{"id":575,"date":"2018-07-05T15:06:22","date_gmt":"2018-07-05T15:06:22","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=575"},"modified":"2018-07-05T15:09:37","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:37","slug":"a-perfeicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-perfeicao","title":{"rendered":"A Perfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>I<br \/>\nSentado numa rocha, na ilha de Og\u00edgia, com a barba enterrada entre as m\u00e3os, donde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, o mar muito azul que, mansa e harmoniosamente, rolava sobre a areia muito branca. Uma t\u00fanica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas correias das sand\u00e1lias, que lhe cal\u00e7avam os p\u00e9s amaciados e perfumados de ess\u00eancias, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bast\u00e3o era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de p\u00e9rolas, como os que usam os deuses marinhos.<\/p>\n<p>A divina ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e tuias odor\u00edferas, as messes eternas dourando os vales, a frescura das roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sesta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sopro dos Z\u00e9firos curiosos, que brincam e correm por sobre o arquip\u00e9lago, desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No sil\u00eancio, embebido de calor af\u00e1vel, eram de uma harmonia mais embaladora os murm\u00farios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos pl\u00e1tanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sobre a areia macia. E nesta inef\u00e1vel paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos perdidos nas \u00e1guas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu cora\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de J\u00fapiter fendera a sua nave de alta proa vermelha, e ele, agarrado ao mastro e \u00e0 carena, trambolhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante nove noites, at\u00e9 que boiara em \u00e1guas mais calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a deusa radiosa, o recolhera e o amara! E durante esses imensos anos, como se arrastara a sua vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Tr\u00f3ia, abandonando entre l\u00e1grimas in\u00famer\u00e1veis a sua Pen\u00e9lope de olhos claros, o seu pequenino Tel\u00e9maco enfaixado no colo da ama, andara sempre t\u00e3o agitada por perigos, e guerras, e ast\u00facias, e tormentas, e rumos perdidos?\u2026 Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Tr\u00f3ia! Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz ele se as lan\u00e7as troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto \u00e0 Faia, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de Aquiles! Mas n\u00e3o! Vivera! \u2014 E agora, cada manh\u00e3, ao sair sem alegria do trabalhoso leito de Calipso, as ninfas, servas da deusa, o banhavam numa \u00e1gua muito pura, o perfumavam de l\u00e2nguidas ess\u00eancias, o cobriam com uma t\u00fanica sempre nova, ora bordada a sedas finas, ora bordada de ouro p\u00e1lido! No entanto, sobre a mesa lustrosa, erguida \u00e0 porta da gruta, na sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente de um arroio diamantino, os a\u00e7afates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutos, de tenras carnes fumegando, de peixes cintilando como tramas de prata. A intendenta vener\u00e1vel gelava os vinhos doces nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E ele, sentado num escabelo, estendia as m\u00e3os para as iguarias perfeitas, enquanto, ao lado, sobre um trono de marfim, Calipso, espargindo atrav\u00e9s da t\u00fanica nevada a claridade e o aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem tocar nas comidas humanas, debicava a ambr\u00f3sia, bebia goles delgados o n\u00e9ctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bast\u00e3o de pr\u00edncipe de povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminhos da Ilha, t\u00e3o lisos e tratados que nunca as suas sand\u00e1lias reluzentes se maculavam de p\u00f3, t\u00e3o penetrados pela imortalidade da deusa que jamais neles encontrara folha seca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sobre uma rocha se sentava ent\u00e3o, contemplando aquele mar que tamb\u00e9m banhava \u00cdtaca, l\u00e1 t\u00e3o bravio, aqui t\u00e3o sereno, e pensava, e gemia, at\u00e9 que as \u00e1guas e os caminhos se cobriam de sombra, e ele recolhia \u00e0 gruta para dormir, sem desejo, com a deusa que o desejava!\u2026 E durante estes imensos anos, que destino envolvera a sua \u00cdtaca, a \u00e1spera ilha de sombrias matas? Viviam eles ainda, os seres amados? Sobre a forte colina, dominando a enseada de Reitros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu pal\u00e1cio, com os belos p\u00f3rticos pintados de vermelho e roxo? Ao cabo de t\u00e3o lentos e vazios anos, sem novas, apagada toda a esperan\u00e7a como uma l\u00e2mpada, despira a sua Pen\u00e9lope a t\u00fanica passageira da viuvez, e passara para os bra\u00e7os fortes de outro esposo forte que, agora, manejava as suas lan\u00e7as e vindimava as suas vinhas? E o doce filho Tel\u00e9maco? Reinaria ele em \u00cdtaca, sentado, com o branco ceptro, sobre o m\u00e1rmore alto da \u00e1gora? Ocioso e rondando pelos p\u00e1tios, baixaria os olhos sob o imp\u00e9rio duro de um padrasto? Erraria por cidades alheias, mendigando um sal\u00e1rio?