos astros, ou no sil\u00eancio dos mirtos dois olhares bem-amados.<\/p>\n<p>\u201cDeixa as aranhas, o p\u00f3, a cali\u00e7a, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Ele pode bem dar \u00e0s aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a v\u00f3s o seu corpo de carne \u2014 a v\u00f3s, que pregais com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janelas e o Cristo no alto dos montes; a v\u00f3s, que lhe vindes limpar os cabelos de madeira, depois de lhe ter arrancado os cabelos vivos; a v\u00f3s, que quereis lavar as n\u00f3doas que ele tem no peito, e n\u00e3o vedes as imund\u00edcies que tendes na alma. Tudo o que ele criou, o amor, o ideal, o perd\u00e3o, a f\u00e9, o pudor, a religi\u00e3o, Deus, todo aquele evangelho da vida nova anda pelo mundo, t\u00e3o degradado, t\u00e3o coberto de bichos, t\u00e3o imundo como o seio desta imagem antiga. A mat\u00e9ria, o impudor, o apetite rude, o \u00f3dio, o aviltamento, o tr\u00e1fico, a mis\u00e9ria e a penalidade, andam sujando a tua alma, \u00f3 homem! como as aranhas andam sujando a cabe\u00e7a deste Cristo! E n\u00e3o reparais, e n\u00e3o vedes, sobre os esp\u00edritos, sobre os cora\u00e7\u00f5es, sobre as consci\u00eancias, o p\u00f3, a cali\u00e7a, o caruncho, os ratos e os vermes!<\/p>\n<p>\u201cSim, \u00e9 verdade: tudo \u00e9 magn\u00edfico e s\u00e3o, e banhado de sol. As cidades s\u00e3o cheias e caiadas, s\u00f3 as consci\u00eancias \u00e9 que t\u00eam n\u00f3doas; as pra\u00e7as est\u00e3o limpas de ilumina\u00e7\u00f5es, s\u00f3 os cora\u00e7\u00f5es \u00e9 que est\u00e3o escuros; os cais est\u00e3o arejados, s\u00f3 os esp\u00edritos \u00e9 que sufocam; os corpos est\u00e3o s\u00e3os, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, s\u00f3 as almas \u00e9 que andam nuas, miser\u00e1veis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farsa, os para\u00edsos artificiais, as arcas venais, e tamb\u00e9m o esfriamento do t\u00famulo! Oh! amigos \u00edntimos dos vermes, como v\u00f3s cuidais do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais \u2014 para a pastagem escura das covas!<\/p>\n<p>\u201cHomem, que fizeste tu da alma? Ao princ\u00edpio n\u00e3o era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor mat\u00e1-la \u2014 mas n\u00e3o certamente de cansa\u00e7o com viagens a Deus! Deste-la a despeda\u00e7ar \u00e0 negra matilha do mal. Em compensa\u00e7\u00e3o, guardaste o corpo: para esse uma religi\u00e3o, um asilo forte como o Sol, os sete selos da lei e a escolta dos regimentos. Esse \u00e9 o sagrado, o imaculado, o pontifical, o vitorioso. Proibi\u00e7\u00e3o a Deus de lhe tocar. Para ele pal\u00e1cios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a ilumina\u00e7\u00e3o dos astros. Para ele a inviolabilidade: N\u00e3o matar\u00e1s!<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7aram ent\u00e3o as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. N\u00f3s, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem j\u00e1 n\u00e3o havia corpos nos despenhadeiros, ladr\u00f5es arroxeados pela corda, afogados disformes, deix\u00e1mos os grandes montes e os rios, as vastas tradi\u00e7\u00f5es do sangue, e viemos, para viver, aceitar, com os cap\u00f5es, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou and\u00e1mo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, numa gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza imensa, as afli\u00e7\u00f5es do vento, as n\u00fapcias do mar, de terem lutado nas tempestades e insultado as estrelas, v\u00eam, modestamente, comer bichinhos no sagu\u00e3o dos burgueses! Eu, que tinha estado entre a for\u00e7a, quis, ao menos, ficar entre a gra\u00e7a; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quis, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solit\u00e1ria, e a grande vida moderna, a vida do sol, da m\u00fasica, dos metais, vai, entre fulgura\u00e7\u00f5es, pisando e cuspindo naquela coisa miser\u00e1vel. E ainda est\u00e1 quente o sangue de Jesus!