\u2026 Ah! se a sua exist\u00eancia, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, t\u00e3o doces ao seu cora\u00e7\u00e3o, andasse ao menos empregada em fa\u00e7anhas ilustres! Dez anos antes, tamb\u00e9m desconhecia a sorte de \u00cdtaca, e dos seres preciosos que l\u00e1 deixara em solid\u00e3o e fragilidade; mas uma empresa her\u00f3ica o agitava; e cada manh\u00e3 a sua fama crescia, como uma \u00e1rvore num promont\u00f3rio, que enche o c\u00e9u e todos os homens contemplam. Ent\u00e3o era a plan\u00edcie de Tr\u00f3ia \u2014 e as brancas tendas dos Gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava as ast\u00facias de guerra; com soberba fac\u00fandia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados ao tim\u00e3o dos carros; de lan\u00e7a alta corria, entre a grita e a pressa, contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em rold\u00e3o ressoante, das Portas Skaias!\u2026 Oh! E quando ele, pr\u00edncipe de povos, encolhido sob farrapos de mendigo, com os bra\u00e7os maculados de chagas posti\u00e7as, coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Tr\u00f3ia, pelo lado da Faia, para de noite, com incompar\u00e1vel ardil e bravura, roubar o pal\u00e1cio tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do cavalo de Pau, na escurid\u00e3o, no aperto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de ferro, acalmava a impaci\u00eancia dos que sufocavam, e tapava com a m\u00e3o a boca de Anticlos bravejando furioso, ao escutar fora na plan\u00edcie os ultrajes e os esc\u00e1rnios troianos, e a todos murmurava \u2014 Cala, cala! que a noite desce e Tr\u00f3ia \u00e9 nossa\u2026 E depois as prodigiosas viagens! O pavoroso Polifemo, ludibriado com uma ast\u00facia que para sempre maravilhar\u00e1 as gera\u00e7\u00f5es! As manobras sublimes entre Cila e Car\u00edbdis! As sereias, vogando e cantando em torno do mastro, de onde ele, amarrado, as recha\u00e7ava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jamais concedida a um mortal!\u2026 E agora homem de t\u00e3o rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente preso, sem amor, pelo amor de uma deusa! Como poderia ele fugir, rodeado de mar indom\u00e1vel, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por eles combatera e sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo atrav\u00e9s do fragor e fumara\u00e7a das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua proa encalhava em terra agreste!\u2026 E ao her\u00f3i, que recebera dos reis da Gr\u00e9cia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade de uma ilha mais l\u00e2nguida que uma cesta de rosas, e estender as m\u00e3os amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando \u00e1guas e caminhos se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma deusa que, sem cessar, o desejava.<\/p>\n<p>Assim gemia o magn\u00e2nimo Ulisses, \u00e0 beira do mar lustroso\u2026 E eis que, de repente, um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o de uma estrela caindo, riscou a rutil\u00e2ncia do c\u00e9u, desde as alturas at\u00e9 \u00e0 cheirosa mata de tuias e cedros, que assombrava um golfo sereno, a oriente da ilha. Com alvoro\u00e7o bateu o cora\u00e7\u00e3o do her\u00f3i. Rasto t\u00e3o refulgente, na refulg\u00eancia do dia, s\u00f3 um deus o podia tra\u00e7ar atrav\u00e9s do largo Urano. Um deus, pois, descera \u00e0 ilha?<\/p>\n<p>II<br \/>\nUm deus descera, um grande deus\u2026 Era o mensageiro dos deuses, o leve, eloquente Merc\u00fario. Cal\u00e7ado com aquelas sand\u00e1lias que t\u00eam duas asas brancas, os cabelos cor de vinho cobertos pelo casco onde batem tamb\u00e9m duas claras asas, erguendo na m\u00e3o o caduceu, ele fendera o \u00e9ter, ro\u00e7ara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da ilha, onde as suas pegadas ficavam rebrilhando como palmilhas de ouro novo. Apesar de percorrer toda a Terra, com os recados inumer\u00e1veis dos deuses, o luminoso mensageiro n\u00e3o conhecia aquela ilha de Og\u00edgia \u2014 e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas t\u00e3o doces para o correr de brincar de ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos e l\u00e2nguidos l\u00edrios. Uma vinha, sobre esteios de jaspe, carregada de cachos maduros, conduzia, como fresco p\u00f3rtico salpicado de sol, at\u00e9 \u00e0 entrada da gruta, toda de rochas polidas, donde pendiam jasmineiros e madressilvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a deusa ditosa, sentada num trono, fiando em roca de ouro, com fuso de ouro, a l\u00e3 formosa de p\u00farpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a t\u00fanica di\u00e1fana a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava como a neve, quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de deuses. E enquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como tr\u00e9mulo fio de cristal vibrando da Terra ao C\u00e9u. Merc\u00fario pensou: \u00abLinda ilha, e linda ninfa!\u00bb<\/p>\n<p>De um lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que perfumava toda a ilha. Em roda, sentadas em esteiras, sobre o ch\u00e3o de \u00e1gata, as ninfas, servas da deusa, dobavam as l\u00e3s, bordavam na seda as flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas coraram, com o seio a arfar, sentindo a presen\u00e7a do deus. E sem deter o fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o mensageiro \u2014 pois que todos os imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos. e os rostos soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o \u00e9ter e o mar separam.<\/p>\n<p>Merc\u00fario parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do Olimpo. Ent\u00e3o a deusa ergueu para ele, com composta serenidade, o esplendor largo dos seus olhos verdes:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Merc\u00fario! porque desceste \u00e0 minha ilha humilde, tu, vener\u00e1vel e querido, que eu nunca vi pisar a terra? Diz o que de mim esperas. J\u00e1 o meu aberto cora\u00e7\u00e3o me ordena que te contente, se o teu desejo couber dentro do meu poder e do fado\u2026 Mas entra, repousa, e que eu te sirva, como doce irm\u00e3, \u00e0 mesa da hospitalidade.<\/p>\n<p>Tirou da cintura a roca, arredou os an\u00e9is soltos do cabelo radiante \u2014 e com as suas nacaradas m\u00e3os colocou sobre a mesa, que as ninfas acercaram do lume arom\u00e1tico, o prato transbordante de ambr\u00f3sia, e as infusas de cristal onde cintilava o n\u00e9ctar.<\/p>\n<p>Merc\u00fario murmurou: \u00abDoce \u00e9 a tua hospitalidade, \u00f3 deusa!\u00bb Pendurou o caduceu no fresco ramo de um pl\u00e1tano, estendeu os dedos reluzentes para a travessa de ouro, risonhamente louvou a excel\u00eancia daquele n\u00e9ctar da ilha. E contentada a alma, encostando a cabe\u00e7a ao tronco liso do pl\u00e1tano que se cobriu de claridade, come\u00e7ou, com palavras perfeitas e aladas:<\/p>\n<p>\u2014 Perguntaste porque descia um deus \u00e0 tua morada, oh! deusa! E certamente nenhum imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo at\u00e9 Og\u00edgia, esta deserta imensidade do mar salgado em que se n\u00e3o encontram cidades de homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santu\u00e1rio de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murm\u00fario gostoso das preces\u2026 Mas foi nosso Pai J\u00fapiter, o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolheste, e ret\u00e9ns pela for\u00e7a incomensur\u00e1vel da tua do\u00e7ura, o mais subtil e desgra\u00e7ado de todos os pr\u00edncipes que combateram durante dez anos a alta Tr\u00f3ia, e depois embarcaram nas naves fundas para voltar \u00e0 terra da p\u00e1tria. Muitos desses conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de despojos, e de hist\u00f3rias excelentes para contar. Ventos inimigos, por\u00e9m, e um fado mais inexor\u00e1vel, arremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses\u2026 Ora o destino deste her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 ficar na ociosidade imortal do teu leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua for\u00e7a e manhas divinas. Por isso J\u00fapiter, regulador da ordem, te ordena, oh deusa, que soltes o magn\u00e2nimo Ulisses dos teus bra\u00e7os claros, e o restituas, com os presentes docemente devidos, \u00e0 sua \u00cdtaca amada, e \u00e0 sua Pen\u00e9lope, que tece e desfaz a teia ardilosa, cercada dos pretendentes arrogantes, devoradores dos seus gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!<\/p>\n<p>A divina Calipso mordeu levemente o bei\u00e7o; e sobre a sua face luminosa desceu a sombra das densas pestanas cor de jacinto. Depois, com um harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:<\/p>\n<p>\u2014 Ah deuses grandes, deuses ditosos, como sois asperamente ciumentos das deusas, que, sem se estenderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras dos montes, amam os homens eloquentes e fortes!\u2026 Este, que me invejais, rolou \u00e0s areias da minha ilha, nu, pisado, faminto, preso a uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios dardejantes de que disp\u00f5e o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora J\u00fapiter trovejador, ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em torno desta afei\u00e7\u00e3o como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois cru\u00e9is, oh deuses, que constantemente aumentais a ra\u00e7a turbulenta dos semideuses dormindo com as mulheres mortais! E como queres que eu mande Ulisses \u00e0 sua p\u00e1tria, se n\u00e3o possuo naves, nem remadores, nem piloto sabedor que o guie atrav\u00e9s das ilhas? Mas quem pode resistir a J\u00fapiter, que ajunta as nuvens? Seja! E que o Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intr\u00e9pido Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar\u2026<\/p>\n<p>Imediatamente, o mensageiro Merc\u00fario se levantou do escabelo pregado com pregos de ouro, retomou o seu caduceu, e bebendo uma derradeira ta\u00e7a do n\u00e9ctar excelente da