<\/p>\n<p>\u201cHomem, que fizeste tu do pensamento?<\/p>\n<p>\u201cAnda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lhe no seio as sete dores. Coube-lhe a dor e o esc\u00e1rnio. \u00c9 necess\u00e1rio que, nas cidades, os pensadores e os artistas ext\u00e1ticos sofram e sangrem: os triunfos dos homens da mat\u00e9ria s\u00e3o como os dos antigos imperadores \u2014 s\u00f3 s\u00e3o completos, quando passam entre torturas. E quem havia de solu\u00e7ar sobre a cena moderna da paix\u00e3o, sen\u00e3o os que t\u00eam alma?<\/p>\n<p>\u201cAmam, sufocam, caem, agonizam, e, entretanto, vai passando a coorte dos vitoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se daqueles cora\u00e7\u00f5es, como os bot\u00f5es de ouro das suas camisas apupam a luz dos astros.<\/p>\n<p>\u201cE os que quiserem viver e tiverem a alma grande, bela e her\u00f3ica, t\u00eam de se baixar \u00e0 estatura burguesa e mercantil dos c\u00e9rebros modernos. Os deuses ol\u00edmpicos, se n\u00e3o se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pav\u00e3o de Juno viveria num pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavaleiros andantes roubariam len\u00e7os nos ajuntamentos, e o tr\u00e1gico S\u00e3o Jer\u00f3nimo seria presidente duma junta de par\u00f3quia. Deste modo tu aceitas a arte, o pensamento, a alma. N\u00e3o, arte, n\u00e3o te v\u00e1s; a vida moderna dar-te-\u00e1 uma libr\u00e9 resplandecente; vem, m\u00fasica, tu que criaste a Alemanha, far-me-\u00e1s uma contradan\u00e7a; vem, arquitectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-\u00e1s uma estufa; vem, escultura, tu que fizeste o povo dos deuses, o bela escultura! vem fazer-me um gavet\u00e3o. Oh! tristes domesticidades do ideal!\u201d<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio. Havia na sala um ar m\u00edstico, como para concep\u00e7\u00e3o dum deus.<\/p>\n<p>O milhafre esvoa\u00e7ava. Ouvia-se o chorar duma flauta. E o olhar do Cristo errava, contemplativo e atento, entre as estrelas inumer\u00e1veis, enquanto na escurid\u00e3o, aos seus p\u00e9s, os ratos lhe ro\u00edam a cruz.<\/p>\n<p>\u201cVai-te, disse o milhafre. Os ratos roem a cruz, eu estou velho: a antiga gera\u00e7\u00e3o das aves da noite vai-se. Os pregos j\u00e1 se despregam, a cruz apodrece. E quando ela se desfizer, atirarei o seu p\u00f3 \u00e0 grande natureza, ao elevar da Lua, que vale o elevar da h\u00f3stia. Irei, oh meu Deus! para al\u00e9m dos s\u00f3is e dos caminhos l\u00e1cteos, onde as constela\u00e7\u00f5es s\u00e3o gotas de sombra, certo \u2014 eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respira\u00e7\u00e3o dos antros, eu que sou a palpita\u00e7\u00e3o dos montes \u2014 certo de que, se os homens n\u00e3o deram a cruz aos Cristos, n\u00e3o lha dar\u00e1 tamb\u00e9m a natureza. E eu, que roi as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado numa cruz, irei tamb\u00e9m, entre os s\u00f3is meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri de sangue, crucificar-me num astro!\u201d<\/p>\n<p>Assim falou, lentamente, aquele milhafre filos\u00f3fico e letrado, enquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim falava, de cima duma cruz, numa sala legend\u00e1ria, longe das maravilhas dos Cains burgueses, nestes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magn\u00edficos, em que, como se n\u00e3o podem p\u00f4r certas verdades na boca dos homens, t\u00eam de se dependurar do bico dos milhafres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia um homem entrou numa casa arruinada. 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