ilha, lourou a obedi\u00eancia da deusa:<\/p>\n<p>\u2014 Bem far\u00e1s, oh Calipso! Assim evitas a c\u00f3lera do Pai trovejante. Quem lhe resistir\u00e1? A sua omnisci\u00eancia dirige a sua omnipot\u00eancia. E ele sustenta, como ceptro, uma \u00e1rvore que tem por flor a ordem\u2026 as suas decis\u00f5es, clementes ou cru\u00e9is, resultam sempre em harmonia. Por isso o seu bra\u00e7o se torna terr\u00edfico aos peitos rebeldes. Pela sua pronta submiss\u00e3o ser\u00e1s filha estimada, e gozar\u00e1s uma imortalidade repassada de sossego, sem intrigas e sem surpresas\u2026<\/p>\n<p>J\u00e1 as asas impacientes das suas sand\u00e1lias palpitavam, e o seu corpo, com sublime gra\u00e7a, se balan\u00e7ava por sobre as relvas e flores que alcatifavam a entrada da gruta.<\/p>\n<p>\u2014 De resto \u2014 acrescentou -, a tua ilha, oh deusa, fica no caminho das naves ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro her\u00f3i robusto, tendo ofendido os imortais, aportar\u00e1 \u00e0 tua doce praia, abra\u00e7ado a uma quilha\u2026 Acende um facho claro, de noite, nas rochas altas!<\/p>\n<p>E, rindo, o mensageiro divino serenamente se elevou, riscando no \u00e9ter um sulco de elegante fulgor que as ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, co m os frescos l\u00e1bios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele imortal formoso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Calipso, pensativa, lan\u00e7ando sobre os seus cabelos anelados um v\u00e9u da cor do a\u00e7afr\u00e3o, caminhou para a orla do mar, atrav\u00e9s dos prados, numa pressa que lhe enrodilhava a t\u00fanica, \u00e0 maneira de uma espuma leve, em torno das pernas redondas e r\u00f3seas. T\u00e3o levemente pisou a areia que o magn\u00e2nimo Ulisses n\u00e3o a sentiu deslizar, perdido na contempla\u00e7\u00e3o das \u00e1guas lustrosas, com a negra barba entre as m\u00e3os, aliviando em gemidos o peso do seu \u00e7\u00e3o. A deusa sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro her\u00f3is os seus dedos t\u00e3o claros como os de Eos, m\u00e3e do dia:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te lamentes mais, desgra\u00e7ado, nem te consumas, olhando o mar! Os deuses, que me s\u00e3o superiores pela intelig\u00eancia e pela vontade, determinam que tu partas, afrontes a inconst\u00e2ncia dos ventos, e calques de novo a terra da p\u00e1tria\u2026<\/p>\n<p>Bruscamente, como o condor fendendo sobre a presa, o divino Ulisses, com a face assombrada, saltou da rocha musgosa:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, tu dizes!\u2026<\/p>\n<p>Ela continuou sossegadamente, com os formosos bra\u00e7os pendidos, enrodilhados no v\u00e9u cor de a\u00e7afr\u00e3o, enquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso respeito da sua presen\u00e7a divina.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sabes que n\u00e3o tenho naves de alta proa, nem remadores de rijo peito, nem piloto amigo das estrelas, que me conduzam\u2026 Mas certamente te confiarei o machado de bronze que foi meu pai, para tu abateres as \u00e1rvores que eu te marcar, e constru\u00edres uma jangada em que embarques\u2026 Depois eu a provirei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sopro amigo para o mar indomado\u2026<\/p>\n<p>O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na deusa um duro olhar que a desconfian\u00e7a enegrecia. E erguendo a m\u00e3o, que tremia toda, com a ansiedade do seu cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, tu abrigas um pensamento terr\u00edvel, pois que assim me convidas a afrontar numa jangada as ondas dif\u00edceis, onde mal se mant\u00eam fundas naves! N\u00e3o, deusa perigosa, n\u00e3o! Eu combati na grande guerra onde os deuses tamb\u00e9m combateram, e conhe\u00e7o a mal\u00edcia infinita que cont\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o dos imortais! Se resisti \u00e0s sereias irresist\u00edveis, e me safei com sublimes manobras de entre Cila e Car\u00edbdis, e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornar\u00e1 ilustre entre os homens, n\u00e3o foi decerto, oh deusa, para que, agora na ilha de Og\u00edgia, como passarinho de pouca penugem, no seu primeiro voo do ninho, caia em armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! N\u00e3o, deusa, n\u00e3o! S\u00f3 embarcarei na tua extraordin\u00e1ria jangada se tu jurares, pelo juramento terr\u00edfico dos deuses, que n\u00e3o preparas, com esses quietos olhos, a minha perda irrepar\u00e1vel!<\/p>\n<p>Assim bradava, \u00e0 beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o her\u00f3i prudente\u2026 Ent\u00e3o a deusa clemente riu, com um cantado e refulgente riso. E caminhando para o her\u00f3i, correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos mais negros que o pez:<\/p>\n<p>\u2014 Oh maravilhoso Ulisses \u2014 disse \u2014, tu \u00e9s, bem na verdade, o mais refalsado e manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista esp\u00edrito sem manha e sem falsidade! Meu pai ilustre n\u00e3o me gerou com um cora\u00e7\u00e3o de ferro! Apesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. S\u00f3 te aconselhei o que eu, deusa, empreenderia, se o fado me obrigasse a sair de Og\u00edgia atrav\u00e9s do mar incerto!\u2026<\/p>\n<p>O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabe\u00e7a da rosada car\u00edcia dos dedos divinos:<\/p>\n<p>\u2014 Mas jura\u2026 Oh deusa, jura, para que ao meu peito des\u00e7a, como onda de leite, a saborosa confian\u00e7a!<\/p>\n<p>Ela ergueu o claro bra\u00e7o ao azul onde os deuses moram:<\/p>\n<p>\u2014 Por Gaia e pelo C\u00e9u superior, e pelas \u00e1guas subterr\u00e2neas do Est\u00edgio, que \u00e9 a maior invoca\u00e7\u00e3o que podem lan\u00e7ar os imortais, juro, oh homem, pr\u00edncipe dos homens, que n\u00e3o preparo tua perda nem mis\u00e9rias maiores\u2026<\/p>\n<p>O valente Ulisses respirou largamente. E arrega\u00e7ando logo as mangas da t\u00fanica, esfregando as palmas das m\u00e3os robustas.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 o machado de teu pai magn\u00edfico? Mostra as \u00e1rvores, oh deusa!\u2026 O dia baixa e o trabalho \u00e9 longo!<\/p>\n<p>\u2014 Sossega, oh homem s\u00f4frego de males humanos! Os deuses superiores em sapi\u00eancia j\u00e1 determinaram o teu destino\u2026 Recolhe comigo \u00e0 doce gruta, a refor\u00e7ar a tua for\u00e7a\u2026 Quando \u00c9os vermelha aparecer, amanh\u00e3, eu te conduzirei \u00e0 floresta.<\/p>\n<p>III<br \/>\nEra, com efeito, a hora em que homens mortais e deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abund\u00e2ncia, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amor\u00e1veis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Merc\u00fario, e diante dele as ninfas, servas da deusa, colocaram os bolos, os frutos, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num trono de ouro puro, a deusa recebeu da intendenta vener\u00e1vel o prato de ambr\u00f3sia e a ta\u00e7a de n\u00e9ctar. Ambos estenderam as m\u00e3os para as comidas perfeitas da Terra e do C\u00e9u. E logo que deram a oferenda abundante \u00e0 Fome e \u00e0 Sede, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos r\u00f3seos, e considerando pensativamente o her\u00f3i, soltou estas palavras aladas:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Ulisses muito subtil, tu queres voltar \u00e0 tua morada mortal e \u00e0 terra da p\u00e1tria\u2026 Ah!, se conhecesses, como eu quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de \u00cdtaca, ficarias entre os meus bra\u00e7os, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida for\u00e7a, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da fac\u00fandia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!\u2026 Mas desejas voltar \u00e0 esposa mortal, que habita na ilha \u00e1spera onde as matas s\u00e3o tenebrosas. E todavia eu n\u00e3o lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela intelig\u00eancia, porque as mortais brilham ante as imortais como l\u00e2mpadas fumarentas diante de estrelas puras\u2026<\/p>\n<p>O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o bra\u00e7o, como costumava na Assembleia dos Reis, \u00e0 sombra das altas popas, diante dos muros de Tr\u00f3ia, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa vener\u00e1vel, n\u00e3o te escandalizes! Perfeitamente sei que Pen\u00e9lope te est\u00e1 muito inferior em formosura, sapi\u00eancia e majestade. Tu ser\u00e1s eternamente bela e mo\u00e7a, enquanto os deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecer\u00e1 a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores de decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu esp\u00edrito mortal erra atrav\u00e9s da escurid\u00e3o e da d\u00favida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de fr\u00e1gil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apete\u00e7o a sua companhia cong\u00e9nere! Considera como \u00e9 penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos verg\u00e9is, enquanto tu ao meu lado, pela inef\u00e1vel superioridade da tua natureza, levas aos l\u00e1bios, com lentid\u00e3o soberana, a ambr\u00f3sia divinal Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma l\u00e1grima; nem bateste o p\u00e9, com irada impaci\u00eancia; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio\u2026 E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu cora\u00e7\u00e3o, pois que a tua divindade n\u00e3o permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas ben\u00e9ficas. Considera ainda que a tua intelig\u00eancia de deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade; e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a for\u00e7a do meu entendimento! Oh deusa, tu \u00e9s aquele ser terr\u00edfico que tem sempre raz\u00e3o! Considera ainda que, como deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu n\u00e3o pude saborear a incompar\u00e1vel del\u00edcia de te contar \u00e0 noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres fa\u00e7anhas e as minhas viagens sublimes! Oh deusa, tu \u00e9s impec\u00e1vel: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia de sand\u00e1lia, n\u00e3o te posso gritar, como os homens mortais gritam \u00e0s esposas mortais: \u00abFoi culpa tua, mulher!\u00bb, erguendo, em frente \u00e0 lareira, uma alarido cruel! Por isso sofrerei, num esp\u00edrito paciente, todos os males com que os deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Pen\u00e9lope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contr\u00e1rios!<\/p>\n<p>Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a ta\u00e7a de ouro vazia e serenamente a deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as m\u00e3os im\u00f3veis sobre o rega\u00e7o, enrodilhadas na ponta do v\u00e9u.<\/p>\n<p>No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e j\u00e1 das ancas dos seus quatro cavalos sua dos subia e se espalhava por sobre o mar um vapor r\u00fabido e dourado. Em breve os caminho: da ilha se cobriram de sombras. E sobre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses sem o desejo, e a deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.<\/p>\n<p>Cedo, apenas \u00c9os entreabria as portas do largo Urano, a divina Calipso, que revestira um t\u00fanica mais branca que a neve do Pindo, e pregara nos cabelos um v\u00e9u transparente e au como \u00e9ter ligeiro, saiu da gruta, trazendo ao magn\u00e2nimo Ulisses, j\u00e1 sentado \u00e0 porta, sob ramada, diante de uma ta\u00e7a de vinho claro, o machado poderoso de seu pai ilustre, todo d bronze, com dois fios, e um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo.<\/p>\n<p>Limpando rapidamente a dura barba com as costas da m\u00e3o, o her\u00f3i arrebatou o machado vener\u00e1vel:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, h\u00e1 quantos anos n\u00e3o palpo uma arma ou uma ferramenta, eu, devastador de cidadelas e construtor de naves!<\/p>\n<p>A deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:<\/p>\n<p>\u2014 Oh Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu encomendaria para ti, a Vulcano e \u00e0s suas forjas do Etna, armas maravilhosas\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh deusa, j\u00e1 muito batalhei, e a minha gl\u00f3ria entre as gera\u00e7\u00f5es est\u00e1 soberbamente segura. S\u00f3 aspiro ao macio repouso, vigiando os meus gados, concebendo s\u00e1bias leis para os meus povos\u2026 S\u00ea ben\u00e9vola, Oh deusa, e mostra as \u00e1rvores fortes que me conv\u00e9m cortar!<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio ela caminhou por um atalho, florido de altas e radiosas a\u00e7ucenas, que conduzia \u00e0 ponta da ilha mais cerrada de matas, do lado do Oriente; e atr\u00e1s seguia o intr\u00e9pido Ulisses, com o luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as concavidades das rochas onde bebiam, para esvoa\u00e7arem em torno da deusa num tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das flores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua t\u00fanica ro\u00e7ava reverdejavam num vi\u00e7o mais fresco. E Ulisses, indiferente aos prest\u00edgios da deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.<\/p>\n<p>Denso e escuro o avistou enfim, povoado de carvalhos, de velh\u00edssimas tecas, de pinheiros que ramalhavam no alto \u00c9ter. Da sua orla descia um areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem p\u00e1lida flor de cardo marinho, desmanchava a do\u00e7ura perfeita. E o mar refulgia com um brilho saf\u00edrico, na quieta\u00e7\u00e3o da manh\u00e3 branca e corada. Caminhando dos carvalhos \u00e0s tecas, a deusa marcou ao atento Ulisses os troncos secos, robustecidos por s\u00f3is inumer\u00e1veis, que flutuariam, com ligeireza mais segura, sobre as \u00e1guas traidoras. Depois, acariciando o ombro do her\u00f3i como outra \u00e1rvore robusta tamb\u00e9m votada \u00e0s \u00e1guas cru\u00e9is, recolheu \u00e0 sua gruta, onde tomou a roca de ouro, e todo o dia fiou, e todo o dia cantou\u2026<\/p>\n<p>Com alvoro\u00e7ada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um vasto carvalho, que gemeu. E em breve toda a ilha retumbava, no fragor da obra sobre-humana. As gaivotas, adormecidas no sil\u00eancio eterno daquelas ribas, bateram o voo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades dos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre os canaviais e as ra\u00edzes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu vinte \u00e1rvores \u2014 robles, pinheiros, tecas e choupos \u2014 e todas decotou, esquadrou e alinhou sobre a areia. O seu pesco\u00e7o e arcado peito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente \u00e0 gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja gelada. E nunca ele parecera t\u00e3o belo \u00e0 deusa imortal, que, sobre o leito de peles preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou, incansada e pronta, a for\u00e7a daqueles bra\u00e7os que tinham abatido vinte troncos.<\/p>\n<p>Assim, durante tr\u00eas dias, trabalhou o her\u00f3i.<\/p>\n<p>E, como arrebatada nessa actividade magn\u00edfica que abalava a ilha, a deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas m\u00e3os delicadas, as cordas e os pregos de bronze. As ninfas, por seu mandado, abandonando as tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurraria com amor os ventos am\u00e1veis. E a intendenta vener\u00e1vel j\u00e1 enchia os odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os v\u00edveres numerosos para a travessia incerta. No entanto a jangada crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao meio, donde se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e liso que uma vara de marfim. Cada tarde a deusa, sentada numa rocha \u00e0 sombra do bosque, contemplava o calafate admir\u00e1vel martelando furiosamente, e cantando, com rija alegria, um canto de remador. E ligeiras na ponta dos p\u00e9s luzidios, por entre o arvoredo, as ninfas, escapando \u00e0 tarefa. acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes, aquela for\u00e7a solit\u00e1ria, que soberbamente, no areal solit\u00e1rio, ia erguendo uma nave.<\/p>\n<p>IV<br \/>\nEnfim no quarto dia, de manh\u00e3, Ulisses findou de esquadrar o leme, que refor\u00e7ou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da ilha imortal e as suas pedras polidas. Sem descanso, numa \u00e2nsia risonha, amarrou \u00e0 verga alta a vela cortada pelas ninfas. Sobre pesados rolos, manobrando a alavanca, rolou a jangada imensa at\u00e9 \u00e0 espuma da vaga, num esfor\u00e7o sublime, com m\u00fasculos t\u00e3o retesos e veias t\u00e3o inchadas que ele mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou, levantada em cad\u00eancia pela onda harmoniosa. E o her\u00f3i, erguendo os bra\u00e7os lustrosos de suor, louvou os deuses imortais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como a obra findara e a tarde rebrilhava, prop\u00edcia \u00e0 partida, a generosa Calipso trouxe Ulisses, atrav\u00e9s das violetas e das an\u00e9monas, \u00e0 fresca gruta. Pelas suas divinas m\u00e3os o banhou numa concha de n\u00e1car, e o perfumou com ess\u00eancias sobrenaturais, e o vestiu com uma t\u00fanica formosa da l\u00e3 bordada, e lan\u00e7ou sobre os seus ombros um manto impenetr\u00e1vel \u00e0s neblinas do mar, e lhe estendeu sobre a mesa, para ele saciar a fome rude, as comidas mais s\u00e3s e mais finas da Terra. O her\u00f3i aceitava os amorosos cuidados, com paciente magnanimidade. A deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.<\/p>\n<p>Depois ela tomou a m\u00e3o cabeluda de Ulisses, palpando com gosto os calos que lhe deixara o machado; e pela borda do mar o conduziu \u00e0 praia, onde a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram sobre uma rocha musgosa. Nunca a ilha resplandecera com uma beleza t\u00e3o serena, entre um mar t\u00e3o azul, sob um c\u00e9u t\u00e3o macio. Nem a \u00e1gua fresca do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho dourado que produzem as colinas de Quios, eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de aromas, composto pelos deuses para o respirar de uma deusa. A frescura imorredoura das \u00e1rvores entrava no cora\u00e7\u00e3o, quase pedia a car\u00edcia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente fundidos, como as harmonias sagradas de um templo distante. O esplendor e a gra\u00e7a das flores retinham os raios pasmados do Sol. Tantos eram os frutos nos verg\u00e9is, e as espigas nas messes, que a ilha parecia ceder, afundada no mar, sob o peso da sua abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a deusa, ao lado do her\u00f3i, levemente suspirou, e murmurou num sorriso alado:<\/p>\n<p>\u2014 Oh, magn\u00e2nimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever a mortal Pen\u00e9lope, e o teu doce Tel\u00e9maco, que deixaste no colo da ama quando a Europa correu a \u00c1sia, e agora j\u00e1 sustenta na m\u00e3o uma lan\u00e7a temida. Sempre de um amor antigo, com ra\u00edzes fundas, brotar\u00e1 mais tarde uma flor, mesmo triste. Mas diz! Se em \u00cdtaca n\u00e3o te esperasse a esposa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os olhos para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta do\u00e7ura, esta paz, esta abund\u00e2ncia e beleza imortal?<\/p>\n<p>O her\u00f3i, ao lado da deusa, estendeu o bra\u00e7o poderoso, como na Assembleia dos Reis, diante dos muros de Tr\u00f3ia, quando plantava nas almas a verdade persuasiva:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, n\u00e3o te escandalizes! Mas ainda que n\u00e3o existisse, para me levar, nem filho, nem esposa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a ira dos deuses! Porque, na verdade, oh deusa muito ilustre, o meu cora\u00e7\u00e3o saciado j\u00e1 n\u00e3o suporta esta paz, esta do\u00e7ura e esta beleza imortal. Considera, oh deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas \u00e1rvores amarelecer e cair. Nunca este c\u00e9u rutilante se carregou de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem abrigado, as m\u00e3os ao doce lume, enquanto a borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas s\u00e3o as mesmas, oh deusa, que admirei e respirei na primeira manh\u00e3 que me mostraste estes prados perp\u00e9tuos \u2014 e h\u00e1 l\u00edrios que odeio, com um \u00f3dio amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem t\u00e3o incessantemente, t\u00e3o implacavelmente, o seu voo harmonioso e branco, que eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E quantas vezes me refugio no fundo da gruta, para n\u00e3o escutar o murm\u00fario sempre l\u00e2nguido destes arroios se mpre transparentes! Considera, oh deusa, que na tua ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carca\u00e7a de um bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh deusa, h\u00e1 oito anos, oito anos terr\u00edveis, estou privado de ver o trabalho, o esfor\u00e7o, a luta e o sofrimento\u2026 Oh deusa, n\u00e3o te escandalizes! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem de uma ponte; os bra\u00e7os suplicantes de uma m\u00e3e que chora; um coxo, sobre a sua muleta, mendigando \u00e0 porta das vilas\u2026 Deusa, h\u00e1 oito anos que n\u00e3o olho para uma sepultura\u2026 N\u00e3o posso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espeda\u00e7a, e se corrompe\u2026 Oh deusa imortal, eu morro com saudades da morte!<\/p>\n<p>Im\u00f3vel, com as m\u00e3os im\u00f3veis no rega\u00e7o, enrodilhadas nas pontas do v\u00e9u amarelo, a deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso queixume do her\u00f3i cativo. No entanto, j\u00e1 pela colina as ninfas, servas da deusa, desciam, trazendo \u00e0 cabe\u00e7a, e amparando-os com o bra\u00e7o redondo, os jarros de vinho, os sacos de couro, que a intendenta vener\u00e1vel mandava para abastecer a jangada. Silenciosamente, o her\u00f3i lan\u00e7ou uma t\u00e1bua desde a areia at\u00e9 ao bordo de altos toros. E enquanto sobre ela as ninfas passavam, ligeiras, com as manilhas de ouro tilintando nos p\u00e9s luzidios, Ulisses, atento, contando os sacos e os odres, gozava no seu nobre cora\u00e7\u00e3o a abund\u00e2ncia generosa. Mas, amarrados com cordas \u00e0s cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as ninfas, lentamente, se sentaram sobre o areal em torno da deusa, para contemplarem a despedida, o embarque, as manobras do her\u00f3i sobre o dorso das \u00e1guas\u2026 Ent\u00e3o uma c\u00f3lera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando furiosamente os valentes bra\u00e7os:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, pensas tu na verdade que nada falte para que eu largue a vela e navegue? Onde est\u00e3o os ricos presente que me deves? Oito anos, oito duros anos, fui o h\u00f3spede magn\u00edfico da tua ilha, da tua gruta, do teu leito\u2026 Sempre os deuses imortais determinaram que aos h\u00f3spedes, no momento amigo da partida, se ofertem consider\u00e1veis presentes! Onde est\u00e3o elas, oh deusa, essas riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do C\u00e9u?<\/p>\n<p>A deusa sorriu, com sublime paci\u00eancia. E em palavras aladas, que fugiam na aragem:<\/p>\n<p>\u2014 Oh, Ulisses, tu \u00e9s claramente o mais interesseiro dos homens! E tamb\u00e9m o mais desconfiado, pois que sup\u00f5es que uma deusa negaria os presentes devidos \u00e0quele que amou\u2026 Sossega, oh subtil her\u00f3i\u2026 Os ricos presentes n\u00e3o tardam, largos e rebrilhantes.<\/p>\n<p>E, certamente, pela colina suave, outras ninfas desciam, ligeiras, com os v\u00e9us a ondular, trazendo nos bra\u00e7os alfaias lustrosas, que ao sol rutilavam! O magn\u00e2nimo Ulisses estendeu as m\u00e3os, os olhos devoradores\u2026 E enquanto elas passavam sobre a t\u00e1bua rangente, o her\u00f3i astuto contava, avaliava no seu nobre esp\u00edrito os escabelos de marfim, os rolos de telas bordados, os c\u00e2ntaros de bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras\u2026<\/p>\n<p>T\u00e3o rico e belo era o vaso de ouro que a derradeira ninfa sustentava no ombro, que Ulisses deteve a ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou, e gritou, com soberbo riso estridente:<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, este ouro \u00e9 bom!<\/p>\n<p>Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o impaciente her\u00f3i, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada ao tronco de um roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas ent\u00e3o recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! R\u00e1pido, arremessando o manto, pulou atrav\u00e9s da espuma, correu pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da deusa. Ela segurou de leve o seu ombro robusto:<\/p>\n<p>\u2014 Quantos males te esperam, oh desgra\u00e7ado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus bra\u00e7os perfeitos\u2026<\/p>\n<p>Ulisses recuou, com um brado magn\u00edfico:<\/p>\n<p>\u2014 Oh deusa, o irrepar\u00e1vel e supremo mal est\u00e1 na tua perfei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E, atrav\u00e9s da vaga, fugiu, trepou sofregamente \u00e0 jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as mis\u00e9rias \u2014 para a del\u00edcia das coisas imperfeitas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Sentado numa rocha, na ilha de Og\u00edgia, com a barba enterrada entre as m\u00e3os, donde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-575","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=575"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/575\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":576,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/575\/revisions\/576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}